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Yi Hwang separou a raiva da compaixão pela origem

Na Coreia de 1559, um mestre de 58 anos e um letrado de 32 trocaram cartas por 7 anos sobre a fonte de cada sentimento.

Letrado coreano escreve uma carta à luz de lamparina.

Yi Hwang e as cartas, Coreia, 1559

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Emoção: “reação orgânica de intensidade e duração variáveis, acompanhada de alterações respiratórias, circulatórias e de grande excitação mental” (Dicionário Houaiss). O verbete descreve o pulso e o fôlego. Não diz de onde vem a pena por um estranho, nem por que ela parece diferente da raiva no trânsito.

Em 1553, na Coreia da dinastia Joseon, o letrado Jeong Jiun desenhou um diagrama para ensinar a alunos. Chamou de Cheonmyeongdo, o Diagrama do Mandato do Céu. Era uma folha com círculos e setas mostrando como o céu põe a natureza dentro de cada pessoa.

Jeong levou o desenho a Yi Hwang, o letrado mais respeitado do reino, para correção. Yi Hwang mexeu numa linha. Onde o diagrama tratava dos sentimentos, escreveu que os quatro começos morais brotam do li (o princípio, a ordem certa de cada ser) e as sete emoções brotam do gi (a energia material de corpo e mundo).

A frase circulou entre estudantes de Seul. Seis anos depois, em 1559, chegou a um jovem de 32 anos, Gi Daeseung, recém-aprovado no exame do serviço civil. Ele leu a correção do mestre e achou um erro.

Gi Daeseung tinha pouco a ganhar. Yi Hwang tinha 58 anos, uma carreira de cargos na corte e discípulos espalhados pelas províncias. Um funcionário novato que contestava o mestre por carta arriscava a fama antes de ter alguma.

Escreveu mesmo assim. A objeção era curta: as sete emoções, listadas no Livro dos Ritos, são alegria, raiva, tristeza, medo, amor, ódio e desejo. Os quatro começos, a compaixão, a vergonha, a deferência e o senso de certo e errado, não formam outra família. Seriam a parte boa das mesmas sete.

Yi Hwang respondeu. Gi Daeseung respondeu de volta. As cartas atravessaram 7 anos, até 1566, e o mestre mudou a própria fórmula duas vezes no caminho.

A disputa entrou para a história com o nome de Debate dos Quatro e Sete. O primeiro passo dela foi uma pergunta sobre a raiz: todo sentimento nasce do mesmo lugar?

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I  A ideia do dia

Duas fontes para o sentir

Yi Hwang parte de uma tese herdada do chinês Zhu Xi, do século XII: todo ser é feito de li e gi ao mesmo tempo. O li dá a forma certa, como o desenho de uma árvore está na semente. O gi dá a matéria, a seiva, o tronco, a chance de crescer torto.

Os dois nunca aparecem separados. Uma pessoa sem gi não teria corpo; sem li, não teria natureza. A questão de Yi Hwang é outra: num sentimento concreto, quem toma a iniciativa?

Para os quatro começos, a resposta dele é o li. A compaixão por quem sofre não nasce de um estímulo do corpo. É a própria natureza moral se mostrando, e por esse motivo sai pura. O gi entra depois, como veículo.

Para as sete emoções, a iniciativa é do gi. A raiva sobe quando o corpo é contrariado; o desejo, quando o corpo quer. O li acompanha, mas chega como passageiro, e o resultado pode sair bom ou ruim, conforme a montaria.

A versão final ficou assim, numa carta de 1560:

“Nos quatro começos, o princípio se manifesta e a energia o segue. Nas sete emoções, a energia se manifesta e o princípio a monta.”

Yi Hwang, carta a Gi Daeseung, 1560

A imagem do cavalo e do cavaleiro vem dele. O cavaleiro é o li, o cavalo é o gi. Nos quatro começos, o cavaleiro decide o caminho e o cavalo obedece. Nas sete emoções, o cavalo dispara e o cavaleiro tenta segurar a rédea.

Dois sentimentos com a mesma força no peito podem ter donos diferentes.

A separação muda a análise da emoção. Para Yi Hwang, a intensidade de um sentimento não diz nada sobre o valor dele. A pena por um desconhecido e a raiva por uma ofensa podem acelerar o pulso igual. O que pesa é de onde partiu o movimento.

Daí sai um trabalho de vigilância. Quem sente precisa reconhecer a fonte antes de agir. Uma indignação pode nascer do senso de certo e errado, um dos quatro, ou do orgulho ferido, um dos sete. Por fora as duas parecem a mesma.

Yi Hwang chamava esse trabalho de gyeong (a seriedade atenta, um estado de presença contínua). Não era repressão do sentir. Era manter o cavaleiro acordado em cima do cavalo.

Numa reunião de condomínio, um morador sobe a voz contra a taxa nova. Outro sobe a voz porque a taxa vai expulsar a vizinha viúva do terceiro andar. Os dois ficam vermelhos. A ata registra só que houve discussão.

 
 

II  Quem pensou

O mestre e o novato

Yi Hwang nasceu em 1501, em Andong, no sudeste da Coreia. Perdeu o pai antes de completar um ano. A mãe criou sete filhos sozinha, e o menino aprendeu os clássicos com um tio.

Passou no exame civil em 1534 e serviu na corte por anos, em cargos de educação e de censura. Pediu demissão dezenas de vezes. Preferia a aldeia natal, onde ensinava alunos e escrevia sob o nome de Toegye, o riacho do recolhimento.

Gi Daeseung era de outra Coreia. Nasceu em 1527, em Gwangju, no sudoeste, e assinava Gobong, o pico alto. Estudou sozinho por anos antes de passar no exame em 1558, com 31 anos. Era conhecido por discutir de igual para igual com quem fosse.

A primeira carta dele, de 1559, atacava a divisão em dois. Para Gi Daeseung, emoção é uma só família. Quando o sentimento sai na medida certa, é o li funcionando dentro do gi. Os quatro começos seriam o nome dado aos casos em que a medida acertou.

“Os sete sentimentos já contêm os quatro começos; não existem duas fontes de sentir.”

Gi Daeseung, carta a Yi Hwang, 1559

O risco apontado pelo jovem era grave. Se o li pode se manifestar sozinho, ele vira uma força com movimento próprio, quase uma segunda alma. Zhu Xi tinha descrito o li como padrão sem ação. Yi Hwang estaria contrariando o mestre chinês de todos eles.

O mestre aceitou parte da crítica por escrito.

Yi Hwang reconheceu que tinha separado demais. Nas cartas seguintes, trocou a fórmula seca de 1553 pela do cavalo e do cavaleiro, onde os dois sempre agem juntos e só muda quem vai na frente. Manteve a diferença de origem.

Gi Daeseung também cedeu um pouco. Num texto de 1566, admitiu que a distinção tinha uso para o ensino moral, contanto que ninguém tratasse os quatro e os sete como substâncias separadas. A correspondência parou nesse ponto, sem acordo pleno.

Em 1568, Yi Hwang entregou ao rei Seonjo, de 16 anos, os Dez Diagramas do Saber Sábio, um manual de formação do governante. A distinção dos quatro e sete está lá dentro. Ele faleceu em 1570, em Andong. Gi Daeseung faleceu dois anos depois, com 45 anos.

O rosto de Yi Hwang está hoje na nota de 1.000 wons da Coreia do Sul. A academia que ele fundou perto de casa, a Dosan Seowon, ainda recebe estudantes.

 

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III  Contra o quê

Contra a emoção sem dono

O alvo de Yi Hwang não era Gi Daeseung. Era uma leitura que ganhava força entre letrados da época: se todo sentimento nasce do gi, a moral vira questão de temperamento. Quem nasce de sangue quente teria menos chance de ser bom.

A Coreia do século XVI tinha motivos para temer essa conclusão. Entre 1498 e 1545, quatro expurgos de letrados abalaram a corte. Ministros mandaram executar ou exilar dezenas de rivais, quase sempre em nome da retidão. A raiva política se vestia de dever.

Yi Hwang viveu dois desses expurgos de perto. Em 1550, o irmão mais velho dele, Yi Hae, foi exilado e faleceu a caminho do degredo. O mestre via a confusão entre indignação moral e fúria de facção custar vidas.

Separar as fontes era um jeito de dizer: nem todo calor no peito é virtude. Uma acusação podia nascer da compaixão pelos injustiçados ou do ódio por um rival, e a corte não tinha como distinguir as duas olhando a força do discurso.

A disputa sobre a raiz do sentir era também uma disputa sobre quem governa.

Depois da morte dos dois, o debate continuou. Em 1572, o letrado Yi I, chamado Yulgok, retomou a posição de Gi Daeseung em cartas a Seong Hon. Para Yulgok, só o gi se manifesta e o li sempre monta, em qualquer sentimento.

As duas leituras viraram escolas. Os seguidores de Yi Hwang, a escola de Yeongnam, ficaram no sudeste. Os de Yulgok, a escola de Giho, no centro e no oeste. A rivalidade passou para os partidos da corte e durou até o fim da dinastia, em 1910.

O ponto fraco de Yi Hwang fica à vista no próprio texto. Ele nunca explicou como alguém reconhece por dentro a origem de um sentimento, se os dois tipos chegam com o mesmo pulso. A vigilância que propõe depende de um olho interno que a teoria não descreve.

Gi Daeseung tinha o problema inverso. Se a emoção boa é só a medida certa do gi, falta dizer quem fixa a medida. A resposta dele, o li, puxava de volta a separação que ele recusava.

Nenhum dos dois respondeu à objeção do outro até o fim. As cartas sobrevivem nas obras reunidas de cada um, publicadas pelos discípulos.

Numa fila de banco, uma mulher reclama alto do caixa lento. Atrás dela, um senhor de bengala espera em pé há quarenta minutos. Ela se cala e cede o lugar.

Ele agradece com a cabeça.

★ RARO

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