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Francisco de Vitoria leu a relectio De Indis (Sobre os índios) em Salamanca em 1539. Relectio (releitura) era a conferência pública e solene que o catedrático dava fora do curso, sobre um tema escolhido por ele. Vitoria ocupava desde 1526 a cátedra prima de teologia, a mais alta da universidade.
A questão inicial da aula perguntava se os povos da América, antes da chegada dos espanhóis, eram verdadeiros donos de suas terras e bens, em público e em particular. Vitoria respondeu que sim, e usou a palavra técnica do direito: dominium (domínio, o direito de usar e dispor de um bem como seu).
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“Os bárbaros eram verdadeiros donos, pública e privadamente, tanto quanto os cristãos.”
Francisco de Vitoria, De Indis, questão 1, Salamanca, 1539
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Bárbaro, no latim da época, nomeava quem não era cristão nem falava as línguas da Europa, sem o sentido de selvagem de hoje. Vitoria usou a palavra comum e, na mesma aula, mostrou que ela não tirava direito de ninguém.
Para chegar lá, ele examinou os motivos que se davam para negar o domínio indígena. O pecado não tirava a propriedade: um cristão em pecado continua dono da casa. A falta de fé também não, porque o direito reconhecia bens a judeus e muçulmanos. Restava a acusação de que os índios não tinham uso da razão.
Vitoria respondeu com os relatos que chegavam das Índias. Aqueles povos tinham cidades organizadas, casamentos estáveis, magistrados, senhores, leis, oficinas e comércio, e cada uma dessas instituições pedia uso da razão. Se alguns pareciam rudes aos espanhóis, escreveu, a causa estava na educação, como acontecia com camponeses da própria Espanha.
Três títulos recusados
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1. O imperador não é senhor do mundo: nenhum direito natural ou divino lhe dá esse poder.
2. O papa não é senhor temporal do mundo e não pode doar terras que não governa.
3. A descoberta não dá posse de terra que já tinha dono.
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O terceiro título era o mais velho. As Institutas do imperador Justiniano, de 533, mandavam que o bem sem dono, res nullius (o bem de ninguém), passasse a quem o ocupasse primeiro. Pássaro selvagem, pedra da praia e ilha nova surgida no mar entravam nessa regra.
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Achar terra habitada não transfere domínio.
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A frase mais citada da aula põe o argumento do avesso. Vitoria escreveu que o título de descoberta, sozinho, justificava a posse das terras americanas tanto quanto justificaria se os índios tivessem descoberto os espanhóis.
Um homem acha uma bicicleta encostada num poste, sem cadeado, numa rua vazia. O achado lhe dá a notícia de que a bicicleta existe. Dona continua sendo a mulher que a encostou ali e entrou na padaria.
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