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ED 050
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Três páginas contra dois mil anos de certeza

Em 1963, Edmund Gettier mostrou que crença verdadeira e justificada ainda pode não ser conhecimento.

Um relógio de parede parado, com os ponteiros marcando duas horas.

Um relógio parado acerta a hora duas vezes

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A definição de conhecimento que Platão deixou no Teeteto, diálogo escrito por volta de 369 a.C., diz que conhecer é ter "opinião verdadeira acompanhada de explicação". O americano Edmund Gettier mostrou em 1963, num artigo de três páginas, onde ela falha: dá para cumprir cada parte da definição e mesmo assim não saber.

Na versão moderna, a fórmula virou uma lista de três condições. Uma pessoa sabe uma afirmação quando a afirmação é verdadeira, quando a pessoa acredita nela e quando tem boas razões para acreditar. Os filósofos abreviam a lista como crença verdadeira justificada. A fórmula inteira cabia numa linha de quadro-negro.

Cada condição tapa um buraco. Sem a verdade, quem jura que a Terra é plana saberia algo sobre o planeta. Sem a crença, uma frase correta que ninguém aceita contaria como saber de alguém. Sem a justificação, quem acerta o resultado da loteria por palpite teria conhecido o sorteio antes da hora.

Durante séculos a lista pareceu completa. Manuais de epistemologia (o ramo da filosofia que estuda o conhecimento) a apresentavam como ponto de partida, e os debates giravam em torno de detalhes: quanta justificação basta, que tipo de razão serve.

Em 1948, Bertrand Russell tinha registrado um caso incômodo no livro Human Knowledge (Conhecimento Humano). Um homem olha para um relógio que parou exatamente doze horas antes e lê a hora certa. Ele acredita, acerta e tem razão para confiar no relógio, que sempre funcionou. Russell usou o exemplo para outro fim e seguiu adiante.

Gettier transformou o incômodo em contraexemplo formal, com personagens, passos numerados e uma conclusão seca. A revista britânica Analysis publicou o texto em junho de 1963, no volume 23. O título era uma pergunta, e a resposta ocupava a última linha. Ninguém na redação da revista previa que aquelas três páginas iriam ocupar a epistemologia pelas seis décadas seguintes.

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I  A ideia do dia

Dez moedas no bolso errado

O artigo de Edmund Gettier se chama Is Justified True Belief Knowledge? (Crença verdadeira justificada é conhecimento?). O primeiro caso tem dois candidatos à mesma vaga de emprego, Smith e Jones.

Smith tem provas fortes de que Jones vai ser contratado: o presidente da empresa garantiu a ele que a vaga era de Jones. Smith também contou, minutos antes, dez moedas no bolso de Jones. Dessas duas provas ele tira uma conclusão: o homem que vai ficar com a vaga tem dez moedas no bolso.

Quem fica com a vaga é Smith. E, sem saber, Smith também carrega dez moedas no próprio bolso. A frase em que ele acreditava saiu verdadeira, ele acreditava nela, e as razões que tinha eram boas. As três condições estão cumpridas.

Mesmo assim, ninguém diria que Smith sabia. A frase acertou por causa do bolso dele, e as provas apontavam para o bolso de Jones. A justificação e a verdade correram em trilhos separados e se encontraram por acaso.

o caso de Smith, passo a passo

Smith tem boas razões para crer que Jones será contratado e que Jones tem dez moedas

Ele deduz que o contratado terá dez moedas no bolso

Smith é contratado e tem dez moedas, sem saber, e a dedução acerta por sorte

Acertar com boas razões não basta quando as razões apontam para o lugar errado.

"Esses dois exemplos mostram que a definição não fornece uma condição suficiente para que alguém saiba uma dada proposição."

Edmund Gettier, Is Justified True Belief Knowledge?, 1963

O segundo caso usa uma frase com "ou". Smith tem razões sólidas para crer que Jones possui um Ford: sempre o viu dirigindo um, e Jones acabou de oferecer carona nele. Smith não tem ideia de onde está um terceiro amigo, Brown.

Só como exercício, Smith escolhe uma cidade qualquer e monta a frase: ou Jones tem um Ford, ou Brown está em Barcelona. A lógica autoriza a construção, porque uma frase com "ou" fica verdadeira quando qualquer das partes for.

Jones não tem Ford nenhum, o carro era alugado. E Brown, por coincidência, está mesmo em Barcelona. A frase é verdadeira, Smith acredita nela e tem justificação. Outra vez a sorte fez a ligação que as razões não fizeram.

O argumento repousa em dois princípios que Gettier declara no começo. Uma pessoa pode estar justificada em crer numa afirmação falsa. E quem deduz uma conclusão de uma crença justificada também está justificado na conclusão. Aceitos os dois princípios, os casos se fabricam em série.

 
 

II  Quem pensou

O professor que publicou só uma vez

Edmund Lee Gettier III nasceu em Baltimore, nos Estados Unidos, em 1927. Serviu no Exército, estudou na Universidade Johns Hopkins e fez o doutorado em Cornell, com uma tese sobre Bertrand Russell.

Em 1963 ele ensinava na Wayne State University, em Detroit. O departamento reunia nomes como Alvin Plantinga, e a estabilidade no emprego de professor dependia de publicação. Gettier tinha pouco publicado, e os colegas o pressionaram a mandar algum texto para uma revista.

Ele tinha dois contraexemplos guardados de conversas de corredor. Escreveu o artigo, segundo contou depois, sem grande apreço por ele, e o mandou para a Analysis, conhecida por aceitar textos curtos. O texto saiu com três páginas e poucas notas de rodapé.

As notas miram três formulações da definição clássica: a do Teeteto e do Mênon, de Platão, a de Roderick Chisholm no livro Perceiving, de 1957, e a de Alfred Ayer em The Problem of Knowledge (O Problema do Conhecimento), de 1956. Gettier queria mostrar que o defeito era da fórmula, e não de um autor.

"É opinião verdadeira acompanhada de explicação o conhecimento, e a desprovida de explicação fica fora do conhecimento."

Platão, Teeteto, c. 369 a.C.

O próprio Platão, no fim do Teeteto, desconfia da definição. Sócrates testa três sentidos para explicação (em grego, logos) e derruba todos, e o diálogo termina sem resposta. Gettier atacou a versão que os manuais tinham consolidado, mais segura de si do que o texto original.

Um artigo escrito para garantir o emprego virou um dos textos mais citados da filosofia do século XX.

Em 1967 Gettier se mudou para a Universidade de Massachusetts em Amherst, onde ensinou até se aposentar. Deu aulas de lógica e de filosofia da linguagem por décadas e orientou alunos que viraram professores em outras universidades.

Quase não publicou mais nada. Perguntado nas entrevistas por que não voltou ao problema, respondia que não tinha mais nada a dizer sobre ele. O nome dele, porém, virou substantivo: epistemólogos falam em casos Gettier e dizem que alguém foi gettierizado.

Ele também não foi o primeiro a notar a falha. No século VIII, o filósofo budista indiano Dharmottara descreveu um viajante que vê água ao longe, num deserto. A água era miragem, mas havia água de verdade escondida sob uma pedra no mesmo ponto. Gettier não conhecia o texto, e a comparação só entrou nos manuais décadas depois.

Gettier morreu aos 93 anos, em 23 de março de 2021, em Amherst. Os obituários lembraram as três páginas e quase mais nada, do jeito que ele mesmo parecia preferir.

 

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III  Contra o quê

Sessenta anos de consertos

O alvo imediato de Gettier era a fórmula da crença verdadeira justificada. O alvo de fundo era a ideia de que o conhecimento se define por uma lista curta de condições que, somadas, bastam. Depois de 1963, a filosofia passou décadas tentando achar a quarta condição.

A primeira resposta saiu na própria Analysis, ainda em 1963. Michael Clark propôs a cláusula sem premissas falsas: só sabe quem não apoiou a conclusão em nada falso. Smith apoiou a dele na crença falsa de que Jones seria contratado, e o caso caía.

Roderick Chisholm respondeu com um caso sem premissa falsa. Um homem vê no campo um cachorro com aparência de ovelha e conclui que há uma ovelha no campo. Há, escondida atrás de um morro. A crença veio direto da percepção, sem dedução, e continua sendo sorte.

Alvin Goldman tentou em 1967 a teoria causal: saber exige que o fato cause a crença. Keith Lehrer e Thomas Paxson, em 1969, propuseram a teoria da derrotabilidade (não pode existir verdade escondida que, conhecida, destruiria a justificação). Robert Nozick, em 1981, exigiu que a crença acompanhasse a verdade: se o fato fosse outro, a pessoa não acreditaria nele.

Cada nova condição resolvia os casos antigos e abria espaço para casos novos.

Em 1994, Linda Zagzebski mostrou no artigo The Inescapability of Gettier Problems (A inevitabilidade dos problemas de Gettier) por que a caça não termina. Toda condição que admite erro deixa uma fresta: um azar torna a crença falsa, um segundo acaso a torna verdadeira de novo. A única saída seria uma condição infalível, e aí quase nada contaria como conhecimento.

Em 2000, Timothy Williamson inverteu a ordem no livro Knowledge and its Limits (O conhecimento e seus limites): o conhecimento seria a noção básica, sem definição em peças menores. A crença justificada é que passaria a ser explicada a partir dele.

Restava saber se a intuição dos casos valia fora das salas de aula americanas. Em 2017, Edouard Machery e colegas publicaram na revista Noûs um estudo que aplicou os casos em países como Brasil, Índia e Japão. A maioria das pessoas, em todos eles, negou que o personagem soubesse.

Numa estação de trem, uma mulher olha o relógio grande da plataforma, lê 7h40 e sobe no trem das 7h40. O relógio parou na véspera, exatamente naquele minuto. Ela chega ao trabalho no horário.

"Quantas das suas certezas de hoje acertaram pelo motivo certo?"

O relógio foi consertado na terça.

 
 
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Quiz da edição

Em 1963, quando escreveu o artigo que abalou a definição de conhecimento, Edmund Gettier lecionava em qual universidade?

ACornell University
BWayne State University, em Detroit
CJohns Hopkins University
DUniversidade de Massachusetts, em Amherst

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