|
Tomás de Aquino escreveu Sobre a Eternidade do Mundo em Paris, por volta de 1271. O título latino traz um complemento ácido: De aeternitate mundi contra murmurantes (Sobre a eternidade do mundo, contra os que resmungam).
Ele abre aceitando a fé. O mundo começou, porque a Escritura e o concílio dizem assim. A pergunta do opúsculo é outra: Deus poderia ter feito um mundo que sempre existiu? Se a resposta for sim, a razão sozinha não prova o começo.
A distinção central separa dois sentidos de depender. Algo pode depender de outro no tempo, como o filho que nasce depois do pai. E pode depender no ser, como a luz do quarto depende da lâmpada acesa, a cada segundo, sem que a lâmpada tenha vindo antes da luz.
Criar, para Tomás, é a segunda dependência. A criatura recebe o ser inteiro de Deus, a cada instante, e nada nela existe por conta própria. Essa relação vale no primeiro segundo e vale no milionésimo ano. Ela não precisa de um primeiro segundo para valer.
|
Ser criatura é depender, e a dependência dispensa calendário.
|
O exemplo vem de Agostinho de Hipona, que Tomás cita. Imagine um pé pousado na poeira desde sempre. A pegada existiria desde sempre também, e ninguém duvidaria de quem a fez: o pé é a causa, a pegada é o efeito, mesmo sem um momento em que a poeira estivesse lisa.
Tomás examina então as duas objeções mais fortes. A primeira diz que fazer algo do nada exige que antes houvesse nada. Ele responde que “do nada” pode querer dizer só “não feito de material algum”. A palavra nega a matéria prévia, não impõe um antes no tempo.
A segunda diz que a causa precisa vir antes do efeito. Tomás responde com o fogo e o calor: a causa que age num instante produz o efeito no mesmo instante. E Deus, que age pela vontade sem precisar de movimento, poderia querer o mundo desde sempre.
|
“Não há contradição em dizer que algo foi feito por Deus e nunca deixou de existir.”
Tomás de Aquino, Sobre a Eternidade do Mundo, por volta de 1271
|
A conclusão não muda a fé dele. Tomás continua crendo no começo do mundo. O que muda é a fonte do saber: o começo se sabe pela revelação, não por prova. Quem tenta demonstrar o começo com argumento fraco, escreve ele em outra obra, expõe a fé ao riso dos descrentes.
O opúsculo também desfaz um mal-entendido comum. Tomás não diz que o mundo é eterno, nem que poderia existir sem Deus. Um mundo eterno, no argumento dele, seria tão dependente quanto um mundo de seis mil anos. Nos dois casos, se Deus deixasse de sustentá-lo, ele voltaria ao nada no mesmo instante, sem ruína lenta nem resto.
Uma ponte de pedra atravessa um rio há tanto tempo que nenhum morador lembra da obra. Os carros passam por ela todas as manhãs. Ela segue de pé porque as pedras se apoiam umas nas outras agora.
|