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Tomás de Aquino aceitou um mundo sem primeiro dia

Em Paris, por volta de 1271, um opúsculo curto separou criar de começar e irritou os dois lados da briga.

Frade medieval escreve à luz de vela diante do céu estrelado.

Tomás de Aquino e o mundo sem começo, Paris

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Criar: “dar existência a, tirar do nada” (Dicionário Houaiss). O verbete diz de onde a criatura vem e cala sobre quando ela começou.

Para quase todo leitor, as duas perguntas são a mesma. Criar parece pedir um primeiro instante: antes, nada; depois, o mundo. A imagem do relojoeiro que monta a peça numa manhã e dá corda nela traz a data embutida.

Na Paris do século XIII, essa imagem estava em guerra. Os mestres da Faculdade de Artes liam Aristóteles em latim, traduzido havia poucas décadas, e Aristóteles ensinava, na Física, um mundo sem começo e sem fim. O movimento dos céus, dizia ele, nunca teve primeiro giro.

A Igreja ensinava o contrário. O Quarto Concílio de Latrão, em 1215, tinha fixado como artigo de fé a criação do mundo “desde o princípio do tempo”. Entre o filósofo pagão e o concílio, os professores de Paris precisavam escolher.

Duas respostas dominavam. Uma dizia que a razão provava o começo do mundo, e que Aristóteles errou por falta de lógica. A outra dizia que a razão provava a eternidade, e que a fé dizia o contrário por motivos próprios.

Em 10 de dezembro de 1270, o bispo de Paris, Étienne Tempier, condenou treze teses tiradas dos aristotélicos, entre elas a de um mundo eterno. A cidade universitária fervia de acusações.

Quem defendesse a eternidade corria o risco de parecer herege. Quem a negasse com argumento ruim corria outro risco: dar aos aristotélicos a chance de rir da teologia inteira. Os sermões de domingo e as aulas da semana repetiam a mesma disputa, com nomes diferentes.

Foi nesse clima que um frade dominicano de quarenta e poucos anos, regente da cátedra de teologia, escreveu um texto de poucas páginas. Nele, concedia ao adversário o ponto que nenhum dos dois partidos queria ceder.

O argumento dele trabalha com uma distinção: perguntar se algo depende de outro ser é diferente de perguntar desde quando ela existe.

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I  A ideia do dia

Criar sem data marcada

Tomás de Aquino escreveu Sobre a Eternidade do Mundo em Paris, por volta de 1271. O título latino traz um complemento ácido: De aeternitate mundi contra murmurantes (Sobre a eternidade do mundo, contra os que resmungam).

Ele abre aceitando a fé. O mundo começou, porque a Escritura e o concílio dizem assim. A pergunta do opúsculo é outra: Deus poderia ter feito um mundo que sempre existiu? Se a resposta for sim, a razão sozinha não prova o começo.

A distinção central separa dois sentidos de depender. Algo pode depender de outro no tempo, como o filho que nasce depois do pai. E pode depender no ser, como a luz do quarto depende da lâmpada acesa, a cada segundo, sem que a lâmpada tenha vindo antes da luz.

Criar, para Tomás, é a segunda dependência. A criatura recebe o ser inteiro de Deus, a cada instante, e nada nela existe por conta própria. Essa relação vale no primeiro segundo e vale no milionésimo ano. Ela não precisa de um primeiro segundo para valer.

Ser criatura é depender, e a dependência dispensa calendário.

O exemplo vem de Agostinho de Hipona, que Tomás cita. Imagine um pé pousado na poeira desde sempre. A pegada existiria desde sempre também, e ninguém duvidaria de quem a fez: o pé é a causa, a pegada é o efeito, mesmo sem um momento em que a poeira estivesse lisa.

Tomás examina então as duas objeções mais fortes. A primeira diz que fazer algo do nada exige que antes houvesse nada. Ele responde que “do nada” pode querer dizer só “não feito de material algum”. A palavra nega a matéria prévia, não impõe um antes no tempo.

A segunda diz que a causa precisa vir antes do efeito. Tomás responde com o fogo e o calor: a causa que age num instante produz o efeito no mesmo instante. E Deus, que age pela vontade sem precisar de movimento, poderia querer o mundo desde sempre.

“Não há contradição em dizer que algo foi feito por Deus e nunca deixou de existir.”

Tomás de Aquino, Sobre a Eternidade do Mundo, por volta de 1271

A conclusão não muda a fé dele. Tomás continua crendo no começo do mundo. O que muda é a fonte do saber: o começo se sabe pela revelação, não por prova. Quem tenta demonstrar o começo com argumento fraco, escreve ele em outra obra, expõe a fé ao riso dos descrentes.

O opúsculo também desfaz um mal-entendido comum. Tomás não diz que o mundo é eterno, nem que poderia existir sem Deus. Um mundo eterno, no argumento dele, seria tão dependente quanto um mundo de seis mil anos. Nos dois casos, se Deus deixasse de sustentá-lo, ele voltaria ao nada no mesmo instante, sem ruína lenta nem resto.

Uma ponte de pedra atravessa um rio há tanto tempo que nenhum morador lembra da obra. Os carros passam por ela todas as manhãs. Ela segue de pé porque as pedras se apoiam umas nas outras agora.

 
 

II  Quem pensou

O frade de Roccasecca

Tomás de Aquino nasceu por volta de 1225 no castelo de Roccasecca, entre Roma e Nápoles, filho de Landolfo, senhor da região. Aos cinco anos foi entregue à abadia de Monte Cassino, com a esperança da família de que um dia fosse abade.

Estudou artes liberais em Nápoles, onde leu Aristóteles pela primeira vez. Ali conheceu os dominicanos, a Ordem dos Pregadores fundada em 1216, que viviam de esmola. Em 1244 vestiu o hábito.

A família reagiu. Os irmãos o capturaram na estrada e o prenderam por cerca de um ano no castelo. Segundo a biografia de Guilherme de Tocco, escrita depois da morte dele, os irmãos chegaram a mandar uma mulher ao quarto para tentá-lo. Tomás a expulsou com um tição.

Liberto, foi estudar com Alberto Magno, em Paris e depois em Colônia. Os colegas o chamavam de boi mudo, pelo tamanho e pelo silêncio. Alberto teria respondido que os mugidos daquele boi ainda iam se ouvir no mundo inteiro.

Ele passou a vida tentando provar que Aristóteles e a fé cabiam na mesma casa.

Em Paris foi mestre de teologia duas vezes: de 1256 a 1259 e de 1268 a 1272. A segunda regência é a da briga sobre a eternidade. Nos mesmos anos escrevia a Suma Teológica, obra que deixou sem terminar, e comentários linha a linha a quase todo o Aristóteles.

O método das obras dele segue a disputa escolar. Primeiro vêm as objeções, enunciadas com toda a força. Depois, a resposta. Por fim, a réplica a cada objeção. O opúsculo sobre a eternidade dispensa a forma e escreve em prosa corrida, sinal de texto feito para circular rápido.

Em dezembro de 1273, durante uma missa em Nápoles, Tomás parou de escrever. Ao secretário, Reginaldo de Piperno, disse que tudo o que tinha escrito lhe parecia palha diante do que tinha visto. Nunca explicou o que viu.

Convocado para o Concílio de Lyon, adoeceu no caminho e terminou a vida em 7 de março de 1274, na abadia cisterciense de Fossanova. Tinha perto de 49 anos. Foi canonizado em 1323 pelo papa João XXII.

 

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III  Contra o quê

Contra os que resmungam

Os resmungões do título tinham nome. O mais forte era Boaventura de Bagnoregio, franciscano, colega de Tomás em Paris e depois ministro-geral da ordem dele. No comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, nos anos 1250, Boaventura julgou impossível um mundo eterno criado.

O argumento dele usava o infinito. Se o mundo sempre existiu, já se passaram infinitos dias até hoje. Mas um infinito não se atravessa até o fim. Logo, nunca chegaríamos a hoje. E outra: se a humanidade sempre existiu, haveria hoje infinitas almas, um infinito em ato, e Aristóteles mesmo negava o infinito em ato.

Tomás responde em duas linhas. Cada dia passado está a uma distância finita de hoje, e por esse motivo foi atravessado. Quanto às almas, ele admite a dificuldade e nota que Deus poderia ter feito um mundo eterno sem homens.

“Apenas a fé sustenta que o mundo nem sempre existiu, e não se pode prová-lo por demonstração.”

Tomás de Aquino, Suma Teológica, Primeira Parte, questão 46, por volta de 1268

O segundo alvo eram os mestres de Artes, como Siger de Brabante, que liam em Aristóteles uma prova da eternidade. Contra eles, Tomás aplica o mesmo critério: os argumentos de Aristóteles mostram que o mundo pode não ter começo, não que ele tenha sido sem começo.

O alcance da distinção foi grande para a época. Ao separar criação de começo, Tomás pôs a dependência do mundo no centro da teologia e tirou a data do posto de prova. A pergunta deixou de ser quando tudo começou e passou a ser de onde tudo recebe o ser agora.

A posição de Tomás deixava os dois partidos sem a prova que cada um dizia ter.

O preço veio depois. Em 7 de março de 1277, três anos exatos após a morte dele, Tempier condenou 219 teses em Paris. Algumas atingiam ideias de Tomás. Em Oxford, no mesmo mês, o arcebispo Robert Kilwardby, dominicano como ele, proibiu outras. A canonização de 1323 encerrou as suspeitas, e em 1325 o bispo de Paris revogou as condenações na parte que tocava Tomás.

A discussão voltou com Immanuel Kant. Na Crítica da Razão Pura, de 1781, a primeira antinomia (contradição em que a razão prova as duas teses opostas) monta lado a lado a prova do começo e a prova da eternidade. Kant conclui o mesmo que Tomás por outra rota: a razão pura não decide a questão.

Numa cozinha de interior, a avó entrega à neta o fermento natural da família. Ninguém sabe em que ano ele foi feito. Toda manhã alguém o alimenta com farinha e água.

Sem a farinha, azeda.

 
 
Quiz da edição

Quando os irmãos de Tomás de Aquino mandaram uma mulher ao quarto dele, durante o cativeiro no castelo, para tentá-lo e afastá-lo dos dominicanos, como ele reagiu, segundo a biografia de Guilherme de Tocco?

AFingiu estar rezando até ela desistir e sair
BChamou os guardas do castelo para prendê-la
CConvenceu-a a entrar para a ordem dominicana
DExpulsou-a do quarto com um tição

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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