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Thomas Reid defendeu a credulidade

Num livro de 1764, um filósofo escocês pôs a confiança na palavra alheia entre os princípios da mente: sem ela, criança nenhuma aprende a falar.

Livro antigo aberto e um pião de madeira sobre a mesa, em luz de janela.

Thomas Reid e a credulidade da criança, Aberdeen, 1764

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Credulidade: “facilidade de crer; fraqueza da mente que leva a pessoa a acreditar sem evidência suficiente” (Dicionário Webster, 1828). O verbete trata a palavra como defeito de caráter. Saiu 64 anos depois de um livro escocês que a punha entre os alicerces do conhecimento, escrito por Thomas Reid.

A maior parte do que uma pessoa sabe chegou pela boca de outra. A data do próprio nascimento, como se chamavam os bisavós, a forma da Terra, a existência do Japão para quem nunca saiu do país. Ninguém conferiu essas informações sozinho, e quase ninguém conseguiria, nem com a vida inteira para tentar.

Uma criança de dois anos aprende a palavra amanhã antes de ter qualquer meio de conferir o que ela quer dizer. Aprende que a lua se chama lua, que o cachorro do vizinho morde, que a avó mora longe. Recebe cada frase como recebe a comida da colher: aceita primeiro e examina depois, quando examina.

Se pedisse prova para cada frase, ficaria sem língua. Palavra nenhuma se aprende por demonstração. A criança aprende porque alguém a usou na frente dela e ela acreditou que a palavra servia para aquilo.

O livro de Reid saiu em Edimburgo em 1764, com um título comprido: Investigação sobre a Mente Humana segundo os Princípios do Senso Comum. Senso comum, ali, não quer dizer opinião da maioria. Quer dizer o conjunto de crenças que toda mente humana já traz e que argumento nenhum consegue arrancar dela, como a crença de que o mundo visto existe.

A defesa da credulidade aparece num lugar inesperado do livro: a seção 24 do capítulo sobre a visão. O motivo da escolha só aparece quando o argumento já andou um bom pedaço.

O argumento parte de um par de inclinações que a natureza teria posto em cada pessoa, uma na boca de quem fala e outra no ouvido de quem escuta.

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I  A ideia do dia

A balança inclinada

Thomas Reid descreve duas inclinações que se encaixam como chave e fechadura. A primeira mora em quem fala: a propensão a dizer o que pensa e a usar as palavras para transmitir o que de fato sente. Reid a chama de princípio de veracidade.

A segunda mora em quem ouve. É o princípio de credulidade, e Reid o descreve assim:

“Outro princípio original, implantado em nós pelo Ser Supremo, é uma disposição para confiar na veracidade dos outros e acreditar no que eles nos dizem.”

Thomas Reid, Investigação sobre a Mente Humana, 1764

Uma inclinação sem a outra não serviria para nada. Num mundo de falantes sinceros e ouvintes desconfiados, ninguém aprenderia com ninguém. Num mundo de ouvintes crédulos e falantes mentirosos, a confiança viraria armadilha. Reid vê no encaixe dos dois a marca de um projeto: o homem foi feito para receber dos outros a maior parte do que sabe.

A veracidade, diz ele, não pede treino nem motivo. Dizer o que se pensa sai sozinho, como comer quando se tem fome. Mentir dá trabalho: exige um motivo, um plano e o esforço de segurar a frase sincera que vinha primeiro. Reid compara a mentira a um remédio de gosto ruim, que ninguém toma sem um fim que não alcança de outro jeito.

Do lado do ouvinte, Reid usa a imagem de uma balança. No caso do testemunho, escreve, “a balança do juízo humano pende por natureza para o lado da crença”, e cai para esse lado sozinha quando nada pesa no prato oposto.

A dúvida precisa de um motivo para aparecer. A crença chega sem pedir nenhum.

Sem essa inclinação, frase nenhuma dita numa conversa seria aceita antes de passar pelo exame da razão. Reid calcula o prejuízo: a maioria das pessoas não acharia motivo para crer na milésima parte do que ouve, e viveria pior do que o mais isolado dos povos.

A balança muda com a idade. Para Reid, a credulidade é ilimitada na criança até ela topar com os primeiros casos de engano. Depois, a razão aprende a suspeitar de alguns relatos e a recusar outros. Mesmo adulta, segue pedindo luz emprestada onde não tem luz própria: o mapa, a bula, o jornal, o professor.

A comparação com a visão explica a escolha do capítulo. Ninguém precisa estudar ótica para acreditar no que vê, e ninguém precisa estudar o caráter humano para acreditar no que ouve. Nos dois casos, a mente lê um sinal e confia no que ele indica. Para Reid, o olho e o ouvido crédulo são peças do mesmo equipamento.

Numa cozinha, o pai avisa ao filho de três anos que a panela está quente. O menino recolhe a mão antes de encostar no metal. Nunca se queimou em panela nenhuma.

 
 

II  Quem pensou

O pastor de New Machar

Thomas Reid nasceu em 1710 em Strachan, uma aldeia do condado de Kincardine, no nordeste da Escócia. O pai, Lewis Reid, era o pastor da paróquia. A mãe, Margaret Gregory, vinha de uma família de professores: o irmão dela, David Gregory, ensinou astronomia em Oxford e era amigo de Isaac Newton.

Em 1722, aos 12 anos, o menino entrou no Marischal College, em Aberdeen. Formou-se em 1726, estudou teologia e trabalhou como bibliotecário do colégio de 1733 a 1736.

Em 1737, o King's College, dono do direito de indicar o pastor, mandou Reid para a paróquia de New Machar, perto de Aberdeen. A congregação não o escolhera e o recebeu com hostilidade. Reid ficou na paróquia até 1751. Segundo a tradição da paróquia, contada por biógrafos do século XIX, um fiel resumiu a despedida: tinham lutado contra ele na chegada e lutariam por ele na partida.

Em 1739, David Hume publicou o Tratado da Natureza Humana. Na dedicatória da Investigação, Reid confessa que nunca tinha posto em dúvida os princípios aceitos sobre o entendimento humano até o Tratado sair.

A dúvida dele tinha alvo preciso. De Descartes a Hume, a filosofia aceitava a teoria das ideias (a tese de que a mente só enxerga imagens dentro de si, nunca os objetos do mundo). Hume levou a tese até as últimas consequências e chegou ao ceticismo (a dúvida sobre se é possível conhecer qualquer realidade): o mundo, o próprio eu e a mente dos outros ficavam sem garantia.

Em 1751, Reid virou regente do King's College (o professor que acompanhava a mesma turma em todas as matérias, do primeiro ao último ano). Em 1758, com o médico John Gregory, fundou a Sociedade Filosófica de Aberdeen, apelidada de Clube dos Sábios. Hume era o assunto preferido das reuniões.

Hume leu partes do manuscrito antes da publicação, por intermédio do pregador Hugh Blair. Primeiro reclamou dos pastores que se metiam em filosofia. Depois escreveu ao próprio Reid, em 1763, dizendo que raramente um texto tão filosófico vinha escrito com tanto espírito.

A resposta de Reid saiu no mesmo ano e chama Hume de mestre na metafísica (a parte da filosofia que pergunta o que existe e como se conhece):

“Sempre me declararei seu discípulo em metafísica. Aprendi mais com seus escritos nesse campo do que com todos os outros somados.”

Thomas Reid, carta a David Hume, 1763

O adversário leu o manuscrito, elogiou o estilo e recebeu do autor o título de mestre.

O livro saiu em 1764, e no mesmo ano Reid assumiu a cátedra de filosofia moral da Universidade de Glasgow, deixada por Adam Smith. Ensinou lá até 1780 e, aposentado, publicou os Ensaios sobre os Poderes Intelectuais do Homem, em 1785, e os Ensaios sobre os Poderes Ativos do Homem, em 1788.

Reid viveu até 1796 e terminou a vida em Glasgow, aos 86 anos. Os seguidores dele ganharam depois o rótulo de Escola Escocesa do Senso Comum, e as ideias chegaram à Sorbonne, em Paris, onde Pierre-Paul Royer-Collard passou a ensiná-las em 1811.

 

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III  Contra o quê

A criança desconfiada

O adversário direto é David Hume. Na seção 10 da Investigação sobre o Entendimento Humano, de 1748, a que trata dos milagres, Hume explica a confiança no testemunho pela experiência acumulada. Acreditamos em testemunhas porque já vimos, muitas vezes, os relatos baterem com os fatos.

“Nossa segurança em qualquer argumento desse tipo não deriva de outro princípio senão da nossa observação da veracidade do testemunho humano e da conformidade habitual dos fatos com os relatos das testemunhas.”

David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, 1748

Por trás de Hume estava um ideal mais antigo, de John Locke. No Ensaio sobre o Entendimento Humano, de 1690, Locke escreve que é tão razoável esperar ver com os olhos dos outros quanto conhecer pelo entendimento dos outros. O conhecedor ideal confere cada frase sozinho.

Reid responde com uma previsão sobre crianças. Se a credulidade nascesse do raciocínio e da experiência, cresceria junto com eles. As crianças seriam as pessoas mais incrédulas do mundo, e portanto impossíveis de ensinar. Os mais crédulos seriam os velhos e os experientes, que já viram muitos relatos baterem com os fatos.

A vida comum mostra o contrário. A criança acredita em quase qualquer frase, e o adulto vivido desconfia mais. Para Reid, a credulidade é um dom da natureza, forte na infância, e a experiência só faz podá-la. A prova de Hume, lida pelo avesso, depõe contra ele.

Quem precisasse de prova para começar a acreditar nunca teria aprendido a primeira palavra.

Dois séculos depois, o filósofo australiano C. A. J. Coady acrescentou um segundo golpe, no livro Testimony (Testemunho), publicado pela editora da Universidade de Oxford em 1992. A observação que Hume invoca também chega, quase toda, por testemunho.

Ninguém confere pessoalmente os relatos sobre países distantes, batalhas antigas ou a distância até o Sol. A pessoa sabe que esses relatos bateram com os fatos porque outra pessoa contou. A conferência de Hume gira em círculo.

O ataque também veio no sentido inverso. Em 1994, a filósofa britânica Elizabeth Fricker publicou um artigo chamado Against Gullibility (Contra a Ingenuidade). Para ela, o adulto que aceita uma frase sem avaliar quem a diz é ingênuo, e a teoria de Reid daria licença ao conto do vigário.

Reid já tinha deixado a resposta pronta. A credulidade dele é ponto de partida, nunca contrato vitalício. Começa ilimitada e recebe um limite a cada engano descoberto. O adulto desconfia de certos relatos, recusa outros e continua acreditando na maioria, porque não tem como viver de outro jeito.

Num primeiro de abril, o irmão de dez anos diz à caçula de cinco que a escola fechou porque apareceu uma cobra no pátio. Ela tira o uniforme e volta para a cama.

No ano seguinte, na mesma data, ela olha o calendário da cozinha antes de ouvir o irmão.

Nos outros dias, acredita nele.

 
 
Quiz da edição

Em 1764, a cátedra de filosofia moral da Universidade de Glasgow que Thomas Reid assumiu estava vaga porque tinha sido deixada por qual pensador?

ADavid Hume
BAdam Smith
CFrancis Hutcheson
DJohn Gregory

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