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Só se conhece de verdade o que se fez
Em 1710, Giambattista Vico trocou a certeza de Descartes por um critério de artesão: é verdadeiro para nós aquilo que nós fizemos.
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O que o homem fez, o homem entende
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O Dicionário Houaiss define conhecer como "ter ou chegar a ter noção, informação de". A definição trata o saber como algo que se recebe de fora, como quem lê uma placa. Um professor de Nápoles, em 1710, sustentou o contrário: só conhece de verdade quem fabricou o que conhece.
O professor se chamava Giambattista Vico. Tinha 42 anos, ensinava retórica na Universidade de Nápoles e ganhava tão pouco que completava a renda dando aulas particulares aos filhos dos nobres da cidade.
Naquele ano ele publicou um livrinho em latim, Sobre a Antiquíssima Sabedoria dos Italianos. O título promete arqueologia de palavras antigas. O conteúdo é um ataque à filosofia mais prestigiada da Europa naquele momento, a de René Descartes.
Descartes tinha morrido havia sessenta anos, mas Nápoles vivia uma febre cartesiana. Nos salões, só valia como saber o que fosse claro e distinto, demonstrado como um teorema. História, poesia, direito e eloquência passavam por conversa de antiquário.
Vico tinha passado a vida nessas matérias desprezadas. Conhecia o direito romano de cor, lia Tácito e Platão e ensinava jovens a convencer um tribunal. Via os colegas trocarem tudo por uma única pergunta: do que eu posso ter certeza?
A resposta de Vico começou por uma observação sobre o latim. Em latim, verum quer dizer verdadeiro, e factum quer dizer feito. Os antigos, dizia ele, usavam as duas palavras como se uma pudesse substituir a outra.
Daí saiu a fórmula que o livro deixou: verum ipsum factum (o verdadeiro é o próprio feito). Conhecer a verdade de algo é conhecer como ele foi feito. E só conhece como algo foi feito quem o fez.
A consequência é incômoda. O homem conhece de verdade a geometria, porque inventou o ponto, a linha e o triângulo. A natureza, feita por Deus, só Deus conhece por inteiro. O físico descreve a chuva; não sabe fazê-la.
O critério mudou o mapa do que se pode saber, e o primeiro território que ele redesenhou foi a matemática.
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I A ideia do dia
A verdade de quem fabrica
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Vico chamou o princípio de verum factum, e a tese completa tem duas metades. A primeira diz que verdadeiro e feito se convertem um no outro. A segunda diz que cada autor conhece por inteiro apenas a própria obra.
Para Deus, portanto, o mundo inteiro é verdade, porque Ele fez tudo. Para o homem, a verdade plena fica restrita ao que sai das mãos e da cabeça humanas.
Os três graus do saber, segundo o livro de 1710
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1. Ciência: saber as causas de algo porque se montou esse algo, como o geômetra sabe o triângulo.
2. Consciência: saber que algo existe sem saber como foi feito, como cada um sabe que está pensando.
3. Opinião: supor as causas de algo feito por outro, como o físico supõe as causas do trovão.
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A geometria está no primeiro grau porque é invenção. O geômetra define o ponto, decide o que é uma reta e deduz o resto das próprias definições. Nada ali escapa ao autor.
A física fica abaixo. O experimento ajuda, diz Vico, justamente porque imita o gesto de fazer: quem reproduz um fenômeno no laboratório chega perto de conhecê-lo por dentro. Mesmo assim, a matéria continua sendo obra alheia.
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"O critério e a regra do verdadeiro é tê-lo feito."
Giambattista Vico, Sobre a Antiquíssima Sabedoria dos Italianos, 1710
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Quinze anos depois, Vico levou o princípio ao lugar que ninguém esperava. Em 1725 publicou a Ciência Nova, o livro que o fez entrar na história da filosofia.
O raciocínio é curto. As leis, as línguas, os casamentos, os tribunais, os mitos e as guerras foram feitos por homens. Logo, os homens podem conhecê-los por dentro, como o geômetra conhece o triângulo.
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O mundo das nações, que o homem fez, é mais claro para ele do que o céu que não fez.
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Na edição final da obra, de 1744, o trecho aparece no parágrafo 331. Vico diz que os filósofos gastaram todo o esforço estudando a natureza, que só Deus conhece, e deixaram de lado o mundo civil, que os homens fizeram e, justamente por terem feito, podiam conhecer.
O princípio tem uma condição. Conhecer a história por dentro exige reconstruir a mente de quem a fez, e as primeiras sociedades pensavam por imagens, não por conceitos. Vico passou vinte anos tentando ler os mitos gregos e as leis romanas como obra dessa mente poética.
Dessa leitura nasceu a sequência das três idades de toda nação: a dos deuses, a dos heróis e a dos homens. Cada uma com a sua língua, o seu direito e o seu governo.
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II Quem pensou
O filho do livreiro
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Giambattista Vico nasceu em Nápoles em 23 de junho de 1668, sexto filho de um livreiro pobre, Antonio Vico, que tinha a loja numa rua estreita do centro antigo, perto da igreja de San Biagio.
Aos 7 anos caiu de uma escada dentro de casa e fraturou o crânio. O médico previu que o menino ou não sobreviveria ou ficaria idiota. Vico sobreviveu, passou três anos longe da escola e contou depois, na Autobiografia, que a queda o deixou melancólico e irritadiço pelo resto da vida.
Estudou quase sozinho, com os livros da loja do pai. Entre 1686 e 1695 foi preceptor dos sobrinhos do marquês Domenico Rocca, em Vatolla, no sul da Itália. Os anos no castelo, com a biblioteca de um convento vizinho, formaram o leitor que ele seria.
Em 1699 ganhou por concurso a cátedra de retórica da Universidade de Nápoles. Era o cargo de menor salário da casa: 100 escudos por ano, segundo a própria Autobiografia, enquanto a cátedra de direito pagava várias vezes mais.
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Vico passou 42 anos ensinando a disciplina que a filosofia da época tratava como enfeite.
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Em 1723 disputou a cátedra matutina de direito civil, a que poderia tirá-lo do aperto. Deu a aula de prova de improviso, sobre um trecho do Digesto sorteado na véspera, e foi elogiado. A vaga ficou com outro candidato, com melhores apoios.
Vico registrou a derrota como ponto de virada. Desistiu de agradar a academia e se fechou no livro que vinha rascunhando.
O cardeal Lorenzo Corsini, futuro papa Clemente XII, prometeu pagar a impressão e depois recuou. Vico reduziu o manuscrito a um terço e bancou a edição de 1725 com o que conseguiu da venda de um anel de diamante, o único bem de valor que tinha.
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"Este mundo civil foi certamente feito pelos homens, e portanto se podem, porque se devem, achar os seus princípios dentro das modificações da nossa própria mente humana."
Giambattista Vico, Ciência Nova, parágrafo 331, 1744
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O livro quase não circulou. Vico reescreveu a obra inteira para a edição de 1730 e continuou revisando até o fim. Em 1735, Carlos de Bourbon, novo rei de Nápoles, o nomeou historiógrafo real, e a pensão aliviou a velhice.
Vico faleceu em Nápoles em 23 de janeiro de 1744, aos 75 anos. A terceira edição da Ciência Nova saiu da gráfica meses depois, e ele não chegou a vê-la pronta.
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