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O adversário principal tinha morrido em 1274. Tomás de Aquino, o dominicano mais lido de Paris, ensinava que o indivíduo vem da materia signata quantitate (matéria assinalada pela quantidade, isto é, marcada por dimensões).
No opúsculo O ente e a essência, escrito em Paris na década de 1250, ele explica: Sócrates é este homem porque a forma humana está nesta carne e nestes ossos.
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“A matéria tomada de qualquer modo não é o princípio de individuação, mas só a matéria assinalada.”
Tomás de Aquino, O ente e a essência, capítulo 2, Paris, década de 1250
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A tese cobrava um preço nos anjos. Sem matéria, um anjo não teria como se distinguir de outro da mesma espécie. Tomás aceitou a consequência: cada anjo forma uma espécie sozinho.
Scotus achou o preço alto. Em 1277, o bispo de Paris, Étienne Tempier, condenou 219 teses ensinadas na faculdade de artes, e uma delas negava a Deus o poder de criar vários indivíduos de uma espécie sem matéria.
Havia também um problema no corpo. A carne de um homem se renova ao longo da vida, e a quantidade muda com a idade e a fome. Se a matéria marcasse o indivíduo, o velho Sócrates seria outro homem diante do menino Sócrates.
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Sócrates troca de carne a vida inteira e continua Sócrates.
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Henrique de Gante, mestre secular em Paris, oferecia outra saída: o indivíduo se faz por dupla negação, não ser dividido em si e não ser idêntico a outro. Scotus respondeu que negação não produz nada, e só nega algo positivo que já está ali.
O ataque seguinte veio de dentro da ordem. Guilherme de Ockham, franciscano inglês, comentou as Sentenças em Oxford entre 1317 e 1319 e achou a hecceidade desnecessária. Para ele, todo ser fora da mente já nasce singular, e procurar a causa da singularidade é inventar problema.
A navalha atribuída a Ockham, não multiplicar entidades sem necessidade, tirou a hecceidade das escolas nominalistas. Os scotistas mantiveram a tese viva nas universidades católicas até o século XVIII.
O debate voltou no século XX. Em 1952, o filósofo inglês Max Black imaginou um universo com duas esferas de ferro idênticas e nada mais, e perguntou se elas eram mesmo duas. A discussão segue nas revistas de metafísica.
Numa maternidade, dois gêmeos dormem no mesmo berço, com a mesma roupa. A enfermeira amarra uma fita azul no pulso de um deles. A fita ajuda a mãe a distinguir os dois, mas eles já eram dois antes da fita.
“Se outra pessoa tivesse cada uma das suas qualidades, o que ainda faria você ser você?”
A palavra veio depois.
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