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Scotus tirou da matéria a marca do indivíduo

No livro II da Ordinatio, Duns Scotus pôs em cada ser uma realidade última, chamada depois de hecceidade, sem repetição em nenhum outro.

Duas folhas de carvalho quase iguais sobre um manuscrito medieval aberto.

Duas folhas, nenhuma repetida

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Indivíduo: “cada ser, considerado isoladamente, em relação à espécie a que pertence” (Dicionário Houaiss). A definição explica o indivíduo pela espécie e cala sobre o resto. Diz que Pedro é um homem, mas não diz por que ele é Pedro e não o irmão.

Em fevereiro de 1979, em Ohio, nos Estados Unidos, James Lewis e James Springer se encontraram pela primeira vez, aos 39 anos. Eram gêmeos idênticos, separados com quatro semanas de vida e adotados por famílias diferentes, que deram aos dois o mesmo nome.

A lista de coincidências virou notícia. Os dois tinham casado com uma Linda, se divorciado e casado com uma Betty. Um batizou o filho de James Alan, o outro de James Allan. Na infância, os dois tiveram um cachorro chamado Toy.

O psicólogo Thomas Bouchard levou a dupla para a Universidade de Minnesota no mesmo ano. Com eles abriu um estudo de gêmeos criados separados que tocou por duas décadas, medindo altura, voz, gosto e temperamento.

Os genes explicavam boa parte das semelhanças. Nenhum exame explicava a diferença mais simples de todas: havia dois homens. Lewis voltou para a casa dele em Lima, Springer para a dele em Dayton, e nenhum dos dois acordou no corpo do outro.

A ciência mede o que os gêmeos têm em comum. O problema contrário é mais velho e mais teimoso: se todas as qualidades coincidem, onde mora a diferença entre um e outro?

Perto de 1300, um frade franciscano escocês fez esse mesmo problema a pedras, cavalos, homens e anjos, e recusou a resposta de quase todos os mestres do tempo dele.

Os mestres diziam que a matéria separava um ser do outro: este pedaço de carne, este bloco de pedra. O frade achou a resposta curta demais e procurou a marca do indivíduo em outro lugar.

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I  A ideia do dia

Uma realidade sem repetição

John Duns Scotus tratou o problema no livro II da Ordinatio (ordenação, a versão das aulas revista pelo próprio autor), na distinção 3. A obra comentava as Sentenças de Pedro Lombardo, manual de teologia do século XII explicado por todo mestre de Oxford e Paris.

O problema tinha nome técnico: princípio de individuação (a causa de um ser ser este, e não outro da mesma espécie). Sócrates e Platão partilham a natureza humana. Alguma realidade em Sócrates impede que ele seja Platão.

Scotus organizou a discussão em seis questões. Nas cinco primeiras, derrubou as respostas que circulavam nas escolas.

Cinco respostas recusadas

1. A natureza sozinha não individua: se bastasse, só existiria um homem.

2. A dupla negação não basta: negar a divisão não cria o ser indiviso.

3. A existência não basta: ela chega a um ser já determinado.

4. A quantidade não basta: tamanho e lugar mudam sem mudar o indivíduo.

5. A matéria não basta: ela também é comum e precisa ser individuada.

Na sexta questão veio a tese. Em cada ser existe uma entidade positiva, somada à natureza comum, que a fecha num indivíduo. Ela não acrescenta cor, peso nem qualidade nova. Faz uma tarefa só: torna esta natureza esta.

“Esta entidade não é matéria, nem forma, nem o composto, enquanto cada um destes é natureza; é a realidade última do ente.”

John Duns Scotus, Ordinatio, livro II, distinção 3, parte 1, questão 6

A palavra que ficou para a tese nasceu do latim haec (esta). Haecceitas (hecceidade, a condição de ser esta) aparece nas Questões sobre a Metafísica atribuídas a Scotus e nos textos dos discípulos franciscanos, que espalharam o termo pelas escolas.

Scotus separava a natureza comum, que se repete, da realidade última, que não se repete. A natureza “cavalo” está igual em todo cavalo. A realidade última de um cavalo não está em nenhum outro, nem no irmão da mesma égua.

Dois seres podem coincidir em todas as qualidades e continuar dois.

Ele chamou a diferença entre as duas de distinção formal (duas realidades num mesmo ser, separáveis pela mente, nunca no mundo). A natureza e a hecceidade de Sócrates não se soltam uma da outra, e mesmo assim uma não é a outra.

Duas canecas brancas saem do mesmo molde, no mesmo lote da fábrica. Têm o mesmo peso, a mesma alça, o mesmo esmalte. Uma delas escorrega da pia e se parte em três pedaços. A outra continua no armário, inteira.

 
 

II  Quem pensou

O doutor sutil de Duns

John Duns Scotus nasceu em Duns, vila do sul da Escócia, provavelmente entre o fim de 1265 e o começo de 1266. A data é deduzida de um registro só: a ordenação sacerdotal em 17 de março de 1291, em Northampton, somada à idade mínima de 25 anos exigida pela Igreja.

Entrou jovem na Ordem dos Frades Menores, os franciscanos. Estudou em Oxford e, perto de 1300, comentou as Sentenças ali e em Cambridge. As notas dessas aulas, revistas por ele, formaram a Ordinatio, que ficou inacabada.

Em 1302 a ordem o mandou a Paris, a maior faculdade de teologia da Europa. No ano seguinte, a política entrou na sala de aula. O rei Filipe IV, o Belo, brigava com o papa Bonifácio VIII e pediu aos religiosos da cidade apoio a um concílio contra o papa.

Em junho de 1303, Scotus ficou com o papa e não assinou. O rei deu poucos dias para os dissidentes deixarem a França, e ele saiu com outros frades do convento franciscano.

Voltou a Paris em 1304, depois da morte de Bonifácio, e em 1305 recebeu o título de mestre regente em teologia. Os alunos o chamaram de Doctor Subtilis (doutor sutil), pela precisão das distinções que fazia.

Em 1307 os superiores o transferiram para Colônia, na Alemanha, para ensinar no estudo franciscano da cidade. Ele morreu ali em 8 de novembro de 1308, com 42 anos. Nenhum documento da época registra a causa, e as histórias de enterro precoce surgiram séculos depois, sem prova.

Scotus deixou a tese em cadernos inacabados, e ela atravessou seis séculos.

O leitor mais famoso chegou em 1872. O poeta inglês Gerard Manley Hopkins, jesuíta em formação no seminário de Stonyhurst, encontrou o comentário de Scotus na biblioteca da casa e anotou a descoberta no diário.

“Comecei a pôr as mãos no exemplar de Scotus sobre as Sentenças, na biblioteca Baddeley, e fui tomado por um novo golpe de entusiasmo.”

Gerard Manley Hopkins, diário, agosto de 1872

Hopkins já usava nos cadernos a palavra inscape (paisagem interior, o desenho único de um ser). Em Scotus achou a filosofia dela. Em 1879 escreveu o soneto Duns Scotus's Oxford (A Oxford de Duns Scotus), onde chama o frade de desenredador das veias mais raras da realidade.

A Igreja Católica demorou mais. O papa João Paulo II beatificou Scotus em 20 de março de 1993. O túmulo está na igreja dos Minoritas, em Colônia.

 

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III  Contra o quê

A carne de Tomás de Aquino

O adversário principal tinha morrido em 1274. Tomás de Aquino, o dominicano mais lido de Paris, ensinava que o indivíduo vem da materia signata quantitate (matéria assinalada pela quantidade, isto é, marcada por dimensões).

No opúsculo O ente e a essência, escrito em Paris na década de 1250, ele explica: Sócrates é este homem porque a forma humana está nesta carne e nestes ossos.

“A matéria tomada de qualquer modo não é o princípio de individuação, mas só a matéria assinalada.”

Tomás de Aquino, O ente e a essência, capítulo 2, Paris, década de 1250

A tese cobrava um preço nos anjos. Sem matéria, um anjo não teria como se distinguir de outro da mesma espécie. Tomás aceitou a consequência: cada anjo forma uma espécie sozinho.

Scotus achou o preço alto. Em 1277, o bispo de Paris, Étienne Tempier, condenou 219 teses ensinadas na faculdade de artes, e uma delas negava a Deus o poder de criar vários indivíduos de uma espécie sem matéria.

Havia também um problema no corpo. A carne de um homem se renova ao longo da vida, e a quantidade muda com a idade e a fome. Se a matéria marcasse o indivíduo, o velho Sócrates seria outro homem diante do menino Sócrates.

Sócrates troca de carne a vida inteira e continua Sócrates.

Henrique de Gante, mestre secular em Paris, oferecia outra saída: o indivíduo se faz por dupla negação, não ser dividido em si e não ser idêntico a outro. Scotus respondeu que negação não produz nada, e só nega algo positivo que já está ali.

O ataque seguinte veio de dentro da ordem. Guilherme de Ockham, franciscano inglês, comentou as Sentenças em Oxford entre 1317 e 1319 e achou a hecceidade desnecessária. Para ele, todo ser fora da mente já nasce singular, e procurar a causa da singularidade é inventar problema.

A navalha atribuída a Ockham, não multiplicar entidades sem necessidade, tirou a hecceidade das escolas nominalistas. Os scotistas mantiveram a tese viva nas universidades católicas até o século XVIII.

O debate voltou no século XX. Em 1952, o filósofo inglês Max Black imaginou um universo com duas esferas de ferro idênticas e nada mais, e perguntou se elas eram mesmo duas. A discussão segue nas revistas de metafísica.

Numa maternidade, dois gêmeos dormem no mesmo berço, com a mesma roupa. A enfermeira amarra uma fita azul no pulso de um deles. A fita ajuda a mãe a distinguir os dois, mas eles já eram dois antes da fita.

“Se outra pessoa tivesse cada uma das suas qualidades, o que ainda faria você ser você?”

A palavra veio depois.

★ RARO

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