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Um experimento mental apaga de quem escreve a regra tudo que ela sabe sobre si mesma. O que sobra na mesa é a norma que serve em qualquer cadeira. Veja como o apagamento vira critério.
O dispositivo começa numa cena imaginária que Rawls chamou de posição original. Um grupo de pessoas está encarregado de escrever as regras básicas da sociedade em que vai viver, com uma restrição única e estranha: ninguém ali sabe quem é.
A lista do que fica de fora é longa e proposital. Você não sabe sua classe, sua renda, sua cor, seu sexo, sua religião, seus talentos, sua saúde, nem a geração em que vai nascer. Também não sabe o que considera uma vida boa.
O que continua disponível é todo o resto. Economia, psicologia, sociologia, história das instituições, tudo permanece na mesa. A ignorância é cirúrgica e apaga só um tipo de informação: a que diz respeito a você.
A engenharia é simples. Informação que você não tem é informação que você não consegue usar a seu favor. A imparcialidade deixa de depender do caráter de quem escreve e passa a ser condição da situação.
Rawls sustenta que de uma mesa assim saem dois princípios, e que eles saem em ordem. Primeiro, o conjunto mais amplo possível de liberdades básicas iguais para todos. Depois, e só depois, a regra sobre desigualdade.
A desigualdade não é proibida no segundo princípio, ela é condicionada. Ela vale quando os cargos estão abertos a todos em igualdade real de oportunidade e quando produz benefício para quem está na pior posição.
A ordem não é enfeite. Liberdade não se troca por dinheiro: um país mais rico com metade da população sem voz não passa no teste, por melhor que esteja a média.
O salário alto do cirurgião passa se atrai gente competente para o hospital que atende quem não tem plano, e não passa se existe só porque a corporação fechou a porta atrás de si.
Por trás da escolha existe uma lógica de aposta: atrás do véu, você avalia cada regra pelo pior lugar que ela cria, porque o pior lugar pode ser o seu. Rawls chama a estratégia de maximin.
A escolha não vem de pessimismo, vem da ausência de segunda rodada. Numa aposta repetida mil vezes, a média resolve. A vida acontece uma vez, e ninguém repete o sorteio até a média fechar a favor.
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Regra justa é a que você assinaria antes de saber qual cadeira vai ocupar quando ela valer.
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Existe uma versão de bolso do dispositivo, e ela é mais velha que Rawls. Quem corta o bolo não escolhe a fatia, escolhe por último. O corte sai reto sem nenhum discurso sobre generosidade, porque a mão que segura a faca não sabe que pedaço vai sobrar para ela.
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