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ED 002

Quem corta o bolo escolhe por último

Rawls escondeu o autor da regra atrás de um véu: sem saber que lugar vai ocupar, ninguém escreve a norma torta a favor de si.

A conta fechada no centro da mesa de um rodízio, com dez lugares ocupados em volta e ninguém olhando para o papel.

A conta do rodízio no meio da mesa

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A conta chega no fim do rodízio, fechada em novecentos e quarenta reais para dez pessoas. Um dos dez pediu duas caipirinhas e voltou duas vezes ao carrinho de sobremesa. Outro bebeu água da torneira e recusou o doce. Alguém na ponta da mesa levanta a voz e propõe a regra da noite: divide por dez, noventa e quatro para cada um, e ninguém fica contando centavo na calçada.

A proposta é razoável, soa generosa e sai da boca de quem já sabe exatamente o que consumiu. Quem bebeu água paga parte da caipirinha alheia, a mesa concorda em dois segundos, e a conversa morre porque discutir quarenta reais na frente de nove pessoas custa mais caro que os quarenta reais.

O mesmo desenho aparece longe da mesa e com muito mais em jogo. A escala de plantão sai da mão de quem já tem o próprio turno garantido. A política de férias é escrita por quem escolhe primeiro. A divisão das tarefas da casa nasce na cabeça de quem já ficou com a tarefa mais leve.

Nenhuma dessas pessoas está mentindo, e nenhuma delas se acha injusta. Elas propõem, de boa-fé, a regra que enxergam do lugar onde estão sentadas. O lugar entra no argumento sem nunca aparecer nele, do mesmo jeito que a lente entra na foto sem sair na foto.

Existe um teste de uma pergunta só que separa a regra justa da regra conveniente sem exigir virtude de ninguém. Ele funciona por subtração: tira de quem escreve a regra a informação sobre onde essa pessoa vai parar depois que a regra valer.

Um professor americano transformou a pergunta num dispositivo, gastou duas décadas no assunto e publicou o resultado em 1971, num livro que reorganizou o vocabulário da filosofia política pelo meio século seguinte. O nome do dispositivo é véu da ignorância, e ele é, antes de tudo, uma máquina de apagar informação.

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I  A Ideia do Dia

A regra escrita antes do sorteio

Um experimento mental apaga de quem escreve a regra tudo que ela sabe sobre si mesma. O que sobra na mesa é a norma que serve em qualquer cadeira. Veja como o apagamento vira critério.

O dispositivo começa numa cena imaginária que Rawls chamou de posição original. Um grupo de pessoas está encarregado de escrever as regras básicas da sociedade em que vai viver, com uma restrição única e estranha: ninguém ali sabe quem é.

A lista do que fica de fora é longa e proposital. Você não sabe sua classe, sua renda, sua cor, seu sexo, sua religião, seus talentos, sua saúde, nem a geração em que vai nascer. Também não sabe o que considera uma vida boa.

O que continua disponível é todo o resto. Economia, psicologia, sociologia, história das instituições, tudo permanece na mesa. A ignorância é cirúrgica e apaga só um tipo de informação: a que diz respeito a você.

A engenharia é simples. Informação que você não tem é informação que você não consegue usar a seu favor. A imparcialidade deixa de depender do caráter de quem escreve e passa a ser condição da situação.

Rawls sustenta que de uma mesa assim saem dois princípios, e que eles saem em ordem. Primeiro, o conjunto mais amplo possível de liberdades básicas iguais para todos. Depois, e só depois, a regra sobre desigualdade.

A desigualdade não é proibida no segundo princípio, ela é condicionada. Ela vale quando os cargos estão abertos a todos em igualdade real de oportunidade e quando produz benefício para quem está na pior posição.

A ordem não é enfeite. Liberdade não se troca por dinheiro: um país mais rico com metade da população sem voz não passa no teste, por melhor que esteja a média.

O salário alto do cirurgião passa se atrai gente competente para o hospital que atende quem não tem plano, e não passa se existe só porque a corporação fechou a porta atrás de si.

Por trás da escolha existe uma lógica de aposta: atrás do véu, você avalia cada regra pelo pior lugar que ela cria, porque o pior lugar pode ser o seu. Rawls chama a estratégia de maximin.

A escolha não vem de pessimismo, vem da ausência de segunda rodada. Numa aposta repetida mil vezes, a média resolve. A vida acontece uma vez, e ninguém repete o sorteio até a média fechar a favor.

Regra justa é a que você assinaria antes de saber qual cadeira vai ocupar quando ela valer.

Existe uma versão de bolso do dispositivo, e ela é mais velha que Rawls. Quem corta o bolo não escolhe a fatia, escolhe por último. O corte sai reto sem nenhum discurso sobre generosidade, porque a mão que segura a faca não sabe que pedaço vai sobrar para ela.

 
 

II  Quem Pensou

O veterano que desconfiou da própria sorte

John Rawls passou a vida atrás de uma pergunta que a biografia dele fez primeiro: por que uns nascem com tudo e outros com nada, se ninguém escolheu onde nascer. A resposta que ele deu não foi um sermão sobre generosidade, foi um procedimento.

Nasceu em Baltimore em 1921, o segundo de cinco filhos de uma família confortável. O pai era advogado de renome, a mãe militava pelo voto feminino e presidiu a seção local da liga de eleitoras.

Aos sete anos ele contraiu difteria. O irmão mais novo, que dividia o quarto com ele, pegou a doença e não resistiu. No inverno seguinte veio a pneumonia, e o outro irmão teve o mesmo destino.

A gagueira que ele carregou pelo resto da vida apareceu nesse período. Mesma casa, mesma comida, mesmos pais, resultados opostos entre irmãos: a sorte bruta deixou de ser assunto abstrato muito antes de virar tema de livro.

Formou-se em Princeton em 1943 e entrou na infantaria. Serviu no Pacífico, passou por Nova Guiné e pelas Filipinas e terminou a guerra no Japão ocupado, onde viu de perto as ruínas de Hiroshima.

Recusou a oferta de virar oficial e deixou o exército como soldado raso em 1946. Abandonou também o plano de seguir carreira religiosa. Meio século depois publicou um ensaio condenando o bombardeio das cidades japonesas.

O doutorado saiu em Princeton, com uma temporada em Oxford ao lado de Isaiah Berlin e Herbert Hart. Depois vieram Cornell, o MIT e Harvard, onde deu aula por quase três décadas.

Uma Teoria da Justiça saiu em 1971, depois de quase vinte anos de reescrita, foi traduzida para dezenas de idiomas e obrigou uma geração inteira de filósofos a discutir política em outros termos.

O método dele tem nome e explica o resultado. Chama-se equilíbrio reflexivo: você ajusta o princípio quando ele bate contra um juízo que você não abandona de jeito nenhum, e ajusta o juízo quando o princípio se mostra mais forte. Vai e volta até os dois pararem de brigar.

"A justiça é a primeira virtude das instituições sociais, tal como a verdade o é dos sistemas de pensamento."

John Rawls, Uma Teoria da Justiça, 1971.

A frase é mais dura do que parece. Teoria elegante e falsa vai para o lixo por ser falsa; instituição eficiente que produz injustiça precisa ser reformada ou abolida pelo mesmo motivo, e eficiência não serve de defesa.

Daí vem a parte mais impopular do argumento. Ninguém merece o talento com que nasceu, e ninguém merece a família em que caiu. Os dois vieram de um sorteio que a pessoa não organizou nem venceu por esforço.

Nada disso significa confiscar o talento de quem tem. Significa tratar a recompensa como incentivo que melhora a vida de todo mundo, não como prêmio merecido por um resultado de nascimento.

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III  Contra o quê

O utilitarismo dizia que basta somar

O alvo de Rawls tinha nome e endereço: o utilitarismo, a doutrina que dominava a filosofia moral de língua inglesa desde Jeremy Bentham e John Stuart Mill.

A regra é uma conta: a escolha certa é a que produz a maior soma de bem-estar, somados ganhos e perdas de todos os envolvidos. Fácil de aplicar, difícil de recusar, e de pé por quase dois séculos.

A objeção de Rawls não é que a conta dê errado. É que ela trata a sociedade como uma pessoa só, de caixa único, onde a perda de um lado é compensada pelo ganho do outro e o saldo fecha bonito.

A escala de plantão mostra a falha em tamanho de bolso. Nove pessoas satisfeitas com o horário e uma sozinha em todas as madrugadas do mês. Somando o grupo, o resultado é excelente. Perguntando a quem está acordado às três da manhã, não é.

Rawls deu nome ao defeito: a conta não leva a sério a distinção entre as pessoas. O conforto de nove não entra na experiência de quem atravessa a madrugada sozinho no corredor.

Atrás do véu, ninguém assina essa regra, e o motivo não é bondade. É que a décima cadeira pode ser a sua, e você está escrevendo a norma sem saber o resultado do sorteio.

O contra-ataque mais forte veio do corredor ao lado. Robert Nozick, colega de Harvard, publicou em 1974 a defesa do estado mínimo que virou o outro polo do debate.

"Os indivíduos têm direitos, e há coisas que nenhuma pessoa ou grupo pode fazer com eles sem violar esses direitos."

Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia, 1974.

O golpe de Nozick pega a régua pela raiz. Tratar os talentos das pessoas como acervo comum, diz ele, é dispor do que pertence a cada um. Justiça, para ele, não se mede pelo desenho final: se cada passo foi limpo, o resultado é legítimo mesmo quando é desigual.

A segunda objeção qualquer pessoa faz: ninguém consegue mesmo esquecer quem é. Amartya Sen acrescentou uma terceira, ao lembrar que os mesmos recursos não garantem a mesma capacidade de usá-los.

Rawls aceitou parte das críticas e passou os anos seguintes ajustando o próprio edifício. O véu nunca foi retrato de gente real nem substituto da política: é régua, e régua se julga pelo que mede bem.

Fora da universidade, a régua serve bem à decisão pequena.

1. Escreva a regra antes de conhecer a posição. Combine a divisão da conta com o cardápio ainda fechado, monte a escala do trimestre antes de sortear os turnos.

2. Leia a regra sentado na pior cadeira que ela cria. Se a resposta continuar aceitável de lá, a regra passa. Se depender de você não cair ali, ela é conveniente.

3. Separe quem define o critério de quem ocupa a posição. Quem corta o bolo fica com a última fatia, quem monta a escala entra nela por sorteio.

Regra combinada antes de cada um saber o próprio lugar quase nunca precisa de defesa depois.

"Qual regra da sua casa você não assinaria se não soubesse qual lugar vai ocupar nela?"

 
 
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AAmbos sobreviveram às doenças, mas ficaram com sequelas graves
BUm morreu de difteria contraída dele, o outro de pneumonia no inverno seguinte
CForam enviados para viver com os avós enquanto ele se recuperava
DTornaram-se colegas dele mais tarde na faculdade de Princeton

Resultado da última edição: 0% acertaram.

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