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Quando a letra do texto sagrado cede
No Discurso Decisivo, Averróis sustenta que a lei religiosa manda filosofar e que o sentido literal cede quando contraria a prova.
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A letra guarda um segundo sentido
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O Dicionário Houaiss define literal como "que se atém rigorosamente à letra". A definição supõe que as palavras de um texto têm um sentido só, o de cima. Em 1179, um juiz de Córdoba escreveu um tratado curto para mostrar que, num livro sagrado, a letra às vezes guarda um segundo sentido embaixo.
O juiz se chamava Abu al-Walid Muhammad ibn Rushd. Os latinos o chamaram de Averróis, e com esse nome ele entrou nas universidades da Europa cristã.
O tratado tem um título longo em árabe, Kitab fasl al-maqal (o livro do discurso decisivo). Cabe em poucas dezenas de páginas numa edição moderna e foi escrito no formato de um parecer jurídico, a fatwa (resposta de um jurista a uma consulta de lei).
A consulta imaginada é simples: a lei islâmica permite, proíbe, recomenda ou obriga o estudo da filosofia e da lógica? Na Andaluzia do século XII, a pergunta tinha consequência prática. Livros de filosofia podiam ser queimados, e quem os lia podia perder o cargo.
Averróis ocupava cargo alto. Era cádi (juiz da lei religiosa) e vinha de uma família de juízes: o avô, com o mesmo nome, tinha sido cádi principal de Córdoba. Quem fazia a pergunta sobre a filosofia era, portanto, um homem da própria lei.
Ele também era o médico e o comentador de Aristóteles de confiança do califa almôada, Abu Yaqub Yusuf. Passava as noites com o grego traduzido e os dias no tribunal.
A resposta do parecer surpreende quem espera um meio-termo. Para quem tem capacidade, estudar filosofia não é só permitido. É obrigatório, e a obrigação vem do próprio Corão.
A segunda tese do livro é mais ousada que a primeira. Quando um versículo, lido ao pé da letra, contradiz o que a razão demonstrou, o versículo não perde. Muda o jeito de ler.
A prova da obrigação começa por um verbo do Corão.
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I A ideia do dia
A lei que manda raciocinar
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O verbo está na surata 59, versículo 2: fa'tabiru (refleti, tirai a lição), dirigido aos que têm visão. Averróis lê o i'tibar (reflexão que tira o desconhecido do conhecido) como ordem de raciocinar sobre o mundo criado.
A conta dele segue em três passos, cada um apoiado no anterior.
o argumento do Discurso Decisivo, na ordem do livro
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1. A lei manda refletir sobre os seres existentes para conhecer quem as fez.
2. Refletir com rigor é tirar conclusões por silogismo (raciocínio de duas premissas que obriga uma conclusão).
3. A forma mais perfeita de silogismo é a demonstração, o burhan, e quem a estudou a fundo foram os filósofos.
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Logo, quem tem capacidade é obrigado a estudar lógica e filosofia. Averróis compara com o direito: os juristas usam o qiyas (analogia jurídica) para tirar regra nova de regra antiga, e ninguém chama o jurista de herege por usar o método.
Um obstáculo previsível era a origem grega da ferramenta. Aristóteles não era muçulmano. Averróis responde com um exemplo do rito: a faca que degola o animal do sacrifício vale pelo corte, não pela religião de quem a forjou.
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"A verdade não contraria a verdade, mas concorda com ela e dá testemunho a seu favor."
Averróis, Discurso Decisivo, 1179
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Daí sai a segunda tese. Se a revelação é verdadeira e a demonstração também, as duas não podem brigar. Quando parecem brigar, o erro está na leitura.
O remédio tem nome técnico, ta'wil (interpretação, levar o texto de volta ao seu sentido). A regra é tirar a palavra do sentido literal e passá-la ao figurado, sem violar o uso da língua árabe, como a própria língua faz com metáforas.
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Onde a letra contradiz a prova, quem cede é a leitura literal.
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A licença tem limite. Averróis divide as pessoas em três grupos: as da demonstração, as da dialética (argumento a partir de opiniões aceitas) e as da retórica, que se convencem por imagem e exemplo. O Corão, diz ele, fala aos três de uma vez.
A interpretação só pode ser feita e discutida entre os capazes de demonstração. Divulgada ao povo, ela destrói a fé literal sem pôr outra no lugar. Averróis cobra silêncio: a leitura alegórica não se escreve em livro popular.
A objeção final ele desmonta com uma imagem. Houve quem se perdesse estudando filosofia. Proibir a filosofia por esse motivo seria como proibir a água a um homem com sede porque outro engasgou bebendo.
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II Quem pensou
O juiz de Córdoba
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Abu al-Walid Muhammad ibn Ahmad ibn Rushd nasceu em Córdoba em 1126, quando a cidade estava sob os almorávidas, dinastia berbere do norte da África. Estudou direito da escola maliquita, medicina, teologia e, mais tarde, a filosofia grega que chegava em traduções árabes.
Em 1168 ou 1169, o médico e filósofo Ibn Tufayl o apresentou ao califa Abu Yaqub Yusuf, em Marrakech. O califa perguntou o que os filósofos pensavam do céu, se era eterno ou criado.
Averróis conta que ficou com medo e negou saber de filosofia. O califa então discutiu o tema com Ibn Tufayl na frente dele, mostrando que conhecia Platão e Aristóteles. Averróis relaxou, falou, e saiu com um presente e uma encomenda.
A encomenda era explicar Aristóteles, cujo texto o califa achava obscuro. Averróis passou quase trinta anos no trabalho. Escreveu comentários curtos, médios e longos sobre quase toda a obra do grego.
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O juiz que mandava os fiéis refletir passou a vida explicando um pagão.
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A carreira jurídica correu no mesmo passo. Foi nomeado cádi de Sevilha em 1169 e, depois, cádi de Córdoba. Em 1182 sucedeu Ibn Tufayl como médico da corte. Escreveu também um manual de medicina, o Kulliyat (as generalidades), que os latinos traduziram como Colliget.
Em 1195 o vento mudou. O califa seguinte, Abu Yusuf Yaqub al-Mansur, precisava do apoio dos juristas mais rigorosos para a guerra contra os reinos cristãos. Averróis foi acusado de heresia, teve livros de filosofia queimados e foi mandado para Lucena, cidade próxima de Córdoba com grande população judaica.
O desterro durou pouco. Em 1197 ele foi reabilitado e chamado de volta a Marrakech, onde morreu em 10 de dezembro de 1198. O corpo foi levado depois para Córdoba.
A fama maior veio longe da Andaluzia. Os comentários, traduzidos para o latim e o hebraico no século XIII, fizeram dele o Comentador por excelência nas universidades de Paris e Pádua. Dante Alighieri o pôs no limbo da Divina Comédia, entre os sábios pagãos, como aquele que fez o grande comentário.
O Discurso Decisivo teve destino diferente. Não há notícia de tradução latina medieval; circulou em árabe e em hebraico. O texto só ganhou leitores amplos no Ocidente com traduções modernas, como a inglesa de George Hourani, publicada em 1961.
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