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Popper diz que teoria irrefutável não explica nada

Na Lógica da Pesquisa Científica, de 1934, Karl Popper propõe que o valor de uma teoria está no que ela proíbe de acontecer.

Uma placa de vidro fotográfica de eclipse sobre a mesa.

A chapa que podia ter desmentido a teoria

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"Ciência: conjunto de conhecimentos comprovados sobre determinada ordem de fatos" (Houaiss). Na Lógica da Pesquisa Científica, publicada em Viena em 1934, Karl Popper mostra que a palavra comprovado não cabe na frase: nenhuma quantidade de observação favorável comprova uma lei geral, e a definição do dicionário promete um estado que a pesquisa nunca alcança.

A ideia do dia é que teoria que nada refuta não explica nada.

Em 29 de maio de 1919, duas expedições britânicas apontaram câmeras para o Sol encoberto, uma na ilha de Príncipe, na costa africana, outra em Sobral, no interior do Ceará. Mediam a posição aparente de estrelas cuja luz passava rente ao disco solar durante os poucos minutos de escuridão. A relatividade geral previa um desvio de cerca de 1,75 segundo de arco; a mecânica de Newton previa metade daquele valor.

O que interessa a Popper não é o resultado da medição, e sim o formato do teste. As chapas fotográficas podiam ter mostrado o desvio newtoniano, ou desvio nenhum, e a teoria de Einstein estaria destruída numa tarde de maio. Ele arriscou uma previsão que proibia quase todos os resultados possíveis e deixou o pescoço embaixo da lâmina.

Popper tinha dezessete anos naquele ano e circulava por uma Viena onde outras teorias gozavam de prestígio igual. A psicologia individual de Alfred Adler e a leitura marxista da história explicavam qualquer episódio que se apresentasse: o homem que salva uma criança do rio e o homem que a empurra, os dois encaixavam no esquema, cada um com a interpretação pronta na hora. Nenhum acontecimento imaginável as contrariava, e os defensores tomavam essa cobertura total por força.

A diferença entre as duas situações não está no assunto, na quantidade de evidência acumulada nem na inteligência de quem sustenta cada tese. Está numa assimetria de lógica que a seção a seguir desmonta.

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I  A ideia do dia

Um cisne preto derruba o que mil brancos sustentam

A assimetria é elementar e passa despercebida justamente por ser elementar. A frase "todos os cisnes são brancos" fala de um número indefinido de casos, inclusive dos que ninguém observou ainda, então nenhuma soma de aves brancas a torna verdadeira. Um único cisne preto na Austrália a torna falsa de forma definitiva.

Popper transforma essa desigualdade em critério de demarcação. Uma teoria pertence à ciência empírica quando existe pelo menos um resultado observável que, se ocorrer, a derruba. Quando nenhum resultado imaginável a incomoda, ela pode ser interessante, profunda, até verdadeira, mas está fora do jogo em que a experiência tem voto.

O critério não separa verdadeiro de falso nem sentido de absurdo. Separa proposições que se expõem de proposições blindadas, e o autor insiste na distinção porque o Círculo de Viena, ativo na mesma cidade, tratava as sentenças não verificáveis como desprovidas de significado. Popper considerava a astrologia falsa e significativa, e a metafísica muitas vezes fértil.

Daí vem a inversão que dá nome ao método. O valor de uma teoria está no que ela proíbe, não no que ela permite. Quanto mais estados de mundo a teoria declara impossíveis, mais ela diz, mais fácil fica derrubá-la e mais aprendemos quando ela resiste.

Uma teoria que permite qualquer desfecho não descreve mundo nenhum, porque descrever é excluir alternativas

Quem quer estar sempre certo compra a garantia pagando com todo o conteúdo da afirmação

Uma teoria vale pelo que ela proíbe de acontecer, e quem nada proíbe não informa nada sobre o mundo.

"Não exigirei que um sistema científico seja suscetível de ser selecionado em sentido positivo, de uma vez por todas; exigirei que sua forma lógica seja tal que se torne possível selecioná-lo, por meio de provas empíricas, em sentido negativo: deve ser possível refutar pela experiência um sistema científico empírico."

Karl Popper, A Lógica da Pesquisa Científica, seção 6, publicada em 1934.

A consequência incomoda quem procura segurança. Uma teoria que passa por testes duros não fica provada nem mais provável: fica corroborada, palavra que Popper escolheu para dizer apenas que ela sobreviveu às tentativas de assassinato até agora e continua candidata à próxima rodada.

Existe ainda o expediente que o método proíbe. Quando o resultado contraria a previsão, sempre dá para acrescentar uma cláusula que salva a teoria: o experimento tinha falha, o caso era exceção, faltava uma condição não prevista. Popper chama tais remendos de imunizações, e cada um deles compra sobrevida cortando um pedaço do que a teoria proibia.

 
 

II  Quem pensou

O aprendiz de marceneiro que virou Sir Karl

Karl Popper nasceu em Viena em 1902, numa casa onde a biblioteca do pai advogado passava de dez mil volumes e a mãe tocava piano com seriedade profissional. Aos dezesseis anos abandonou o ginásio por achar as aulas lentas demais e foi assistir a cursos avulsos na universidade, sem estar matriculado em nada.

Os anos seguintes foram de trabalho manual e militância. Ele passou meses num movimento juvenil socialista, saiu depois de um confronto de rua em 1919 no qual jovens desarmados foram baleados, trabalhou em creches dirigidas por Alfred Adler e virou aprendiz de marceneiro do mestre Adalbert Pösch, ofício em que se diplomou.

O homem que definiu ciência pela chance de errar aprendeu antes a encaixar madeira, ofício em que o corte errado aparece na hora.

O doutorado veio em 1928, sobre problemas de método na psicologia do pensamento, orientado por Karl Bühler. Ele lecionava matemática e física para adolescentes numa escola secundária e escrevia à noite um manuscrito volumoso sobre o problema da indução, que os editores devolveram pedindo cortes drásticos.

O livro enxuto saiu em 1934, e o lugar da publicação carrega uma ironia inteira. A Lógica da Pesquisa Científica apareceu numa coleção editada por Moritz Schlick e Philipp Frank, ligada ao Círculo de Viena, e a tese central do volume derrubava o verificacionismo que o grupo defendia. Otto Neurath passou a chamar o autor de oposição oficial do Círculo.

A saída da Áustria veio a tempo. Em 1937, com a anexação nazista se desenhando, Popper aceitou um posto no Canterbury University College, em Christchurch, na Nova Zelândia, no outro extremo do planeta. Ele descreveu os oito anos ali como exílio e como o período mais produtivo que teve.

Foi nesse exílio que ele escreveu A Sociedade Aberta e seus Inimigos, terminado em 1943 e publicado em 1945, que chamava de sua contribuição pessoal ao esforço de guerra. O argumento aplica à política a mesma exigência: instituição boa é a que permite trocar quem governa sem violência, ou seja, a que admite correção do próprio erro.

A Escola de Economia de Londres o contratou em 1946, e a cátedra de lógica e método científico veio em 1949. Em janeiro de 1946, num seminário em Cambridge, ele e Ludwig Wittgenstein discutiram aos gritos sobre a existência de problemas filosóficos genuínos, com um atiçador de lareira em cena e versões conflitantes até hoje sobre quem fez o quê.

O reconhecimento formal chegou em 1965, com o título de cavaleiro, e ele passou a assinar Sir Karl. Continuou publicando, brigando com colegas e recebendo alunos até morrer em Londres, em 1994, aos noventa e dois anos.

 

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III  Contra o quê

Kuhn responde que ninguém larga a teoria no primeiro erro

A objeção mais antiga é anterior ao livro. O físico francês Pierre Duhem escreveu em 1906 que nenhum experimento testa uma hipótese sozinha: o que vai a julgamento é a hipótese somada às leis do instrumento, às condições iniciais supostas e a um bloco de suposições auxiliares. Quando o resultado desmente o conjunto, a lógica não aponta qual peça cedeu.

A história da astronomia dá o exemplo perfeito e desconfortável. Urano se movia fora do previsto pela mecânica newtoniana, e ninguém abandonou Newton: astrônomos postularam um planeta desconhecido puxando a órbita, e Netuno apareceu no telescópio em 1846, exatamente onde o cálculo mandava. O mesmo movimento aplicado a Mercúrio produziu o planeta Vulcano, que nunca existiu.

Thomas Kuhn atacou pelo lado histórico em A Estrutura das Revoluções Científicas, de 1962. Observando o que pesquisadores de fato fazem, ele descreveu a rotina normal como resolução de quebra-cabeças dentro de um paradigma: a anomalia não é tratada como refutação, é tratada como problema ainda não resolvido, e a troca de paradigma só acontece quando as anomalias se acumulam e existe alternativa disponível.

Imre Lakatos, aluno e admirador de Popper, tentou salvar o mestre reformulando a unidade de análise em 1970. Não se testa uma teoria isolada, e sim um programa de pesquisa com um núcleo duro protegido por um cinturão de hipóteses auxiliares que absorvem os choques. O programa é progressivo enquanto seus ajustes preveem fatos novos, e degenerativo quando os ajustes só explicam o que já aconteceu.

Paul Feyerabend foi mais longe em Contra o Método, de 1975, e sustentou que nenhuma regra metodológica sobreviveu à história real da física: se Galileu tivesse obedecido ao critério, teria descartado o copernicanismo diante das objeções empíricas legítimas da época.

O próprio caso de 1919 mostra a fresta. As chapas do telescópio astrográfico de Sobral saíram com foco alterado pelo calor e foram descartadas na análise final de Arthur Eddington, que se apoiou nas outras placas. A decisão sobre quais imagens contavam foi tomada por gente com preferência declarada pela relatividade, e o teste-modelo de refutação dependeu de julgamento humano sobre quais dados eram válidos.

Nenhuma dessas objeções apagou a exigência de Popper do vocabulário comum. A pergunta que ele instalou é dizer de antemão qual observação faria a tese cair, e ela virou instrumento de trabalho em comitês de ética, em desenho de ensaios clínicos com desfecho registrado antes da coleta e em tribunais que precisam separar perícia de opinião.

A crítica mostrou que a refutação nunca é automática, e não devolveu ninguém ao conforto de achar que confirmação prova uma teoria.

"Qual resultado faria você abandonar a sua opinião mais firme?"

Numa reunião de terça-feira, alguém apresenta uma explicação para a queda das vendas do trimestre. Se o mês seguinte melhorar, a explicação estava certa e a correção funcionou; se piorar, o mercado estava pior do que se esperava; se ficar igual, o efeito ainda vai aparecer no próximo ciclo. Ninguém na sala pergunta qual número deixaria a explicação de pé no chão.

A tese passou sem um voto contra.

 
 

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