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Plotino pôs o corpo dentro da alma

Em Roma, no século III, um filósofo nascido no Egito inverteu a imagem herdada com uma comparação tirada da luz.

Filósofo envolto em luz diante de um corpo de pedra.

Plotino e a alma, Roma, século III

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Alma: “parte imaterial do ser humano, oposta ao corpo” (Dicionário Houaiss). O verbete descreve duas peças lado a lado e não diz qual guarda a outra.

A resposta comum veio pronta da escola. A alma mora dentro do corpo, como um morador numa casa, e sai dele no fim da vida. Platão tinha dado a imagem mais forte no diálogo Fédon, escrito no século IV a.C.: o corpo funciona como uma prisão, e a alma passa a vida inteira olhando o mundo pelas grades.

Seis séculos depois, numa casa de Roma, um professor de filosofia ouvia a mesma dúvida todos os dias. A casa pertencia a Gemina, uma viúva rica, e as aulas eram abertas a quem aparecesse. Vinham senadores, médicos, um poeta, mulheres da família da dona e gente de passagem.

O professor se chamava Plotino. Não lia um texto pronto. Pegava um comentário antigo sobre Platão ou Aristóteles, lia em voz alta e depois parava, de olhos meio fechados, até achar o caminho do argumento.

O aluno mais famoso dele, Porfírio, conta que passou três dias seguidos fazendo uma única pergunta: de que modo a alma está junto do corpo. Plotino respondeu os três dias, sem pressa. Um ouvinte chamado Taumásio reclamou da demora e pediu um discurso inteiro para anotar. Plotino recusou: sem a pergunta de Porfírio, disse ele, não haveria nada a dizer no papel.

As respostas viraram escrita. Plotino só começou a pôr no papel o que ensinava perto dos 50 anos, com a vista fraca, sem reler nem corrigir a grafia. Porfírio juntou tudo depois e dividiu em seis grupos de nove tratados.

O quarto grupo trata da alma. Ali Plotino testa, uma por uma, as maneiras de algo estar em outro: como num lugar, como num vaso, como parte num todo. Nenhuma serve.

No fim da lista, ele troca a pergunta de lugar e chega a uma resposta tirada da luz do dia.

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I  A ideia do dia

O ar mora dentro da luz

Plotino começa pelo jeito mais simples de estar em algo: o lugar. Um vinho está na jarra porque a jarra o cerca por todos os lados. Para a alma estar no corpo desse modo, ela precisaria ter tamanho e forma, e caber num espaço. Mas a alma não tem tamanho. Se tivesse, metade da alma estaria no pé e metade na cabeça, e ninguém sentiria a dor do pé com a cabeça.

O segundo modo é o da parte no todo. Também falha. A alma não é um pedaço do corpo, como a mão é. Ela está inteira em cada ponto dele, e por esse motivo a dor de um dedo chega inteira à pessoa toda.

O terceiro modo é o mais tentador: a alma como forma do corpo, igual ao desenho de uma estátua está no bronze. Plotino recusa porque o desenho não sai do bronze. A alma, para ele, segue existindo depois que o corpo se desfaz.

Sobra uma imagem tirada da física do tempo. Quando o sol nasce, a luz passa pelo ar inteiro de uma vez. Não se mistura com ele, não se gasta nele e não fica presa nele. Quando o sol se põe, o ar volta a ser o mesmo ar escuro de antes, sem guardar nada.

Quem cede ao outro, nesse quadro, é o ar. Ele recebe a luz e depende dela para ficar claro. A luz não precisa do ar para existir. Daí vem a inversão central do tratado:

“Deve-se dizer, então, que o ar está na luz, e não a luz no ar.”

Plotino, Enéadas IV.3.22, século III

O corpo cabe na alma como o ar cabe na luz.

A consequência muda o desenho da pessoa. A alma deixa de ser o morador escondido no sótão do corpo. Passa a ser o ambiente onde o corpo existe, o campo que o envolve e o mantém vivo. O corpo boia nela, e não o contrário.

Plotino não inventou a imagem do nada. Ele lembra que Platão, no diálogo Timeu, já tinha descrito a alma do universo estendida por fora do corpo do mundo, cobrindo-o como um manto. Plotino estende a mesma lógica a cada pessoa: se a alma do cosmo envolve o cosmo, a alma de alguém envolve o corpo dela.

A inversão resolve um problema antigo. Se a alma estivesse presa num lugar do corpo, seria preciso explicar como ela sente o que acontece longe dali. Estando o corpo dentro dela, todo ponto do corpo já está presente à alma, sem viagem nenhuma.

Num hospital de bairro, o médico pede ao paciente para dizer onde dói. O paciente aponta o joelho. Ninguém pergunta onde fica a pessoa que sente.

 
 

II  Quem pensou

O professor sem retrato

Plotino nasceu por volta de 205 no Egito, então província do Império Romano. O historiador Eunápio, no século IV, aponta a cidade de Licópolis, no vale do Nilo. Plotino mesmo nunca confirmou: recusava falar de pais, de pátria e da data do próprio nascimento.

Porfírio abre a biografia do mestre por esse silêncio:

“Plotino, o filósofo do nosso tempo, parecia envergonhado de estar num corpo.”

Porfírio, Vida de Plotino, por volta de 301

Aos 28 anos, em Alexandria, procurou um professor que o satisfizesse. Saiu decepcionado de várias aulas até um amigo levá-lo a Amônio Sacas, um mestre de quem não sobrou nenhuma linha escrita. Plotino ficou onze anos com ele.

Em 243, juntou-se ao exército do imperador Gordiano III, que marchava contra a Pérsia. Queria conhecer a filosofia dos persas e dos indianos. O imperador foi assassinado pelas próprias tropas na Mesopotâmia, e Plotino escapou a custo até Antioquia.

Chegou a Roma em 244, com cerca de 40 anos. Ficou ali até o fim, ensinando na casa de Gemina. Amigos o escolhiam como tutor dos filhos órfãos e lhe confiavam a herança deles. Ele conferia as contas com cuidado, para os meninos não perderem nada.

Plotino recusou posar para um pintor, e o retrato saiu escondido.

O aluno Amélio queria uma imagem dele. Plotino respondeu que já bastava carregar a imagem que a natureza lhe dera, sem fazer uma imagem da imagem. Amélio então levou o pintor Carterio às aulas. O artista assistiu várias vezes, guardou o rosto na memória e pintou em casa.

Plotino teve um projeto de cidade. Pediu ao imperador Galieno uma cidade abandonada na Campânia, no sul da Itália, para refundá-la sob as leis de Platão, com o nome de Platonópolis. Galieno chegou a aprovar. Homens da corte barraram o plano, por inveja ou desconfiança, segundo Porfírio, e a cidade nunca saiu do papel.

O corpo cobrou caro nos últimos anos. Plotino perdeu a voz, a vista enfraqueceu e as mãos e os pés se cobriram de feridas. Os alunos se afastaram por medo de contágio. Ele se retirou para a propriedade de um amigo na Campânia e se foi em 270, aos 66 anos.

Porfírio publicou os 54 tratados por volta de 301, organizados em seis livros de nove. O título, Enéadas (do grego ennea, nove), vem dessa conta.

 

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III  Contra o quê

A prisão de Platão aberta

O alvo mais próximo da inversão é a leitura literal do próprio Platão. No Fédon, a alma está acorrentada ao corpo e vê o mundo através dele, como um preso. Plotino respeita Platão como mestre, mas lê a prisão como figura de linguagem: o corpo atrapalha a alma, porém não a contém.

O segundo alvo é Aristóteles. No tratado Da Alma, do século IV a.C., ele define a alma como enteléquia (a forma que realiza o corpo vivo) e dá um exemplo famoso:

“Se o olho fosse um animal, a visão seria a sua alma.”

Aristóteles, Da Alma, século IV a.C.

Para Aristóteles, a alma não sobrevive sem o corpo, do mesmo jeito que a visão some quando o olho se desfaz. Plotino recusa essa amarração. A luz não some quando o ar se dispersa.

O terceiro alvo são os estoicos. Para eles, tudo o que age é corpo, inclusive a alma, feita de pneuma (um sopro quente, mistura de ar e fogo). Plotino dedica um tratado inteiro, o IV.7, a mostrar que um corpo não pode pensar nem lembrar: um sopro se divide, e o pensamento chega inteiro.

Se o corpo está na alma, a alma deveria sofrer menos.

A objeção é dele mesmo. Plotino responde com uma tese própria, a da alma não descida. Na Enéada IV.8, escreve que uma parte da alma de cada pessoa nunca desceu ao corpo: segue no plano do Intelecto (nous, a mente que contempla as ideias). Quem sofre, sente fome e se irrita é a parte inferior, a que se ocupa do corpo.

A tese incomodou os discípulos. No século IV, Jâmblico rejeitou a alma não descida e disse que a alma desce inteira. Proclo, no século V, ficou com Jâmblico. Plotino, nesse ponto, ficou quase sozinho entre os herdeiros.

A imagem da luz sobreviveu. Agostinho de Hipona leu Plotino em latim, numa tradução de Mário Vitorino, e escreveu nas Confissões que os livros dos platônicos o ajudaram a pensar Deus sem forma de corpo.

Num quarto de hotel, o hóspede acende a luz. O ar do quarto fica claro por inteiro, de uma vez. Ele apaga a luz antes de dormir.

O ar não guardou nada.

 
 
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