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Pare de fingir dúvida, pediu Peirce em 1877

Em A Fixação da Crença, Charles Sanders Peirce trocou a dúvida de gabinete pela surpresa real, a única capaz de pôr alguém para investigar.

Um homem de roupão escreve diante da lareira, ao lado de um pêndulo.

A dúvida diante do fogo

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Dúvida: “incerteza entre confirmar ou negar um julgamento” (Dicionário Houaiss). Na definição, a dúvida é um estado da cabeça, quase uma escolha. Falta dizer de onde ela vem e por que incomoda.

No inverno de 1619, René Descartes passou dias trancado num quarto aquecido por uma estufa, na Alemanha, a serviço de um exército. Tinha 23 anos e nenhuma obrigação além de pensar. Conta ele mesmo: passava o dia sozinho, sem conversa e sem preocupação para distraí-lo.

Ali, conta ele no Discurso do Método, de 1637, nasceu o plano de duvidar de cada opinião recebida desde a infância. Só ficaria de pé a ideia capaz de resistir ao ataque.

Anos depois, nas Meditações, de 1641, ele encena o plano em primeira pessoa. Sentado perto do fogo, de roupão, com um papel na mão, decide tratar como falsa qualquer crença com a menor sombra de incerteza.

Duvida dos sentidos, porque já o enganaram. Duvida do próprio corpo, porque nos sonhos ele também parecia real. Imagina um gênio maligno (um espírito enganador, poderoso e astuto) ocupado em iludi-lo dia e noite.

Sobra uma certeza: quem duvida está pensando, logo existe. Sobre essa pedra, Descartes reconstrói o resto, de Deus ao mundo e à matemática. A frase entrou nos manuais em latim, cogito, ergo sum (penso, logo existo).

O roupão, porém, nunca saiu do lugar. Descartes duvidava do fogo e continuava se aquecendo nele. Duvidava do papel e seguia escrevendo nele. Nada mudou na sala.

Mais de dois séculos depois, um cientista americano leu a cena e achou o exercício desonesto. A dúvida ali era de papel: ninguém sentado junto a uma lareira acredita de verdade estar sonhando com ela.

O americano ganhava a vida medindo a gravidade da Terra com pêndulos. Conhecia outra espécie de dúvida, a que chega sem convite quando o instrumento marca um número errado e o relatório precisa sair na semana seguinte.

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I  A ideia do dia

A dúvida que coça

A resposta de ontem

Por que Mateolus virou bígamo com um casamento só?

Porque a esposa dele, Perrette, era viúva. O Segundo Concílio de Lyon, em 1274, mandou chamar de bígamo o clérigo casado com viúva e tirar dele os privilégios do clero. Mateolus perdeu as isenções e o foro da Igreja, e escreveu as Lamentações contra o casamento que lhe custou o posto.

Charles Sanders Peirce publicou A Fixação da Crença em novembro de 1877, na Popular Science Monthly (revista mensal americana de divulgação científica). Era o artigo de abertura de uma série de seis chamada Ilustrações da Lógica da Ciência.

O texto começa pela diferença entre duvidar e crer. Segundo Peirce, as duas sensações não se parecem. A crença é calma e satisfeita. A dúvida é desconfortável, e a gente luta para sair dela.

A crença também tem um efeito prático: guia os desejos e molda as ações. Quem crê na ponte atravessa. Quem duvida dela para no meio do caminho, com a mão presa ao corrimão.

“A irritação da dúvida provoca uma luta para alcançar um estado de crença.”

Charles Sanders Peirce, A Fixação da Crença, 1877

Peirce chama essa luta de investigação. A palavra serve ao laboratório e à cozinha. O único objetivo dela, diz o artigo, é fixar uma opinião. Quando a dúvida cessa, a investigação termina, seja a crença verdadeira ou falsa.

Sem incômodo, a investigação nem começa.

Daí o ataque a Descartes. Para Peirce, escrever uma pergunta no papel não basta para duvidar. Sem a irritação, a mente não se mexe, e a investigação vira exercício de retórica.

A dúvida verdadeira nasce de uma surpresa. Peirce define a crença como hábito de ação. Quando o hábito tropeça no mundo, a dúvida aparece, e só então o pensamento trabalha.

O artigo lista quatro maneiras de fixar crenças, da mais tosca à mais firme.

1. Tenacidade: agarrar-se à opinião e fugir de quem a contraria, como o avestruz que enterra a cabeça na areia.

2. Autoridade: deixar o Estado ou a Igreja decidir o pensamento de todos e punir quem diverge.

3. Método a priori (em latim, anterior à experiência): crer no que soa agradável à razão, como nas modas da metafísica.

4. Ciência: deixar a crença ser decidida por algo externo, igual para qualquer investigador que olhe.

Os três primeiros funcionam por algum tempo. A tenacidade falha quando o teimoso descobre vizinhos com opiniões opostas e tão firmes quanto a dele. A autoridade falha quando um povo conhece outro povo, com outros dogmas.

Só o quarto método se corrige sozinho. Os outros protegem a crença da surpresa. A ciência a expõe de propósito, porque a surpresa é o único caminho até a realidade.

Um motorista não revisa os freios toda manhã. Num dia de chuva, o pedal desce mais fundo do costume, e o pé estranha. Ele dirige devagar até a oficina e só sossega quando o mecânico aponta a pastilha gasta.

 
 

II  Quem pensou

O medidor de pêndulos

Charles Sanders Peirce nasceu em 10 de setembro de 1839, em Cambridge, Massachusetts. O pai, Benjamin Peirce, era o matemático mais respeitado de Harvard e treinou o filho em casa, com problemas de lógica e partidas de cartas até tarde da noite.

Aos doze anos, o menino achou no quarto do irmão mais velho um manual de lógica do inglês Richard Whately e o leu em poucos dias. Dali em diante, contava ele, nunca mais pensou em outro assunto.

Formou-se em Harvard em 1859, com notas medianas. Em 1863 voltou à mesma escola e saiu com o diploma de química e a láurea máxima da turma.

O emprego veio do governo. De 1859 a 1891, trabalhou no Coast Survey (o serviço federal de levantamento da costa dos Estados Unidos), primeiro como ajudante e depois como cientista.

A tarefa dele era medir a gravidade com pêndulos, em estações espalhadas pela América e pela Europa. Um pêndulo balança mais rápido onde a gravidade é mais forte, e as diferenças revelam a forma da Terra.

Nos anos 1870, ele percebeu um defeito escondido. O suporte do pêndulo também balançava, de leve, e contaminava as medidas feitas na Europa com o mesmo aparelho.

O erro morava no suporte.

O laboratório marcou a filosofia dele. Toda medida trazia margem de erro, e a medida seguinte podia desmentir a anterior. Peirce deu nome a essa postura: falibilismo (a tese de que qualquer conhecimento pode estar errado).

Em 1872, em Cambridge, ele se reunia com amigos num grupo chamado, meio de brincadeira, de Clube Metafísico. Frequentavam as reuniões William James, futuro psicólogo, e Oliver Wendell Holmes Jr., futuro juiz da Suprema Corte americana.

Ali Peirce apresentou as ideias dos artigos de 1877 e 1878. O segundo, Como Tornar Claras as Nossas Ideias, propôs o teste do pragmatismo (medir o sentido de uma ideia pelos efeitos práticos dela).

O nome só ficou famoso em 1898, quando William James o usou numa palestra na Califórnia e deu o crédito ao amigo. Em 1905, irritado com o uso solto do termo pelos outros, Peirce batizou a própria versão de outro jeito.

“Pragmaticismo, feio o bastante para ficar a salvo de sequestradores.”

Charles Sanders Peirce, O Que é o Pragmatismo, 1905

Os últimos anos foram em Milford, na Pensilvânia, numa casa que ele batizou de Arisbe. Sem salário fixo, escrevia verbetes para dicionários e passava frio nos invernos. William James organizou uma coleta entre amigos para sustentá-lo.

Peirce faleceu em 19 de abril de 1914, com câncer, aos 74 anos. A viúva, Juliette, vendeu os manuscritos ao departamento de filosofia de Harvard, onde estão até hoje.

 

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III  Contra o quê

A dúvida de gabinete

O alvo de Peirce tinha nome antes de 1877. Em 1868, aos 29 anos, ele publicou no Journal of Speculative Philosophy (revista de filosofia especulativa de St. Louis) o artigo Algumas Consequências de Quatro Incapacidades, um ataque frontal ao método de René Descartes.

Descartes queria começar do zero. Peirce respondeu com uma objeção simples: ninguém começa do zero. Todo filósofo chega à mesa com uma pilha de crenças sem saber, e são elas o ponto de partida real.

“Não finjamos duvidar em filosofia daquilo de que não duvidamos em nosso coração.”

Charles Sanders Peirce, Algumas Consequências de Quatro Incapacidades, 1868

A segunda crítica atinge o critério da verdade. Para Descartes, a ideia percebida de modo claro e distinto é verdadeira. Peirce achava o critério solitário demais: cada um consulta a própria clareza e se declara certo.

Descartes buscava a garantia final em Deus: um criador perfeito não deixaria a mente enganada sobre o que ela vê com clareza. Peirce via um círculo no argumento, porque a clareza provava Deus e Deus garantia a clareza.

A certeza de um só não prova nada.

Para Peirce, a verdade é a opinião a ser alcançada pela comunidade dos investigadores se a pesquisa continuasse por tempo suficiente. Nenhum investigador decide sozinho, nem o mais genial.

Peirce não negava a dúvida. Negava a dúvida fabricada por decreto. Quem quer duvidar de verdade precisa sair atrás da surpresa: fazer o experimento, testar a previsão, ouvir quem discorda.

Ele chamava a dúvida real de dúvida viva, e a fingida de dúvida de papel. A viva obriga a mudar de conduta. A de papel deixa a rotina intacta, com o filósofo de roupão diante do fogo.

O artigo de 1877 junta as duas pontas. A dúvida de papel de Descartes não fixa nada. As crenças presas pela tenacidade ou pela autoridade nunca enfrentam a surpresa. A ciência fica entre os extremos: duvida pouco, mas duvida a sério.

Uma cozinheira faz o mesmo bolo há vinte anos e nunca pesou a farinha. Numa tarde úmida, a massa não cresce. Ela troca um ingrediente por vez e só volta à receita antiga quando o bolo sobe de novo.

Dois anos depois do artigo, Peirce virou professor de lógica na Johns Hopkins, em Baltimore, o único cargo universitário da vida dele. No começo de 1884, os curadores o dispensaram. Nunca mais lecionou.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que a Johns Hopkins dispensou Peirce em 1884?

★ RARO

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