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Os vícios privados pagam o salário público
Na Fábula das Abelhas, de 1714, Mandeville sustenta que a riqueza de uma sociedade vem dos apetites que ela condena em público.
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Uma colmeia aberta ao amanhecer
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O Houaiss define vício como defeito grave, desvio moral, mau hábito que degrada quem o tem. A Fábula das Abelhas, que o médico holandês Bernard Mandeville publicou em Londres em 1714, aponta onde essa entrada falha: ela trata o vício como perda pura, e a cidade que o leitor via pela janela funcionava com ele. A vaidade da vizinha sustentava o alfaiate, a gula do fidalgo sustentava o cozinheiro, e o ladrão da esquina sustentava o serralheiro que instalava fechaduras na rua inteira.
A ideia do dia é que virtude privada e prosperidade pública não caminham juntas por natureza. São duas grandezas separadas, e uma sociedade que subisse ao máximo a primeira veria a segunda encolher, porque o apetite que a moral condena é o mesmo apetite que move oficinas, lojas e portos.
Londres tinha então algo como meio milhão de habitantes e era a cidade mais rica da Europa do norte. O Banco da Inglaterra funcionava desde 1694, as ações da Companhia dos Mares do Sul começavam a circular, o açúcar e o tabaco chegavam pelo Tâmisa, e os púlpitos da mesma cidade pregavam frugalidade, sobriedade e desprezo pelo luxo como remédio para a nação.
Mandeville olhou para as duas cenas ao mesmo tempo e recusou a conciliação que todo mundo tentava fazer. Se o luxo é vício, então a prosperidade construída sobre ele é feita de vício, e quem pede as duas coisas ao mesmo tempo está pedindo algo que nunca existiu em lugar nenhum.
O subtítulo do livro entrega o argumento inteiro em quatro palavras, Private Vices, Publick Benefits, em português vícios privados, benefícios públicos. A frase não absolve o vício nem recomenda a trapaça: ela diz qual é o preço da colmeia cheia, e deixa a conta na mesa de quem quiser recusá-lo.
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I A ideia do dia
A colmeia rica que pediu honestidade e foi atendida
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O núcleo do livro é um poema anônimo de 1705, The Grumbling Hive, or Knaves Turn'd Honest, em português A Colmeia Resmungona, ou Os Trapaceiros Que Ficaram Honestos. São 433 versos em dísticos rimados, vendidos em folha avulsa nas ruas de Londres a meio penny, e pirateados quase de imediato por impressores de rua.
O cenário do poema é uma colmeia próspera, populosa e temida pelas vizinhas. Cada ofício aparece com a fraude que lhe é própria: o advogado que alonga a causa para multiplicar a audiência, o médico que troca o cuidado pela pose, o comerciante que falsifica o peso, o funcionário que desvia a verba da obra, o clérigo preguiçoso, o soldado que cobra por batalha de que fugiu.
A colmeia funciona assim e funciona bem. Há emprego para todos, as artes florescem, a frota é grande e a justiça, mesmo torta, corre.
o que o poema mostra acontecendo ao mesmo tempo
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A trapaça individual: cada abelha tira vantagem no seu canto, sem olhar o conjunto
O efeito somado: gasto, encomenda, obra, emprego e imposto circulando pela colmeia inteira
O julgamento público: as mesmas abelhas, no domingo, clamam contra a desonestidade geral
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**Nenhuma abelha quer o resultado que todas produzem juntas, e nenhuma abandona o gesto que produz o resultado.**
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"Assim cada parte era cheia de vício, mas o todo, um paraíso; lisonjeadas em paz, temidas na guerra, eram elas o equilíbrio de todos os outros enxames."
Bernard Mandeville, A Colmeia Resmungona, versos do poema de 1705 recolhido na Fábula das Abelhas, 1714
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O resmungo cresce até virar oração. As abelhas clamam aos céus por honestidade, e Júpiter, irritado com a hipocrisia da queixa, concede o pedido de uma vez: a fraude desaparece da colmeia numa única noite.
O que vem depois ocupa a segunda metade do poema. Os processos terminam, e com eles os advogados, os escrivães e os oficiais de justiça. As prisões esvaziam e os carcereiros ficam sem ofício. O serralheiro perde a freguesia porque ninguém mais precisa de fechadura. Os fidalgos dispensam criados, vendem cavalos, despedem cozinheiros, e o alfaiate fecha a porta porque a vaidade que pagava a roupa nova saiu da colmeia junto com o resto.
O preço dos imóveis desaba, as obras param, a população encolhe. Quando um enxame vizinho ataca, as abelhas remanescentes vencem a guerra, mas saem tão poucas e tão pobres que se recolhem ao tronco oco de uma árvore, onde vivem honestas, frugais e sem nada.
O ponto que Mandeville extrai da fábula não é a defesa da trapaça. É a constatação de que a demanda que sustenta o trabalho de milhões nasce de desejos que ninguém defende em público: aparecer, competir, impressionar, superar o vizinho. Cortar o desejo corta o emprego na mesma tesourada, e quem promete cortar um sem tocar no outro está vendendo uma colmeia que não existe.
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II Quem pensou
O médico holandês que tratava nervos e escrevia panfleto
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Bernard de Mandeville foi batizado em Rotterdam em novembro de 1670, filho e neto de médicos, numa família da elite profissional holandesa. Estudou na Erasmus School da cidade e entrou na Universidade de Leiden, onde defendeu em 1689 uma tese filosófica sobre as operações dos animais e, em 1691, a tese de medicina que o tornou doutor, dedicada às doenças da digestão.
Ele chegou à Inglaterra por volta de 1693, segundo o que declarou depois, para aprender a língua, e acabou ficando pelo resto da vida. Casou em Londres em 1699 com Ruth Elizabeth Lawrence, teve dois filhos, Michael e Penelope, e montou consultório numa especialidade que exigia conversa longa com o paciente: as chamadas paixões hipocondríacas e histéricas, os quadros de nervos, insônia, dor sem causa aparente e abatimento.
Desse consultório saiu o livro de 1711, A Treatise of the Hypochondriack and Hysterick Passions, em português Tratado das Paixões Hipocondríacas e Histéricas, escrito em forma de diálogo entre um médico e um doente. O formato já mostra o que ele fazia melhor: deixar a objeção falar alto antes de responder, e responder sem fechar a porta.
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**A carreira literária dele começou traduzindo fábulas de La Fontaine para o inglês em 1703, e ele nunca abandonou o hábito de esconder a tese dentro de um bicho que fala.**
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Em 1714 Mandeville republicou o poema de 1705 com um aparato em prosa muito maior que os versos: vinte comentários, um por passagem do poema, mais uma investigação sobre a origem da virtude moral e uma defesa do próprio livro. Na edição de 1723 ele acrescentou dois textos longos, um ensaio sobre as escolas de caridade e uma busca sobre a natureza da sociedade, e foi essa edição que provocou o escândalo.
O grande júri do condado de Middlesex denunciou o livro em julho de 1723 como incômodo público, a mesma figura jurídica usada contra bordéis e casas de jogo. A denúncia saiu nos jornais, o London Journal publicou uma carta violenta contra a obra, e o efeito prático foi o previsível: o livro esgotou edições e ganhou um público que os versos de meio penny jamais alcançariam.
Mandeville respondeu sem recuar. Em 1729 publicou uma segunda parte, seis diálogos entre Cleomenes, que defende o livro, e Horatio, o cavalheiro educado que o detesta, e aproveitou a forma para desmontar de perto o leitor que se ofende com a tese e vive dela.
Ele morreu em Hackney, nos arredores de Londres, em janeiro de 1733, aos 62 anos, de gripe, deixando também um texto contra as execuções públicas em Tyburn e outro sobre a regulação dos bordéis. A profissão médica nunca lhe deu fortuna, e o dinheiro da casa vinha de pacientes de nervos e de encomendas de escrita.
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