In partnership with

Filosofia do Dia   Filosofia do Dia
ED 045
{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

Os vícios privados pagam o salário público

Na Fábula das Abelhas, de 1714, Mandeville sustenta que a riqueza de uma sociedade vem dos apetites que ela condena em público.

Uma colmeia de madeira aberta num campo ao amanhecer, com abelhas cobrindo os quadros.

Uma colmeia aberta ao amanhecer

▼
 

O Houaiss define vício como defeito grave, desvio moral, mau hábito que degrada quem o tem. A Fábula das Abelhas, que o médico holandês Bernard Mandeville publicou em Londres em 1714, aponta onde essa entrada falha: ela trata o vício como perda pura, e a cidade que o leitor via pela janela funcionava com ele. A vaidade da vizinha sustentava o alfaiate, a gula do fidalgo sustentava o cozinheiro, e o ladrão da esquina sustentava o serralheiro que instalava fechaduras na rua inteira.

A ideia do dia é que virtude privada e prosperidade pública não caminham juntas por natureza. São duas grandezas separadas, e uma sociedade que subisse ao máximo a primeira veria a segunda encolher, porque o apetite que a moral condena é o mesmo apetite que move oficinas, lojas e portos.

Londres tinha então algo como meio milhão de habitantes e era a cidade mais rica da Europa do norte. O Banco da Inglaterra funcionava desde 1694, as ações da Companhia dos Mares do Sul começavam a circular, o açúcar e o tabaco chegavam pelo Tâmisa, e os púlpitos da mesma cidade pregavam frugalidade, sobriedade e desprezo pelo luxo como remédio para a nação.

Mandeville olhou para as duas cenas ao mesmo tempo e recusou a conciliação que todo mundo tentava fazer. Se o luxo é vício, então a prosperidade construída sobre ele é feita de vício, e quem pede as duas coisas ao mesmo tempo está pedindo algo que nunca existiu em lugar nenhum.

O subtítulo do livro entrega o argumento inteiro em quatro palavras, Private Vices, Publick Benefits, em português vícios privados, benefícios públicos. A frase não absolve o vício nem recomenda a trapaça: ela diz qual é o preço da colmeia cheia, e deixa a conta na mesa de quem quiser recusá-lo.

Continue lendo ↓

 
 

I  A ideia do dia

A colmeia rica que pediu honestidade e foi atendida

O núcleo do livro é um poema anônimo de 1705, The Grumbling Hive, or Knaves Turn'd Honest, em português A Colmeia Resmungona, ou Os Trapaceiros Que Ficaram Honestos. São 433 versos em dísticos rimados, vendidos em folha avulsa nas ruas de Londres a meio penny, e pirateados quase de imediato por impressores de rua.

O cenário do poema é uma colmeia próspera, populosa e temida pelas vizinhas. Cada ofício aparece com a fraude que lhe é própria: o advogado que alonga a causa para multiplicar a audiência, o médico que troca o cuidado pela pose, o comerciante que falsifica o peso, o funcionário que desvia a verba da obra, o clérigo preguiçoso, o soldado que cobra por batalha de que fugiu.

A colmeia funciona assim e funciona bem. Há emprego para todos, as artes florescem, a frota é grande e a justiça, mesmo torta, corre.

o que o poema mostra acontecendo ao mesmo tempo

A trapaça individual: cada abelha tira vantagem no seu canto, sem olhar o conjunto

O efeito somado: gasto, encomenda, obra, emprego e imposto circulando pela colmeia inteira

O julgamento público: as mesmas abelhas, no domingo, clamam contra a desonestidade geral

**Nenhuma abelha quer o resultado que todas produzem juntas, e nenhuma abandona o gesto que produz o resultado.**

"Assim cada parte era cheia de vício, mas o todo, um paraíso; lisonjeadas em paz, temidas na guerra, eram elas o equilíbrio de todos os outros enxames."

Bernard Mandeville, A Colmeia Resmungona, versos do poema de 1705 recolhido na Fábula das Abelhas, 1714

O resmungo cresce até virar oração. As abelhas clamam aos céus por honestidade, e Júpiter, irritado com a hipocrisia da queixa, concede o pedido de uma vez: a fraude desaparece da colmeia numa única noite.

O que vem depois ocupa a segunda metade do poema. Os processos terminam, e com eles os advogados, os escrivães e os oficiais de justiça. As prisões esvaziam e os carcereiros ficam sem ofício. O serralheiro perde a freguesia porque ninguém mais precisa de fechadura. Os fidalgos dispensam criados, vendem cavalos, despedem cozinheiros, e o alfaiate fecha a porta porque a vaidade que pagava a roupa nova saiu da colmeia junto com o resto.

O preço dos imóveis desaba, as obras param, a população encolhe. Quando um enxame vizinho ataca, as abelhas remanescentes vencem a guerra, mas saem tão poucas e tão pobres que se recolhem ao tronco oco de uma árvore, onde vivem honestas, frugais e sem nada.

O ponto que Mandeville extrai da fábula não é a defesa da trapaça. É a constatação de que a demanda que sustenta o trabalho de milhões nasce de desejos que ninguém defende em público: aparecer, competir, impressionar, superar o vizinho. Cortar o desejo corta o emprego na mesma tesourada, e quem promete cortar um sem tocar no outro está vendendo uma colmeia que não existe.

 
 

II  Quem pensou

O médico holandês que tratava nervos e escrevia panfleto

Bernard de Mandeville foi batizado em Rotterdam em novembro de 1670, filho e neto de médicos, numa família da elite profissional holandesa. Estudou na Erasmus School da cidade e entrou na Universidade de Leiden, onde defendeu em 1689 uma tese filosófica sobre as operações dos animais e, em 1691, a tese de medicina que o tornou doutor, dedicada às doenças da digestão.

Ele chegou à Inglaterra por volta de 1693, segundo o que declarou depois, para aprender a língua, e acabou ficando pelo resto da vida. Casou em Londres em 1699 com Ruth Elizabeth Lawrence, teve dois filhos, Michael e Penelope, e montou consultório numa especialidade que exigia conversa longa com o paciente: as chamadas paixões hipocondríacas e histéricas, os quadros de nervos, insônia, dor sem causa aparente e abatimento.

Desse consultório saiu o livro de 1711, A Treatise of the Hypochondriack and Hysterick Passions, em português Tratado das Paixões Hipocondríacas e Histéricas, escrito em forma de diálogo entre um médico e um doente. O formato já mostra o que ele fazia melhor: deixar a objeção falar alto antes de responder, e responder sem fechar a porta.

**A carreira literária dele começou traduzindo fábulas de La Fontaine para o inglês em 1703, e ele nunca abandonou o hábito de esconder a tese dentro de um bicho que fala.**

Em 1714 Mandeville republicou o poema de 1705 com um aparato em prosa muito maior que os versos: vinte comentários, um por passagem do poema, mais uma investigação sobre a origem da virtude moral e uma defesa do próprio livro. Na edição de 1723 ele acrescentou dois textos longos, um ensaio sobre as escolas de caridade e uma busca sobre a natureza da sociedade, e foi essa edição que provocou o escândalo.

O grande júri do condado de Middlesex denunciou o livro em julho de 1723 como incômodo público, a mesma figura jurídica usada contra bordéis e casas de jogo. A denúncia saiu nos jornais, o London Journal publicou uma carta violenta contra a obra, e o efeito prático foi o previsível: o livro esgotou edições e ganhou um público que os versos de meio penny jamais alcançariam.

Mandeville respondeu sem recuar. Em 1729 publicou uma segunda parte, seis diálogos entre Cleomenes, que defende o livro, e Horatio, o cavalheiro educado que o detesta, e aproveitou a forma para desmontar de perto o leitor que se ofende com a tese e vive dela.

Ele morreu em Hackney, nos arredores de Londres, em janeiro de 1733, aos 62 anos, de gripe, deixando também um texto contra as execuções públicas em Tyburn e outro sobre a regulação dos bordéis. A profissão médica nunca lhe deu fortuna, e o dinheiro da casa vinha de pacientes de nervos e de encomendas de escrita.

 

Quem banca a edição de hoje

Free Workshop: Grow Your Newsletter to $10k/Month in 90 Days

We’ve driven over $10M in revenue for our newsletter clients. For the first time, we’re unpacking the plug-and-play system thousands of people are using to turn a small email list into $2k-$10k/month.

If you've tried to grow your email list’s revenue and hit a wall of vague advice like 'post more' or 'engage your audience,' this workshop is built to show you precisely what is working for the top newsletter operators in the world.

We’ll show you how to pick or validate your niche, scale to 1,000 readers, and make your first $10,000 in revenue.

No prior experience, no camera time, and no need to already have a big email list.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  Contra o quê

Contra a virtude natural de Shaftesbury, e o que Adam Smith fez com isso

O adversário declarado tinha nome, título e livro recente. Anthony Ashley Cooper, terceiro conde de Shaftesbury, publicara em 1711 os Characteristicks of Men, Manners, Opinions, Times, em português Características de Homens, Costumes, Opiniões, Tempos, onde sustenta que o homem é sociável por natureza, que existe um senso moral tão espontâneo quanto o gosto pela beleza, e que a virtude agrada por si mesma.

Mandeville atacou a tese pelo ponto mais frágil, o da naturalidade. Se a virtude fosse natural, não precisaria de vinte anos de educação, de elogio público, de prêmio, de reputação e de vergonha para se sustentar. O que se ensina com tanto esforço é exatamente aquilo que não vem de dentro.

A explicação alternativa está na Investigação sobre a Origem da Virtude Moral, o ensaio que abre a parte em prosa. Legisladores e moralistas hábeis descobriram cedo que o elogio é a moeda mais barata do mundo, porque não custa nada a quem paga e vale muito para quem recebe. Dividiram então os homens entre os nobres, que dominam os próprios apetites, e os vis, que cedem a eles, e deixaram o orgulho fazer o trabalho de polícia de graça.

As respostas vieram de todos os lados durante vinte anos. O clérigo William Law publicou em 1724 as Remarks upon a Late Book, em português Observações sobre um Livro Recente; o bispo George Berkeley pôs um personagem inspirado em Mandeville no diálogo Alciphron, de 1732; o filósofo Francis Hutcheson escreveu contra a tese em cartas no Dublin Journal de 1726.

O caso mais interessante veio de Glasgow. Adam Smith dedicou à Fábula das Abelhas uma seção inteira da Teoria dos Sentimentos Morais, publicada em 1759, onde chama o sistema de licencioso e o acusa de confundir todo desejo com vaidade. E concede, na mesma seção, que um sistema tão errado não teria enganado tanta gente se não confinasse de perto com a verdade.

Um mal-entendido corrente merece reparo. Mandeville não prega que o governo tire as mãos da economia: o que sustenta a colmeia próspera, no texto dele, é a administração hábil de um legislador que canaliza apetites privados para fins públicos, com lei, imposto e regulação. A fábula descreve um arranjo político, não um mercado que se corrige sozinho.

A tese voltou a circular no século XX por um caminho que Mandeville não previu. John Maynard Keynes citou a fábula num capítulo da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, publicada em 1936, para dizer que a frugalidade geral numa economia parada derruba a demanda e o emprego de todo mundo, que é o enredo do poema traduzido em linguagem de economista.

**A fábula não pede que você aprove a vaidade alheia: pede que você diga quem pagaria a conta da cidade no dia em que ela acabasse.**

"Que gasto alheio você chamou de fútil esta semana sem perguntar quem vive dele?"

Numa sexta de manhã, num salão de bairro, uma cliente comenta com a cabeleireira que as pessoas hoje gastam demais com aparência. Está na terceira retoque de raiz do ano, e é com esse dinheiro que a cabeleireira paga a escola da filha.

A agenda de sábado está cheia.

 
 
Contra-Golpe de Schopenhauer. Oito famílias, uma por dia, no ebook e no app. Quero o ebook + app.

Quero o ebook + app →

 
Quiz da edição

Em que ano o grande júri do condado de Middlesex denunciou A Fábula das Abelhas como incômodo público?

A1705
B1714
C1723
D1729

Resultado da última edição: 100% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🦉🦉🦉🦉🦉  ótima 🦉🦉🦉🦉  boa 🦉🦉🦉  ok 🦉🦉  ruim 🦉  péssima
 
Recomendação de Newsletter
A Origem das Palavras

A Origem das Palavras

Todo dia, 12:12. Uma palavra que você usa sem pensar revela séculos de história escondida, em dois minutos de leitura.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Indique essa newsletter para um amigo

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
Edição de Colecionador do mês
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook Contra-Golpe de Schopenhauer
ebook Contra-Golpe de Schopenhauer

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
 
 
 

Amanhã, outra ideia grande.

Filosofia do Dia

FILOSOFIA DO DIA

Uma ideia grande por dia

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter