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ED 046
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Os dois amores que Rousseau separou

No Discurso sobre a Desigualdade, de 1755, Rousseau separa o amor que só quer viver do amor que precisa do olhar dos outros.

Uma cadeira de madeira vazia diante de uma janela, com a sombra longa do fim de tarde sobre o assoalho.

A cadeira vazia diante da janela

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O Houaiss registra amor-próprio como sentimento da própria dignidade, brio, e também como a vaidade que se fere fácil. O Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, que Jean-Jacques Rousseau publicou em Amsterdã em 1755, aponta onde a entrada falha: ela guarda numa palavra só duas forças que o livro inteiro trabalha para separar. Uma quer que você continue vivo. A outra quer que você fique acima do vizinho, e as duas raramente pedem a mesma coisa no mesmo dia.

A ideia do dia é que o apetite de se conservar e o apetite de ser preferido nascem de lugares diferentes. O primeiro vem com o corpo e se satisfaz quando a fome passa, quando o frio para, quando o perigo some. O segundo vem da vida em comum, da comparação, e não tem ponto de saciedade: ele depende da posição que os outros me dão, e essa posição muda toda vez que alguém novo entra na sala.

O francês oferecia as duas expressões prontas, e Rousseau fixou a diferença numa nota no fim do volume, a nota XV, em pouco mais de dez linhas. Amour de soi, amor de si, é o sentimento natural que leva todo animal a cuidar da própria conservação. Amour-propre, amor-próprio, é um sentimento relativo, artificial, nascido na sociedade, que leva cada pessoa a fazer mais caso de si do que de qualquer outra.

A distinção muda o diagnóstico inteiro. Se a raiz do mal social fosse o apetite de viver, não haveria conversa possível, porque ninguém desliga a fome. Se a raiz é a comparação, ela tem cena de origem, e tudo que veio depois se descreve como consequência.

Rousseau situa essa cena numa festa. Cabanas próximas, gente reunida à noite diante das portas, canto e dança, e o instante em que os olhos passam a medir quem canta melhor e quem é mais forte. Aquela noite, no livro, pesa mais que qualquer guerra.

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I  A ideia do dia

A dança diante das cabanas, e o olhar que começou a medir

A primeira parte do Discurso descreve um homem que nunca existiu: o selvagem solitário, errante pela floresta, sem casa, sem linguagem estável, sem guerra e sem propriedade. Rousseau avisa no prefácio que constrói esse estado como hipótese, do jeito que um físico constrói um plano sem atrito para enxergar a força que estuda.

Esse homem tem duas molas. A primeira é o cuidado da própria conservação, que ele compartilha com qualquer bicho. A segunda é a piedade, a repugnância natural em ver sofrer um semelhante, que Rousseau descreve como anterior a toda reflexão e visível até nos animais quando um deles passa perto de um corpo ferido.

Falta nele exatamente aquilo que a moral costuma cobrar e aquilo que a moral costuma condenar. Sem comparação, não há vaidade, inveja, desprezo nem vergonha. Também não há virtude, porque virtude supõe escolha entre deveres, e esse homem não tem deveres nem vizinhos.

o caminho que a segunda parte descreve, passo a passo

A vizinhança: cabanas fixas, famílias, gente que passa a ver as mesmas pessoas todos os dias

A festa: canto e dança diante das portas, e o olhar que compara quem canta, quem dança, quem é mais forte

A estima: cada um passa a querer ser olhado, e o valor que os outros dão vira uma posse a defender

**O selvagem vive em si mesmo; o homem social vive sempre fora de si, e só sabe viver na opinião alheia.**

"Cada um começou a olhar os outros e a querer ser olhado ele mesmo, e a estima pública teve um preço. Aquele que cantava ou dançava melhor, o mais belo, o mais forte, o mais hábil ou o mais eloquente passou a ser o mais considerado, e esse foi o primeiro passo rumo à desigualdade e ao vício ao mesmo tempo."

Jean-Jacques Rousseau, Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, segunda parte, 1755

A cena da festa não é decadência moral de ninguém. É a instalação de um mecanismo novo: a partir dela, cada pessoa carrega uma segunda existência, feita do que os outros pensam dela, e essa existência pode ser ferida sem que um dedo toque no corpo.

O resto da segunda parte é a consequência somada. A metalurgia e a agricultura repartem a terra, o trabalho pede divisão, e a lei chega favorecendo quem tem mais a proteger. Rousseau escreve que o homem que cercou um terreno, disse que aquilo era dele e encontrou gente simples o bastante para acreditar fundou a sociedade civil.

O ponto que ele extrai da sequência não é o elogio da floresta. É a constatação de que a desigualdade que dói não é a de força ou de idade, distribuída pela natureza sem intenção, mas a de prestígio e poder, que depende de convenção humana e por isso pode ser discutida por humanos.

 
 

II  Quem pensou

O genebrino que respondeu a um concurso e ficou com a resposta

Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra em 28 de junho de 1712, filho do relojoeiro Isaac Rousseau e de Suzanne Bernard, que não resistiu às complicações do parto e o deixou órfão de mãe na primeira semana. O pai criava o menino lendo romances com ele à noite e, depois de uma briga com um oficial em 1722, fugiu da cidade para escapar da prisão.

Aprendiz de gravador, espancado pelo mestre, ele encontrou as portas da cidade fechadas ao voltar tarde de um passeio numa noite de março de 1728 e sumiu. Tinha 16 anos. Foi acolhido em Annecy por Françoise-Louise de Warens, treze anos mais velha, que o converteu ao catolicismo, financiou a educação dele e virou protetora, patroa e amante por uma década.

Em Paris, nos anos 1740, ele tentou entrar pela música. Apresentou à Academia de Ciências um sistema de notação por números, recusado, escreveu a ópera Le Devin du Village, encenada diante do rei em 1752, e assinou os verbetes de música da Enciclopédia de Diderot e d'Alembert.

**A vida dele foi uma sequência de ofícios malsucedidos, e a filosofia entrou como resposta a um anúncio de jornal.**

Em outubro de 1749, a caminho de Vincennes para visitar Diderot preso, ele abriu o Mercure de France e leu a pergunta que a Academia de Dijon propunha para concurso: se o restabelecimento das ciências e das artes contribuiu para depurar os costumes. Escreveu que a leitura o atingiu como iluminação, sentou sob uma árvore e chorou. O texto que saiu daí, o Discurso sobre as Ciências e as Artes, venceu o prêmio em 1750 e o tornou célebre.

O segundo concurso de Dijon, anunciado em 1753, perguntava qual é a origem da desigualdade entre os homens e se ela é autorizada pela lei natural. Rousseau escreveu a resposta num retiro na floresta de Saint-Germain, entregou um texto longo demais para o gosto dos juízes e perdeu o prêmio.

O livro recusado saiu em Amsterdã em 1755, pelas mãos do editor Marc-Michel Rey, com uma dedicatória longa à República de Genebra, cidadania que ele fazia questão de estampar na folha de rosto. A obra correu a Europa letrada e nunca parou de circular.

Sete anos depois vieram o Emílio e o Contrato Social, os dois em 1762, condenados pelo Parlamento de Paris e pelas autoridades de Genebra, com ordem de prisão e queima pública dos exemplares. Rousseau passou os dezesseis anos seguintes mudando de refúgio, escrevendo as Confissões e copiando partituras por página para pagar as contas, até os dias finais em Ermenonville, em julho de 1778.

 

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III  Contra o quê

Contra Hobbes, contra o pecado original, e a correção que Voltaire não leu

O adversário principal do Discurso tinha um nome e um livro de cem anos antes. Thomas Hobbes publicara o Leviatã em 1651, com a tese de que o estado de natureza é guerra de todos contra todos, e de que a paz só começa quando cada um entrega a força a um soberano capaz de impor medo.

Rousseau aceita o método e recusa o retrato. A objeção dele é de cronologia: Hobbes descreveu um homem natural cheio de orgulho, cálculo e desejo de reputação, que são paixões aprendidas em sociedade, e depois usou essas paixões para explicar por que a sociedade precisou nascer. O pintor pôs na tela o resultado e chamou de ponto de partida.

A piedade entra como contraprova. Se a compaixão diante do sofrimento alheio é anterior à razão, o homem sem sociedade não é feroz: ele é tímido e indiferente, e se afasta do conflito porque não tem nada acumulado que valha uma briga.

O segundo adversário é teológico e não está nomeado em todas as páginas. A doutrina do pecado original, firmada por Agostinho de Hipona no século V, ensina que o mal entrou no mundo pela vontade humana corrompida desde a origem, e que cada criança já chega com a herança. Rousseau desloca a culpa para a instituição: o homem nasce bom e as relações o estragam, o que retira do teólogo a explicação e entrega o problema ao legislador.

Os pastores de Genebra mediram a consequência dessa troca, e a condenação de 1762 veio por essa porta, não pela política. O arcebispo de Paris, Christophe de Beaumont, assinou naquele ano uma carta pastoral contra o Emílio, e Rousseau respondeu em 1763 defendendo a bondade natural como peça central de tudo que tinha escrito.

A resposta mais famosa veio de Ferney. Voltaire agradeceu o exemplar numa carta de 30 de agosto de 1755, escreveu que recebia o novo livro contra o gênero humano, que jamais alguém empregou tanto talento para nos tornar bestas, e que a leitura dava vontade de andar de quatro. Rousseau replicou que nunca propôs voltar à floresta: o livro descreve um caminho, não um destino a refazer.

**O Discurso não pede que você despreze a estima alheia: pede que você saiba qual dos dois amores está falando quando você se sente ofendido.**

Um mal-entendido corrente merece reparo. Amor-próprio não é condenação sem apelo na obra de Rousseau. No Emílio, de 1762, o mesmo sentimento vira energia que o educador conduz: a estima buscada com justiça se converte em desejo de ser digno dela, e o aluno passa a medir-se por um padrão em vez do vizinho.

Immanuel Kant guardava um retrato de Rousseau na parede do gabinete em Königsberg e anotou que aquela leitura o corrigiu, tirando dele a arrogância de achar que o saber valia mais que o homem comum.

"Qual dos dois amores pediu sua última compra?"

Numa mesa de bar, na sexta à noite, um homem conta ao grupo o salário do emprego novo. Ninguém pergunta quanto ele ganhava antes, e a conversa segue para o futebol enquanto o copo dele esvazia.

Ele repetiu o número.

 
 
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Quiz da edição

Onde Rousseau fixou a separação entre amor de si e amor-próprio no Discurso sobre a Desigualdade?

ANo prefácio da obra
BNuma carta enviada à Academia de Dijon
CNuma nota de rodapé, a nota XV, no fim do volume
DNo título da segunda parte

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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