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Suponha uma máquina capaz de entregar qualquer experiência que você desejasse.
Um time de neurocientistas estimularia o seu cérebro para que você pensasse e sentisse estar escrevendo um grande romance, fazendo um amigo ou lendo um livro interessante. O tempo todo você estaria flutuando num tanque, com eletrodos presos à cabeça.
O texto original chama os técnicos de superduper, num tom de brincadeira que esconde o rigor da montagem. Nada na máquina falha, nada trava, nenhuma imagem sai borrada.
As cláusulas importam mais que a promessa. Você não entra para sempre de uma vez: contrata dois anos de experiências por vez e, ao fim de cada período, sai por dez minutos, ou dez horas, para escolher o pacote seguinte.
A escolha nem depende da sua imaginação. Existe uma biblioteca com as experiências de outras pessoas, e você monta os próximos dois anos como quem serve um prato num bufê.
Dentro do tanque, nada denuncia o tanque. Você não lembra que assinou nada, não desconfia da fonte, não sente textura de simulação. Para quem está lá dentro, aquilo é a vida acontecendo.
A objeção mais comum morre na largada. Quem se preocupa com quem fica de fora pode relaxar, porque todo mundo também pode entrar, e ninguém sente falta de ninguém.
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A máquina cumpre tudo que promete. A única coisa que ela não entrega é o mundo do lado de fora.
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Com a oferta na mesa e as objeções fáceis fora do caminho, a resposta quase unânime continua sendo não. O trabalho do argumento começa aí: descobrir o que sustenta a recusa.
A primeira razão é a diferença entre fazer e sentir que fez. A pessoa não quer a sensação de escrever o romance, quer o romance escrito, e a máquina entrega apenas metade da frase.
A segunda razão é sobre ser alguém. Quem flutua no tanque não é corajoso nem covarde, não é generoso nem mesquinho, porque não há gesto nenhum para sustentar o adjetivo. Sobra uma massa indeterminada ligada na tomada.
A terceira razão é a mais larga. Dentro do tanque, o teto do mundo é o teto da imaginação humana que programou o pacote, e qualquer contato com uma realidade mais funda fica cortado.
O argumento ainda coloca mais duas máquinas na mesa, para fechar as saídas. Uma transforma você em qualquer tipo de pessoa que quisesse ser, e a outra produz no mundo qualquer resultado que você produziria.
Mesmo com as três ligadas, alguma coisa continua faltando, e o nome dela é simples: viver a própria vida em vez de recebê-la pronta.
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