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ED 041
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O susto que chega antes do cálculo

No livro Mêncio, do século IV a.C., o filósofo chinês usa quem vê uma criança perto de um poço para sustentar que a natureza humana tende ao bem.

Um poço de pedra aberto no chão de terra, com luz lateral de fim de tarde.

A boca aberta de um poço de aldeia

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"Compaixão: sentimento de pena, de piedade pelo sofrimento alheio" (Houaiss). O livro Mêncio, conjunto de conversas do filósofo chinês Meng Ke compiladas por discípulos no século IV a.C., descreve outra coisa: um sobressalto do corpo, anterior à pena e anterior a qualquer juízo, que aparece em quem não conhece o sofredor e ainda não terminou de pensar.

A ideia do dia é que a bondade não entra na pessoa de fora, e a prova estaria numa reação rápida demais para caber num cálculo de interesse.

A cena escolhida por ele é doméstica e cabe em duas linhas. Alguém, de repente, vê uma criança pequena engatinhando na direção da boca de um poço. Antes de decidir qualquer movimento, o corpo já respondeu com alarme e aperto. Mêncio chama esse estado de ce yin zhi xin (coração que não suporta o sofrimento do outro), e insiste que ele aparece em qualquer pessoa, sem treino e sem aviso.

O detalhe do poço não é decorativo. Na China dos Reinos Combatentes, o poço da aldeia era aberto no chão, sem mureta alta e sem tampa, e a queda de uma criança pequena ali era acidente comum o bastante para que qualquer ouvinte soubesse do que o professor estava falando, sem precisar de explicação.

A força do argumento está no que a cena exclui. Quem sente o aperto não está calculando amizade com os pais da criança, não está atrás do elogio dos vizinhos e do povoado, e não está querendo evitar o desconforto de ouvir o grito. As três exclusões estão escritas no texto, uma a uma, e existem para separar a reação de qualquer vantagem possível.

O que sobra, depois de retiradas as três vantagens, é o ponto de partida do livro inteiro. Desse susto Mêncio deriva quatro começos morais que todo mundo já traria de nascença, compara a natureza a uma tendência física e passa o resto da obra discutindo com quem dizia que o bem é enxertado de fora, por educação e por medo da punição.

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I  A ideia do dia

Quatro brotos antes de qualquer cálculo

O susto diante do poço não é o fim do argumento, é a amostra grátis. Mêncio usa a reação para afirmar a existência de quatro disposições iniciais, que o texto chama de duan (começos, ou brotos), presentes em toda pessoa da mesma forma que ela tem quatro membros.

A lista é curta e cada broto aponta para uma virtude adulta. O aperto diante do sofrimento é o começo do ren (benevolência). A vergonha do próprio erro e a aversão ao erro alheio começam o yi (retidão). O impulso de ceder a vez e o lugar começa o li (ritual, o comportamento devido). O reflexo de aprovar uma conduta e reprovar outra começa o zhi (sabedoria).

A palavra broto carrega o limite da tese. Broto não é planta, e Mêncio nunca afirma que as pessoas são boas: afirma que elas começam boas e que a maldade adulta exige explicação, porque não estava no ponto de partida.

Os quatro brotos

Aperto diante do sofrimento alheio: começo do ren, a benevolência

Vergonha do próprio erro: começo do yi, a retidão

Impulso de ceder o lugar: começo do li, a conduta devida

Reflexo de aprovar e reprovar: começo do zhi, a sabedoria

**Broto não é planta: a tese é sobre o ponto de partida, e não sobre o que a pessoa vira depois de quarenta anos.**

"Todo homem tem um coração que não suporta ver o sofrimento dos outros. Quem vê de repente uma criança prestes a cair num poço sente alarme e aflição, não por ter amizade com os pais dela, nem por querer elogio dos vizinhos e dos amigos, nem por detestar o barulho do choro."

Mêncio, livro Mêncio, capítulo 2A6, compilado na China no século IV a.C.

A explicação da maldade vem por uma imagem de terreno. O Monte Niu, perto da capital do estado de Qi, já teve mata fechada; machados cortaram as árvores todo dia, e gado e ovelhas comeram os rebentos que a chuva e o orvalho faziam nascer de noite. Quem passa hoje e vê a pedra pelada conclui que ali nunca houve floresta. A conclusão é falsa, e a falha está na hora da visita.

Contra Gaozi, que dizia ser a natureza humana como água sem preferência por leste ou oeste, Mêncio aceita a comparação e acrescenta uma direção: água não distingue leste de oeste, distingue alto de baixo, e corre sempre para baixo quando ninguém empurra. Represada, ela sobe acima da testa de um homem; jogada com força, passa por cima de uma montanha. Nada disso é a natureza dela, é a força aplicada.

Daí sai a única pedagogia que o livro admite. Ninguém instala a benevolência numa pessoa, porque a semente já está plantada; o trabalho é irrigar, tirar o gado e esperar. Mêncio conta o caso do camponês de Song que, impaciente com o crescimento lento, puxou cada muda para cima com a própria mão, voltou cansado para casa dizendo que tinha ajudado as plantas, e no dia seguinte encontrou o campo inteiro seco.

 
 

II  Quem pensou

O professor itinerante que os reis ouviam sem obedecer

Meng Ke nasceu por volta de 372 a.C. em Zou, um estado pequeno vizinho a Lu, onde Confúcio havia nascido cerca de um século e meio antes. O nome pelo qual o Ocidente o conhece, Mêncio, é a latinização de Mengzi (mestre Meng), feita por missionários jesuítas no século XVII.

O pai morreu cedo e a tradição atribui a formação dele à mãe. A história mais repetida na China conta que ela mudou de casa três vezes, saindo da vizinhança de um cemitério e depois de um mercado, até se fixar ao lado de uma escola, porque o menino imitava o que via. O relato aparece em coletâneas posteriores e funciona como retrato moral, não como documento da época.

A formação intelectual dele veio da linhagem de Zisi, neto de Confúcio, com quem Mêncio teria estudado por intermédio de discípulos. O período é o dos Reinos Combatentes, quando os estados guerreavam entre si e contratavam conselheiros que prometessem vantagem militar ou fiscal imediata.

Mêncio ofereceu o contrário. Passou décadas viajando entre Qi, Liang, Teng e Song com uma comitiva de alunos e carroças, propondo aos governantes um programa de impostos baixos, campos bem repartidos e escolas, com o argumento de que um povo sem meio de vida estável não mantém conduta estável. Foi recebido com honras, ouvido com atenção e, na prática, não obedecido por nenhum deles.

**A obra é um registro de conversas: perguntas de reis, respostas ríspidas do professor e debates com adversários que ele cita pelo nome.**

O episódio mais conhecido dessas audiências é com o rei Xuan de Qi. O rei tinha visto um boi tremendo a caminho do sacrifício ritual, mandou soltá-lo e substituí-lo por um carneiro. Mêncio pegou a cena e usou contra ele: quem se comove com um boi que vê tem o broto funcionando, e o problema do reino não é falta de coração, é o coração que não chega ao povo que o rei não vê.

Ele também sustentou, diante de governantes, que o povo vem primeiro, os deuses da terra e do grão depois, e o soberano por último, e que matar um tirano não é matar um rei, é punir um sujeito comum. A tese rendeu problema muito depois: no século XIV, o imperador Hongwu mandou cortar dezenas de passagens do livro na edição usada nos exames.

Morreu por volta de 289 a.C., já velho, em data que as fontes antigas não fixam com precisão, e a biografia mais antiga que sobrou, escrita por Sima Qian no século I a.C., ocupa poucas linhas. No século XII, Zhu Xi colocou o Mêncio entre os Quatro Livros do currículo confucionista, e o texto virou leitura obrigatória nos exames imperiais chineses até a extinção deles, em 1905.

 

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III  Contra o quê

Xunzi responde que a natureza é torta, e a discussão continua

A objeção mais dura veio de dentro da própria escola confucionista, uma geração depois. Xunzi abre o capítulo Xing E (a natureza humana é má) afirmando que a pessoa nasce com apetite, inveja e ouvido atento ao próprio ganho, e que tudo o que existe de bom nela é wei, termo que ele usa no sentido de artifício deliberado, resultado de trabalho e não de nascimento.

Para Xunzi, a madeira torta precisa de prensa e vapor para ficar reta, e a lâmina cega precisa de pedra. Se a natureza já bastasse, ritual e lei seriam supérfluos, e a existência dos dois prova que alguém teve de inventá-los contra a inclinação natural. Ele acusa Mêncio de confundir o que a pessoa pode vir a ser com o que ela já é.

O adversário anterior, Gaozi, tinha atacado por outro ângulo. Comparou a natureza ao salgueiro e a moralidade a taças e travessas feitas da madeira dele: para haver taça, o marceneiro corta e dobra. Mêncio respondeu que uma taça exige violentar o salgueiro, e que quem descreve assim a virtude está dizendo que a benevolência mutila a pessoa.

Uma terceira objeção não depende de escola nenhuma e sobrevive até hoje: um impulso de dois segundos diante de um poço não prova disposição estável. Reagir a uma criança à vista é diferente de sustentar conduta decente diante de quem está longe, de quem é inimigo, ou quando ajudar custa caro. Kwong-loi Shun examinou a distância entre broto e virtude em Mencius and Early Chinese Thought, publicado em 1997, e Bryan W. Van Norden voltou ao ponto em Virtue Ethics and Consequentialism in Early Chinese Philosophy, de 2007.

A defesa possível segue a mesma linha do resto do livro. Mêncio nunca prometeu que o broto vira árvore sozinho; a tese dele é sobre a direção inicial, e a distância entre a reação e o caráter é justamente o trabalho de cultivo que ele passou a vida propondo aos reis. O que continua devendo explicação é por que tanta gente, com o mesmo ponto de partida, termina em lugares tão diferentes.

**Mêncio e Xunzi discordam sobre a origem e concordam sobre a exigência: os dois pedem uma vida inteira de trabalho sobre si.**

"O que você faria no meio segundo antes de conseguir pensar?"

Numa quarta-feira de manhã, no corredor de um mercado de bairro, um homem empurra o carrinho e vê uma criança de uns dois anos escalando a prateleira de vidros de conserva, com a mãe três metros atrás, de costas, escolhendo arroz. Ele não conhece nenhum dos dois, não tem filho, está atrasado para o trabalho e não vai ganhar nada com o que fizer nos próximos segundos.

O braço dele chegou antes da frase.

 
 
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Segundo o texto, por que o rei Xuan de Qi mandou soltar o boi que seria usado no sacrifício ritual?

APorque um conselheiro pediu clemência pelo animal
BPorque faltou boi suficiente para completar o ritual
CPorque viu o boi tremendo a caminho do sacrifício
DPorque o boi era considerado sagrado naquele templo

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