|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
O que a etiqueta de preço não conta
Em O Capital, de 1867, Marx mostra como o trabalho de quem produz some atrás do preço e parece virar qualidade do próprio objeto.
|
A etiqueta pendurada na manga
|
| ▼ |
| |
|
O Houaiss registra fetiche como objeto a que se atribui poder sobrenatural e a que se presta culto. Karl Marx tomou a palavra emprestada em 1867, no primeiro volume de O Capital, e mostrou onde a definição falha: ela supõe um devoto ingênuo diante de um ídolo de madeira, quando o culto mais eficiente da era moderna acontece no balcão da loja, praticado por gente que se considera racional.
A palavra tem origem portuguesa. Navegadores que comerciavam na costa da Guiné, no século XV, chamavam de feitiço os amuletos que os povos locais veneravam. O francês Charles de Brosses transformou o termo em conceito em 1760, no livro Do Culto dos Deuses Fetiches, e o vocabulário europeu passou a usá-lo para descrever a religião dos outros.
Marx virou o espelho. O europeu que ria do amuleto alheio, escreve ele, faz o mesmo gesto com o dinheiro e com os produtos que compra: atribui a eles uma força que pertence às pessoas. O preço de um casaco parece brotar do casaco, como o peso ou a cor, e ninguém enxerga ali as horas de trabalho do tecelão e do alfaiate.
O conceito cabe numa seção curta, a quarta do capítulo de abertura, com o título O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo. São poucas páginas num volume de centenas, e ainda assim elas viraram a porta de entrada de boa parte da filosofia social do século XX.
O ponto de partida é um objeto qualquer de madeira. Enquanto serve para apoiar pratos, uma mesa segue sendo madeira trabalhada, nada de misterioso. Basta levá-la ao mercado para ela ganhar um valor que parece morar dentro dela, e Marx dedica a seção inteira a explicar de onde vem esse valor e por que ele se esconde. A resposta começa numa distinção antiga, que já estava em Aristóteles.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A ideia do dia
A mesa que começa a dançar
|
|
O Capital retoma a distinção grega logo nas primeiras páginas. Todo produto tem valor de uso, a utilidade concreta de um casaco para aquecer ou de um pão para alimentar. Quando entra no mercado, ganha também valor de troca, a proporção em que ele se troca por outro produto: um casaco por vinte metros de linho, por exemplo.
Utilidade não explica a proporção. Casaco e linho servem para fins diferentes, e ainda assim alguém aceita a troca como justa. Marx pergunta o que os dois têm em comum para serem comparáveis, e a resposta dele é o trabalho humano gasto em cada um, medido pelo trabalho socialmente necessário, o tempo médio que a sociedade leva para fabricar aquele item com as ferramentas da época.
Até aqui ele segue os economistas ingleses. A virada está na pergunta seguinte: se o valor é trabalho, por que ninguém o percebe assim? Quem compra um casaco não pensa no alfaiate. Pensa no preço, e o preço aparece como atributo do casaco.
A explicação está no modo como o trabalho se organiza. Numa economia de mercado, cada produtor trabalha isolado, e o único contato entre eles acontece no instante da troca. A relação entre as pessoas só existe na forma de uma relação entre produtos que se trocam por um valor.
o caminho do trabalho até o preço, na sequência da seção
|
O alfaiate e o tecelão trabalham separados, sem combinar nada um com o outro
Os dois levam o produto ao mercado, e ali os produtos se comparam pelo preço
O vínculo que une os trabalhadores só aparece como proporção entre casaco e linho
|
|
O preço é uma relação entre pessoas que se apresenta com a cara de um objeto.
|
|
"Assim se passa no mundo das mercadorias com os produtos da mão humana. Chamo a isto fetichismo, que adere aos produtos do trabalho tão logo são produzidos como mercadorias, e que é inseparável da produção de mercadorias."
Karl Marx, O Capital, livro I, capítulo 1, 1867
|
A imagem mais citada da seção é a da mesa. Como produto útil, ela fica de pé sobre as quatro pernas. Como mercadoria, escreve Marx, ela se ergue sobre a cabeça diante dos outros produtos e tira do cérebro de madeira ideias mais estranhas do que se começasse a dançar por conta própria.
A comparação com a religião vem logo depois. Nas crenças antigas, os produtos da cabeça humana parecem ter vida própria e conversam entre si e com as pessoas. No mercado, os produtos da mão humana fazem o mesmo papel, e a oscilação dos preços chega ao produtor como se fosse clima.
O engano, para Marx, tem base real. O fetichismo não é ilusão de quem pensa mal: numa sociedade que só se conecta pela troca, o valor funciona de fato como força independente, e o produtor sofre os movimentos do mercado sem controle sobre eles.
|
|
|
|
|
II Quem pensou
O doutor de Trier que escreveu no Museu Britânico
|
|
Karl Heinrich Marx nasceu em Trier, na Renânia, em 5 de maio de 1818, filho do advogado Heinrich Marx, de família judia convertida ao protestantismo para manter o cargo sob as leis prussianas. Estudou direito em Bonn e em Berlim, trocou o direito pela filosofia de Hegel e se doutorou em 1841 pela Universidade de Jena, com uma tese sobre Demócrito e Epicuro.
A carreira universitária fechou antes de abrir, porque o governo prussiano afastava das cátedras os jovens hegelianos de esquerda. Marx virou jornalista e assumiu em 1842 a redação da Gazeta Renana, em Colônia, fechada pela censura no ano seguinte.
Em 1843 casou-se com Jenny von Westphalen, filha de um barão de Trier, e mudou-se para Paris. Ali conheceu, em 1844, Friedrich Engels, filho de um industrial têxtil com fábrica em Manchester. A parceria durou quatro décadas e rendeu, em 1848, o Manifesto do Partido Comunista.
|
A obra que acusa o dinheiro de esconder o trabalho foi escrita por um homem que vivia sem dinheiro.
|
Expulso de Paris e depois de Bruxelas, Marx chegou a Londres em 1849 e não saiu mais da Inglaterra. A família morou anos em dois cômodos na Dean Street, no bairro do Soho, com penhores frequentes e ajuda regular de Engels. Três filhos do casal não passaram da infância.
A renda mais estável vinha das colunas para o New York Daily Tribune, jornal americano de que foi correspondente por cerca de dez anos. O resto do tempo ia para a sala de leitura do Museu Britânico, onde ele leu relatórios de inspetores de fábrica, livros de economia política e estatísticas oficiais do governo inglês.
O primeiro volume de O Capital saiu em Hamburgo, pela editora de Otto Meissner, em setembro de 1867. A recepção inicial foi fria na Alemanha, e a primeira tradução, para o russo, saiu em 1872 porque o censor do czar julgou o livro técnico demais para ser perigoso.
Marx revisou a seção do fetichismo para a segunda edição alemã, de 1873, e ela ganhou ali a forma lida até hoje. Os volumes seguintes ficaram em manuscrito. Ele morreu em Londres em 14 de março de 1883 e está enterrado no cemitério de Highgate.
Engels organizou os rascunhos e publicou o segundo volume em 1885 e o terceiro em 1894. Um problema que o primeiro volume deixou em aberto só recebe tratamento neste terceiro, e é nele que os críticos mais duros vão bater.
|
| |
|