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O papel em branco que a experiência escreve inteiro
No Ensaio de 1690, Locke chamou a mente de papel branco vazio de caracteres: nada vem de fábrica, tudo entra pela sensação e pela reflexão.
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A folha antes da primeira linha
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"Tábula rasa: o espírito humano antes de receber qualquer impressão do mundo exterior, comparado a uma tabuinha lisa" (Houaiss). John Locke não escreveu essa expressão em nenhuma linha do Ensaio Acerca do Entendimento Humano, publicado em 1690: o segundo livro abre com uma imagem caseira, papel branco, vazio de todos os caracteres, sem nenhuma ideia.
A ideia do dia é que a mente humana chega ao mundo sem nenhum conteúdo instalado de fábrica, e que tudo o que ela vier a saber foi escrito depois, pela experiência, uma linha de cada vez.
Tente explicar o sabor de limão a alguém que nunca provou fruta cítrica. Você pode dizer azedo, pode dizer que arrepia a nuca, pode comparar com vinagre e com laranja verde. Se a outra pessoa nunca colocou nada azedo na boca, as palavras chegam vazias, e o que falta nela não é inteligência.
Falta o material bruto. Locke sustenta que a mente não fabrica nem uma partícula desse material: ela recebe, guarda, compara, separa e recombina o que os sentidos entregaram, e nunca cria do nada uma qualidade simples que ninguém sentiu. Um cego de nascimento pode estudar a teoria da luz por trinta anos, dominar o cálculo dos ângulos e responder qualquer prova sobre o assunto, sem nunca ter tido a ideia de vermelho.
Daí sai uma consequência dura para a época dele. Se não existe conteúdo inato, ninguém nasce sabendo qual Deus adorar, qual moral obedecer ou a que classe pertence por natureza. Toda diferença entre um homem e outro passa a ser história, criação, hábito e sorte de nascimento, assuntos que se examinam e se discutem.
Locke gastou o primeiro livro inteiro do Ensaio demolindo a doutrina rival, a de que certos princípios vêm gravados na alma de todo mundo desde o berço. Só depois de limpar o terreno ele apresenta o papel em branco e mostra por quais duas entradas a tinta chega.
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I A ideia do dia
Duas entradas e nenhuma tinta própria
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O argumento começa por uma demolição. No primeiro livro do Ensaio, Locke ataca a tese de que existem princípios universalmente aceitos, gravados na mente antes de qualquer aprendizado, e escolhe como alvo os dois exemplos mais repetidos pelos adversários: o que é, é, e nada pode ao mesmo tempo ser e não ser.
A objeção dele é de fato, não de teoria. Se o princípio estivesse gravado em toda alma, toda alma o conheceria. Crianças pequenas não o conhecem, adultos analfabetos de povos inteiros nunca o formularam, e quem sofre lesão grave do entendimento jamais chega perto dele. Um conhecimento que a maioria dos homens nunca teve na cabeça não pode ter estado na cabeça de todos desde o começo.
Os defensores respondiam que o princípio está lá em potência, esperando a razão despertar. Locke devolve que uma verdade conhecida só quando a razão a descobre não se distingue em nada de uma verdade descoberta pela razão, e a hipótese do inato deixa de explicar qualquer coisa.
Limpo o terreno, entra a imagem do segundo livro. Suponha a mente, escreve ele, como papel branco, vazio de todos os caracteres, sem nenhuma ideia. Como ela se preenche? De onde vem todo o vasto estoque que a imaginação ativa e sem limites do homem pintou nela? A resposta cabe em uma palavra: da experiência.
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Sensação: os objetos externos batem nos sentidos e entregam amarelo, quente, duro, amargo, o som do portão da rua
Reflexão: a mente observa as próprias operações enquanto elas acontecem e entrega perceber, duvidar, querer, lembrar, temer
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Duas entradas, nenhuma terceira. O entendimento tem tanto poder de inventar uma ideia simples nova quanto uma pessoa tem de criar um átomo de matéria do zero ou de destruir um que já exista.
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O que a mente faz depois disso é trabalho de montagem, e o Ensaio descreve a montagem em detalhe. Ela junta ideias simples em complexas, compara umas com outras e abstrai o comum de várias para formar as gerais. Ouro, justiça, triângulo e exército nascem desse manuseio.
Por isso a fantasia mais extravagante continua feita de peças recebidas. Um unicórnio é cavalo mais chifre, um centauro é homem mais cavalo, o inferno é fogo mais dor mais escuridão. A imaginação recombina o estoque com liberdade total e não acrescenta ao estoque nenhuma qualidade que os sentidos não tenham entregado antes.
O papel em branco de Locke não descreve uma mente passiva nem burra. Ele descreve uma mente com muitas máquinas e nenhum arquivo, uma oficina completa esperando matéria-prima que só chega de fora e de dentro, nunca de fábrica.
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II Quem pensou
O médico que passou vinte anos no mesmo livro
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John Locke nasceu em Wrington, no condado de Somerset, em 1632, filho de um advogado de província que serviu como capitão de cavalaria nas tropas do Parlamento contra o rei. Estudou em Westminster e depois em Christ Church, Oxford, onde detestou a filosofia escolástica que era ensinada e se voltou para a medicina experimental e a química, ao lado de Robert Boyle.
Em 1666 ele conheceu Anthony Ashley Cooper, futuro conde de Shaftesbury, tratou dele e em 1668 supervisionou uma cirurgia que drenou um abscesso hepático por um tubo de prata deixado aberto no abdômen do político, que sobreviveu anos com o tubo no corpo. Locke virou médico, secretário e conselheiro da casa, e entrou na política inglesa pela porta de serviço.
O Ensaio nasceu de uma conversa entre amigos, por volta de 1671, sobre moral e religião revelada, que travou logo no começo. Locke concluiu que a discussão não avançaria antes de examinar de que o entendimento humano é capaz e de que não é, e escreveu um rascunho curto que virou obra de quase vinte anos.
Quando Shaftesbury caiu em desgraça, Locke seguiu o mesmo caminho. Exilou-se na Holanda em 1683, mudou de nome, morou escondido enquanto a coroa inglesa pedia a extradição dele e voltou a Londres em 1689, no navio que trouxe a princesa Maria de Orange. O Ensaio saiu impresso poucos meses depois, com data de 1690 na folha de rosto.
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"Suponhamos a mente como se diz, papel branco, vazio de todos os caracteres, sem nenhuma ideia. Como ela vem a se preencher? A tudo eu respondo com uma palavra: da experiência."
John Locke, Ensaio Acerca do Entendimento Humano, livro II, capítulo 1, seção 2, publicado em 1690.
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A expressão latina que hoje serve de apelido para a tese vem de outro lugar. Aristóteles, no tratado Sobre a Alma, compara o intelecto a uma tabuinha de escrever onde nada foi escrito de fato, e a fórmula atravessa os comentadores árabes e a escolástica latina até virar lugar comum nas universidades. Locke conhecia o vocabulário e preferiu o papel branco, em inglês corrente.
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A imagem do papel escolhida por um médico que passou a vida entre exílio, política e receita de remédio tem endereço certo: mente que se escreve por fora se corrige por fora, e educação, lei e tolerância deixam de ser enfeite para virar o assunto principal.
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Ele publicou os Dois Tratados sobre o Governo no mesmo ano e, em 1693, os Pensamentos sobre a Educação, onde afirma que nove entre dez homens são bons ou maus, úteis ou inúteis, pela educação que receberam. Passou os últimos anos na casa de campo de Damaris Masham, em Essex, onde parou de escrever em 1704.
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