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ED 033
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O melhor mundo possível cobra o preço inteiro

Na Teodiceia de 1710, Leibniz sustenta que um Deus que escolhe escolhe o melhor conjunto, e o mal entra na conta como preço do arranjo.

As ruínas de uma igreja de pedra abertas para o céu, em Lisboa.

Lisboa depois da manhã de 1755

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"Otimismo: doutrina filosófica segundo a qual o mundo em que vivemos é o melhor dos mundos possíveis" (Houaiss). Gottfried Wilhelm Leibniz nunca escreveu essa palavra em nenhuma linha da Teodiceia, publicada em 1710: o termo foi cunhado por jesuítas franceses no periódico Mémoires de Trévoux em 1737, vinte e um anos depois de ele parar de escrever, e chegou ao português já com sabor de piada.

A ideia do dia é que um criador que escolhe entre mundos inteiros escolhe o melhor conjunto disponível, e cada dor que sobra dentro dele é preço do arranjo que ficou de pé.

Imagine alguém diante de três plantas de casa. A primeira tem a sala grande e o quarto minúsculo. A segunda inverte a proporção. A terceira acerta os dois e coloca a cozinha na frente da rua. Não existe uma quarta planta com o melhor de cada uma, porque as paredes de uma comprometem as da outra, e quem escolhe leva o pacote inteiro, defeito incluído.

Leibniz aplica esse raciocínio à criação do mundo. Deus não avalia males um por um, aprovando este e vetando aquele. Ele compara séries completas, cada uma com todos os fatos que a compõem e todas as consequências que ela desdobra até o último dia, e permite a série cujo saldo de perfeição supera o de qualquer rival.

Daí sai uma conclusão que soa fria e que ele assumiu inteira. Nenhum sofrimento neste mundo é gratuito no sentido de poder ser removido sozinho, deixando o resto intacto. Retirar a dor de um lugar significa trocar de mundo, e o mundo de troca traz outra fatura, em outro endereço.

O argumento ficou de pé por quarenta e cinco anos e desabou em uma manhã. Em 1º de novembro de 1755, dia de Todos os Santos, um tremor seguido de maremoto e incêndio derrubou Lisboa com as igrejas cheias, e a Europa culta passou a exigir da frase de Leibniz uma prestação de contas.

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I  A ideia do dia

Deus escolhe conjuntos, nunca peças soltas

A Teodiceia responde a uma acusação antiga, formulada com clareza por Epicuro e repetida por todo cético desde então. Se existe um ser onipotente, onisciente e bom, e existe mal no mundo, alguma das três qualidades falhou. Leibniz aceita a pergunta e recusa a conclusão, e a saída dele passa por uma peça técnica: a noção de mundo possível.

Um mundo possível é qualquer série completa de fatos que não se contradiz. Existem infinitos deles no entendimento divino, cada um com sua história inteira já decidida, do primeiro átomo ao último gesto de cada pessoa que nasceria ali. Não se trata de um catálogo de eventos avulsos e sim de blocos fechados, indivisíveis, onde mudar uma linha muda todas as outras.

O ponto que faz o argumento andar é a incompatibilidade. Duas perfeições podem se excluir. Um mundo com liberdade humana genuína aceita crueldade humana genuína. Um mundo com leis físicas simples e constantes aceita que a mesma lei que segura a casa de pé derrube a casa quando a terra treme. Um mundo com variedade de criaturas aceita que criaturas limitadas se choquem.

Leibniz separa então três tipos de mal, e a separação carrega o peso da obra. O mal metafísico é a limitação inevitável de qualquer criatura que não seja Deus. O mal físico é a dor, que ele trata como consequência ou correção. O mal moral é o pecado, que Deus permite sem querer, do mesmo modo que um general aceita perder terreno em um flanco para vencer no outro.

Três males: a limitação de criatura, a dor do corpo e a culpa da vontade, nenhum deles com autoria divina direta

Duas atitudes: permitir e querer não se confundem, porque quem permite prevê o resultado e não o produz

Um arquiteto que aprova a planta com o corredor estreito não construiu o corredor estreito por gosto do estreito. Ele aprovou a casa que só existe com aquele corredor.

A vontade divina, na leitura de Leibniz, funciona em duas camadas. A vontade antecedente quer o bem de cada parte isolada, quer todo homem salvo e toda criança viva. A vontade consequente resulta do encontro de todas as vontades antecedentes entre si e produz o que de fato acontece, o melhor compatível com o resto.

Por causa disso, a frase de que este é o melhor dos mundos possíveis não afirma que este mundo é bom, agradável ou justo na experiência de quem o atravessa. Ela afirma apenas que qualquer alternativa completa, examinada até o fim, traria um saldo pior, e que a comparação corre entre totalidades, não entre episódios.

O argumento tem uma força incômoda: ele é praticamente impossível de refutar por exemplo. Quem apresenta uma tragédia específica e pergunta por que ela existe recebe de volta a exigência de apresentar o mundo inteiro sem ela, com todas as consequências desdobradas, e ninguém tem acesso a esse cálculo.

 
 

II  Quem pensou

O bibliotecário que somava mundos inteiros

Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig em 1646, filho de um professor de filosofia moral que morreu quando o menino tinha seis anos e deixou uma biblioteca inteira em latim. Ele se ensinou a ler no idioma sozinho, aos oito, e aos vinte defendeu a tese de doutorado em direito na universidade de Altdorf, depois de Leipzig recusar o grau por causa da idade dele.

A vida profissional dele não foi acadêmica. Serviu como conselheiro jurídico do eleitor de Mainz, passou quatro anos em Paris a serviço de uma missão diplomática, aprendeu matemática avançada com Christiaan Huygens nesse período e voltou para a Alemanha em 1676 para o cargo que ocuparia até o fim: bibliotecário e historiador da casa de Hanover.

O currículo paralelo é desproporcional ao emprego. Ele desenvolveu o cálculo infinitesimal em notação própria, a que os livros usam até hoje, e travou com os partidários de Isaac Newton uma disputa de prioridade que envenenou a matemática inglesa por um século. Construiu uma máquina capaz de multiplicar por engrenagens escalonadas, descreveu o sistema binário em um artigo de 1703 e passou anos negociando a reunificação entre católicos e protestantes.

A Teodiceia nasceu de uma conversa de corte. Sofia Carlota, rainha da Prússia e aluna dele, discutia com Leibniz as objeções de Pierre Bayle contra a compatibilidade entre fé e razão. Ela morreu em 1705, e o livro publicado cinco anos depois em francês, o único que ele publicou em vida com esse tamanho, é a resposta que ela pediu e não leu.

"Deus escolheu o melhor de todos os mundos possíveis, pois na sua sabedoria conhece todos, na sua bondade escolhe o melhor e no seu poder o produz."

Gottfried Wilhelm Leibniz, Ensaios de Teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal, parte I, seção 8, publicado em 1710.

O fim dele desmente o apelido de otimista alegre. Quando o eleitor de Hanover virou rei da Inglaterra em 1714, deixou o bibliotecário de setenta anos para trás, ocupado com uma história da família que nunca terminou. Leibniz ficou em Hanover terminando cartas com Samuel Clarke sobre espaço e tempo, e a correspondência parou no meio de uma resposta.

A frase mais citada da obra pertence a um homem que passava os dias catalogando papéis de uma família que já não precisava dele, e que ainda assim escreveu que o conjunto compensa.

Ele foi enterrado em Hanover em 1716, com o secretário particular como única presença registrada na cerimônia. A Academia de Ciências de Berlim, que ele mesmo fundou e presidiu, não enviou representante, e a Royal Society de Londres, onde a briga do cálculo continuava, não publicou nota alguma.

 

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III  Contra o quê

De Bayle a Voltaire, o processo contra o otimismo

O adversário direto da Teodiceia estava vivo quando ela começou a ser escrita. Pierre Bayle, no Dicionário Histórico e Crítico de 1697, sustentou que a razão humana não consegue conciliar a bondade divina com o sofrimento observado, e que a fé precisa aceitar o que o argumento não sustenta. Bayle não negava Deus, negava que houvesse demonstração.

A objeção mais dura veio da terra. O terremoto de 1755 atingiu Lisboa em pleno serviço religioso, derrubou o casario sobre quem rezava, empurrou uma onda pelo Tejo e queimou por cinco dias o que restou. Voltaire escreveu no ano seguinte o Poema sobre o desastre de Lisboa, onde pergunta que crime cometeram as crianças esmagadas no peito das mães, e chama a consolação metafísica de zombaria com quem perdeu tudo.

Jean-Jacques Rousseau respondeu a Voltaire em carta de agosto de 1756 com um argumento de urbanista. A natureza não construiu vinte mil casas de seis andares coladas umas nas outras, e se os habitantes vivessem espalhados o estrago teria sido menor. Para ele, a fatura de Lisboa tinha endereço humano, e não divino.

Três anos depois, Voltaire trocou o poema pela ficção. Em Cândido, de 1759, o preceptor Pangloss atravessa naufrágio, guerra, doença e Inquisição repetindo que tudo está no melhor dos mundos possíveis, e o riso que a personagem gerou fez mais estrago à Teodiceia que qualquer refutação técnica. Nenhum leitor comum conhece Leibniz pelo original, quase todos o conhecem por Pangloss.

Immanuel Kant fechou a porta pelo lado da teoria em 1791, no ensaio Sobre o fracasso de todas as tentativas filosóficas em teodiceia. Segundo ele, o problema exige um conhecimento do mundo como totalidade, e a razão humana não alcança essa vista. Toda defesa de Deus feita por argumento estaria condenada antes de começar, inclusive a de Leibniz.

Arthur Schopenhauer inverteu tudo em O Mundo como Vontade e Representação, de 1818, e chamou o otimismo de amarga zombaria com o sofrimento humano. A tese dele é que este é o pior dos mundos possíveis, porque um mundo um pouco pior desmoronaria e deixaria de existir, e a existência do nosso prova que ele opera no limite inferior do suportável.

A discussão sobreviveu à ironia. Filósofos contemporâneos separaram a pergunta lógica, se mal e Deus se contradizem, da pergunta de probabilidade, se a quantidade de mal torna a hipótese divina improvável, e o mecanismo dos mundos possíveis que Leibniz inventou virou ferramenta padrão da lógica modal, usada hoje por gente que não acredita em nada do que ele defendia.

O que sobreviveu inteiro não foi a conclusão e sim a exigência de raciocinar por pacotes: quem quer trocar uma parte da situação precisa mostrar como fica a situação toda depois da troca.

"Que arranjo da sua vida você odeia e não conseguiria retirar sozinho?"

Numa mesa de cozinha, um homem calcula o custo de sair do emprego que odeia, e a conta traz o plano de saúde da mãe, a escola das filhas e o financiamento do carro que leva as três. Ele fecha a calculadora e volta na segunda-feira, sabendo exatamente por que volta.

A planta não tinha outro corredor.

 
 

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