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I A ideia do dia
O instante e a sequência
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Lessing parte dos signos, as marcas que cada arte usa para representar algo. A pintura e a escultura usam figuras e cores dispostas lado a lado no espaço. A poesia usa sons articulados que vêm um depois do outro no tempo. Signos que coexistem servem para mostrar corpos; signos que se sucedem servem para mostrar ações.
Daí sai a divisão de trabalho. O pintor domina o corpo visto de uma vez, com tudo o que está presente ao mesmo tempo. O poeta domina a ação que se desenrola, com começo, meio e consequência. Cada um pode tocar o território do outro, mas só de modo indireto: o pintor sugere uma ação pela pose de um corpo, e o poeta sugere um corpo pela ação que ele faz.
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“Os corpos, com as suas propriedades visíveis, são os objetos próprios da pintura. As ações são o objeto próprio da poesia.”
Lessing, Laocoonte, capítulo XVI, 1766
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O escultor, portanto, só tem um instante da história inteira. Lessing chama de momento fecundo (o instante que deixa mais espaço para a imaginação de quem olha) aquele que convém escolher. O auge da dor é a pior escolha, porque depois dele a imaginação não tem para onde ir.
Há um segundo problema, físico. Uma boca aberta ao máximo, no mármore, vira uma cavidade escura no meio do rosto, e a feiura dela fica ali para sempre. A estátua é vista por minutos e voltada a ver por séculos. Um grito congelado deixa de ser grito e vira careta permanente.
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A pedra mostra um instante para sempre; o verso mostra um grito que passa.
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No poema, o grito dura meio verso. O leitor ouve Laocoonte urrar e, logo adiante, já acompanha as serpentes fugindo para o templo de Minerva. Ninguém fica preso diante da boca aberta. A sucessão dissolve o feio que, no mármore, ficaria parado.
O raciocínio, em 3 passos
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1. Cada arte representa melhor aquilo que se parece com o seu próprio material: espaço para corpos, tempo para ações.
2. O escultor dispõe de um instante só, e deve escolher o que sugere o antes e o depois sem mostrar o auge.
3. O grito máximo esgota a imaginação e, fixado em pedra, vira deformação; por esse caminho, a boca fica entreaberta.
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Lessing dá o exemplo inverso com Homero. No canto XVIII da Ilíada, o escudo de Aquiles não é descrito pronto, peça por peça, como num inventário. O poeta mostra o deus Hefesto forjando cada cena no metal. O objeto vira uma série de gestos, e o verso volta a correr no tempo.
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II Quem pensou
O crítico de Kamenz
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Gotthold Ephraim Lessing nasceu em 22 de janeiro de 1729, em Kamenz, pequena cidade da Saxônia. Era filho de um pastor luterano e foi mandado a Leipzig, em 1746, para estudar teologia. Trocou as aulas pelo teatro da cidade e começou a escrever comédias ainda estudante.
Em Berlim, viveu de jornalismo e crítica. Em 1755 estreou Miss Sara Sampson, considerada a primeira tragédia burguesa alemã, com gente comum no lugar de reis. A peça tirou o drama alemão da imitação dos franceses e deu ao autor fama de polemista. Lessing brigava por escrito com professores, tradutores e pastores, e quase sempre assinava as respostas com o próprio nome.
Durante a Guerra dos Sete Anos, entre 1760 e 1765, trabalhou como secretário do general Bogislav von Tauentzien em Breslau, na Silésia. O cargo pagava bem e deixava tempo para ler. Ali Lessing juntou as notas sobre pintura e poesia que formariam o livro.
O Laocoonte, ou sobre os limites da pintura e da poesia saiu em Berlim, em 1766. O plano previa três partes; só a primeira foi publicada. As outras ficaram em rascunhos e anotações, encontrados entre os papéis do autor.
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“O pintor, nas suas composições coexistentes, só pode usar um único instante da ação.”
Lessing, Laocoonte, capítulo XVI, 1766
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Lessing escreveu o livro sem ter visto a estátua. Trabalhou com gravuras, moldes e descrições de viajantes. Só pisou na Itália em 1775, quase dez anos depois da publicação, acompanhando um príncipe de Brunswick numa viagem curta.
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O argumento sobre o mármore nasceu longe do mármore, de cópias e de leitura.
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Em 1767 vieram a comédia Minna von Barnhelm e a Dramaturgia de Hamburgo, uma série de críticas teatrais escritas para o novo teatro nacional da cidade. Em 1770 aceitou o posto de bibliotecário ducal em Wolfenbüttel, que manteve até o fim.
A última peça, Natan, o Sábio, de 1779, põe um judeu, um muçulmano e um cristão diante da pergunta sobre qual religião é a verdadeira. Lessing terminou a vida em Braunschweig, em 15 de fevereiro de 1781, aos 52 anos, sem escrever a segunda parte do Laocoonte.
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