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O mármore que não grita, segundo Lessing

No Laocoonte, de 1766, Lessing explicou por que a estátua cala o grito que Virgílio deu: a pedra prende um instante, o verso corre no tempo.

Grupo de mármore do Laocoonte: o sacerdote e os dois filhos presos por serpentes, a boca do pai entreaberta.

A boca entreaberta do sacerdote

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Poesia: “arte de compor versos” (Dicionário Houaiss). A definição separa a poesia pela forma da linha e não diz nada sobre o material de que ela é feita. Em 1766, um crítico alemão propôs outra fronteira: cada arte se distingue pelo tempo que gasta para ser percebida.

No Museu Pio-Clementino, no Vaticano, há um grupo de mármore com pouco mais de dois metros de altura. Um sacerdote troiano e os seus dois filhos lutam contra duas serpentes marinhas. Os músculos do pai estão retesados, o tronco torcido, a cabeça jogada para trás.

A boca dele está entreaberta. Ele sofre, mas não grita. As sobrancelhas sobem, a testa se franze, o peito se encolhe, e os lábios param a um dedo de distância um do outro.

O episódio tem fonte escrita. No livro II da Eneida, que Virgílio compôs entre 29 e 19 a.C., o sacerdote Laocoonte avisa os troianos contra o cavalo de madeira deixado pelos gregos. Duas serpentes saem do mar, enrolam os filhos e depois o pai. No poema, ele ergue até as estrelas gritos horrendos, como um touro ferido que foge do altar.

A estátua foi desenterrada em Roma em janeiro de 1506, numa vinha perto do monte Esquilino, e comprada pelo papa Júlio II. Michelangelo acompanhou a escavação. Desde então, artistas e críticos perguntavam por que o escultor tinha calado o grito que o poeta deu.

A resposta aceita no século XVIII era moral. Os gregos teriam grandeza de alma, e um herói grego sofreria com dignidade. O escultor, nessa leitura, mostrou um homem que vence a dor por dentro, e o mármore seria um retrato de caráter, uma lição de estoicismo talhada em pedra.

Gotthold Ephraim Lessing achou a explicação errada. Para ele, o escultor fechou a boca do Laocoonte por uma razão de ofício, ligada à pedra e ao instante. Virgílio abriu a do seu por outra razão de ofício, ligada ao verso e à sequência.

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I  A ideia do dia

O instante e a sequência

Lessing parte dos signos, as marcas que cada arte usa para representar algo. A pintura e a escultura usam figuras e cores dispostas lado a lado no espaço. A poesia usa sons articulados que vêm um depois do outro no tempo. Signos que coexistem servem para mostrar corpos; signos que se sucedem servem para mostrar ações.

Daí sai a divisão de trabalho. O pintor domina o corpo visto de uma vez, com tudo o que está presente ao mesmo tempo. O poeta domina a ação que se desenrola, com começo, meio e consequência. Cada um pode tocar o território do outro, mas só de modo indireto: o pintor sugere uma ação pela pose de um corpo, e o poeta sugere um corpo pela ação que ele faz.

“Os corpos, com as suas propriedades visíveis, são os objetos próprios da pintura. As ações são o objeto próprio da poesia.”

Lessing, Laocoonte, capítulo XVI, 1766

O escultor, portanto, só tem um instante da história inteira. Lessing chama de momento fecundo (o instante que deixa mais espaço para a imaginação de quem olha) aquele que convém escolher. O auge da dor é a pior escolha, porque depois dele a imaginação não tem para onde ir.

Há um segundo problema, físico. Uma boca aberta ao máximo, no mármore, vira uma cavidade escura no meio do rosto, e a feiura dela fica ali para sempre. A estátua é vista por minutos e voltada a ver por séculos. Um grito congelado deixa de ser grito e vira careta permanente.

A pedra mostra um instante para sempre; o verso mostra um grito que passa.

No poema, o grito dura meio verso. O leitor ouve Laocoonte urrar e, logo adiante, já acompanha as serpentes fugindo para o templo de Minerva. Ninguém fica preso diante da boca aberta. A sucessão dissolve o feio que, no mármore, ficaria parado.

O raciocínio, em 3 passos

1. Cada arte representa melhor aquilo que se parece com o seu próprio material: espaço para corpos, tempo para ações.

2. O escultor dispõe de um instante só, e deve escolher o que sugere o antes e o depois sem mostrar o auge.

3. O grito máximo esgota a imaginação e, fixado em pedra, vira deformação; por esse caminho, a boca fica entreaberta.

Lessing dá o exemplo inverso com Homero. No canto XVIII da Ilíada, o escudo de Aquiles não é descrito pronto, peça por peça, como num inventário. O poeta mostra o deus Hefesto forjando cada cena no metal. O objeto vira uma série de gestos, e o verso volta a correr no tempo.

 
 

II  Quem pensou

O crítico de Kamenz

Gotthold Ephraim Lessing nasceu em 22 de janeiro de 1729, em Kamenz, pequena cidade da Saxônia. Era filho de um pastor luterano e foi mandado a Leipzig, em 1746, para estudar teologia. Trocou as aulas pelo teatro da cidade e começou a escrever comédias ainda estudante.

Em Berlim, viveu de jornalismo e crítica. Em 1755 estreou Miss Sara Sampson, considerada a primeira tragédia burguesa alemã, com gente comum no lugar de reis. A peça tirou o drama alemão da imitação dos franceses e deu ao autor fama de polemista. Lessing brigava por escrito com professores, tradutores e pastores, e quase sempre assinava as respostas com o próprio nome.

Durante a Guerra dos Sete Anos, entre 1760 e 1765, trabalhou como secretário do general Bogislav von Tauentzien em Breslau, na Silésia. O cargo pagava bem e deixava tempo para ler. Ali Lessing juntou as notas sobre pintura e poesia que formariam o livro.

O Laocoonte, ou sobre os limites da pintura e da poesia saiu em Berlim, em 1766. O plano previa três partes; só a primeira foi publicada. As outras ficaram em rascunhos e anotações, encontrados entre os papéis do autor.

“O pintor, nas suas composições coexistentes, só pode usar um único instante da ação.”

Lessing, Laocoonte, capítulo XVI, 1766

Lessing escreveu o livro sem ter visto a estátua. Trabalhou com gravuras, moldes e descrições de viajantes. Só pisou na Itália em 1775, quase dez anos depois da publicação, acompanhando um príncipe de Brunswick numa viagem curta.

O argumento sobre o mármore nasceu longe do mármore, de cópias e de leitura.

Em 1767 vieram a comédia Minna von Barnhelm e a Dramaturgia de Hamburgo, uma série de críticas teatrais escritas para o novo teatro nacional da cidade. Em 1770 aceitou o posto de bibliotecário ducal em Wolfenbüttel, que manteve até o fim.

A última peça, Natan, o Sábio, de 1779, põe um judeu, um muçulmano e um cristão diante da pergunta sobre qual religião é a verdadeira. Lessing terminou a vida em Braunschweig, em 15 de fevereiro de 1781, aos 52 anos, sem escrever a segunda parte do Laocoonte.

 

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III  Contra o quê

Contra a pintura que fala

O primeiro adversário de Lessing tinha 18 séculos. Na Arte Poética, por volta de 19 a.C., Horácio escreveu ut pictura poesis (como a pintura, assim a poesia). A frase, tirada do contexto, virou lei de academia: o bom poema devia ser um quadro, e o bom quadro devia contar uma história como um poema.

Plutarco atribuía a Simônides de Ceos uma fórmula ainda mais apertada: a pintura é poesia muda, e a poesia é pintura que fala. Lessing abre o livro citando a frase e diz que ela é bonita, mas confunde as duas artes justamente onde elas se separam.

O alvo próximo era Johann Joachim Winckelmann. Nos Pensamentos sobre a imitação das obras gregas, de 1755, ele explicou a boca fechada do Laocoonte pela alma grega, de nobre simplicidade e serena grandeza. Lessing concorda com a descrição da estátua e recusa a causa: a mesma Grécia deixou o Filoctetes de Sófocles gritar no palco.

“Os gritos de Filoctetes enchem o teatro, e nenhum grego achou que o herói perdia a grandeza por gritar.”

Lessing, Laocoonte, capítulo IV, 1766 (paráfrase)

O terceiro alvo era a poesia descritiva da época, que enumerava flores, folhas e cores em versos longos, como se o leitor pudesse ver tudo ao mesmo tempo. Lessing cita o poema Os Alpes, do suíço Albrecht von Haller, de 1729. O leitor chega ao fim da lista de plantas e já perdeu a primeira.

Descrever um corpo em verso obriga o leitor a montar no tempo o que o olho vê de uma vez.

A tese teve resposta rápida. Em 1769, Johann Gottfried Herder publicou as Silvas críticas, acusando Lessing de esquecer que a poesia também age pela força, e não só pela sequência. Em 1940, o crítico americano Clement Greenberg retomou o título no ensaio Rumo a um Laocoonte mais novo, defendendo que cada arte devia ficar no seu meio. A pintura abstrata de Nova York usou o ensaio como bandeira, e a fronteira traçada em 1766 voltou a separar ateliês.

Uma família canta parabéns numa cozinha. A tia tira a foto um segundo antes do sopro, com as bochechas da criança cheias e as velas ainda acesas.

No grupo da família, a avó conta a festa por mensagem: o bolo que chegou torto, a vela que não queria apagar, o choro, o riso. A foto guarda o antes; a mensagem anda pelo tempo.

“Qual instante você escolheria, se só pudesse guardar um?”

A foto ficou na geladeira.

 
 
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Quiz da edição

Quantas partes o plano original do livro Laocoonte previa, segundo o texto?

ADuas partes, as duas publicadas em 1766
BTrês partes, só a primeira publicada
CQuatro partes, nenhuma publicada em vida
DUma parte só, escrita após a viagem à Itália

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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