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O juiz que você monta com o olhar dos outros

Em 1759, Adam Smith descreveu a consciência como um tribunal interno, presidido por um espectador imparcial feito do olhar alheio.

Homem escocês do século XVIII diante de um espelho, julgando a própria imagem.

Quem julga é você, com os olhos dos outros

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O Dicionário Houaiss define imparcial como "que não toma partido". A definição supõe alguém de fora da briga, sem nada a ganhar com o resultado. Um professor escocês, em 1759, afirmou que o juiz imparcial mais importante da vida de cada pessoa mora dentro dela, e que ela toma partido o tempo todo.

O professor se chamava Adam Smith. Tinha 35 anos, ensinava filosofia moral na Universidade de Glasgow e ainda não tinha escrito o livro sobre comércio que o tornaria famoso. A obra daquele ano era outra: A Teoria dos Sentimentos Morais.

O ponto de partida é uma cena banal. Alguém solta uma grosseria num jantar, volta para casa e não consegue dormir. Ninguém reclamou. Ninguém cobrou. Mesmo assim há um processo correndo, e o réu é ele.

Smith perguntou quem conduz esse processo. Os teólogos respondiam que era Deus, falando pela consciência. Alguns filósofos falavam de um sentido moral inato, parecido com o paladar. Smith procurou o juiz em outro lugar: na experiência de ter sido olhado por outras pessoas desde a infância.

A criança aprende primeiro a julgar os outros. Vê o colega que mente, o adulto que grita, e reprova. Só depois percebe que os outros a julgam do mesmo jeito. Daí nasce o hábito de se ver de fora, como se fosse outra pessoa assistindo à cena.

Smith comparou a sociedade a um espelho. Uma pessoa criada sozinha, sem contato com ninguém, não teria como pensar no próprio caráter, assim como não pensaria na beleza ou na feiura do próprio rosto. Falta o vidro.

Com o tempo, o espelho vira morador. A pessoa deixa de precisar da plateia real e passa a carregar uma plateia imaginada, que sabe tudo o que ela sabe e não tem interesse nenhum no caso.

Smith deu a essa plateia o nome de espectador imparcial. E descreveu, com precisão de anatomista, o que acontece quando alguém se põe diante dela para ser julgado: a pessoa se parte em duas.

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I  A ideia do dia

O tribunal dentro do peito

Adam Smith pôs o trecho na terceira parte do livro, no capítulo sobre o fundamento dos juízos que fazemos sobre nós mesmos. Ao examinar a própria conduta, escreve ele, cada um se divide como se fosse duas pessoas.

Uma é o examinador e juiz. A outra é a pessoa cuja conduta está sendo examinada. A primeira ocupa o lugar do espectador; a segunda é o agente, aquele que agiu e agora espera a sentença.

"Quando procuro examinar minha própria conduta, divido-me, por assim dizer, em duas pessoas; e eu, o examinador e juiz, represento um personagem diferente daquele outro eu, a pessoa cuja conduta é examinada e julgada."

Adam Smith, A Teoria dos Sentimentos Morais, 1759

O mecanismo por baixo tem nome no livro: simpatia. Smith usa a palavra num sentido mais largo que o atual. Simpatia, para ele, é a capacidade de se pôr no lugar do outro pela imaginação e sentir, em versão mais fraca, o que o outro sente.

O julgamento moral sai dessa troca de lugares. Aprovo o sentimento de alguém quando, imaginando-me na situação dele, sinto algo parecido. Reprovo quando não consigo acompanhar: a raiva é grande demais para a ofensa, o luto pequeno demais para a perda.

Como o tribunal se monta, segundo o livro de 1759

1. Julgar os outros: a criança observa a conduta alheia e aprova ou reprova pela simpatia.

2. Descobrir-se julgado: percebe que os outros fazem o mesmo com ela.

3. Ver-se de fora: passa a imaginar como a própria conduta parece a quem assiste.

4. Trocar a plateia real pela imaginada: o juiz interno deixa de depender de quem está na sala.

O quarto passo é o decisivo. A plateia real erra, se distrai e tem interesse. Elogia o rico, aplaude o vencedor, condena o inocente por boato. O espectador imparcial corrige esses defeitos: é alguém bem informado, sem parentesco com ninguém do caso.

O juiz interno é feito do olhar dos outros, mas foi treinado para desobedecer a eles.

Smith chamou esse juiz de homem dentro do peito e de grande juiz e árbitro da nossa conduta. Ele pode absolver quando a multidão condena e condenar quando a multidão aplaude.

O tribunal tem uma fraqueza confessada. Smith admite que, no calor da ação, a paixão fala mais alto e o juiz quase não é ouvido. Depois do ato, a pessoa costuma desviar os olhos das provas, porque olhar dói.

Daí, diz ele, a utilidade das regras gerais de conduta. Elas são fixadas a frio, a partir de muitos julgamentos do espectador, para valer na hora quente, quando o juiz não consegue falar.

 
 

II  Quem pensou

O professor de Kirkcaldy

Adam Smith foi batizado em Kirkcaldy, cidade portuária da Escócia, em 5 de junho de 1723. A data do nascimento não ficou registrada. O pai, também chamado Adam Smith, fiscal da alfândega, faleceu meses antes de o filho nascer.

Aos 3 anos, segundo o biógrafo John Rae, em A Vida de Adam Smith, de 1895, o menino foi levado por um grupo de ciganos numa visita à casa de um tio em Strathendry. O tio saiu atrás do grupo e recuperou a criança no caminho. Smith viveu com a mãe, Margaret Douglas, até o fim da vida dela.

Entrou na Universidade de Glasgow aos 14 anos e ali teve aula com Francis Hutcheson, o filósofo do sentido moral. Em 1740 ganhou uma bolsa para o Balliol College, em Oxford, onde passou seis anos e reclamou que a maioria dos professores tinha desistido até de fingir que ensinava.

Em 1751 assumiu a cátedra de lógica em Glasgow e, no ano seguinte, a de filosofia moral, a mesma que tinha sido de Hutcheson. As aulas dessa cadeira viraram o livro de 1759.

O livro que deu fama a Smith tratava de julgamento moral, dezessete anos antes do livro sobre comércio.

O amigo mais próximo era o filósofo David Hume. Quando a obra saiu, Hume escreveu de Londres em tom de brincadeira, anunciando uma notícia melancólica. A notícia era que o público parecia disposto a aplaudir o livro com entusiasmo.

"Prepare-se para receber a notícia melancólica de que o seu livro foi muito infeliz, pois o público parece disposto a aplaudi-lo extremamente."

David Hume, carta a Adam Smith, 12 de abril de 1759

O sucesso mudou a vida dele. Em 1764 deixou a cátedra para ser preceptor do jovem duque de Buccleuch, com pensão vitalícia de 300 libras por ano. Na França conheceu Voltaire e os economistas do círculo de François Quesnay, e começou a rascunhar outro livro.

O rascunho saiu em 1776 com o título A Riqueza das Nações. Em 1778 Smith virou comissário da alfândega em Edimburgo, o mesmo ofício do pai que não conheceu.

Ele nunca abandonou a obra de 1759. Revisou-a por três décadas e, na sexta edição, de 1790, acrescentou uma parte inteira sobre o caráter da virtude, com o espectador imparcial no centro.

Adam Smith faleceu em Edimburgo em 17 de julho de 1790, aos 67 anos, meses depois de a sexta edição sair. Dias antes, pediu aos amigos Joseph Black e James Hutton que queimassem cerca de 16 volumes de manuscritos inéditos.

Os dois obedeceram. O conteúdo dos volumes é desconhecido, porque nenhum deles deixou descrição do que queimou.

 

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III  Contra o quê

Contra a vaidade de Mandeville

O adversário tem nome: Bernard Mandeville, médico holandês radicado em Londres. Em 1714 ele publicou A Fábula das Abelhas, um poema com comentários em prosa sobre uma colmeia que prospera graças aos vícios dos moradores.

No ensaio sobre a origem da virtude moral, anexado ao livro, Mandeville sustenta que a virtude foi inventada por políticos espertos. Eles elogiaram quem abria mão do próprio interesse, e a vaidade fez o resto: as pessoas passaram a agir bem para ser elogiadas.

"As virtudes morais são a prole política que a lisonja gerou no orgulho."

Bernard Mandeville, A Fábula das Abelhas, 1714

Smith levou a tese a sério o bastante para refutá-la pelo nome. Na sétima parte do livro, chama o sistema de Mandeville de licencioso (no sentido de sem freio) e diz que ele só convence porque toca em algo verdadeiro: a vontade de ser elogiado existe e pesa.

A resposta está numa distinção da terceira parte. O amor ao elogio difere do amor a merecer elogio. Smith escreve que o ser humano deseja ser amado e também ser amável, isto é, ser de fato o tipo de pessoa que mereceria o afeto.

Para Smith, o elogio imerecido não satisfaz quem o recebe; incomoda.

A prova vem do espectador imparcial. Quem recebe aplauso por um feito alheio sabe que o juiz interno não assinou a sentença. E quem pratica o bem em segredo, sem plateia, sente aprovação mesmo assim. Se a virtude fosse só vaidade, nenhum dos dois casos faria sentido.

O segundo alvo era mais discreto. Hutcheson, o antigo professor, explicava o julgamento moral por um sentido moral inato, um órgão à parte. Smith dispensou o órgão: o juiz se forma pela convivência, como a fala.

O exemplo mais famoso do livro mostra o tribunal agindo contra o próprio interesse. Smith imagina um europeu que recebe a notícia de que um terremoto engoliu a China inteira. Ele lamenta, comenta com os amigos e dorme tranquilo. Se fosse perder o dedo mínimo no dia seguinte, passaria a noite em claro.

Mesmo assim, diz Smith, esse homem jamais aceitaria sacrificar cem milhões de pessoas para salvar o próprio dedo. A compaixão, fraca demais, não o segura. Quem segura é o espectador imparcial, que lembra a ele que ele é só um entre muitos.

Numa reunião de condomínio, o síndico votou contra a obra na garagem do vizinho de quem não gosta. Ninguém percebeu o motivo. À noite, escovando os dentes, ele refez a votação de cabeça, trocando o nome do vizinho pelo de um amigo. O voto teria sido outro.

"Quem você chamaria para julgar o seu último erro, se não pudesse ser seu amigo?"

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