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O existir vem antes do que somos

No Asfar, por volta de 1630, Mulla Sadra defendeu que existir vem antes de ser algo; a essência é um recorte feito pela mente.

Duas velas acesas numa sala escura persa, uma chama mais forte que a outra, sobre um manuscrito aberto.

A mesma luz, mais forte ou mais fraca

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Essência: “aquilo que constitui a natureza de um ser, o que ele é” (Dicionário Houaiss). A definição supõe que o ser já está lá, pronto, à espera de que alguém diga o que ele é. Na Pérsia de 1630, um filósofo de Shiraz escreveu que a ordem é a contrária, e que a essência nem chega a existir fora da cabeça de quem olha.

Pense numa vela acesa numa sala escura. Você vê a chama, a cera, o pavio, a mesa iluminada em volta. Se alguém pergunta o que há ali, a resposta sai em substantivos: vela, mesa, parede. Cada um responde à pergunta “o que é?”.

Agora acenda uma segunda vela ao lado. A sala fica mais clara. Não surgiu uma luz de outro tipo, nem uma luz com outra essência. A mesma luz ficou mais intensa. Para medir a diferença, ninguém precisa de palavra nova, só de mais ou menos.

A filosofia islâmica herdou de Avicena (Ibn Sina, médico e filósofo persa do século XI) uma distinção que parecia evidente. Tudo o que existe tem duas faces: o que é, chamado em árabe de mahiyya (quididade, o “o que é” de um ente), e o fato de existir, chamado wujud (existência). Dá para pensar num cavalo sem saber se algum cavalo existe. Logo, as duas faces seriam distintas.

Durante séculos, a pergunta seguinte dividiu as escolas: qual das duas faces é a real? A maioria dos mestres persas apostava na essência. A existência, diziam, seria só uma noção geral que a mente acrescenta, como branco ou grande.

Sadr al-Din Muhammad Shirazi, conhecido como Mulla Sadra, apostou primeiro com a maioria. Depois mudou de lado e registrou a mudança num livro de quatro volumes, chamado Asfar (viagens).

A tese que saiu dali põe a chama na frente da palavra. Primeiro há o existir, inteiro e variando em grau. A palavra vela vem depois, quando a mente recorta um pedaço da luz e dá a ele um contorno.

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I  A ideia do dia

A luz antes do nome

A tese tem um rótulo técnico em árabe: asalat al-wujud, a principialidade da existência (a ideia de que só a existência é real por si). Mulla Sadra a expõe no primeiro dos quatro volumes do Asfar, escrito em grande parte em Kahak, aldeia perto de Qom, e concluído por volta de 1630.

O argumento parte de uma observação simples. Pense na essência do cavalo, sozinha. Ela não é nem existente nem inexistente: é só a definição, animal de quatro patas que relincha. Uma definição não galopa, não come, não deixa marca no barro.

O que faz o cavalo galopar é ele existir. Tudo o que um cavalo real produz, peso, calor, movimento, vem do existir e não da definição. Se a realidade do mundo coubesse nas essências, o mundo seria um dicionário parado.

O argumento, em 3 passos

1. Uma essência, tomada sozinha, é indiferente a existir ou não existir.

2. O que é indiferente a existir não produz efeito nenhum no mundo.

3. Logo, o que produz efeito e é real fora da mente é a existência; a essência é o contorno que a mente traça nela.

O terceiro passo usa uma palavra que Sadra repete muito: limite. A essência, para ele, é o limite (hadd, em árabe) de uma existência. Uma pedra existe com certa intensidade, e onde essa intensidade termina a mente desenha um contorno e o chama de pedra.

A essência é a borda que a mente desenha num existir que não tem bordas próprias.

Daí vem a segunda tese do Asfar, a gradação da existência, que Sadra chama de tashkik (gradação, a variação de um mesmo traço em mais ou menos). A existência de um grão de areia, de um cavalo e de um ser humano é uma só realidade, presente em graus distintos de intensidade.

A comparação que ele usa é a da luz. A luz do Sol, a de uma lâmpada a óleo e a de um vaga-lume são luz do começo ao fim. Diferem só em força. Ninguém diria que a luz fraca tem outra essência que a forte.

“A existência é uma realidade única, que difere em seus graus pela intensidade e pela fraqueza, pela anterioridade e pela posterioridade.”

Mulla Sadra, Asfar, volume I, c. 1630

A terceira peça é o movimento substancial, haraka jawhariyya (mudança no próprio ser, e não só nas qualidades). Para Aristóteles e Avicena, uma maçã muda de cor e de tamanho, mas a substância maçã fica parada por baixo. Para Sadra, se o real é o existir, e o existir varia em grau, o próprio ser da maçã está em fluxo contínuo, do verde ao maduro.

 
 

II  Quem pensou

O filho de Shiraz

Mulla Sadra nasceu Sadr al-Din Muhammad Shirazi por volta de 1572, em Shiraz, no sul da Pérsia. Era filho único de Ibrahim Qawami, funcionário rico ligado ao governo da província de Fars. A família o preparou para a corte, e ele trocou a corte pelos livros.

Ainda jovem, mudou-se para Isfahan, capital do império safávida sob o xá Abbas I. A cidade reunia os maiores mestres do tempo. Sadra estudou com dois deles: Mir Damad, teólogo e filósofo, e Baha al-Din Amili, conhecido como Shaykh Bahai, matemático e jurista.

Mir Damad defendia a primazia da essência. O aluno seguiu o mestre por anos. No próprio Asfar, Sadra conta a mudança de lado.

“Eu fui, no começo, defensor ferrenho da tese de que as essências são o real e a existência é abstração da mente, até que meu Senhor me guiou e me mostrou a demonstração.”

Mulla Sadra, Asfar, volume I, c. 1630

A guinada tem data aproximada, mas não exata. Sadra deixou Isfahan e se recolheu em Kahak, nas montanhas perto de Qom. Os biógrafos falam em sete a quinze anos de retiro; a duração exata não aparece em nenhum documento da época, e as contas variam conforme a data que se aceita para a saída de Isfahan.

O motivo da saída também é discutido. No prefácio do Asfar, Sadra se queixa dos juristas que o acusavam de heresia por misturar filosofia, mística sufi e Corão. Ele descreve o retiro como fuga de gente de entendimento curto, sem nomear ninguém, e os alvos da queixa seguem sem identificação.

O Asfar nasceu de um filósofo que mudou de ideia e decidiu escrever a mudança inteira.

O título completo é al-Hikma al-muta'aliya fi'l-asfar al-'aqliyya al-arba'a, A sabedoria transcendente nas quatro viagens do intelecto. As quatro viagens vêm da mística sufi: da criação a Deus, em Deus, de Deus de volta à criação, e na criação com Deus. Cada viagem organiza um bloco de temas, da existência à alma.

Ainda nos anos 1630, o governador de Fars, Imam Quli Khan, chamou Sadra de volta a Shiraz para dirigir a Madrasa-ye Khan, escola que a família do governador tinha mandado construir. Ali ele ensinou até o último ano de vida e formou discípulos como Fayd Kashani e Abd al-Razzaq Lahiji, que eram também seus genros.

Sadra fez sete peregrinações a Meca, a pé, segundo os biógrafos. Na volta da sétima, em 1640, adoeceu e faleceu em Basra, no atual Iraque. O local exato do túmulo se perdeu: nenhuma fonte da época o indica com segurança.

 

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III  Contra o quê

Contra o mestre da Iluminação

O alvo principal de Mulla Sadra é Shihab al-Din Yahya Suhrawardi, filósofo persa do século XII, fundador da escola da Iluminação (ishraq, em árabe, o nascer da luz). Suhrawardi foi executado em Aleppo em 1191 por ordem de Saladino, acusado de heresia, mas a obra dele seguiu ensinada na Pérsia por quatro séculos.

Suhrawardi tinha um argumento contra a existência real que parecia fechar a questão. Se a existência existisse lá fora, ela também teria existência. Essa segunda existência teria uma terceira, e assim sem fim. Para escapar da série infinita, a existência só podia ser uma noção da mente.

“Se a existência fosse algo no mundo, teria ela própria uma existência, e a série não pararia.”

Suhrawardi, Hikmat al-Ishraq (A filosofia da Iluminação), 1186

Sadra responde com uma distinção. A existência não existe por meio de outra existência: ela existe por si, como a luz é visível por si e não precisa de outra luz para ser vista. A série infinita só aparece quando se trata a existência como uma qualidade a mais, ao lado do vermelho e do pesado.

O ataque mira também o modo como Avicena tinha sido lido. No Livro da Cura (Kitab al-Shifa), de cerca de 1027, Avicena chamou a existência de acidente da essência, um traço que se soma a ela. Muitos leitores tomaram a frase ao pé da letra, como se a essência viesse primeiro e recebesse depois o existir, como uma parede recebe tinta.

Para Sadra, a imagem da parede inverte tudo. Não há parede esperando tinta. Há só a tinta, e parede é a palavra que se dá ao lugar onde a tinta para.

Suhrawardi pôs a luz no centro do mundo; Sadra pegou a luz dele e chamou de existir.

A ironia é dupla: a metáfora da luz que Sadra usa contra Suhrawardi vem do próprio Suhrawardi. Na Iluminação, as luzes diferem só por intensidade. Sadra aceita a escala inteira e troca apenas a palavra para o que nela varia.

Um homem acha na gaveta uma foto dele aos 6 anos, de bermuda, num quintal de terra. Não reconhece o rosto, a roupa, o quintal. A mãe garante que é ele.

Ele aponta para a foto e diz que é ele. Quase nada na imagem coincide com o rosto de hoje: o osso cresceu, o cabelo escureceu, a voz engrossou. O que continua é um existir que nunca parou, mais fraco ali, mais forte agora.

“Se tudo o que você é muda, o que em você continua?”

Ele fechou a gaveta.

 
 

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