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ED 049
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O eu que só existe com o mundo em volta

Nas Meditações do Quixote, de 1914, Ortega y Gasset mostra que o sujeito não se separa do mundo que o cerca.

Um homem caminha por uma trilha de bosque, cercado de árvores por todos os lados.

O bosque que nunca está inteiro à vista

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O Houaiss define circunstância como "condição de tempo, lugar ou modo que acompanha um fato". O espanhol José Ortega y Gasset mostrou em 1914, nas Meditações do Quixote, onde a definição falha: ela trata a circunstância como acessório, um detalhe pendurado em volta do fato principal, quando para ele o fato principal nem chega a existir sem ela.

A palavra vem do latim circumstantia, formada por circum (em volta) e stare (estar de pé). É o que fica parado ao redor. Os juristas romanos usavam o termo para as condições de um crime: hora, lugar, arma, motivo. O réu vinha primeiro, e a circunstância só agravava ou atenuava a pena. Um furto cometido à noite podia valer castigo mais duro que o mesmo furto feito de dia.

A gramática herdou a mesma hierarquia. O adjunto adverbial (a parte da frase que informa tempo, lugar ou modo) é o termo que se pode apagar sem derrubar a oração. Ele leu o livro na varanda continua de pé sem a varanda.

Ortega tinha 31 anos e ensinava metafísica na Universidade Central de Madri quando publicou o livro, o primeiro da carreira. Tinha passado temporadas na Alemanha estudando com os neokantianos de Marburgo, escola que punha o sujeito pensante no centro de tudo e tratava o mundo como construção da consciência.

As Meditações nasceram para discutir Dom Quixote, o romance de Miguel de Cervantes. O comentário prometido ao romance quase não aparece. As páginas ficam ocupadas por um bosque perto do mosteiro do Escorial, por um rio, pela paisagem de Castela, e pela tese de que o homem que olha a paisagem faz parte dela.

A frase mais citada do livro circula truncada. Aparece em camisetas e epígrafes só com a primeira metade, e a segunda, a que dá sentido ao conjunto, costuma cair pelo caminho. Quem cita só a primeira entende quase o contrário do que Ortega escreveu.

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I  A ideia do dia

A frase inteira, com a segunda metade

A formulação completa está no prefácio, que Ortega endereçou ao leitor. Em português: eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo. São duas orações, e a segunda muda o peso da primeira.

A primeira metade parece uma soma: um eu mais um entorno. Ortega recusa a soma. O primeiro eu da frase é a pessoa inteira, a vida concreta. O segundo eu é o sujeito que pensa, e ele só aparece metido num mundo: o corpo, a cidade, a língua, a época, as pessoas por perto.

Circunstância, nessa leitura, deixa de ser acessório e vira metade da própria pessoa. Tirar a paisagem de Castela de um castelhano de 1914 não devolve um castelhano puro. Devolve uma abstração que nunca existiu.

A segunda metade traz o verbo mais estranho: salvar. Ortega não fala em aceitar a circunstância, nem em fugir dela. Salvar, no vocabulário do livro, significa levar cada elemento do entorno à plenitude do seu significado, entender o que ele é e por que está ali.

o movimento da frase, na ordem do prefácio

O eu concreto se descobre metido num mundo que não escolheu

Esse mundo pede sentido, e dar sentido a ele é tarefa do próprio eu

Quem deixa o entorno sem sentido perde a própria vida, que é feita dele

A circunstância ocupa metade da pessoa, e a outra metade depende de como ela a trata.

"Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo."

José Ortega y Gasset, Meditações do Quixote, 1914

O exemplo de Ortega é o bosque da Herrería, vizinho do Escorial. Ele pergunta quantas árvores fazem um bosque e responde que o bosque nunca está onde a pessoa está. Quem caminha vê algumas árvores. O resto fica escondido, feito de possibilidades, trilhas que alguém poderia tomar. O bosque inteiro, na conta dele, é feito sobretudo das árvores que ninguém enxerga naquele instante.

O mundo em volta tem, portanto, profundidade. A circunstância não se esgota no que se vê, e salvá-la exige olhar para o que fica atrás do visível: a história de um lugar, o motivo de um costume, a origem de uma palavra.

Dessa leitura sai o rótulo que Ortega deu à própria filosofia décadas depois, razão vital (a razão entendida como função da vida concreta, e não como tribunal acima dela). Pensar, para ele, é uma forma de viver dentro da circunstância, nunca de sair dela.

 
 

II  Quem pensou

O professor de Madri que saiu da redoma

José Ortega y Gasset nasceu em Madri em 9 de maio de 1883, numa família de jornalistas. O pai, José Ortega Munilla, dirigia o suplemento literário do jornal El Imparcial, que o avô materno, Eduardo Gasset y Artime, tinha fundado.

Estudou com os jesuítas em Málaga e cursou filosofia em Madri, onde se doutorou em 1904. Entre 1905 e 1907 passou por Leipzig, Berlim e Marburgo. Em Marburgo encontrou os mestres que depois contestaria, Hermann Cohen e Paul Natorp, líderes do neokantismo (a corrente que retomava Immanuel Kant para fundar o conhecimento na consciência).

Em 1910 ganhou a cátedra de metafísica da Universidade Central de Madri. A Espanha ainda digeria a perda de Cuba, Porto Rico e Filipinas na guerra de 1898 contra os Estados Unidos, e a geração de Ortega discutia o atraso do país diante da Europa. O livro de 1914 entra nesse debate: a circunstância que Ortega queria salvar era, antes de tudo, a própria Espanha.

Salvar a circunstância, em 1914, tinha endereço: um país que se achava atrasado.

"Dado um fato, um homem, um livro, um quadro, uma paisagem, um erro, uma dor, levá-lo pelo caminho mais curto à plenitude do seu significado."

José Ortega y Gasset, Meditações do Quixote, 1914

Ortega escreveu para o público de jornal tanto quanto para a universidade. Em 1917 ajudou a fundar o diário El Sol, e em 1923 criou a Revista de Occidente, que traduziu para o espanhol boa parte da filosofia alemã da época.

Foi pela Revista de Occidente que boa parte dos leitores de língua espanhola conheceu Edmund Husserl, Max Scheler e Georg Simmel, autores que Ortega lia no original desde os anos de Marburgo.

A obra mais lida dele, A Rebelião das Massas, saiu em livro em 1930, depois de publicada em capítulos na imprensa. Em 1931 foi eleito deputado para as Cortes da Segunda República e se afastou da política pouco depois, desiludido com os rumos do regime.

A Guerra Civil, em 1936, o empurrou para o exílio: Paris, Holanda, Buenos Aires e, por último, Lisboa, onde se fixou em 1942. Voltou à Espanha em 1945 sem retomar a cátedra, e em 1948 fundou com o discípulo Julián Marías o Instituto de Humanidades, em Madri.

Morreu em Madri, em outubro de 1955, aos 72 anos. A frase do prefácio de 1914 acompanhou a obra inteira: os livros posteriores voltam a ela para desenvolvê-la, nunca para revogá-la.

 

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III  Contra o quê

Contra Descartes, contra o fatalismo, e a briga com Heidegger

O alvo principal do livro é o idealismo, a tradição que começa com René Descartes e o penso, logo existo, de 1637. Descartes duvidou do mundo inteiro e ficou só com a consciência como certeza. O mundo, dali em diante, precisava ser deduzido dela.

Os neokantianos de Marburgo levaram a linha adiante: o objeto conhecido seria produto das operações do sujeito. Ortega conhecia essa escola por dentro e passou a vê-la como uma redoma, um eu fechado que pensa o mundo sem nunca pisar nele.

O alvo oposto é o positivismo do século XIX, que tratava a pessoa como peça determinada pelo meio, pelo clima ou pela herança. Ortega rejeita as duas pontas. Nem o eu produz o mundo, nem o mundo produz o eu. A realidade primeira, para ele, é a vida, o encontro dos dois.

A objeção que mais se repete vem desse segundo lado. Se a pessoa é metade circunstância, a frase pode servir de desculpa: nasci onde nasci, logo sou assim. Ortega responde com o verbo salvar. A circunstância oferece um repertório limitado de possibilidades, e escolher entre elas continua sendo tarefa do eu. Em obras posteriores ele resumiu a vida como quehacer (tarefa a cumprir).

A circunstância fixa o cardápio, e a escolha segue com a pessoa.

A segunda briga é de prioridade. Em 1927, Martin Heidegger publicou Ser e Tempo, com o conceito de ser-no-mundo (a existência humana já começa lançada num mundo, sem um sujeito isolado anterior a ele). Ortega reclamou em textos posteriores que tinha formulado a ideia treze anos antes. O texto de 1914 não usa o vocabulário técnico que Heidegger criaria depois: a coincidência está na recusa do sujeito isolado, e não nos termos.

Heidegger nunca citou Ortega nas obras publicadas, e nenhum documento prova que tenha lido as Meditações. A questão da influência segue aberta por falta de prova, e os dois se conheceram pessoalmente só em 1951, num colóquio em Darmstadt, na Alemanha.

No guichê de um cartório, um homem preenche a ficha para tirar a segunda via da identidade. O formulário pede data de nascimento, filiação, profissão e cidade natal. Ele escreve Garanhuns, onde não pisa desde os seis anos.

"Quanto de você ficaria de pé sem a cidade onde nasceu?"

O atendente pega a ficha e confere a letra.

Carimbou.

 
 
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