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O eu que só existe com o mundo em volta
Nas Meditações do Quixote, de 1914, Ortega y Gasset mostra que o sujeito não se separa do mundo que o cerca.
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O bosque que nunca está inteiro à vista
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O Houaiss define circunstância como "condição de tempo, lugar ou modo que acompanha um fato". O espanhol José Ortega y Gasset mostrou em 1914, nas Meditações do Quixote, onde a definição falha: ela trata a circunstância como acessório, um detalhe pendurado em volta do fato principal, quando para ele o fato principal nem chega a existir sem ela.
A palavra vem do latim circumstantia, formada por circum (em volta) e stare (estar de pé). É o que fica parado ao redor. Os juristas romanos usavam o termo para as condições de um crime: hora, lugar, arma, motivo. O réu vinha primeiro, e a circunstância só agravava ou atenuava a pena. Um furto cometido à noite podia valer castigo mais duro que o mesmo furto feito de dia.
A gramática herdou a mesma hierarquia. O adjunto adverbial (a parte da frase que informa tempo, lugar ou modo) é o termo que se pode apagar sem derrubar a oração. Ele leu o livro na varanda continua de pé sem a varanda.
Ortega tinha 31 anos e ensinava metafísica na Universidade Central de Madri quando publicou o livro, o primeiro da carreira. Tinha passado temporadas na Alemanha estudando com os neokantianos de Marburgo, escola que punha o sujeito pensante no centro de tudo e tratava o mundo como construção da consciência.
As Meditações nasceram para discutir Dom Quixote, o romance de Miguel de Cervantes. O comentário prometido ao romance quase não aparece. As páginas ficam ocupadas por um bosque perto do mosteiro do Escorial, por um rio, pela paisagem de Castela, e pela tese de que o homem que olha a paisagem faz parte dela.
A frase mais citada do livro circula truncada. Aparece em camisetas e epígrafes só com a primeira metade, e a segunda, a que dá sentido ao conjunto, costuma cair pelo caminho. Quem cita só a primeira entende quase o contrário do que Ortega escreveu.
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I A ideia do dia
A frase inteira, com a segunda metade
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A formulação completa está no prefácio, que Ortega endereçou ao leitor. Em português: eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo. São duas orações, e a segunda muda o peso da primeira.
A primeira metade parece uma soma: um eu mais um entorno. Ortega recusa a soma. O primeiro eu da frase é a pessoa inteira, a vida concreta. O segundo eu é o sujeito que pensa, e ele só aparece metido num mundo: o corpo, a cidade, a língua, a época, as pessoas por perto.
Circunstância, nessa leitura, deixa de ser acessório e vira metade da própria pessoa. Tirar a paisagem de Castela de um castelhano de 1914 não devolve um castelhano puro. Devolve uma abstração que nunca existiu.
A segunda metade traz o verbo mais estranho: salvar. Ortega não fala em aceitar a circunstância, nem em fugir dela. Salvar, no vocabulário do livro, significa levar cada elemento do entorno à plenitude do seu significado, entender o que ele é e por que está ali.
o movimento da frase, na ordem do prefácio
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O eu concreto se descobre metido num mundo que não escolheu
Esse mundo pede sentido, e dar sentido a ele é tarefa do próprio eu
Quem deixa o entorno sem sentido perde a própria vida, que é feita dele
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A circunstância ocupa metade da pessoa, e a outra metade depende de como ela a trata.
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"Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo."
José Ortega y Gasset, Meditações do Quixote, 1914
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O exemplo de Ortega é o bosque da Herrería, vizinho do Escorial. Ele pergunta quantas árvores fazem um bosque e responde que o bosque nunca está onde a pessoa está. Quem caminha vê algumas árvores. O resto fica escondido, feito de possibilidades, trilhas que alguém poderia tomar. O bosque inteiro, na conta dele, é feito sobretudo das árvores que ninguém enxerga naquele instante.
O mundo em volta tem, portanto, profundidade. A circunstância não se esgota no que se vê, e salvá-la exige olhar para o que fica atrás do visível: a história de um lugar, o motivo de um costume, a origem de uma palavra.
Dessa leitura sai o rótulo que Ortega deu à própria filosofia décadas depois, razão vital (a razão entendida como função da vida concreta, e não como tribunal acima dela). Pensar, para ele, é uma forma de viver dentro da circunstância, nunca de sair dela.
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II Quem pensou
O professor de Madri que saiu da redoma
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José Ortega y Gasset nasceu em Madri em 9 de maio de 1883, numa família de jornalistas. O pai, José Ortega Munilla, dirigia o suplemento literário do jornal El Imparcial, que o avô materno, Eduardo Gasset y Artime, tinha fundado.
Estudou com os jesuítas em Málaga e cursou filosofia em Madri, onde se doutorou em 1904. Entre 1905 e 1907 passou por Leipzig, Berlim e Marburgo. Em Marburgo encontrou os mestres que depois contestaria, Hermann Cohen e Paul Natorp, líderes do neokantismo (a corrente que retomava Immanuel Kant para fundar o conhecimento na consciência).
Em 1910 ganhou a cátedra de metafísica da Universidade Central de Madri. A Espanha ainda digeria a perda de Cuba, Porto Rico e Filipinas na guerra de 1898 contra os Estados Unidos, e a geração de Ortega discutia o atraso do país diante da Europa. O livro de 1914 entra nesse debate: a circunstância que Ortega queria salvar era, antes de tudo, a própria Espanha.
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Salvar a circunstância, em 1914, tinha endereço: um país que se achava atrasado.
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"Dado um fato, um homem, um livro, um quadro, uma paisagem, um erro, uma dor, levá-lo pelo caminho mais curto à plenitude do seu significado."
José Ortega y Gasset, Meditações do Quixote, 1914
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Ortega escreveu para o público de jornal tanto quanto para a universidade. Em 1917 ajudou a fundar o diário El Sol, e em 1923 criou a Revista de Occidente, que traduziu para o espanhol boa parte da filosofia alemã da época.
Foi pela Revista de Occidente que boa parte dos leitores de língua espanhola conheceu Edmund Husserl, Max Scheler e Georg Simmel, autores que Ortega lia no original desde os anos de Marburgo.
A obra mais lida dele, A Rebelião das Massas, saiu em livro em 1930, depois de publicada em capítulos na imprensa. Em 1931 foi eleito deputado para as Cortes da Segunda República e se afastou da política pouco depois, desiludido com os rumos do regime.
A Guerra Civil, em 1936, o empurrou para o exílio: Paris, Holanda, Buenos Aires e, por último, Lisboa, onde se fixou em 1942. Voltou à Espanha em 1945 sem retomar a cátedra, e em 1948 fundou com o discípulo Julián Marías o Instituto de Humanidades, em Madri.
Morreu em Madri, em outubro de 1955, aos 72 anos. A frase do prefácio de 1914 acompanhou a obra inteira: os livros posteriores voltam a ela para desenvolvê-la, nunca para revogá-la.
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