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A tese não passou sem briga. A reação começou em 1963, durou anos e custou a ela boa parte do círculo de amigos.
A primeira acusação foi de tom: leitores que esperavam luto encontraram ironia. A crítica veio de dentro de casa, assinada por Gershom Scholem, maior estudioso da mística judaica e amigo dela desde os anos 1930, numa carta que circulou pelo mundo antes de qualquer resposta.
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"Nos círculos judaicos existe algo que se chama amor ao povo de Israel. Em você, querida Hannah, como em tantos intelectuais vindos da esquerda alemã, encontro pouco traço desse amor."
Gershom Scholem, carta a Hannah Arendt, 23 de junho de 1963.
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A resposta dela recusou o terreno da acusação: nunca tinha amado nenhum povo nem nenhum coletivo, escreveu, porque o único amor que conhecia era pelas pessoas, uma a uma.
A objeção mais pesada não era de estilo. Em algumas páginas Arendt sustentou que os conselhos judaicos criados pelos ocupantes facilitaram o trabalho da máquina, e que sem aquela colaboração o número final teria sido menor.
Jacob Robinson respondeu em 1965 com um livro inteiro de correções, e a crítica de fundo era de proporção: ela esticou até a conclusão um material que não a sustentava.
A contestação mais séria demorou meio século. Bettina Stangneth publicou em 2011 o trabalho com as fitas gravadas em Buenos Aires em 1957, quando um jornalista holandês entrevistou o foragido durante meses.
O homem das fitas não é o funcionário do vidro: defende a ideologia sem rodeios, se orgulha do cargo e recusa o papel de peça pequena.
A conclusão de Stangneth é dura: a figura sem profundidade de Jerusalém era um papel ensaiado junto com a defesa. Trechos das fitas chegaram ao tribunal, Arendt os tratou como fanfarronice de exilado, e hoje o descarte parece o erro dela.
Sobra a parte que resiste. Três meses depois da abertura do julgamento, Stanley Milgram começou em Yale os experimentos de obediência: vinte e seis dos quarenta voluntários foram até a última chave do painel, obedecendo a um homem de jaleco sem poder nenhum sobre eles.
Milgram escreveu em 1974 que a expressão de Arendt chegava mais perto da verdade do que se gostaria de admitir.
A máquina nunca precisou de milhares de fanáticos. Precisou de despachantes, ferroviários e datilógrafos que não precisavam querer o resultado para produzi-lo.
Fora da discussão histórica, a régua serve bem à decisão prática.
1. Diga em voz alta o que o seu ato produz, não o que ele cumpre. Encaminhei o pedido descreve a função. Cortei o atendimento de trinta famílias descreve o efeito, e só a segunda obriga a pensar. |
2. Desconfie de toda frase que você repete sem esforço. Fórmula pronta é o ponto onde o pensamento para de trabalhar. O teste: diga a mesma coisa com outras palavras e veja se sobra conteúdo. |
3. Antes de assinar, troque de cadeira por um minuto. Não é empatia de cartaz, é operação técnica: descrever a decisão do ponto de vista de quem a recebe. |
A tese sobrevive ao homem que a inspirou: a engrenagem do estrago maior não precisa de gente que a queira, precisa de gente suficiente que nunca examine a própria parte.
"Qual foi o último papel que você assinou sem parar para pensar em quem ele atinge?"
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