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ED 004

O burocrata na cabine de vidro

Hannah Arendt foi a Jerusalém em 1961 esperando um fanático no banco dos réus e encontrou um funcionário pontual que só falava por clichês.

Uma cabine de vidro à prova de balas montada no centro de um tribunal, com um homem de terno escuro sentado sozinho lá dentro.

O réu responde de dentro da cabine de vidro

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Onze de abril de 1961, Jerusalém. Um teatro recém-inaugurado, a Beit Ha'am, foi convertido em tribunal, e no meio do palco montaram uma cabine de vidro à prova de balas. Dentro dela senta um homem de terno escuro, óculos de armação grossa e um resfriado que o obriga a assoar o nariz entre uma pergunta e outra.

Ele tem 55 anos, responde por quinze acusações e ajusta os fones de tradução com o cuidado de quem confere um formulário. Foi capturado em Buenos Aires no ano anterior, pelo papel que teve na deportação de milhões de judeus para os campos.

Na galeria da imprensa está uma filósofa alemã de 54 anos, naturalizada americana, enviada pela revista The New Yorker. Ela saiu da Alemanha em 1933, passou por um campo de internamento francês em 1940 e desembarcou em Nova York em 1941. Nunca tinha coberto um julgamento.

O que ela esperava tinha forma definida: um fanático, alguém com ódio suficiente no rosto para explicar a escala do que aconteceu. O que apareceu na cabine foi um funcionário de carreira que falava em jargão de repartição, corrigia o promotor sobre organogramas e patentes e dizia ter cumprido o juramento.

Durante 121 sessões o promotor Gideon Hausner desfilou mais de cem testemunhas e mil e seiscentos documentos. O réu ouviu tudo de dentro do vidro e em nenhum momento reconheceu nos relatos algo que dependesse de uma escolha dele.

As duas palavras que ele mais repetiu foram ordem e competência, a segunda no sentido burocrático de saber a qual departamento pertencia cada tarefa.

A filósofa saiu de Jerusalém com uma conclusão que lhe custou caro: o estrago maior do século não saiu das mãos de monstros, e sim de gente comum que nunca parou para pensar no que assinava. Ela batizou a observação, publicou o nome em cinco reportagens e num livro, e passou doze anos explicando a expressão.

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I  A ideia do dia

Um mal sem profundidade

Seis peritos examinaram o réu antes do julgamento e não acharam nada.

Os laudos psiquiátricos foram a primeira surpresa do processo. Um dos examinadores declarou que a atitude do homem em relação à esposa, aos filhos e aos amigos era não apenas normal, mas inteiramente desejável. O pastor que o visitava na prisão descreveu um sujeito de ideias positivas.

A pilha de laudos derrubava a explicação confortável. Se o réu fosse doente, o caso terminava na psiquiatria e o mundo seguia tranquilo. Ele não era doente: era um chefe de departamento com desempenho acima da média.

A tese que Arendt montou olhando para aquela cabine tem uma peça central, e a peça não é maldade. É irreflexão. Não a burrice, que ele não tinha, e sim a incapacidade de examinar o próprio ato do lado de fora, do ponto de vista de quem o recebe.

O sinal mais visível da ausência era a língua. Ele falava por fórmulas prontas e trocava de fórmula conforme o interlocutor. Perguntado sobre a consciência, respondia com máximas de calendário, e Arendt anotou que nenhuma frase dele escapava do lugar-comum.

O episódio mais estranho apareceu no interrogatório policial, duzentas e setenta e cinco horas que viraram três mil quinhentas e sessenta e quatro páginas. O réu declarou ter vivido segundo a moral de Kant e recitou de cabeça uma versão aproximada do imperativo categórico.

A recitação estava quase certa e a aplicação estava invertida. Kant exige que cada um teste a própria máxima como se ela fosse virar lei universal, o que obriga a pessoa a pensar sozinha. O réu trocou o teste por outra régua: agir de modo que o chefe de Estado aprovasse a conduta se soubesse dela.

Arendt chamou o resultado de Kant para uso doméstico do homem pequeno. A troca resolve o problema moral de quem obedece: dispensa qualquer exame e basta descobrir o que a autoridade quer.

A consciência segue funcionando depois da troca, só que medindo a distância entre o funcionário e a ordem, nunca entre o ato assinado e o efeito dele na vida de quem está do outro lado do formulário.

Nunca parar para pensar no que se assina não é um defeito menor de caráter, é a condição que faz a engrenagem inteira funcionar.

Arendt tinha escrito antes sobre o mal radical, em 1951, no livro sobre as origens do totalitarismo. Depois de Jerusalém mudou de posição: o mal extremo não tem profundidade nem grandeza demoníaca, se espalha na superfície como fungo e devasta o mundo justamente por não ter raiz.

 
 

II  Quem pensou

A refugiada que virou repórter de tribunal

Hannah Arendt não foi a Jerusalém como filósofa. Foi como repórter, por vontade própria, e pagou pela reportagem o preço mais alto da carreira: amizades de trinta anos encerradas por carta.

Nasceu em 1906 em Linden, perto de Hanôver, e cresceu em Königsberg, a cidade de Kant. Foi expulsa do ginásio por organizar um boicote a um professor que a tinha ofendido, e prestou o exame final como candidata externa.

Aos dezoito anos entrou em Marburg para estudar com Martin Heidegger, e os dois viveram um caso que ela escondeu por décadas. Doutorou-se em Heidelberg com Karl Jaspers, em 1929, com uma tese sobre o conceito de amor em Agostinho.

Em 1933 a Gestapo prendeu ela e a mãe por oito dias. Ela recolhia, na Biblioteca Estadual da Prússia, declarações antissemitas de jornais e boletins que a organização sionista alemã queria mostrar no exterior. Soltas, as duas saíram do país sem documentos.

Passou oito anos em Paris cuidando de jovens judeus que emigravam para a Palestina. Em 1940 o governo francês a internou no campo de Gurs como estrangeira inimiga. Escapou na confusão da derrota francesa e chegou a Nova York em maio de 1941.

Aprendeu inglês depois dos trinta e cinco e virou uma das vozes mais lidas da vida intelectual americana, com As Origens do Totalitarismo em 1951 e A Condição Humana em 1958.

Quando soube da captura, em 1960, escreveu à Fundação Rockefeller adiando uma bolsa: tinha perdido os julgamentos de Nuremberg, nunca tinha visto aquela gente em carne e osso e não haveria terceira chance.

Ela não assistiu ao julgamento inteiro. Acompanhou as primeiras semanas em abril, voltou em junho para parte do interrogatório e leu o resto nas transcrições, o que os críticos usariam depois contra ela.

"O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e que esses muitos não eram pervertidos nem sádicos, eram, e continuam sendo, terrível e assustadoramente normais."

Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, 1963.

As cinco reportagens saíram em fevereiro e março de 1963, e o livro chegou às livrarias em maio, com o subtítulo que virou a frase mais citada dela e a mais mal lida: um relato sobre a banalidade do mal.

A expressão aparece no subtítulo e reaparece na última linha do relato. Nenhuma das duas vale como teoria geral, e sim como descrição de um homem dentro de uma cabine. A leitura que se espalhou foi outra: a de que qualquer pessoa faria o mesmo no lugar dele.

A última pergunta que ela trouxe de Jerusalém não era sobre o réu. Era sobre a atividade de pensar, e se examinar o que se faz protege alguém de fazer o pior. Ela partiu em 1975 escrevendo o livro que tentava responder, e a página presa na máquina trazia só o título do capítulo.

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III  Contra o quê

O Eichmann anterior a Jerusalém

A tese não passou sem briga. A reação começou em 1963, durou anos e custou a ela boa parte do círculo de amigos.

A primeira acusação foi de tom: leitores que esperavam luto encontraram ironia. A crítica veio de dentro de casa, assinada por Gershom Scholem, maior estudioso da mística judaica e amigo dela desde os anos 1930, numa carta que circulou pelo mundo antes de qualquer resposta.

"Nos círculos judaicos existe algo que se chama amor ao povo de Israel. Em você, querida Hannah, como em tantos intelectuais vindos da esquerda alemã, encontro pouco traço desse amor."

Gershom Scholem, carta a Hannah Arendt, 23 de junho de 1963.

A resposta dela recusou o terreno da acusação: nunca tinha amado nenhum povo nem nenhum coletivo, escreveu, porque o único amor que conhecia era pelas pessoas, uma a uma.

A objeção mais pesada não era de estilo. Em algumas páginas Arendt sustentou que os conselhos judaicos criados pelos ocupantes facilitaram o trabalho da máquina, e que sem aquela colaboração o número final teria sido menor.

Jacob Robinson respondeu em 1965 com um livro inteiro de correções, e a crítica de fundo era de proporção: ela esticou até a conclusão um material que não a sustentava.

A contestação mais séria demorou meio século. Bettina Stangneth publicou em 2011 o trabalho com as fitas gravadas em Buenos Aires em 1957, quando um jornalista holandês entrevistou o foragido durante meses.

O homem das fitas não é o funcionário do vidro: defende a ideologia sem rodeios, se orgulha do cargo e recusa o papel de peça pequena.

A conclusão de Stangneth é dura: a figura sem profundidade de Jerusalém era um papel ensaiado junto com a defesa. Trechos das fitas chegaram ao tribunal, Arendt os tratou como fanfarronice de exilado, e hoje o descarte parece o erro dela.

Sobra a parte que resiste. Três meses depois da abertura do julgamento, Stanley Milgram começou em Yale os experimentos de obediência: vinte e seis dos quarenta voluntários foram até a última chave do painel, obedecendo a um homem de jaleco sem poder nenhum sobre eles.

Milgram escreveu em 1974 que a expressão de Arendt chegava mais perto da verdade do que se gostaria de admitir.

A máquina nunca precisou de milhares de fanáticos. Precisou de despachantes, ferroviários e datilógrafos que não precisavam querer o resultado para produzi-lo.

Fora da discussão histórica, a régua serve bem à decisão prática.

1. Diga em voz alta o que o seu ato produz, não o que ele cumpre. Encaminhei o pedido descreve a função. Cortei o atendimento de trinta famílias descreve o efeito, e só a segunda obriga a pensar.

2. Desconfie de toda frase que você repete sem esforço. Fórmula pronta é o ponto onde o pensamento para de trabalhar. O teste: diga a mesma coisa com outras palavras e veja se sobra conteúdo.

3. Antes de assinar, troque de cadeira por um minuto. Não é empatia de cartaz, é operação técnica: descrever a decisão do ponto de vista de quem a recebe.

A tese sobrevive ao homem que a inspirou: a engrenagem do estrago maior não precisa de gente que a queira, precisa de gente suficiente que nunca examine a própria parte.

"Qual foi o último papel que você assinou sem parar para pensar em quem ele atinge?"

 
 
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Segundo o texto, qual é a peça central da tese que Arendt montou olhando para o réu na cabine de vidro?

AUm ódio ideológico declarado desde a juventude
BA irreflexão, a incapacidade de examinar o próprio ato do ponto de vista de quem o recebe
CUm distúrbio psiquiátrico apontado pelos peritos que o examinaram
DA pressão financeira sobre um funcionário mal pago

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