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O besouro na caixa não entra na conta
No parágrafo 293 das Investigações Filosóficas, o objeto privado sai da conta porque o significado da palavra vem do uso público.
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A caixa que ninguém mais pode abrir
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Numa sala de pronto-socorro, uma placa na parede mostra seis rostinhos desenhados, do sorriso largo à careta fechada, com um número embaixo de cada um. A enfermeira aponta a placa e pergunta qual deles corresponde ao que o paciente está sentindo naquele minuto. O paciente hesita entre o quatro e o seis, e escolhe o seis.
Ninguém ali dentro tem acesso ao que ele sente. A enfermeira não sente nada da dor dele, o médico que vai avaliar o caso também não, o aparelho preso ao braço mede pressão e batimento e mais nada. Ainda assim o número seis entra no prontuário, orienta a dose e muda a posição do paciente na fila.
O arranjo funciona todo dia, em todo hospital, em qualquer idioma. Um seis apontado às onze da manhã e um seis apontado por outra pessoa à tarde produzem condutas parecidas, e os dois pacientes aprenderam a palavra dor sem nunca ter comparado a sensação de um com a do outro.
A ideia do dia é que aquilo que só o dono enxerga não está fazendo o trabalho que parece fazer. O significado da palavra não é fixado pelo conteúdo escondido, e sim pelo uso público: o gesto de apontar a placa, a dose que vem depois, a mãe que corrige a criança quando ela diz que a perna dói e ao mesmo tempo sobe a escada correndo.
Um filósofo austríaco fixou a demonstração numa experiência mental de sete linhas, publicada em 1953 dentro de um livro que ele não viu impresso. O texto tem número: é o parágrafo 293 das Investigações Filosóficas, e o argumento inteiro cabe num único parágrafo com uma caixa e um inseto dentro.
O resumo de manual costuma parar antes da parte difícil, e a parte difícil está no passo final. Vale acompanhar a experiência frase por frase, porque a conclusão dela é mais radical do que a frase curta que a resume.
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I A ideia do dia
O que está dentro da caixa some do jogo
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Suponha que cada pessoa de uma comunidade carregue uma caixa pequena. Dentro da caixa existe um objeto, e todos chamam esse objeto de besouro. Ninguém pode olhar dentro da caixa alheia, nunca, em nenhuma circunstância. Cada um diz que sabe o que é um besouro apenas olhando o próprio.
A regra é absoluta, e é ela que sustenta o experimento. Não existe fresta, exame de imagem nem confissão que abra a caixa alheia. O acesso é de primeira mão, e cada dono aprendeu a palavra apontando para dentro.
Agora percorra as possibilidades que sobram. Poderia acontecer de cada caixa guardar um objeto diferente do objeto das outras. Poderia acontecer de o objeto dentro de cada caixa mudar continuamente, sem que o dono notasse a troca. Poderia acontecer, no limite, de algumas caixas estarem vazias.
E ainda assim nada mudaria no uso da palavra. As pessoas continuariam dizendo besouro umas para as outras, combinando encontros para falar de besouros, ensinando a palavra às crianças, discordando sobre besouros grandes e pequenos. A prática pública seguiria idêntica em qualquer um dos três cenários.
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Se o conteúdo da caixa pode variar, mudar ou sumir sem alterar uma vírgula do uso, então o conteúdo da caixa não é o que dá sentido à palavra.
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O passo seguinte é o que assusta. Wittgenstein não conclui apenas que o objeto é irrelevante. Ele escreve que o objeto na caixa não pertence ao jogo de linguagem, nem mesmo na condição de um algo, porque a caixa poderia estar vazia e o jogo continuaria igual.
O argumento se move em três etapas curtas:
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Premissa: a palavra é aprendida por cada um olhando apenas o próprio caso, sem acesso ao caso alheio
Constatação: variar, trocar ou esvaziar o conteúdo privado não altera nada no uso público da palavra
Consequência: a gramática da palavra não é a gramática de um nome que designa um objeto interno
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A transposição para o vocabulário das sensações é direta e é o alvo real do parágrafo. Se alguém constrói a gramática da palavra dor no modelo objeto e designação, tratando a dor como um item interno que a palavra nomeia, o item sai da conta como irrelevante junto com o besouro.
Convém marcar o que a experiência não afirma. Ela não afirma que ninguém sente nada, nem que a dor seja fingimento coletivo. Poucos parágrafos adiante o mesmo texto registra que a sensação não é um algo, e também não é um nada, e que a conclusão correta apenas recusa o modelo do objeto guardado.
O que cai no parágrafo 293 é uma figura mental antiga: um teatro interno onde os objetos verdadeiros ficam expostos para uma plateia de um espectador só, com as palavras servindo de etiqueta colada de dentro para fora. No experimento, a etiqueta vem de fora.
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II Quem pensou
O engenheiro que voltou para desmontar o próprio livro
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Ludwig Wittgenstein nasceu em Viena, em 26 de abril de 1889, o caçula de oito filhos de Karl Wittgenstein, o industrial do aço mais rico do império austro-húngaro. Na casa da família, Brahms e Mahler tocavam na sala de música, e o irmão Paul virou pianista de concerto com uma mão só depois de perder o braço direito na guerra.
Ele foi estudar engenharia aeronáutica em Manchester, em 1908, e chegou a patentear um desenho de hélice com motor na ponta das pás. O problema matemático da hélice o levou aos fundamentos da matemática, os fundamentos o levaram a Gottlob Frege, e Frege o mandou para Cambridge em 1911, procurar Bertrand Russell.
Na Primeira Guerra se alistou como voluntário no exército austríaco, pediu posto de observação avançada sob fogo, e terminou preso num campo italiano em Monte Cassino. O manuscrito do Tractatus Logico-Philosophicus saiu da mochila dele nesse período, publicado em 1921, com a tese de que a linguagem espelha a estrutura do mundo.
Achando que tinha resolvido os problemas da filosofia, distribuiu a fortuna herdada entre os irmãos e foi ser professor primário em três aldeias rurais da Baixa Áustria. Deu aulas em Trattenbach, Puchberg e Otterthal por seis anos, escreveu um dicionário escolar para crianças camponesas, e saiu depois de um processo por ter batido num aluno.
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"O objeto na caixa não pertence ao jogo de linguagem de modo algum, nem mesmo como um algo: pois a caixa poderia até estar vazia."
Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, 1953.
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Entre 1926 e 1928 desenhou com Paul Engelmann a casa da irmã Margarethe na Kundmanngasse, em Viena, e mandou levantar o teto de um salão por três centímetros para acertar a proporção. As maçanetas e os radiadores saíram da prancheta dele, peça por peça, sem ornamento.
Voltou a Cambridge em 1929, entregou o Tractatus como tese de doutorado, e passou os vinte anos seguintes desmontando o que tinha escrito nele. A linguagem deixou de ser um espelho lógico do mundo e virou uma família de práticas aprendidas, cada uma com regras próprias, o que ele passou a chamar de jogos de linguagem.
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O homem que tinha declarado a filosofia encerrada em 1921 voltou para escrever o livro que desfaz o primeiro, e nenhum dos dois foi publicado do jeito que ele queria.
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Durante a Segunda Guerra abandonou a cátedra e foi carregar macas no Guy's Hospital, em Londres, e depois virou técnico de laboratório em Newcastle. Renunciou à cadeira de Cambridge em 1947, com aversão declarada à vida acadêmica.
As Investigações Filosóficas saíram em 1953, dois anos depois que ele partiu na casa do próprio médico em Cambridge, em abril de 1951. O livro foi montado a partir de datilografias e cadernos por dois ex-alunos, Elizabeth Anscombe e Rush Rhees, e a última frase registrada pelo autor pedia que dissessem que ele teve uma vida maravilhosa.
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