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Um pastor a serviço do rei da Lídia cuidava do rebanho quando veio uma tempestade forte seguida de um tremor de terra.
A terra rachou e abriu uma fenda no ponto exato onde os animais pastavam. O pastor desceu por ela, e o texto descreve o que ele achou lá embaixo com um cuidado que o resto do livro quase não usa.
No fundo havia um cavalo de bronze, oco, com pequenas portas nas laterais. Por elas dava para ver um corpo de tamanho maior que o humano, sem nada além de um anel de ouro no dedo.
O pastor tirou o anel, subiu de volta e voltou ao trabalho como em qualquer outro dia.
Uma vez por mês os pastores se reuniam para prestar contas ao rei sobre o rebanho. Ele foi com o anel e, sentado entre os colegas, girou o engaste para dentro da mão sem prestar atenção no gesto.
Os outros passaram a falar dele na terceira pessoa, como se tivesse ido embora. Ele girou o engaste de volta para fora e reapareceu na roda, no mesmo lugar.
Fez o teste várias vezes, até ter certeza do funcionamento: para dentro, ninguém o via; para fora, ele voltava. O poder era confiável e estava sob o controle dele.
Com a certeza na mão, o pastor arranjou um lugar entre os mensageiros da corte. Seduziu a rainha, conquistou a ajuda dela contra o rei, tomou o trono e ficou com o reino.
Gláucon conta o caso e dobra a aposta. Imagine dois anéis iguais: um no dedo do homem mais correto que você conhece, outro no do pior canalha da cidade.
A previsão dele não abre exceção. Os dois param no mesmo lugar, pegando o que quiserem nas feiras, entrando nas casas que quiserem, e nenhum observador de fora saberia apontar qual era o justo.
O argumento não é sobre magia. O anel isola uma variável, como um laboratório isola uma variável: ele zera a consequência social e deixa em cena apenas o motivo.
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A justiça que só funciona sob vigilância não é uma virtude, é uma coleira bem ajustada.
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Se a conduta desaba assim que a plateia se levanta e sai, então a plateia era a causa, e a justiça era apenas o preço de manter a reputação limpa.
Gláucon fecha com uma exigência de método. Ele quer que Sócrates prove o valor da justiça nela mesma, sem contar prêmio, honra ou consequência de reputação.
Para o teste ficar impossível de fraudar, ele monta um segundo cenário. De um lado, um injusto com fama perfeita de justo, respeitado pela cidade. Do outro, um justo tomado por criminoso, odiado e punido até o fim.
A pergunta final incomoda até hoje: qual dos dois você escolheria ser.
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