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O Dicionário Houaiss define imparcial como "que julga sem paixão, que não toma partido". A definição fala de juiz e de árbitro. Mozi, pensador chinês do século V a.C., levou a palavra para dentro de casa, onde ninguém costuma usá-la.
No livro que carrega o nome dele, há um capítulo chamado Jian ai (amor imparcial, cuidado que abrange todos por igual). O pedido ali é direto: tratar a família do outro como a própria, a cidade do outro como a própria, o reino do outro como o próprio.
A China daquele tempo estava partida em reinos que guerreavam entre si. Os historiadores chamam o período de Reinos Combatentes, e ele durou até 221 a.C., quando o reino de Qin engoliu os demais.
Nesse cenário, a doutrina mais respeitada vinha de Confúcio, morto poucos anos antes do nascimento de Mozi. Os discípulos confucianos ensinavam um afeto em círculos: primeiro o pai, depois os irmãos, depois os vizinhos, e só no fim o estranho.
Esse afeto graduado parecia simples bom senso. Um filho que ama o pai mais que o desconhecido está apenas sendo filho. Mozi achava que o problema do mundo inteiro morava justamente ali.
Para ele, o ladrão rouba da casa alheia porque ama a própria casa e não a do vizinho. O nobre saqueia a família alheia pela mesma razão. O rei invade o reino vizinho porque só enxerga o seu.
Todo o desastre da época, na conta de Mozi, nascia de um amor com fronteira. Os confucianos chamavam essa fronteira de virtude.
A briga não era de sentimento. Mozi queria saber qual das duas doutrinas deixava o povo mais alimentado, mais seguro e menos morto nas guerras, e montou um teste para responder.
O teste tinha três partes, e cada uma cobrava da doutrina uma prova diferente.
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I A ideia do dia
Três provas para uma doutrina
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O nome chinês do teste é san biao (os três padrões, as três estacas de medir). Mozi o apresenta no capítulo Contra o destino, e o usa para julgar qualquer ensinamento que lhe chegue às mãos, inclusive os próprios.
o teste de Mozi, na ordem do livro
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A origem: a doutrina bate com o que fizeram os reis sábios da Antiguidade?
A verificação: ela confere com o que o povo comum vê e ouve?
A aplicação: adotada como lei e política de governo, ela traz benefício ao reino e ao povo?
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A terceira prova é a que decide. Um ensinamento pode ter pedigree antigo e soar razoável, mas se, posto em prática pelo governante, empobrece o povo, está errado.
Mozi aplica o teste ao amor graduado e chega a uma conclusão dura. Um reino onde cada um protege só os seus produz roubo, rixa entre famílias e guerra entre Estados. O amor imparcial, adotado como política, produziria o contrário.
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"Se os homens olhassem para o Estado dos outros como olham para o próprio, quem atacaria?"
Mozi, capítulo Amor imparcial, século V a.C.
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A fórmula completa, repetida no livro, é jian xiang ai, jiao xiang li (amor mútuo e imparcial, benefício recíproco). O amor, em Mozi, sempre vem colado ao li (benefício, proveito concreto). Ele não fala de sentimento no peito, fala de comida, abrigo e paz.
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Para Mozi, uma doutrina vale o que ela entrega ao povo quando o governo a adota.
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Os confucianos respondiam que o amor imparcial era bonito e impraticável. Mozi rebate com uma pergunta. Um soldado vai para a guerra e precisa deixar pais, mulher e filhos aos cuidados de alguém. Ele pode escolher um amigo que ama com fronteira ou um que ama sem fronteira.
Na resposta do próprio Mozi, até o defensor do amor graduado escolheria o amigo imparcial. Quem diz que a doutrina não serve a escolhe na hora do perigo.
O mesmo raciocínio vale para o governante. Entre um rei que ama só o próprio clã e um que ama todos os súditos, Mozi pergunta qual deles o povo escolheria, e responde que a escolha seria unânime.
Ele também desmonta a objeção do sacrifício. Diziam que ninguém aguentaria amar tanto. Mozi lembra que o rei Ling, de Chu, gostava de cinturas finas, e a corte inteira passou a comer uma refeição por dia para agradar o soberano. Se o povo muda o corpo pelo gosto do governante, muda também o afeto quando o governante premia o cuidado com todos.
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II Quem pensou
O carpinteiro que atravessou a pé
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O nome pessoal do filósofo era Mo Di, e Mozi quer dizer Mestre Mo. Nasceu perto de 470 a.C. e morreu em torno de 391 a.C., provavelmente no pequeno reino de Lu, a mesma terra de Confúcio, ou no reino vizinho de Song.
A origem social dele é discutida. Mo pode ter sido nome de família, mas também designava a marca de tinta no rosto dos condenados a trabalho forçado. Vários estudiosos modernos, como o sinólogo Angus Graham em Disputers of the Tao, de 1989, veem nos textos a linguagem de artesãos: prumo, esquadro, fio de marcar madeira.
Segundo uma tradição antiga, Mozi estudou primeiro com os confucianos e rompeu com eles. Achava os ritos caros demais, principalmente os funerais luxuosos e o luto de três anos pelo pai, que tirava o filho do trabalho e empobrecia a família.
Ele fundou uma escola que funcionava como ordem. Os moístas viviam com pouco, obedeciam a um chefe chamado juzi (grande mestre) e se especializaram numa arte rara: defender cidades cercadas.
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O filósofo do amor imparcial era também um engenheiro de muralhas.
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O episódio mais famoso está no capítulo Gongshu. O engenheiro Gongshu Ban tinha construído escadas de assalto para o reino de Chu atacar o pequeno Song. Mozi soube do plano e caminhou dez dias e dez noites até a capital de Chu.
Diante do rei, Mozi tirou o cinto e o dispôs como se fosse uma muralha; usou pedaços de madeira como máquinas de guerra. Gongshu Ban atacou nove vezes com nove estratégias diferentes, e Mozi repeliu as nove.
Gongshu Ban disse então que sabia como vencer, mas não ia contar. Mozi respondeu que também sabia: matar Mozi ali mesmo. E avisou que trezentos discípulos dele já estavam nas muralhas de Song, com as mesmas defesas. O rei de Chu desistiu da invasão.
Na volta, Mozi passou por Song debaixo de chuva e pediu abrigo no portão de uma aldeia. O guarda, que não sabia quem ele era, não o deixou entrar.
A escola moísta foi uma das duas maiores da China por cerca de dois séculos, rival direta dos confucianos. Depois da unificação do império, sob a dinastia Han, praticamente sumiu. O livro Mozi sobreviveu mal copiado até o erudito Sun Yirang publicar, em 1894, a edição comentada que o devolveu aos leitores.
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