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O absurdo não mora no mundo nem mora em você
Em O Mito de Sísifo, de 1942, Camus localiza o absurdo num terceiro lugar: o encontro entre quem exige sentido e um mundo que não responde.
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A pedra volta a descer e o trabalho recomeça
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Domingo à noite, a última panela sai da pia, a bancada fica seca, a luz da cozinha se apaga. Na segunda de manhã a mesma bancada amanhece com farelo e uma xícara suja, e o gesto recomeça exatamente igual, com a mesma esponja e a mesma ordem de movimentos.
Quem lava não estranha nada durante meses. Um dia, com a esponja na mão, a pergunta aparece sem ser convidada: para quê. Não é cansaço nem tristeza, é uma pergunta técnica sobre a finalidade de uma cena que se repete.
A cozinha não responde. A bancada continua sendo uma superfície de granito, a torneira continua pingando no mesmo ritmo, o relógio do fogão continua marcando a hora. Nenhum objeto ali está preparado para explicar por que a cena vale a pena.
A pergunta some no dia seguinte, e volta. Ela costuma voltar em lugares de trânsito: uma escada rolante de shopping, a quarta reunião da semana com a mesma pauta, o quilômetro trinta da mesma rodovia. A cadeia de gestos ainda funciona, só perdeu a justificativa que ninguém tinha escrito.
A ideia do dia é que o desconforto que nasce aí não está guardado no mundo nem está guardado na pessoa. O mundo é apenas silencioso, e não deve nenhuma explicação a ninguém. A pessoa é apenas alguém que exige explicação, e não tem defeito por exigir.
O desconforto aparece no encontro entre os dois, e só existe enquanto os dois estiverem presentes. Tire a exigência de sentido e sobra um mundo indiferente, sem drama nenhum. Tire o mundo e sobra uma exigência sem destinatário. Junte os dois numa cozinha às onze da noite e o desconforto acende.
Chamar essa terceira coisa de absurdo foi decisão de um escritor de vinte e oito anos que publicou o argumento num ano em que Paris estava ocupada. Ele abre o livro dizendo que existe um único problema filosófico realmente sério, e que ele é a pergunta sobre a vida valer a pena.
O que vem depois dessa abertura costuma ser resumido errado. Vale acompanhar a definição frase por frase, porque ela é uma operação de localização, e o lugar onde o absurdo é colocado muda tudo o que vem em seguida.
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I A ideia do dia
O confronto que não cabe em nenhum dos dois lados
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Uma pedra caindo de um barranco não é absurda. Um vulcão que engole uma vila não é absurdo. A palavra só faz sentido quando entra em cena alguém que esperava outra coisa, e a espera é a metade humana do arranjo.
Camus insiste que o absurdo não é uma propriedade do universo, como a massa ou a temperatura. O universo, sozinho, é apenas denso e estranho, um bloco de fatos que existe sem comentar a própria existência. Chamar o universo de absurdo já é atribuir a ele uma intenção de responder.
E o absurdo também não é um defeito da cabeça humana, uma distorção que uma terapia ou um argumento melhor corrigiriam. A exigência de unidade, de clareza, de razão suficiente, é o que a inteligência faz o tempo inteiro, e faz bem.
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O absurdo é uma relação, e relação não mora em nenhuma das duas pontas. Some com qualquer uma delas e ele desaparece junto, sem deixar rastro de onde estava.
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A imagem que ele usa para isso é a do divórcio: o homem e o mundo separados, e o absurdo sendo exatamente o espaço entre eles. Um casal só se divorcia se antes houve casamento, e a exigência de sentido é o casamento que o mundo nunca assinou.
O passo seguinte é o mais estranho do livro. Se o absurdo depende dos dois termos, então qualquer solução que elimine um dos termos não resolve o problema, apaga o problema.
O argumento se move em três etapas:
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Constatação: existe uma exigência humana de clareza, e ela não é doença nem capricho
Constatação: o mundo não fornece a clareza pedida, e não está errado por não fornecer
Consequência: o absurdo é o confronto entre as duas, e desaparece se qualquer uma delas for cancelada
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Cancelar a exigência é dizer que a pergunta era boba, que ninguém precisa de sentido, que basta viver. Cancelar o mundo silencioso é fabricar uma resposta e passar a tratá-la como encontrada, o que Camus considera trapaça mesmo quando a resposta é bonita.
Sobra a alternativa que ele defende, e que é desconfortável de propósito: manter os dois termos de pé ao mesmo tempo, sem esperança de conciliação e sem a resignação que encerra o assunto. A lucidez, no vocabulário do livro, é justamente a recusa de fechar a conta.
Daí vem a leitura da figura grega que dá título à obra. O condenado que empurra a pedra até o alto e vê a pedra descer não é apresentado como vítima exemplar, e sim como alguém consciente da própria condição, que conhece cada pedra do caminho e continua descendo para buscar a pedra outra vez.
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II Quem pensou
O goleiro argelino que escreveu sob ocupação
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Albert Camus nasceu em 7 de novembro de 1913 em Mondovi, na Argélia francesa, filho de um trabalhador de adega e de uma faxineira analfabeta e quase surda. O pai foi mobilizado no ano seguinte e não voltou da batalha do Marne.
A infância foi num apartamento sem água corrente e sem eletricidade no bairro popular de Belcourt, em Argel, dividido com a mãe, a avó e um tio. Um professor primário chamado Louis Germain insistiu com a família para que o menino prestasse a bolsa do liceu, e depois pagou aulas particulares para ele.
Foi goleiro do Racing Universitaire d'Alger, e gostava da posição porque o goleiro é o único que vê o campo inteiro. Aos dezessete anos uma tuberculose encerrou o futebol e passou a organizar a vida dele em torno de internações, mudanças de altitude e longos períodos de repouso.
Estudou filosofia em Argel e entregou em 1936 uma tese sobre a relação entre o pensamento grego e o cristianismo, passando por Plotino e por Agostinho. A doença o impediu de prestar o concurso que dava acesso à carreira de professor, e ele foi trabalhar como jornalista no Alger républicain.
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"O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo."
Albert Camus, O Mito de Sísifo, 1942.
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O livro saiu pela Gallimard em outubro de 1942, poucos meses depois de O Estrangeiro, com o autor a poucos meses dos vinte e nove anos. A França estava ocupada, o papel era racionado, e o capítulo original sobre Franz Kafka precisou ser substituído por um sobre Dostoiévski para passar pela censura alemã.
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O ensaio que localiza o absurdo entre o homem e o mundo foi escrito por um filho de faxineira que quase não teve escola, e publicado numa cidade sob ocupação militar.
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Ele estava com pneumotórax, escrevendo entre Argel, Orã e Le Panelier, no maciço central francês, onde tinha ido tratar os pulmões e acabou preso pelo desembarque aliado no norte da África, separado da mulher por quase dois anos.
Depois vieram a redação clandestina do jornal Combat, o Nobel de Literatura em 1957 aos quarenta e três anos, e o acidente de carro de janeiro de 1960 com uma passagem de trem não usada no bolso do casaco. No discurso de Estocolmo ele dedicou o prêmio ao professor primário de Belcourt.
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