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ED 024

O absurdo não mora no mundo nem mora em você

Em O Mito de Sísifo, de 1942, Camus localiza o absurdo num terceiro lugar: o encontro entre quem exige sentido e um mundo que não responde.

Uma pedra parada no alto de uma encosta, prestes a descer de novo.

A pedra volta a descer e o trabalho recomeça

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Domingo à noite, a última panela sai da pia, a bancada fica seca, a luz da cozinha se apaga. Na segunda de manhã a mesma bancada amanhece com farelo e uma xícara suja, e o gesto recomeça exatamente igual, com a mesma esponja e a mesma ordem de movimentos.

Quem lava não estranha nada durante meses. Um dia, com a esponja na mão, a pergunta aparece sem ser convidada: para quê. Não é cansaço nem tristeza, é uma pergunta técnica sobre a finalidade de uma cena que se repete.

A cozinha não responde. A bancada continua sendo uma superfície de granito, a torneira continua pingando no mesmo ritmo, o relógio do fogão continua marcando a hora. Nenhum objeto ali está preparado para explicar por que a cena vale a pena.

A pergunta some no dia seguinte, e volta. Ela costuma voltar em lugares de trânsito: uma escada rolante de shopping, a quarta reunião da semana com a mesma pauta, o quilômetro trinta da mesma rodovia. A cadeia de gestos ainda funciona, só perdeu a justificativa que ninguém tinha escrito.

A ideia do dia é que o desconforto que nasce aí não está guardado no mundo nem está guardado na pessoa. O mundo é apenas silencioso, e não deve nenhuma explicação a ninguém. A pessoa é apenas alguém que exige explicação, e não tem defeito por exigir.

O desconforto aparece no encontro entre os dois, e só existe enquanto os dois estiverem presentes. Tire a exigência de sentido e sobra um mundo indiferente, sem drama nenhum. Tire o mundo e sobra uma exigência sem destinatário. Junte os dois numa cozinha às onze da noite e o desconforto acende.

Chamar essa terceira coisa de absurdo foi decisão de um escritor de vinte e oito anos que publicou o argumento num ano em que Paris estava ocupada. Ele abre o livro dizendo que existe um único problema filosófico realmente sério, e que ele é a pergunta sobre a vida valer a pena.

O que vem depois dessa abertura costuma ser resumido errado. Vale acompanhar a definição frase por frase, porque ela é uma operação de localização, e o lugar onde o absurdo é colocado muda tudo o que vem em seguida.

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I  A ideia do dia

O confronto que não cabe em nenhum dos dois lados

Uma pedra caindo de um barranco não é absurda. Um vulcão que engole uma vila não é absurdo. A palavra só faz sentido quando entra em cena alguém que esperava outra coisa, e a espera é a metade humana do arranjo.

Camus insiste que o absurdo não é uma propriedade do universo, como a massa ou a temperatura. O universo, sozinho, é apenas denso e estranho, um bloco de fatos que existe sem comentar a própria existência. Chamar o universo de absurdo já é atribuir a ele uma intenção de responder.

E o absurdo também não é um defeito da cabeça humana, uma distorção que uma terapia ou um argumento melhor corrigiriam. A exigência de unidade, de clareza, de razão suficiente, é o que a inteligência faz o tempo inteiro, e faz bem.

O absurdo é uma relação, e relação não mora em nenhuma das duas pontas. Some com qualquer uma delas e ele desaparece junto, sem deixar rastro de onde estava.

A imagem que ele usa para isso é a do divórcio: o homem e o mundo separados, e o absurdo sendo exatamente o espaço entre eles. Um casal só se divorcia se antes houve casamento, e a exigência de sentido é o casamento que o mundo nunca assinou.

O passo seguinte é o mais estranho do livro. Se o absurdo depende dos dois termos, então qualquer solução que elimine um dos termos não resolve o problema, apaga o problema.

O argumento se move em três etapas:

Constatação: existe uma exigência humana de clareza, e ela não é doença nem capricho

Constatação: o mundo não fornece a clareza pedida, e não está errado por não fornecer

Consequência: o absurdo é o confronto entre as duas, e desaparece se qualquer uma delas for cancelada

Cancelar a exigência é dizer que a pergunta era boba, que ninguém precisa de sentido, que basta viver. Cancelar o mundo silencioso é fabricar uma resposta e passar a tratá-la como encontrada, o que Camus considera trapaça mesmo quando a resposta é bonita.

Sobra a alternativa que ele defende, e que é desconfortável de propósito: manter os dois termos de pé ao mesmo tempo, sem esperança de conciliação e sem a resignação que encerra o assunto. A lucidez, no vocabulário do livro, é justamente a recusa de fechar a conta.

Daí vem a leitura da figura grega que dá título à obra. O condenado que empurra a pedra até o alto e vê a pedra descer não é apresentado como vítima exemplar, e sim como alguém consciente da própria condição, que conhece cada pedra do caminho e continua descendo para buscar a pedra outra vez.

 
 

II  Quem pensou

O goleiro argelino que escreveu sob ocupação

Albert Camus nasceu em 7 de novembro de 1913 em Mondovi, na Argélia francesa, filho de um trabalhador de adega e de uma faxineira analfabeta e quase surda. O pai foi mobilizado no ano seguinte e não voltou da batalha do Marne.

A infância foi num apartamento sem água corrente e sem eletricidade no bairro popular de Belcourt, em Argel, dividido com a mãe, a avó e um tio. Um professor primário chamado Louis Germain insistiu com a família para que o menino prestasse a bolsa do liceu, e depois pagou aulas particulares para ele.

Foi goleiro do Racing Universitaire d'Alger, e gostava da posição porque o goleiro é o único que vê o campo inteiro. Aos dezessete anos uma tuberculose encerrou o futebol e passou a organizar a vida dele em torno de internações, mudanças de altitude e longos períodos de repouso.

Estudou filosofia em Argel e entregou em 1936 uma tese sobre a relação entre o pensamento grego e o cristianismo, passando por Plotino e por Agostinho. A doença o impediu de prestar o concurso que dava acesso à carreira de professor, e ele foi trabalhar como jornalista no Alger républicain.

"O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo."

Albert Camus, O Mito de Sísifo, 1942.

O livro saiu pela Gallimard em outubro de 1942, poucos meses depois de O Estrangeiro, com o autor a poucos meses dos vinte e nove anos. A França estava ocupada, o papel era racionado, e o capítulo original sobre Franz Kafka precisou ser substituído por um sobre Dostoiévski para passar pela censura alemã.

O ensaio que localiza o absurdo entre o homem e o mundo foi escrito por um filho de faxineira que quase não teve escola, e publicado numa cidade sob ocupação militar.

Ele estava com pneumotórax, escrevendo entre Argel, Orã e Le Panelier, no maciço central francês, onde tinha ido tratar os pulmões e acabou preso pelo desembarque aliado no norte da África, separado da mulher por quase dois anos.

Depois vieram a redação clandestina do jornal Combat, o Nobel de Literatura em 1957 aos quarenta e três anos, e o acidente de carro de janeiro de 1960 com uma passagem de trem não usada no bolso do casaco. No discurso de Estocolmo ele dedicou o prêmio ao professor primário de Belcourt.

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III  Contra o quê

Contra o salto que encerra a pergunta por decreto

O alvo do livro tem nomes próprios, e são nomes que Camus admirava. Ele passa capítulos inteiros lendo Kierkegaard, Liev Chestov, Karl Jaspers e Edmund Husserl, reconhece que todos eles enxergaram o absurdo com precisão, e acusa todos eles de fugirem no último passo.

O padrão da fuga é sempre o mesmo. O pensador descreve com honestidade o muro entre a exigência humana e o mundo mudo, e então, no momento em que o muro deveria ser mantido à vista, faz um salto: transforma o próprio muro em prova de que existe algo do outro lado.

Em Chestov, a impossibilidade de compreender vira argumento a favor de um Deus que dispensa a compreensão. Em Kierkegaard, o escândalo da razão vira a condição do salto de fé. Em Jaspers, o fracasso do saber vira acesso ao ser. Camus chama a manobra de suicídio filosófico, porque nela é o pensamento que abre mão de si mesmo.

Husserl leva uma acusação de outro tipo. A fenomenologia começa recusando explicações e prometendo apenas descrever, o que agrada Camus, e depois populariza essências fora do tempo que devolvem ao mundo a unidade que a descrição tinha tirado dele.

A objeção que o próprio Camus antecipa é a mais óbvia: se o mundo não responde, por que continuar? A resposta do livro não é otimista. Ela apenas nota que encerrar a questão também não a responde, e que a única postura coerente com o diagnóstico é permanecer diante dele, acordado.

As críticas vieram de todos os lados. Jean-Paul Sartre, resenhando O Estrangeiro em 1943, elogiou a prosa e observou que o ensaio confunde o sentimento do absurdo com a demonstração dele, misturando literatura e lógica em passos que não se sustentam sozinhos.

Do lado analítico, Thomas Nagel publicou em 1971 um artigo em que aceita a estrutura do problema e recusa o tom. Para ele, a distância entre a seriedade com que vivemos e a possibilidade de olhar essa seriedade de fora é real, mas comporta ironia, e o heroísmo do desafio contínuo é dramático demais para um traço tão comum.

Outros apontaram que a figura da pedra empurrada morro acima é bela e argumentativamente frouxa: uma imagem não demonstra que a lucidez é preferível ao esquecimento, e o próprio Camus abandonou o tema em favor da revolta poucos anos depois.

Numa sala de espera de laboratório, uma senhora de setenta anos explica ao marido que a fila é longa porque o sistema caiu, que já foi assim no mês passado e que vai ser assim de novo. Ela sabe o nome de cada etapa da manhã que a espera, olha o número no painel, ajeita a bolsa no colo e continua ali.

"O que você faz quando a pergunta aparece e ninguém do outro lado se dispõe a responder?"

 
 
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