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Nishida pôs a experiência antes do eu

Em 1911, no livro Um Estudo sobre o Bem, Nishida Kitaro pôs o instante de ver uma cor antes de quem vê e do que é visto.

Folha vermelha de bordo sobre a água parada de um canal.

Uma cor antes de quem a vê

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Experiência: “conhecimento adquirido pela prática, pela observação ou pelo exercício” (Dicionário Houaiss). A definição já traz alguém que conhece e algo conhecido, separados desde o começo. Fica sem lugar o instante em que ninguém ainda conhece nada.

Um pianista toca uma peça estudada durante anos. Os dedos acham as teclas, a frase sobe, o compasso vira. Durante dois minutos, ele não pensa em si nem no piano. Há só a música correndo.

Então erra uma nota, um si bemol no lugar de um si. Na hora, o quadro se parte em dois. De um lado aparece o pianista, nervoso, com as mãos suadas. Do outro, o instrumento, a partitura, a sala com gente olhando.

O erro não fabricou o piano nem o pianista. Os dois estavam ali, mas só agora ganharam contorno, como figuras recortadas de uma folha antes inteira.

O mesmo corte acontece com qualquer pessoa várias vezes por dia, sem aviso, e quase sempre rápido demais para ser percebido.

Um som de freada chega da rua. Por um instante curto existe apenas o guincho, agudo, sem dono. Um segundo depois, a pessoa já diz para si mesma: “eu ouvi um carro lá fora”. A frase separa o ouvinte, o carro e a rua, e a separação parece tão natural que ninguém nota quando foi feita.

Um professor de escola secundária em Kanazawa, cidade da costa oeste do Japão, passou quase dez anos tentando descrever o instante anterior ao corte. Meditava de madrugada em templos zen e lia de dia filosofia alemã, inglesa e americana.

Em 1911, ele reuniu as anotações num livro e inverteu o senso comum. O instante sem dono vem primeiro. Quem vê e o que é visto são pedaços cortados dele depois, pela reflexão.

O livro virou o marco inicial da filosofia moderna japonesa, e o vocabulário dele ainda divide os leitores.

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I  A ideia do dia

O instante antes do corte

Nishida Kitaro publicou Zen no Kenkyū (Um Estudo sobre o Bem) em 1911, pela editora Kōdōkan, de Tóquio. O livro abre com um capítulo chamado Experiência Pura, e a tese inteira cabe nas primeiras páginas.

Experiência pura (junsui keiken, em japonês) é o contato com um fato tal como ele se dá, sem nenhum acréscimo do pensamento. Nishida escolhe exemplos banais de propósito: ver uma cor, ouvir um som.

No instante exato da visão, ainda não existe o juízo “isto é vermelho”, nem a ideia “eu estou vendo”, nem a suposição de um objeto lá fora. Existe o vermelho, inteiro, sem dono e sem endereço.

“Quando se experimenta diretamente o próprio estado de consciência, ainda não há sujeito nem objeto; o conhecer e o seu objeto estão completamente unidos.”

Nishida Kitaro, Um Estudo sobre o Bem, 1911

A palavra “ainda” carrega a tese. Sujeito e objeto não são negados. Eles chegam depois, como produto de uma operação posterior.

Essa operação tem nome: reflexão (hansei, o pensamento dobrado sobre a experiência vivida). Ela acontece quando a corrente se interrompe, por um erro, uma dúvida ou uma pergunta.

A reflexão recorta o sujeito e o objeto de uma experiência inteira.

Nishida descreve o corte em três passos.

1. O instante pleno: a cor ou o som ocupa a consciência inteira.

2. A ruptura: algo trava o fluxo, e a atenção se volta para trás.

3. O recorte: o pensamento nomeia um eu que viu e um objeto visto.

O terceiro passo produz o mundo do senso comum, com pessoas de um lado e objetos de outro. Nishida não o chama de ilusão. Chama de abstração, uma parte arrancada do todo e tratada como se existisse sozinha.

Daí vem a inversão mais citada do livro, escrita no prefácio. O indivíduo não é a condição da experiência. A experiência é a condição do indivíduo.

“Não é que haja experiência porque há indivíduo; há indivíduo porque há experiência.”

Nishida Kitaro, Um Estudo sobre o Bem, 1911

Nishida não limita a experiência pura aos sentidos. O alpinista agarrado à rocha, o músico concentrado na peça e o calculista absorto numa conta longa também estão nela. Enquanto a atividade corre sem tropeço, não há separação entre quem age e aquilo sobre o qual age.

Daí o título, Um Estudo sobre o Bem, para um livro aberto pela percepção. Na última parte, Nishida conclui que o bem é a realização da personalidade, e a personalidade se realiza quando a pessoa age a partir dessa unidade, sem se ver de fora.

Uma criança desenha com o lápis apertado, a língua para fora. A mãe pergunta o que é o desenho. A criança para, olha a folha e só então descobre que desenhou um cachorro.

 
 

II  Quem pensou

O professor zen de Kanazawa

Nishida Kitaro nasceu em 19 de maio de 1870, em Unoke, vila da província de Ishikawa, na costa do mar do Japão. O pai era um chefe local de família abastada, e a fortuna se perdeu durante a juventude do filho.

Estudou na Universidade Imperial de Tóquio como aluno especial, uma categoria inferior reservada a quem não tinha o diploma do curso regular. Ele contou depois a humilhação de usar uma biblioteca separada da dos alunos comuns.

Formado em 1894, passou anos em empregos de professor em escolas de interior. Em 1899 assumiu a cadeira de psicologia, lógica, ética e alemão na Quarta Escola Superior, em Kanazawa.

Nos mesmos anos, praticou zazen (meditação sentada da escola zen) com dedicação de monge. O diário dele registra sessões diárias e retiros longos no templo Senshin-an, sob o mestre Setsumon.

Em 1903, o mestre Kōshū, de Kyoto, aprovou a resolução de um koan (pergunta paradoxal usada no treino zen), o koan da palavra mu, ou nada. Nishida anotou no diário a pouca alegria com a aprovação.

Nishida meditava de madrugada e lia William James à tarde.

Os capítulos de Um Estudo sobre o Bem nasceram como apostilas para os alunos de Kanazawa. Alguns saíram antes em revistas de filosofia, entre 1907 e 1909, e chamaram a atenção de professores de Kyoto.

Em 1910 ele foi contratado pela Universidade Imperial de Kyoto. Em 1913 virou professor titular de filosofia e lá ficou até se aposentar, em 1928.

A vida pessoal foi dura. Nishida perdeu um irmão na guerra contra a Rússia, em 1904, e enterrou vários filhos ainda jovens. A esposa, Kotomi, ficou paralisada por um derrame em 1919 e faleceu em 1925.

Em Kyoto, Nishida fazia o mesmo trajeto a pé, todo dia, à beira de um canal no bairro de Higashiyama. O caminho ganhou depois o nome de Tetsugaku no Michi, o Caminho da Filosofia, e hoje recebe turistas na época das cerejeiras.

Ao redor dele formou-se a Escola de Kyoto, com alunos como Tanabe Hajime e Nishitani Keiji. O grupo tentou pensar com as ferramentas da filosofia europeia problemas herdados do budismo.

Nishida faleceu em 7 de junho, em 1945, em Kamakura, de uma infecção renal, dois meses antes do fim da guerra no Pacífico. O papel dele durante o militarismo japonês segue discutido: alguns textos da época se aproximam da linguagem oficial do império, e os estudiosos divergem sobre quanto ele concordava e quanto tentava suavizar.

 

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III  Contra o quê

O eu de Descartes chega tarde

O primeiro adversário de Nishida morava em Paris e escrevia em latim. Em 1641, nas Meditações, René Descartes pôs o eu pensante como a primeira certeza, anterior a qualquer mundo.

No esquema cartesiano, existem duas substâncias: a substância pensante (res cogitans, em latim) e a substância extensa (res extensa), o corpo e a matéria. O conhecimento vira uma ponte lançada de uma margem à outra.

Nishida aceitava o ponto de partida de Descartes, a dúvida radical, e recusava o ponto de chegada. Duvidando de tudo, ele sustentava, o que sobra não é um eu. Sobra a experiência, ainda sem eu e sem mundo.

O segundo adversário era a teoria do conhecimento dos neokantianos alemães, como Heinrich Rickert e Wilhelm Windelband. Para eles, a investigação começa pelas formas do sujeito, as categorias com que a mente organiza o que recebe.

Nishida respondia: as formas do sujeito também são recortes. Antes de haver categorias, houve o vermelho inteiro.

O terceiro nome é um aliado, e Nishida o cita várias vezes. William James, psicólogo de Harvard, usou a expressão pure experience (experiência pura) num ensaio de 1904, “A consciência existe?”, publicado no Journal of Philosophy.

“O campo instantâneo do presente é, a todo momento, o que chamo de experiência pura.”

William James, Ensaios de Empirismo Radical, 1912

A diferença entre os dois é de direção. James usava a experiência pura para dispensar a consciência como substância. Nishida a usava para chegar a uma realidade única, ativa, quase religiosa, mais próxima do zen do que do laboratório.

O ataque mais duro veio de dentro da própria escola. Em 1930, Tanabe Hajime publicou um artigo acusando o mestre de transformar a filosofia em contemplação mística.

Nishida aceitou parte da crítica. No prefácio da reedição de 1936, admitiu que o livro de 1911 soava psicológico demais, preso à consciência individual. Já tinha trocado a experiência pura pelo conceito de basho (lugar), onde o sujeito e o objeto aparecem.

O próprio autor revisou a tese sem abandonar o ponto de partida.

O dentista pergunta se a anestesia pegou. O paciente sente a agulha, depois uma pressão sem forma, depois nada. Só quando responde “ainda dói um pouco” ele volta a ser alguém sentado na cadeira.

“Quem estava lá, no segundo antes de você dizer que ouviu?”

Nishida ensinou em Kyoto por 18 anos.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, em que ano Nishida Kitaro publicou Um Estudo sobre o Bem (Zen no Kenkyū), pela editora Kōdōkan de Tóquio?

A1903
B1911
C1913
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