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Ninguém vê o fogo queimar
Na Incoerência dos Filósofos, de 1095, Al-Ghazali sustenta que só vemos um evento depois do outro, nunca a ligação entre eles.
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Uma bola de algodão perto da chama
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"Causa: aquilo que determina a existência ou a ocorrência de algo" (Houaiss). A Incoerência dos Filósofos, tratado que Abu Hamid al-Ghazali terminou em Bagdá em 1095 e que no original árabe se chama Tahafut al-Falasifa (o desmoronamento dos filósofos), recusa justamente o determinar: entre a chama encostada no algodão e o algodão em brasa ninguém jamais viu determinação alguma, apenas um evento e depois o outro.
A ideia do dia é que a necessidade que atribuímos à causa não está entre os dados dos sentidos. Ela é acrescentada por quem observa, depois de ver a mesma sucessão repetida vezes bastantes para parecer inevitável.
O exercício proposto no tratado é elementar e não exige laboratório. Encoste uma chama numa bola de algodão. A vista registra dois fatos separados no tempo, o contato e a queima, e registra que o segundo veio atrás do primeiro. Nada na cena mostra o fogo empurrando o algodão para a combustão, porque empurrar não tem cor, nem contorno, nem posição no espaço.
Al-Ghazali dá um nome ao que sobra quando a necessidade sai: iqtiran, a conjunção, o simples andar junto de dois eventos. E dá outro nome à regularidade com que a conjunção se repete: 'ada, o costume, a ordem constante em que os fatos aparecem no mundo e que nos permite contar com ela sem nunca tê-la observado por dentro.
A conclusão que o tratado extrai vai além do ceticismo. Se o fogo não faz o algodão queimar, alguma outra instância faz, e para Al-Ghazali essa instância é a ação divina, que cria a queima diretamente no instante do contato. O fogo é a ocasião, nunca o agente. Os europeus batizariam a posição de ocasionalismo seiscentos anos depois, com Nicolas Malebranche.
A questão seguinte é a que pesa: se nada obriga o fogo a queimar, por que o algodão nunca deixa de pegar fogo?
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I A ideia do dia
O que a vista alcança e o que ela acrescenta
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O argumento aparece na décima sétima das vinte questões do tratado, e começa por uma distinção que parece pequena. Ver a sucessão de dois eventos não é ver a produção de um pelo outro. Repetir a observação mil vezes aumenta a confiança e não muda a natureza do que foi observado, porque a milésima repetição continua entregando duas cenas em fila, nunca o elo entre elas.
Al-Ghazali reforça o ponto com um argumento sobre o fogo em si. O fogo é corpo inanimado, sem vontade, sem escolha, sem conhecimento do algodão. Atribuir a ele a autoria da queima é atribuir uma ação a quem não age, e quem age de fato, no tratado, cria o efeito no instante em que as condições aparecem.
O que se vê e o que se acrescenta
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Contato: a chama toca o algodão, e o olho registra
Queima: o algodão enegrece, e o olho registra
Necessidade: nada no olho registra, e a mente acrescenta
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**A observação entrega ordem e vizinhança no tempo, jamais obrigação: a obrigação nasce de quem assiste, não da cena assistida.**
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"A conexão entre aquilo que se costuma crer ser causa e aquilo que se costuma crer ser efeito não é necessária, para nós. Com dois quaisquer, a afirmação de um não implica a afirmação do outro, nem a negação de um implica a negação do outro."
Al-Ghazali, A Incoerência dos Filósofos, décima sétima questão, Bagdá, 1095
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A objeção imediata é que o mundo viraria uma feira de prodígios. Sem necessidade nenhuma, um livro largado na mesa poderia virar cavalo enquanto o dono sai da sala, e ninguém poderia mais confiar em nada. Al-Ghazali responde apoiado no costume: a ordem dos fatos se mantém constante porque é constantemente sustentada, e no ser humano é criado, junto com ela, o conhecimento de que ela se manterá.
O conhecimento das causas, nessa leitura, deixa de ser a leitura de uma engrenagem escondida e passa a ser o registro fiel de uma ordem. A previsão continua exata, a medicina continua funcionando, o ferro continua derretendo à temperatura em que sempre derreteu. Muda apenas o motivo pelo qual a previsão acerta.
O tratado ainda oferece uma segunda saída, menos radical, para quem não quisesse abrir mão da natureza dos corpos. Admitir que o fogo tenha a propriedade de queimar, sim, mas negar que a propriedade se exerça sozinha, porque quem a concedeu pode retê-la num caso particular. As duas saídas chegam ao mesmo destino e protegem o mesmo ponto: o milagre narrado nas escrituras deixa de ser impossível, e a fornalha que não queima Abraão deixa de ser contradição lógica.
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II Quem pensou
O professor de Bagdá que largou a cátedra aos 37
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Abu Hamid Muhammad ibn Muhammad al-Ghazali nasceu por volta de 1058 em Tus, no Khorasan, região que hoje pertence ao nordeste do Irã, e ficou órfão de pai cedo, criado com o irmão por um amigo da família e depois por escolas que davam abrigo e comida a estudantes pobres.
A ascensão foi rápida e institucional. Estudou em Nishapur com al-Juwayni, o maior teólogo asharita da época, e aos 33 anos foi nomeado por Nizam al-Mulk, o vizir do império seljúcida, para a cadeira principal da Nizamiyya de Bagdá, a escola mais bem dotada do mundo islâmico, onde lecionava para centenas de alunos e assessorava o califado em disputas doutrinárias.
No verão de 1095 ele parou. Na autobiografia que escreveu depois, Al-Munqidh min al-Dalal (o que livra do erro), conta que perdeu a fala em sala por meses, que a comida deixou de descer e que os médicos de Bagdá diagnosticaram causa moral, fora do alcance do remédio. Deixou a cátedra, distribuiu o que tinha, alegou viagem a Meca para despistar o califa e saiu.
Passou cerca de onze anos fora do circuito oficial, entre Damasco, Jerusalém, Meca e Medina, e voltou a Tus para viver com discípulos numa casa de retiro. Desse período saiu a Revivificação das Ciências da Religião, obra em quarenta livros que refaz a prática religiosa cotidiana, do banho ritual à contabilidade da consciência, e que se tornou o livro mais copiado do islã depois do Corão.
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**Antes de refutar os filósofos, ele publicou um resumo fiel da doutrina deles, tão fiel que copistas latinos o tomaram por discípulo de Avicena.**
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O resumo se chama As Intenções dos Filósofos, e a sequência importa para entender o tratado de 1095. Al-Ghazali estudou lógica aristotélica, física e metafísica por conta própria durante dois anos, expôs a posição adversária no vocabulário técnico dela, e só então escreveu a refutação, dirigida sobretudo a Ibn Sina, o Avicena dos latinos, e a al-Farabi.
A Incoerência dos Filósofos enfrenta vinte teses, uma por questão, e a maioria das refutações não apela à revelação: o método é mostrar que a demonstração oferecida não sustenta a conclusão anunciada, pelos critérios de rigor dos próprios filósofos. Em três dessas vinte, a eternidade do mundo, o conhecimento divino restrito aos universais e a negação da ressurreição dos corpos, ele vai além e declara a posição incompatível com a fé.
A décima sétima questão, a do fogo e do algodão, tem uma função precisa nesse arranjo. Se a cadeia causal fosse necessária por natureza, o milagre seria logicamente impossível, e a discussão acabaria antes de começar. Al-Ghazali não tenta provar milagre nenhum; tenta mostrar que a impossibilidade alegada não foi demonstrada.
Ele voltou a lecionar em Nishapur em 1106, pressionado pelo governo seljúcida, e ficou pouco tempo. Morreu em Tus em dezembro de 1111, aos 53 anos, e o irmão Ahmad conta que ele mesmo preparou a mortalha na última manhã.
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