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ED 043
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Ninguém vê o fogo queimar

Na Incoerência dos Filósofos, de 1095, Al-Ghazali sustenta que só vemos um evento depois do outro, nunca a ligação entre eles.

Uma bola de algodão ao lado de uma chama pequena, sobre mesa de madeira, com luz lateral.

Uma bola de algodão perto da chama

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"Causa: aquilo que determina a existência ou a ocorrência de algo" (Houaiss). A Incoerência dos Filósofos, tratado que Abu Hamid al-Ghazali terminou em Bagdá em 1095 e que no original árabe se chama Tahafut al-Falasifa (o desmoronamento dos filósofos), recusa justamente o determinar: entre a chama encostada no algodão e o algodão em brasa ninguém jamais viu determinação alguma, apenas um evento e depois o outro.

A ideia do dia é que a necessidade que atribuímos à causa não está entre os dados dos sentidos. Ela é acrescentada por quem observa, depois de ver a mesma sucessão repetida vezes bastantes para parecer inevitável.

O exercício proposto no tratado é elementar e não exige laboratório. Encoste uma chama numa bola de algodão. A vista registra dois fatos separados no tempo, o contato e a queima, e registra que o segundo veio atrás do primeiro. Nada na cena mostra o fogo empurrando o algodão para a combustão, porque empurrar não tem cor, nem contorno, nem posição no espaço.

Al-Ghazali dá um nome ao que sobra quando a necessidade sai: iqtiran, a conjunção, o simples andar junto de dois eventos. E dá outro nome à regularidade com que a conjunção se repete: 'ada, o costume, a ordem constante em que os fatos aparecem no mundo e que nos permite contar com ela sem nunca tê-la observado por dentro.

A conclusão que o tratado extrai vai além do ceticismo. Se o fogo não faz o algodão queimar, alguma outra instância faz, e para Al-Ghazali essa instância é a ação divina, que cria a queima diretamente no instante do contato. O fogo é a ocasião, nunca o agente. Os europeus batizariam a posição de ocasionalismo seiscentos anos depois, com Nicolas Malebranche.

A questão seguinte é a que pesa: se nada obriga o fogo a queimar, por que o algodão nunca deixa de pegar fogo?

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I  A ideia do dia

O que a vista alcança e o que ela acrescenta

O argumento aparece na décima sétima das vinte questões do tratado, e começa por uma distinção que parece pequena. Ver a sucessão de dois eventos não é ver a produção de um pelo outro. Repetir a observação mil vezes aumenta a confiança e não muda a natureza do que foi observado, porque a milésima repetição continua entregando duas cenas em fila, nunca o elo entre elas.

Al-Ghazali reforça o ponto com um argumento sobre o fogo em si. O fogo é corpo inanimado, sem vontade, sem escolha, sem conhecimento do algodão. Atribuir a ele a autoria da queima é atribuir uma ação a quem não age, e quem age de fato, no tratado, cria o efeito no instante em que as condições aparecem.

O que se vê e o que se acrescenta

Contato: a chama toca o algodão, e o olho registra

Queima: o algodão enegrece, e o olho registra

Necessidade: nada no olho registra, e a mente acrescenta

**A observação entrega ordem e vizinhança no tempo, jamais obrigação: a obrigação nasce de quem assiste, não da cena assistida.**

"A conexão entre aquilo que se costuma crer ser causa e aquilo que se costuma crer ser efeito não é necessária, para nós. Com dois quaisquer, a afirmação de um não implica a afirmação do outro, nem a negação de um implica a negação do outro."

Al-Ghazali, A Incoerência dos Filósofos, décima sétima questão, Bagdá, 1095

A objeção imediata é que o mundo viraria uma feira de prodígios. Sem necessidade nenhuma, um livro largado na mesa poderia virar cavalo enquanto o dono sai da sala, e ninguém poderia mais confiar em nada. Al-Ghazali responde apoiado no costume: a ordem dos fatos se mantém constante porque é constantemente sustentada, e no ser humano é criado, junto com ela, o conhecimento de que ela se manterá.

O conhecimento das causas, nessa leitura, deixa de ser a leitura de uma engrenagem escondida e passa a ser o registro fiel de uma ordem. A previsão continua exata, a medicina continua funcionando, o ferro continua derretendo à temperatura em que sempre derreteu. Muda apenas o motivo pelo qual a previsão acerta.

O tratado ainda oferece uma segunda saída, menos radical, para quem não quisesse abrir mão da natureza dos corpos. Admitir que o fogo tenha a propriedade de queimar, sim, mas negar que a propriedade se exerça sozinha, porque quem a concedeu pode retê-la num caso particular. As duas saídas chegam ao mesmo destino e protegem o mesmo ponto: o milagre narrado nas escrituras deixa de ser impossível, e a fornalha que não queima Abraão deixa de ser contradição lógica.

 
 

II  Quem pensou

O professor de Bagdá que largou a cátedra aos 37

Abu Hamid Muhammad ibn Muhammad al-Ghazali nasceu por volta de 1058 em Tus, no Khorasan, região que hoje pertence ao nordeste do Irã, e ficou órfão de pai cedo, criado com o irmão por um amigo da família e depois por escolas que davam abrigo e comida a estudantes pobres.

A ascensão foi rápida e institucional. Estudou em Nishapur com al-Juwayni, o maior teólogo asharita da época, e aos 33 anos foi nomeado por Nizam al-Mulk, o vizir do império seljúcida, para a cadeira principal da Nizamiyya de Bagdá, a escola mais bem dotada do mundo islâmico, onde lecionava para centenas de alunos e assessorava o califado em disputas doutrinárias.

No verão de 1095 ele parou. Na autobiografia que escreveu depois, Al-Munqidh min al-Dalal (o que livra do erro), conta que perdeu a fala em sala por meses, que a comida deixou de descer e que os médicos de Bagdá diagnosticaram causa moral, fora do alcance do remédio. Deixou a cátedra, distribuiu o que tinha, alegou viagem a Meca para despistar o califa e saiu.

Passou cerca de onze anos fora do circuito oficial, entre Damasco, Jerusalém, Meca e Medina, e voltou a Tus para viver com discípulos numa casa de retiro. Desse período saiu a Revivificação das Ciências da Religião, obra em quarenta livros que refaz a prática religiosa cotidiana, do banho ritual à contabilidade da consciência, e que se tornou o livro mais copiado do islã depois do Corão.

**Antes de refutar os filósofos, ele publicou um resumo fiel da doutrina deles, tão fiel que copistas latinos o tomaram por discípulo de Avicena.**

O resumo se chama As Intenções dos Filósofos, e a sequência importa para entender o tratado de 1095. Al-Ghazali estudou lógica aristotélica, física e metafísica por conta própria durante dois anos, expôs a posição adversária no vocabulário técnico dela, e só então escreveu a refutação, dirigida sobretudo a Ibn Sina, o Avicena dos latinos, e a al-Farabi.

A Incoerência dos Filósofos enfrenta vinte teses, uma por questão, e a maioria das refutações não apela à revelação: o método é mostrar que a demonstração oferecida não sustenta a conclusão anunciada, pelos critérios de rigor dos próprios filósofos. Em três dessas vinte, a eternidade do mundo, o conhecimento divino restrito aos universais e a negação da ressurreição dos corpos, ele vai além e declara a posição incompatível com a fé.

A décima sétima questão, a do fogo e do algodão, tem uma função precisa nesse arranjo. Se a cadeia causal fosse necessária por natureza, o milagre seria logicamente impossível, e a discussão acabaria antes de começar. Al-Ghazali não tenta provar milagre nenhum; tenta mostrar que a impossibilidade alegada não foi demonstrada.

Ele voltou a lecionar em Nishapur em 1106, pressionado pelo governo seljúcida, e ficou pouco tempo. Morreu em Tus em dezembro de 1111, aos 53 anos, e o irmão Ahmad conta que ele mesmo preparou a mortalha na última manhã.

 

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III  Contra o quê

Averróis e a acusação de que o mundo perderia o contorno

A resposta mais dura veio de Córdoba, oitenta e cinco anos depois, e levou um título de deboche calculado: Tahafut al-Tahafut, a Incoerência da Incoerência, escrita por Ibn Rushd, o Averróis dos latinos, por volta de 1180. O formato é uma citação seguida de réplica, parágrafo por parágrafo, do começo ao fim do livro de Al-Ghazali.

O núcleo da réplica é uma acusação sobre a linguagem, não sobre a fé. Para Averróis, negar que as substâncias tenham atividade própria é apagar a definição das substâncias. Se o fogo não aquece por natureza, a palavra fogo deixa de nomear algo determinado, vira etiqueta solta, e todo raciocínio construído com ela desmonta junto. Conhecer uma substância, nesse argumento, é conhecer o que ela faz.

Averróis vai adiante e classifica a posição adversária como sofística: quem duvida da eficácia do fogo teria de duvidar do próprio juízo, já que o juízo também seria um efeito sem causa necessária. E acrescenta um argumento político, dirigido ao público do livro: a doutrina do costume tira do sábio o terreno onde ele trabalha, porque não sobra regularidade a ser explicada, apenas regularidade a ser constatada.

Dentro do mundo islâmico a disputa já vinha de antes e não se resolveu ali. Os teólogos asharitas, escola em que Al-Ghazali se formou, sustentavam há dois séculos a criação contínua do mundo instante a instante, e a décima sétima questão levou a posição da teologia para dentro do vocabulário dos filósofos. Os herdeiros de Avicena responderam com a distinção entre o necessário por si e o necessário por outro, tentando preservar a cadeia causal sem tirar o mundo das mãos divinas.

Uma acusação tardia continua circulando: a de que o tratado de 1095 teria encerrado a ciência no mundo islâmico. O historiador George Saliba, em Islamic Science and the Making of the European Renaissance, publicado em 2007 pelo MIT Press, mostra o contrário com a produção astronômica posterior, sobretudo a escola de Maragha no século XIII, cujos modelos matemáticos reaparecem depois nos escritos de Copérnico.

Sete séculos depois, David Hume abriu o Tratado da Natureza Humana, de 1739, com uma análise da causalidade que chega à mesma constatação sobre o olho e o hábito, por caminho próprio e com destino diferente, já que Hume para na psicologia da expectativa e não recorre a agente nenhum fora do mundo. Não existe documento que prove leitura direta, e os estudiosos que comparam os dois textos, entre eles Lenn Goodman num artigo de 1978, tratam a semelhança como convergência de argumento.

**O tratado não pede que você duvide da chama: pede que você aponte, na cena, o lugar exato onde mora a necessidade.**

"O que você chama de necessário hoje, e nunca conferiu de perto?"

Numa cozinha de apartamento, às seis e quarenta da manhã, uma mulher gira o botão do fogão e encosta a panela na chama azul. Ela conta com o gás, com a rosca da válvula, com o cobre do fundo, com a ordem em que as cinco cenas se sucedem todo dia desde que ela mora ali, e não confere nenhuma delas.

A água ferveu.

 
 
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Seiscentos anos depois de Al-Ghazali, os europeus deram um nome à posição segundo a qual o fogo é apenas ocasião e nunca agente da queima. Qual nome e com qual pensador?

ADeterminismo, com Baruch Spinoza
BOcasionalismo, com Nicolas Malebranche
CEmpirismo, com David Hume
DRacionalismo, com René Descartes

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