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ED 038
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Ninguém nasce mulher, e o resto foi construído

No segundo volume de O Segundo Sexo, de 1949, Simone de Beauvoir separa o corpo que se tem do destino que outros atribuem a ele.

Uma cadeira de palha vazia junto à janela, com a luz lateral do fim da tarde atravessando o papel fosco.

A cadeira vazia à janela no fim da tarde

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"Mulher: pessoa do sexo feminino, a que já passou da puberdade" (Houaiss). O segundo volume de O Segundo Sexo, que a Gallimard colocou nas livrarias de Paris em novembro de 1949, gasta quase quinhentas páginas exatamente no que essa linha não cobre. A definição fecha num dado de nascimento. O volume abre afirmando que o nascimento não decide nada.

A ideia do dia é que o destino pendurado num corpo foi construído por terceiros, situação por situação.

A primeira frase do volume é uma conjugação: ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Simone de Beauvoir havia publicado o primeiro volume em maio do mesmo ano, com o subtítulo Os Fatos e os Mitos, e ali desmontara as três explicações disponíveis na época: a biologia, a psicanálise freudiana e o materialismo histórico. Nenhuma das três, no argumento dela, explicava por que metade da humanidade aparecia descrita sempre em relação à outra metade.

O segundo volume trocou o método. Em vez de teoria, A Experiência Vivida segue uma trajetória: a infância, a menina, a iniciação sexual, o casamento, a maternidade, a vida social, a maturidade, e termina no capítulo sobre a mulher independente. Cada etapa é um lugar onde alguém de fora ensina, corrige, premia ou ameaça.

A troca de método era o argumento. Uma essência se descreve de uma vez, numa frase de dicionário. Um processo só aparece quando se acompanha etapa por etapa, e em cada etapa fica visível quem estava segurando o lápis.

O livro vendeu 22 mil exemplares na primeira semana, número divulgado pela própria Gallimard, e foi escândalo público antes de virar leitura obrigatória de universidade. A autora tinha 41 anos, dava aula de filosofia desde os 23 e passara três anos numa mesa da Biblioteca Nacional de Paris lendo ginecologia, direito civil e diários de mulheres comuns para montar o argumento.

O que o verbo tornar-se carrega, e por que Beauvoir insistiu em conjugá-lo em vez de definir, é o que vem agora.

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I  A ideia do dia

Torna-se, e a conjugação é o argumento

Beauvoir não nega o corpo. O volume I traz um capítulo longo de fisiologia: o ciclo hormonal, a gestação, a diferença média de massa muscular. O que ela nega é a ponte automática entre um fato do corpo e um lugar na vida em comum. O fato existe. O significado dele é atribuído por alguém.

A distinção que sustenta o livro é entre dado e situação. Um corpo tem peso, altura, idade, ciclo. A situação é tudo o que esse corpo encontra ao redor: leis, expectativas, roupas, escolas, salários, o que se permite e o que se pune. Dois corpos com a mesma fisiologia em situações diferentes vivem destinos diferentes.

O vocabulário filosófico entra aqui com dois termos. Imanência (ficar preso a repetir o que já se é) e transcendência (o movimento de projetar, escolher, ir além do que já está dado). A tese de Beauvoir é que a situação descrita no livro empurra a mulher para a primeira e reserva a segunda ao homem, não por natureza, mas por arranjo.

O que a conjugação muda

Uma essência se herda e não tem autor

Um processo tem etapas, e cada etapa tem alguém que a ensinou

O corpo entrega fatos; quem entrega o destino é a sala em volta dele.

"A humanidade é masculina, e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele."

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, volume I, introdução, publicado em 1949.

O nome que ela dá à posição é o Outro, a figura definida por não ser o padrão. O padrão não precisa se justificar: quando a medicina do século dezenove descrevia o corpo masculino, descrevia um corpo humano, e quando descrevia o feminino, descrevia um desvio, com capítulo próprio e vocabulário de anomalia.

A infância é o capítulo em que o processo fica mais visível. Beauvoir descreve crianças pequenas com experiências de corpo muito parecidas, e localiza o ponto de separação não na anatomia, mas no tratamento: o menino é empurrado para fora de casa, para a briga e para a escalada, e recebe elogio pelo que faz; a menina é elogiada pelo que parece, ganha o boneco que ensaia o cuidado e aprende que agradar rende mais que escalar.

Na fase adulta, a situação estreita. Em 1949, a francesa votava havia cinco anos, depois da ordenação de 1944, e o Código Civil continuava designando o marido como chefe da família, dispositivo que só caiu em 1970. O casamento descrito no livro não é uma escolha entre carreiras: é a carreira disponível, e o capítulo sobre a dona de casa insiste na tarefa que se desfaz todo dia e precisa ser refeita amanhã.

Nada disso é denúncia de conspiração, e Beauvoir não aponta um culpado único. O processo é distribuído entre pais, professores, romances, leis e as próprias mulheres que repetem nas filhas o que aprenderam. É por ser distribuído que ele parece natureza, e é por parecer natureza que a abertura do volume precisou ser um verbo.

 
 

II  Quem pensou

A filósofa que foi ler os médicos antes de escrever

Simone de Beauvoir nasceu em Paris em 9 de janeiro de 1908, num apartamento do Boulevard du Montparnasse, filha de Georges Bertrand de Beauvoir, advogado apaixonado por teatro, e de Françoise Brasseur, católica devota de uma família de banqueiros de Verdun. A fortuna do lado materno desapareceu depois da Primeira Guerra, e com ela o dote das filhas.

A falta de dote reorganizou a vida dela. Sem dote não havia casamento arranjado à altura da classe, e o pai passou a repetir que as duas filhas teriam de trabalhar para viver. Ela estudou no Cours Désir, colégio católico para meninas de boa família, perdeu a fé na adolescência e escolheu a carreira que a casa não podia financiar.

Preparou a agrégation, o concurso francês que habilita ao magistério, e foi aprovada em filosofia em 1929, em segundo lugar. O primeiro colocado foi Jean-Paul Sartre. Ela tinha 21 anos. Ensinou em Marselha em 1931, em Rouen em 1932 e depois em Paris, e só deixou a sala de aula em 1943.

Antes do livro sobre a mulher, veio ficção e ensaio: A Convidada em 1943, Pirro e Cineias em 1944, O Sangue dos Outros em 1945, Por uma Moral da Ambiguidade em 1947. Em 1947 ela atravessou os Estados Unidos por quatro meses dando palestras, e publicou o diário da viagem em 1948.

Ela começou querendo escrever sobre si e travou na primeira pergunta: o que significa ser mulher.

A origem do livro foi uma autobiografia abandonada. Beauvoir contou nas memórias que quis falar de si mesma e percebeu que não conseguia avançar sem responder antes o que significava ter nascido mulher, pergunta que ela nunca tinha considerado um problema. Em vez de escrever, foi para a Biblioteca Nacional.

A pesquisa durou de 1946 a 1949. Ela leu manuais de ginecologia, tratados de psicanálise, o Código Civil, etnografia, mitologia, romances escritos por homens sobre mulheres e diários escritos por mulheres sobre si. Os dois volumes dividem o material: o primeiro revisa o que as autoridades diziam, o segundo acompanha a vida de quem era descrita por elas.

Capítulos saíram antes em Les Temps Modernes, a revista que ela fundou em 1945 ao lado de Sartre, Maurice Merleau-Ponty e Raymond Aron. O capítulo sobre iniciação sexual, publicado solto ali, bastou para abrir o escândalo meses antes do livro.

Depois de 1949 ela seguiu em ficção e em memória: Os Mandarins levou o Prêmio Goncourt de 1954, e Memórias de uma Moça Bem-Comportada saiu em 1958. Em 1949 ela ainda recusava o rótulo de feminista, apostando que uma transformação socialista resolveria a questão por inteiro; em entrevista de 1972 ao Nouvel Observateur, declarou-se feminista e passou a assinar campanhas públicas. Ela morreu em Paris em 14 de abril de 1986, aos 78 anos.

 

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III  Contra o quê

O ataque veio de Roma, de Paris e depois das próprias leitoras

A primeira reação foi insulto, não argumento. François Mauriac escreveu a um colaborador de Les Temps Modernes dizendo que agora sabia tudo sobre a intimidade anatômica da patroa dele. Albert Camus, amigo até ali, acusou o livro de ridicularizar o homem francês. A crítica parisiense tratou quinhentas páginas de pesquisa como confissão pessoal.

Roma foi mais formal. O Vaticano incluiu a obra no Index Librorum Prohibitorum, a lista de livros proibidos aos católicos, em 1956. A proibição rendeu o que a indignação dos jornais já rendia: leitoras que nunca abririam um livro de filosofia francesa procuraram o título pelo escândalo.

A objeção conceitual mais séria veio do feminismo seguinte. A mulher analisada no livro é uma mulher específica, branca, francesa, de classe média, com acesso a biblioteca e a trabalho intelectual, apresentada como universal. Elizabeth Spelman desenvolveu esse argumento em Inessential Woman, de 1988, mostrando que operária, camponesa e mulher negra não cabem na mesma descrição de situação.

Houve também a cobrança sobre o corpo. Mary O'Brien, em The Politics of Reproduction, de 1981, sustentou que Beauvoir trata gestação e amamentação como armadilha da imanência, e que nisso herda a hierarquia que pretendia criticar, com o pensamento no topo e o corpo reprodutivo no fundo.

Por décadas repetiu-se que o aparato conceitual era emprestado, que ela aplicava à mulher o que Sartre escrevera em O Ser e o Nada, de 1943. Margaret Simons e Toril Moi desmontaram a acusação lendo os diários de juventude dela, em que a ética da reciprocidade entre duas liberdades aparece antes do livro dele.

A tradução foi um dano mensurável. A primeira edição em inglês, de 1953, ficou com Howard Parshley, zoólogo que não lia filosofia francesa: ele cortou cerca de 145 páginas e trocou o vocabulário técnico por termos comuns, apagando o argumento. Toril Moi detalhou os erros num artigo de 2002, e a tradução integral só saiu em 2009, por Constance Borde e Sheila Malovany-Chevallier.

O vocabulário da própria Beauvoir envelheceu. Ela não dispunha da distinção entre sexo e gênero, o conjunto de papéis sociais atribuídos a cada corpo, que entrou na literatura médica com Robert Stoller em 1968 e na teoria filosófica depois. Judith Butler, num ensaio de 1986 na Yale French Studies, releu a frase de 1949 como descrição de um ato repetido todos os dias, e não de uma transformação que termina.

A frase sobreviveu às objeções porque não descreve um estado, descreve um trabalho feito por outras pessoas.

"Quem ensinou a você qual era o seu lugar, e com que idade?"

Um casal pinta o quarto pequeno do apartamento num sábado de setembro. A lata de tinta foi escolhida na semana seguinte ao ultrassom de vinte semanas, e a prateleira já tem três caixas de presente de parentes que acertaram o tema sem precisar perguntar.

A criança ainda não tinha nome.

 
 

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