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ED 018

Nenhum dos dois estados julga o outro

Zhuangzi mostra que decidir qual experiência é a verdadeira exigiria um ponto de vista fora das duas, e esse ponto não existe.

Uma borboleta pousada na beira de uma esteira de dormir, ao amanhecer.

Quem sonhou quem, ao amanhecer

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Todo julgamento sobre o que é real depende de um lugar de onde julgar. Quem diz que uma experiência é verdadeira e a outra é falsa está, sem perceber, apoiado num terceiro ponto que serve de régua para as duas.

A ideia do dia é que esse terceiro ponto não aparece quando alguém vai procurá-lo. A régua que separaria o verdadeiro do aparente é sempre pega de dentro de um dos dois estados, e a escolha de qual deles emprestará a régua já decidiu a disputa antes de ela começar.

O argumento é simples de montar e difícil de escapar. Dois estados de experiência, cada um completo por dentro, cada um com suas próprias evidências, e nenhum árbitro externo disponível para dizer qual dos dois descreve o mundo.

De dentro de um estado qualquer, tudo funciona. As coisas têm peso, as cores se comportam, as consequências chegam na hora certa e nada denuncia irregularidade. A coerência interna é exatamente o que os dois estados têm em comum, e por isso ela não serve como critério para separar um do outro.

A saída óbvia seria apelar para a memória. O estado atual parece mais real porque lembra do outro e o classifica como passado e menor. Só que a lembrança é um dado do estado atual, produzida dentro dele, e usá-la como prova é pedir ao interessado que julgue a própria causa.

Outra saída tentaria a estabilidade. O mundo desperto continua igual quando se volta a ele, enquanto o sonho se desmancha. A objeção é que a continuidade também só é conferida de dentro, por uma memória que pertence ao estado que está sendo testado.

O interessante é o que um pensador chinês do século quatro antes de Cristo faz com esse impasse. Ele não se desespera com a falta de árbitro, nem monta uma máquina de dúvida para atravessar até um chão firme do outro lado.

Ele trata a ausência de critério externo como descrição correta do mundo. Se nada garante a fronteira, talvez a fronteira não seja o fato mais importante, e o que importa passe a ser a passagem entre os estados em vez do carimbo de qual deles vale.

O texto onde tudo aparece tem menos de cem caracteres no original chinês e fecha um capítulo inteiro. Vale olhar de perto o que acontece nele.

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I  A ideia do dia

Nenhum lado tem de onde julgar

A cena está no fim do segundo capítulo do Zhuangzi. Alguém sonha que é uma borboleta, esvoaça satisfeita, e dentro do sonho não há vestígio nenhum de que exista uma pessoa em outro lugar.

A frase que carrega o peso todo não é a do sonho, é a do despertar. Ao acordar, o sonhador se reconhece como homem e imediatamente registra que não sabe se é um homem que sonhou ser borboleta ou uma borboleta que agora sonha ser homem.

A dúvida não é sobre o conteúdo da experiência. Ela é sobre a posição de quem julga. Para decidir a questão, seria preciso ocupar um lugar que não fosse nem o do homem nem o da borboleta, e esse lugar não está disponível para ninguém.

A estrutura do impasse se organiza assim:

Dois estados: cada um coerente por dentro

Árbitro fora dos dois: nenhum

Logo, o carimbo de real: vem de um dos lados

Cada estado julga o outro com a própria régua, e o resultado é sempre o mesmo. Quem está acordado chama o sonho de sonho, e a borboleta, enquanto voa, não chama nada de nada, porque não tem nenhuma dúvida a resolver.

O capítulo inteiro vinha preparando o terreno. Ele é uma sequência de demonstrações de que certo e errado dependem da posição de quem fala, e que a discussão entre duas posições não pode ser resolvida por uma terceira igualmente posicionada.

O argumento aparece antes, na figura do juiz impossível. Se duas pessoas discordam e chamam um terceiro para decidir, esse terceiro concorda com uma delas, com a outra ou com nenhuma, e em qualquer caso ele já é parte na disputa em vez de estar fora dela.

O sonho da borboleta é a versão mais econômica do mesmo ponto. Não há discussão, não há adversário, não há tese a defender. Há um homem sozinho de manhã, olhando para duas experiências e sem instrumento para pôr uma acima da outra.

A ideia do dia é essa: julgar qual estado é o verdadeiro exigiria uma régua que não pertencesse a nenhum deles, e toda régua disponível já vem de dentro de um dos dois.

O que o texto faz em seguida é o passo que muitos leitores atropelam. Ele não conclui que tudo é ilusão nem que nada pode ser conhecido, conclusões que exigiriam justamente o ponto de vista externo que acabou de ser negado.

A frase final do capítulo nomeia outra coisa. Entre o homem e a borboleta existe necessariamente uma distinção, e a essa distinção o texto dá o nome de transformação das coisas.

A distinção sobrevive, então, mas muda de função. Ela deixa de ser a linha que separa o verdadeiro do falso e passa a ser a marca de que houve passagem de uma forma para outra, que é o modo como o mundo funciona segundo o texto.

 
 

II  Quem pensou

O escriba de Meng que ria dos lógicos

Um funcionário de um jardim de amoreiras escreveu o livro mais engraçado da filosofia chinesa e recusou o cargo de primeiro-ministro para continuar sem obrigação nenhuma.

Zhuang Zhou viveu por volta do século quatro antes de Cristo, na cidade de Meng, hoje território da província de Henan. O pouco que se sabe da vida dele vem de uma biografia curta escrita por Sima Qian duzentos anos depois.

A biografia conta que o rei de Chu mandou emissários com presentes para convidá-lo a governar. Ele respondeu perguntando se o boi enfeitado que vai para o sacrifício não preferiria ser um porco qualquer chafurdando na lama em liberdade.

O livro que leva o nome dele tem trinta e três capítulos na versão que sobreviveu, organizada por Guo Xiang no século três da era comum. Os sete primeiros, chamados capítulos internos, são os que a tradição atribui diretamente a Zhuang Zhou.

"Não sei se era Zhou sonhando que era uma borboleta ou uma borboleta sonhando que era Zhou. Entre Zhou e a borboleta há necessariamente uma distinção. A isso se chama a transformação das coisas."

Zhuangzi, capítulo 2, século 4 antes de Cristo.

O estilo é o oposto do tratado. O texto avança por anedota, diálogo com pessoas que provavelmente nunca existiram, conversas entre árvores e caveiras, e piadas construídas para desarmar quem esperava argumento formal.

O alvo preferido eram os lógicos da época, a escola dos nomes, gente que discutia se um cavalo branco é um cavalo. Zhuang Zhou considerava a habilidade deles genuína e o resultado inútil, porque toda a energia ia para ganhar discussões em vez de entender a posição de quem discute.

Hui Shi, o mais famoso desses lógicos, aparece no livro como amigo e adversário constante. A cena mais conhecida entre os dois é a da ponte sobre o rio Hao, onde discutem se um homem pode saber que os peixes estão felizes.

Quando Hui Shi morreu, o texto registra Zhuang Zhou parando diante do túmulo e dizendo que perdeu a pessoa com quem podia conversar. A perda do melhor adversário é apresentada como perda maior do que a perda de um aliado.

O conceito central do capítulo dois é a equalização das coisas. Grande e pequeno, útil e inútil, certo e errado são pares que só existem a partir de uma perspectiva, e o texto se dedica a mostrar cada par sendo virado do avesso por uma mudança de ponto de observação.

O sonho da borboleta fecha esse capítulo por ser o caso mais radical. Não se trata de duas opiniões sobre o mesmo objeto, e sim de duas existências inteiras, cada uma completa, sem nenhuma instância acima delas para ordená-las.

 
 

III  Contra o quê

Quando a dúvida vira outra coisa

A leitura mais comum no ocidente aproxima o trecho do argumento do sonho de Descartes, publicado nas Meditações em 1641. Ali o sonho serve de máquina de dúvida, um passo do método para derrubar tudo o que pode ser posto em questão.

A diferença é de destino. Descartes duvida para chegar a um fundamento que resista, o penso logo existo, e a partir dele reconstrói o mundo com garantias. O texto chinês não busca fundamento nenhum e não reconstrói coisa alguma.

Há ainda a leitura que transforma o trecho em ceticismo puro, do tipo que afirma que nada pode ser conhecido. A objeção é interna ao próprio livro: afirmar que nada é conhecido é uma afirmação sobre o todo, feita de um ponto de vista que o texto acabou de dizer que ninguém ocupa.

Uma terceira leitura, defendida por Chad Hansen em 1992, vê no trecho um relativismo de perspectivas em que cada ser tem sua régua e nenhuma vale mais. A crítica que essa linha recebe é que o texto elogia certas maneiras de viver, o que seria estranho se todas as perspectivas fossem realmente equivalentes.

Uma quarta posição, associada a A. C. Graham em 1981, lê o trecho como um convite a mudar de posição em vez de julgar entre posições. A tese seria menos sobre verdade e mais sobre a plasticidade de quem observa.

A tradição chinesa posterior também discutiu o caso. Guo Xiang, no comentário do século três, insiste que o homem acordado nunca sabe que foi borboleta enquanto voava e a borboleta nunca sabe do homem, e que essa ignorância mútua é a prova de que cada forma é inteira em si.

Do lado prático, o argumento apareceu em lugares que nada têm de místicos. A neurociência do sono passou o século vinte tentando encontrar um marcador que diferencie por dentro o estado de sonho do estado desperto, e a busca continua sem um critério que funcione a partir de dentro da experiência.

A dificuldade não é achar diferenças entre os dois estados, é achar uma diferença que o próprio sujeito consiga usar no momento em que está em um deles.

Numa madrugada qualquer, alguém acorda no meio de uma discussão que estava tendo com uma pessoa que não está no quarto e leva alguns segundos até parar de sentir raiva.

Nesses segundos, o corpo já está acordado e o julgamento ainda vem do outro lado, e nenhuma das duas versões da noite se apresenta com uma etiqueta dizendo qual delas era a real.

"Quantas das suas certezas você confere de dentro delas mesmas?"

 
 
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