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ED 030
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Metade do que acontece é acaso, a outra metade é dique

Maquiavel entregou metade das ações humanas à fortuna em 1513 e deixou a outra metade em aberto: obra feita em tempo seco decide a enchente.

O leito seco de um córrego canalizado numa cidade pequena, visto da ponte.

O leito seco antes da cheia

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"Fortuna: sorte, destino, sucessão de acontecimentos favoráveis ou desfavoráveis" (Houaiss). No capítulo 25 de O Príncipe, escrito em 1513, fortuna não é sucessão de acontecimento nenhum: é um rio caudaloso que sai do leito, arrasta terra, derruba casa e leva embora a plantação de quem morava na margem.

Duas cidades pequenas na mesma bacia hidrográfica. Uma delas gastou quatro anos e um orçamento impopular alargando a calha do córrego, comprando as casas encostadas na margem e refazendo a rede de bueiro que ninguém enxerga. A outra aplicou o mesmo dinheiro em recapeamento de rua, obra que aparece na foto e rende inauguração.

A chuva chegou igual nas duas e o rio subiu igual nas duas. Numa delas a água entrou em quatro ruas e baixou na mesma noite. Na outra, entrou em quarenta e levou o comércio de duas quadras inteiras.

A ideia do dia é que preparo nenhum cancela o acaso: ele apenas decide o tamanho do estrago no dia em que o acaso aparece. A chuva ignora quem cavou e quem não cavou, e ainda assim quem cavou perde menos.

Maquiavel escreve a frase mais conhecida do capítulo com cuidado de contador. Ele julga que a fortuna arbitra cerca de metade das nossas ações, acrescenta que talvez um pouco menos, e deixa a outra metade ao governo de quem age. A metade governável é o dique, e dique se levanta em tempo seco, quando ninguém acredita em enchente.

O argumento vale muito além de prefeitura. Um profissional que guarda seis meses de despesa parado num fundo rendendo pouco, uma empresa que mantém um segundo fornecedor sem precisar dele, um casal que faz exame anual sem sintoma nenhum: cada uma dessas obras parece desperdício enquanto o tempo continua seco, e nenhuma delas promete que a cheia não vem.

O trecho áspero do capítulo é que a promessa não existe mesmo. Maquiavel não oferece técnica de controle do acaso, oferece a repartição honesta entre o que responde ao esforço e o que não responde a nada. O secretário florentino tinha acabado de ver a própria carreira ir embora numa enchente política, e escreve como quem mediu a água na parede de casa.

Ele vai além da imagem do rio. O capítulo descreve por que o mesmo comportamento produz sucesso num período e ruína no seguinte, sem que a pessoa tenha mudado uma vírgula do que fazia.

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I  A ideia do dia

O rio respeita quem cavou na estiagem

O capítulo 25 abre reconhecendo uma opinião corrente na Itália do começo do século 16, arrasada por invasão francesa, espanhola e alemã em vinte anos. Muita gente concluía que os assuntos do mundo são governados por Deus e pela sorte, que a prudência humana não corrige nada, e que o melhor a fazer é deixar acontecer.

Maquiavel concede parte da tese e recusa o resto. Ele admite que a fortuna manda em metade, porque negar seria mentira diante das cidades italianas saqueadas. Recusa a conclusão fatalista, porque a outra metade continua nas mãos de quem age, e abandonar essa metade é perder duas vezes.

Vem então a imagem do rio. A fortuna se parece com um desses rios violentos que, quando se enfurecem, alagam a planície, arrancam árvore e edifício, tiram terra de uma margem e a despejam na margem oposta. Todos fogem diante dele, todos cedem ao ímpeto, e ninguém consegue detê-lo.

O argumento inteiro se sustenta na frase seguinte, que costuma ser esquecida quando alguém cita a imagem do rio:

Rio: existe e é mais forte que qualquer pessoa, e nada do que se faça impede a cheia de acontecer

Estiagem: diques e barragens são possíveis nos tempos calmos, com a obra rodando enquanto a água está baixa e ninguém aplaude

Cheia: com a obra pronta, a mesma água corre por canal ou perde força na várzea, e o estrago cabe no que dá para consertar

A fortuna mostra o poder dela onde não existe força organizada para resistir, e volta o ímpeto contra o ponto em que sabe que não foram levantados diques nem barragens.

Maquiavel aplica a imagem à Itália do próprio tempo com dureza. A península é a planície sem dique, os países que fizeram exército e instituição são a planície com obra pronta, e a invasão estrangeira encontrou terreno aberto.

A segunda metade do capítulo aperta o parafuso. Se a fortuna muda de rumo e o comportamento de uma pessoa fica igual, a pessoa prospera enquanto os dois combinam e desaba quando o acaso vira. O cauteloso vence enquanto o tempo pede cautela e afunda quando o tempo pede pressa.

Daí a conclusão que incomoda até hoje: ninguém consegue trocar de natureza na hora certa. Quem prosperou trinta anos por um jeito de agir acredita naquele jeito, e o sucesso passado funciona como prova. A adaptação exigida pelo argumento é justamente a que a experiência bem-sucedida torna improvável.

Maquiavel fecha preferindo o impetuoso ao cauteloso, com uma justificativa prática que não é elogio da imprudência: quem age depressa erra mais vezes, e também cava mais diques por década.

 
 

II  Quem pensou

O secretário demitido que escreveu num sítio emprestado

Nicolau Maquiavel nasceu em Florença em 1469, filho de um jurista sem dinheiro e com uma biblioteca boa. Entrou no serviço público em 1498, aos vinte e nove anos, como secretário da Segunda Chancelaria da república, cargo de burocrata que virou posto de observação privilegiado.

Por catorze anos ele foi o homem enviado para olhar. Cumpriu missão junto a Luís XII na França, ao imperador Maximiliano na Alemanha e a César Bórgia na Romanha, onde acompanhou de perto uma campanha militar que juntava cálculo frio e sorte grossa. Ele também organizou a milícia florentina de cidadãos, a obra própria dele dentro do governo.

Em 1512 a milícia se desfez diante das tropas espanholas em Prato, a república caiu e os Médici voltaram ao poder. Maquiavel perdeu o cargo em novembro, foi proibido de sair do território florentino e, em fevereiro de 1513, apareceu numa lista de conspiradores encontrada no bolso de um preso. Ele foi preso, interrogado sob a corda e solto pela anistia da eleição do papa Leão 10.

Sem cargo e sem permissão para circular na cidade, ele se recolheu ao sítio da família em Sant'Andrea in Percussina, a poucos quilômetros de Florença. Ali passava o dia entre a lenha, a caça de pássaro e a taberna do vilarejo, jogando cartas com o açougueiro e o moleiro.

"Julgo que possa ser verdade que a fortuna seja árbitro de metade das nossas ações, mas que ela nos deixe governar a outra metade, ou quase."

Nicolau Maquiavel, O Príncipe, capítulo 25, escrito em 1513, publicado em 1532.

A carta de 10 de dezembro de 1513 a Francesco Vettori descreve a rotina da noite. Ele tirava a roupa suja de barro, vestia trajes de corte, entrava no escritório e passava quatro horas conversando com os autores antigos, sem sentir tédio, sem lembrar de nenhum aborrecimento e sem temer a pobreza. Na mesma carta ele avisa que compôs um opúsculo sobre principados.

O capítulo do rio nasce de um homem que acabou de ser varrido por uma cheia política e escreve sem pedir consolo, sem culpar o destino e sem prometer método de controle.

O texto foi dedicado a Lourenço de Médici, o mesmo clã que o havia derrubado, numa tentativa aberta de voltar ao serviço público. Maquiavel só recebeu encargos menores dos Médici na década de 1520, escreveu as histórias florentinas por encomenda, e morreu em 1527, semanas depois de a república restaurada preferir outro nome para o cargo que ele queria de volta.

O Príncipe circulou em manuscrito entre amigos durante a vida dele e chegou à imprensa em 1532, cinco anos depois. Em 1559 a obra entrou no Index dos livros proibidos, e a leitura corrente do autor virou sinônimo de trapaça política, apesar de o capítulo 25 tratar de assunto bem menos glamouroso: obra pública feita fora de época de crise.

 

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III  Contra o quê

Contra a roda que gira sozinha e contra o mérito que explica tudo

O alvo primeiro do capítulo é a fortuna como roda divina. Na Consolação da Filosofia, escrita por Boécio na prisão por volta de 524, a fortuna aparece como senhora que gira a roda por vontade própria, sobe e desce reis, e a resposta sábia consiste em desapegar do que ela dá. A tradição cristã medieval absorveu a imagem, com a providência divina no comando da roda.

Sob essa leitura, planejar é vaidade. Maquiavel não nega a existência da roda, nega que ela ocupe o campo inteiro. Deixar metade das ações ao acaso e reservar a outra metade ao esforço humano retira a sorte do trono e a rebaixa a sócia, uma mudança que soava quase blasfema numa Europa que lia a queda de um reino como sentença moral.

O segundo alvo do capítulo é a leitura oposta, a de que resultado é espelho de mérito. O capítulo derruba a ideia ao mostrar duas pessoas com o mesmo comportamento e desfechos contrários, apenas porque o tempo mudou de humor entre uma e outra. Sucesso aparece ali como encontro entre um jeito de agir e uma circunstância, nunca como prova de qualidade pessoal.

A objeção mais bem informada veio de um amigo. Francesco Guicciardini, diplomata florentino que trabalhou nos mesmos círculos, escreveu nas Considerações sobre os Discursos de Maquiavel, por volta de 1530, que o autor generaliza depressa demais, e defendeu nos Ricordi que cada caso tem particularidade própria e escapa da regra geral.

Há também a acusação de que o capítulo cede à imagem que ele mesmo combate. Ao personificar a fortuna como mulher que prefere o jovem impetuoso, um trecho hoje constrangedor, Maquiavel devolve vontade e caráter àquilo que acabou de descrever como força cega.

Isaiah Berlin, no ensaio A Originalidade de Maquiavel, publicado em 1972, argumentou que a novidade do florentino está em separar a virtude política da virtude cristã, e essa separação é o que sustenta o capítulo do rio: um governante que reza pedindo tempo bom e não constrói barragem cumpre uma virtude e falha na outra.

A leitura mais dura do texto continua sendo a que Maquiavel aplica a si mesmo. Ele descreve o dique que a Itália não construiu enquanto escreve num sítio, sem cargo, tendo visto a milícia que organizou se desmanchar em uma tarde.

Numa cidade litorânea, o dono de uma pousada de oito quartos gastou dois verões trocando a fiação, o telhado e a bomba de recalque, com a hospedagem funcionando pela metade e a concorrência lotada. Na temporada seguinte um temporal derrubou a energia da orla por três dias e alagou a rua inteira. A pousada dele abriu na manhã seguinte.

"Que obra chata você adiou de novo porque o tempo continua bom?"

 
 

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DIntervenção pessoal de Lourenço de Médici

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