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ED 010

Mentir exige saber onde a verdade está

Frankfurt separou dois defeitos da fala: quem mente mira a verdade para contorná-la, quem fala só para causar efeito nunca precisa acertar nada.

Um orador de festa cívica no palanque, de perfil, falando ao microfone diante de bandeiras.

Um orador no palanque, com o microfone ligado

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Em Cambridge, nos anos trinta, Fania Pascal passou por uma cirurgia para tirar as amígdalas e, ainda rouca, recebeu a ligação de um amigo que perguntou como ela estava.

Ela respondeu com a primeira imagem que veio à cabeça: sentia-se como um cachorro atropelado. Do outro lado da linha, Ludwig Wittgenstein reagiu com repulsa. Você não sabe como se sente um cachorro atropelado, disse ele.

A cena ficou anotada nas memórias dela e circulou por décadas como grosseria de um sujeito difícil. Meio século depois, um filósofo americano leu a mesma anedota de outro jeito e tirou dali uma distinção que organiza quase tudo que se fala em público.

O incômodo de Wittgenstein não era com uma mentira. Ela não estava descrevendo coisa nenhuma. Pegou uma imagem que soava como sofrimento, usou pelo efeito e não passou em momento algum pela pergunta de se aquilo correspondia a alguma coisa no mundo.

Ele passou a vida caçando esse defeito na linguagem, inclusive na conversa de quarto de hospital. O rigor que parecia crueldade era, para ele, questão de higiene: frase que não descreve nada não deveria ser dita como se descrevesse.

A ideia do dia mora nessa diferença. Existem dois defeitos de fala que a gente trata pelo mesmo nome, e eles não são parentes próximos. Um deles precisa da verdade para funcionar. O outro dispensa a verdade em qualquer etapa do serviço.

A hierarquia moral que a gente carrega diz que a mentira é o pecado grave e a falação é vício menor de quem fala demais. O argumento do dia sustenta o contrário: o defeito que não depende da verdade faz mais estrago do que o que a conhece e a contorna.

A conta é simples. Quem mente mantém a verdade de pé, porque precisa dela como referência. Quem fala apenas para causar efeito vai gastando, frase a frase, a noção de que existe alguma coisa a ser conferida.

O ensaio que fixou a distinção começa separando com cuidado dois personagens que quase todo mundo confunde, e o primeiro deles é bem mais dependente da verdade do que parece.

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I  A ideia do dia

O jogo que o mentiroso não abandona

Não dá para mentir sem achar que se sabe a verdade.

A mentira é um trabalho de precisão. Quem mente precisa localizar o fato, medir a distância até ele e escolher a frase que aterrissa longe o suficiente para enganar e perto o suficiente para convencer. O alvo fica na mira o tempo inteiro.

Daí a conclusão que parece paradoxal e não é: o mentiroso é um especialista em verdade. Ele carrega o mapa correto na cabeça e usa o mapa só para escolher por onde não passar.

O outro personagem não precisa de mapa nenhum. Ele escolhe cada frase pelo efeito que ela produz em quem escuta, e a pergunta sobre a frase corresponder ao mundo não chega a ser feita.

O ensaio usa um orador de festa cívica para mostrar o mecanismo. Diante da bandeira, o sujeito fala do país abençoado e dos fundadores guiados pela providência divina.

Ele não está mentindo, porque nem tem posição formada sobre o que diz. Também não está informando ninguém. O que ele quer é a imagem que fica dele: o homem sincero, tomado pela história do próprio povo.

A verdade das frases é assunto lateral no palanque. Se alguma delas acertar, ótimo. Se nenhuma acertar, o discurso funciona igual, porque o resultado que interessa acontece na plateia e não no mundo descrito.

A definição chega depois do descarte de outra, mais antiga. Max Black, filósofo de Cornell, tinha classificado o fenômeno como representação enganosa dos próprios pensamentos e sentimentos, aquém da mentira, em geral com pose e palavra empolada.

A correção é fina e muda o alvo inteiro. O defeito central não está em enganar sobre o que se sente, está na indiferença a como as coisas realmente são. A pose é sintoma, a indiferença é a doença.

Quem mente ainda trabalha para a verdade: sem saber onde ela está, não sabe por onde passar ao largo.

A imagem que fecha o argumento é a de um jogo de cartas. O mentiroso senta à mesa, aceita as regras e trapaceia dentro delas, o que só faz sentido porque o jogo continua valendo para ele.

O outro levantou da mesa. Não joga contra a verdade, joga outra coisa, e por não estar mais no tabuleiro nunca precisa acertar uma carta sequer.

Daí vem a parte incômoda da tese. A mentira isolada deixa intacta a ideia de que existe um fato a ser respeitado, e é justamente essa ideia que a fala sem compromisso vai desgastando, uma frase de efeito por vez.

O estrago não aparece em nenhuma frase específica, aparece no acúmulo. Depois de um tempo, ninguém mais espera que uma afirmação tenha passado por alguma conferência antes de ser dita.

 
 

II  Quem pensou

O ensaio que esperou dezenove anos

O texto saiu numa revista literária de universidade em 1986, ficou dezenove anos restrito a quem lia periódico acadêmico e, quando virou livro de bolso, entrou na lista dos mais vendidos do New York Times.

Harry Frankfurt nasceu em 1929, na Pensilvânia, e cresceu entre Baltimore e o Brooklyn. Fez a graduação e o doutorado na Universidade Johns Hopkins, concluído em 1954, e se firmou primeiro como estudioso de Descartes, tema do seu livro de 1970.

Deu aula em Ohio State, na Universidade Rockefeller e em Yale, onde chefiou o departamento de filosofia. Em 1990 foi para Princeton, onde ficou até se aposentar da sala de aula, em 2002.

A obra que o tornou respeitado entre colegas não tem nada a ver com conversa fiada. Em 1969 ele publicou um artigo que derrubou uma regra aceita havia séculos, a de que só responde por um ato quem poderia ter feito diferente.

O argumento monta um caso em que alguém decide sozinho fazer uma coisa, sem saber que, na hesitação, um terceiro interviria para garantir o mesmo resultado. A pessoa não tinha alternativa nenhuma e mesmo assim responde pelo que fez.

Dois anos depois veio a definição de pessoa que ainda se ensina em curso introdutório: gente é o bicho que tem desejos sobre os próprios desejos e quer querer uma coisa em vez de outra.

A conversa fiada apareceu no meio desse percurso, em 1986, numa revista de Nova Jersey que publicava ensaio literário e filosofia lado a lado. Foi reeditada em 1988 numa coletânea dele e seguiu presa ao circuito acadêmico.

"É impossível alguém mentir sem que pense saber a verdade. Produzir conversa fiada não exige convicção desse tipo."

Harry Frankfurt, On Bullshit, 2005.

Em 2005, uma editora universitária republicou o texto sozinho, num volume de sessenta e sete páginas. O livro vendeu na casa das centenas de milhares e levou um professor de setenta e cinco anos para o sofá de um programa de humor da TV americana.

A explicação dele para a abundância do fenômeno é sóbria. Fala-se sem consideração pela verdade sempre que as circunstâncias exigem opinião de quem não estudou o assunto, e a vida pública multiplica essas circunstâncias ao pedir que todo cidadão tenha posição sobre tudo.

O fecho do ensaio é mais duro do que o tom de piada sugere. Quando acertar o mundo parece fora de alcance, sobra o ideal de ser fiel a si mesmo, e ele responde que a pessoa não é matéria mais firme que o mundo.

Ser sincero, nesse arranjo, vira outra forma de falar sem compromisso com o que existe fora da própria cabeça. A frase final do ensaio derruba o último refúgio de quem se defende dizendo que ao menos foi honesto.

Um ano depois publicou um volume curto sobre por que a verdade importa, com a tese de que sociedade indiferente a ela perde a capacidade de corrigir o próprio rumo. A produção se encerrou em 2023, aos 94.

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III  Contra o quê

Quem mudou o alvo da acusação

As objeções mais fortes não saem em defesa da conversa fiada. Elas discordam de onde mora o defeito.

O filósofo Jerry Cohen respondeu em 2002, num volume de ensaios sobre a obra de Frankfurt, e apontou o que a definição deixa de fora. A régua olha demais para a cabeça de quem fala.

Existe um tipo de fala vazia produzida com sinceridade absoluta, em que o autor acredita em cada palavra e mesmo assim não há nada para entender do outro lado. Pela definição original, ela escaparia da acusação.

Cohen tinha um alvo concreto: a prosa acadêmica escura da filosofia da própria época, obscura de um jeito que não se resolve pedindo explicação ao autor. O defeito, no caso dele, está no texto, e não na intenção de quem escreveu.

A segunda objeção trocou o argumento por medição. Em 2015, um grupo de pesquisadores canadenses montou frases juntando palavras de efeito ao acaso e pediu que voluntários dessem nota de profundidade a cada uma.

Sentenças como totalidade acalma fenômenos infinitos, sem sentido nenhum por construção, receberam notas altas de boa parte dos participantes. A nota subia entre quem pensava de forma menos analítica, e o trabalho rendeu um Ig Nobel no ano seguinte.

O achado desloca a acusação de lugar. O ensaio de 1986 localizou o defeito em quem fala, e a medição mostrou que a frase vazia só sobrevive porque alguém do outro lado a recebe como profunda.

A terceira resposta é recente. Em 2024, três pesquisadores de Glasgow publicaram num periódico de ética e tecnologia um artigo defendendo que a palavra alucinação é imprópria para o erro de um modelo de linguagem.

Alucinar supõe uma percepção que falhou. O modelo não percebe coisa alguma: monta a frase seguinte pela plausibilidade, sem nenhum estado voltado para o mundo. Pela definição de 1986, o que ele produz é conversa fiada, acertando ou errando.

A máquina não mente nem diz a verdade. Ela devolve a frase que soa certa, e a conferência fica inteira do lado de quem lê.

Na reunião de terça, alguém pede a sua opinião sobre um assunto que você nunca abriu. Existe a resposta certa, existe a errada, e existe a terceira, a que soa bem e não passou por conferência nenhuma.

Ela sai fácil, ninguém contesta, e a reunião segue. No fim do dia a frase continua lá, na ata, sem nunca ter sido verdadeira nem falsa, ocupando o espaço que uma checagem ocuparia.

O mesmo acontece no grupo do prédio, na indicação de médico que alguém repassa de segunda mão e na frase sobre a economia dita entre a sobremesa e o café. Nenhuma delas foi conferida porque nenhuma precisava ser.

"Quanto do que você disse hoje precisou passar por alguma conferência?"

 
 
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