|
As objeções mais fortes não saem em defesa da conversa fiada. Elas discordam de onde mora o defeito.
O filósofo Jerry Cohen respondeu em 2002, num volume de ensaios sobre a obra de Frankfurt, e apontou o que a definição deixa de fora. A régua olha demais para a cabeça de quem fala.
Existe um tipo de fala vazia produzida com sinceridade absoluta, em que o autor acredita em cada palavra e mesmo assim não há nada para entender do outro lado. Pela definição original, ela escaparia da acusação.
Cohen tinha um alvo concreto: a prosa acadêmica escura da filosofia da própria época, obscura de um jeito que não se resolve pedindo explicação ao autor. O defeito, no caso dele, está no texto, e não na intenção de quem escreveu.
A segunda objeção trocou o argumento por medição. Em 2015, um grupo de pesquisadores canadenses montou frases juntando palavras de efeito ao acaso e pediu que voluntários dessem nota de profundidade a cada uma.
Sentenças como totalidade acalma fenômenos infinitos, sem sentido nenhum por construção, receberam notas altas de boa parte dos participantes. A nota subia entre quem pensava de forma menos analítica, e o trabalho rendeu um Ig Nobel no ano seguinte.
O achado desloca a acusação de lugar. O ensaio de 1986 localizou o defeito em quem fala, e a medição mostrou que a frase vazia só sobrevive porque alguém do outro lado a recebe como profunda.
A terceira resposta é recente. Em 2024, três pesquisadores de Glasgow publicaram num periódico de ética e tecnologia um artigo defendendo que a palavra alucinação é imprópria para o erro de um modelo de linguagem.
Alucinar supõe uma percepção que falhou. O modelo não percebe coisa alguma: monta a frase seguinte pela plausibilidade, sem nenhum estado voltado para o mundo. Pela definição de 1986, o que ele produz é conversa fiada, acertando ou errando.
|
A máquina não mente nem diz a verdade. Ela devolve a frase que soa certa, e a conferência fica inteira do lado de quem lê.
|
Na reunião de terça, alguém pede a sua opinião sobre um assunto que você nunca abriu. Existe a resposta certa, existe a errada, e existe a terceira, a que soa bem e não passou por conferência nenhuma.
Ela sai fácil, ninguém contesta, e a reunião segue. No fim do dia a frase continua lá, na ata, sem nunca ter sido verdadeira nem falsa, ocupando o espaço que uma checagem ocuparia.
O mesmo acontece no grupo do prédio, na indicação de médico que alguém repassa de segunda mão e na frase sobre a economia dita entre a sobremesa e o café. Nenhuma delas foi conferida porque nenhuma precisava ser.
"Quanto do que você disse hoje precisou passar por alguma conferência?"
|