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Maimônides calou os adjetivos diante de Deus

No Egito de 1190, o Guia dos Perplexos sustentou que de Deus só cabe dizer o que ele não é.

Pergaminho com escrita hebraica sobre mesa, à luz de lamparina.

Maimônides e o Guia dos Perplexos, Egito, 1190

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Atributo: “aquilo que é próprio de um ser; qualidade, característica” (Dicionário Houaiss). O verbete supõe um ser e uma qualidade separáveis, e um filósofo do século XII achou essa separação, aplicada a Deus, capaz de desmontar a fé.

A cena preferida dele está no Talmude (a compilação de debates rabínicos fechada na Babilônia no século VI), no tratado Berakhot. Um homem conduz a reza diante do rabi Hanina e capricha: “Deus grande, poderoso, temível, majestoso, forte, venerável”.

O rabi espera o homem terminar e pergunta se já acabaram os louvores. Diz que nem os três primeiros adjetivos caberiam numa boca humana, se Moisés não os tivesse escrito na Torá (os cinco livros da lei judaica) e os sábios não os tivessem fixado na oração.

Depois vem a comparação. Louvar Deus assim é como elogiar um rei dono de milhões de moedas de ouro dizendo que ele possui prata. O elogio rebaixa quem o recebe.

Durante séculos a anedota serviu de lição de modéstia na sinagoga. No Egito, mais ou menos em 1190, um médico judeu nascido em Córdoba a transformou em argumento de lógica.

Ele escrevia em árabe, com letras hebraicas, para um aluno que tinha estudado filosofia grega e começava a duvidar da Bíblia. O livro se chamou Dalalat al-Hairin (Guia dos Perplexos). O autor era Moisés ben Maimon, que o Ocidente latino chamou de Maimônides.

A tese cabe numa linha: de Deus só se diz com acerto o que ele não é. Qualquer qualidade positiva, até a mais devota, parte em pedaços aquilo que pretende honrar.

Para um leitor criado na prece, a frase parece blasfêmia. Para o autor, blasfêmia era a lista de adjetivos do homem da sinagoga, recitada com boa intenção.

O argumento começa por uma pergunta de gramática: o que acontece quando alguém põe um adjetivo depois da palavra Deus.

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I  A ideia do dia

Um adjetivo a mais

Maimônides trata do problema nos capítulos 50 a 60 da primeira parte do Guia dos Perplexos. O ponto de partida é a unidade de Deus, repetida toda manhã na prece do Shemá (Escuta, Israel): “o Senhor é um”.

Para ele, um não serve só para recusar dois deuses. Um quer dizer sem partes, sem composição, sem nada dentro que se distinga do resto.

Um atributo funciona assim: em “Pedro é sábio”, há Pedro e há a sabedoria, que Pedro pode perder e outro pode ter. A frase junta duas realidades. Dizer “Deus é sábio” no mesmo sentido põe em Deus um sujeito e uma qualidade, logo duas.

Os teólogos muçulmanos do kalam (teologia racional islâmica) tentavam escapar dizendo que os atributos eram eternos e unidos à essência. Maimônides responde que eles trocaram a palavra e guardaram o problema: quem afirma uma essência com sete atributos eternos conta oito. Ele compara a posição à dos cristãos que dizem Deus um e três ao mesmo tempo.

Cada adjetivo positivo acrescenta uma peça a quem não tem peças.

Restam dois tipos de frase aceitáveis. O primeiro são os atributos de ação. Quando a Bíblia chama Deus de misericordioso, descreve o efeito, a forma como o mundo se comporta, e não um sentimento dentro dele, do jeito como se chama de cruel um terremoto sem dar crueldade às rochas.

O segundo tipo são as negações. “Deus existe” passa a significar que ele não é inexistente; “Deus é poderoso”, que ele não é fraco; “Deus é vivo”, que ele não é como uma pedra. Nenhuma das frases acrescenta algo a ele. Cada uma só retira um erro da cabeça de quem fala.

“Sabe que a descrição de Deus por meio de negações é a descrição correta.”

Maimônides, Guia dos Perplexos, parte I, capítulo 58, c. 1190

Para mostrar que negar também ensina, ele monta um exemplo no capítulo 60. Alguém ouve a palavra navio e não sabe o que é. Aprende que não é um acidente, nem um mineral, nem planta, nem animal, nem redondo, nem maciço. A cada negação, chega mais perto da ideia do navio, embora nunca tenha visto um.

Com Deus a lista não termina, e o perplexo aprende a parar. No mesmo trecho, Maimônides cita o Salmo 65: “para ti o silêncio é louvor”.

Numa loja de violinos, um luthier ouve o cliente descrever o som que procura. O cliente rejeita o brilhante, o metálico, o anasalado, o abafado. Quando ele fica sem adjetivos, o luthier tira um instrumento da parede e entrega.

 
 

II  Quem pensou

O médico de Fustat

Moisés ben Maimon nasceu em Córdoba, na Espanha muçulmana, em 1138, filho do juiz rabínico Maimon. Quando ele tinha uns dez anos, os almóadas, dinastia berbere de islã rigoroso, tomaram a cidade e deram aos judeus três escolhas: conversão, exílio ou a espada.

A família vagou pela Andaluzia, viveu em Fez, no Marrocos, passou pela Terra de Israel em 1165 e se fixou em Fustat, a cidade velha do Cairo, no Egito.

O irmão David sustentava a casa comerciando pedras preciosas no Oceano Índico. Num naufrágio, afundou com a fortuna da família. Maimônides conta numa carta que passou cerca de um ano de cama, abatido pela perda.

Virou médico. Serviu à corte do vizir al-Qadi al-Fadil, braço direito do sultão Saladino. Numa carta ao tradutor Samuel ibn Tibbon descreve a rotina: ia ao palácio de manhã, voltava à tarde faminto e achava a antessala cheia de pacientes, judeus e muçulmanos, até a noite.

Ao mesmo tempo chefiava a comunidade judaica do Egito e era o maior jurista da época. Em 1168 terminou o comentário à Mishná (a primeira codificação da lei oral judaica), em árabe, com os treze princípios da fé; o terceiro afirma que Deus não tem corpo.

Em 1180 concluiu a Mishné Torá (Repetição da Lei), um código em 14 livros, escrito em hebraico, que ordenava a lei inteira sem citar a fonte de cada regra.

O jurista que pôs a lei inteira em 14 livros escreveu o Guia para quem duvidava dela.

O Guia saiu de uma relação de mestre e aluno. José ben Judá ibn Aknin chegou do Marrocos, estudou com ele lógica e astronomia e partiu para Alepo, na Síria. Maimônides dedicou o livro a ele e mandou os capítulos por carta.

A língua foi o judeo-árabe (árabe escrito em letras hebraicas), o idioma cotidiano dos judeus do mundo islâmico. A escolha guardava o texto de olhos muçulmanos e o deixava fora do alcance de quem só lia hebraico.

Na introdução, ele avisa que espalhou contradições de propósito pelo livro. O leitor sem preparo em lógica e física se perderia nelas; o perplexo de fato acharia o caminho.

Samuel ibn Tibbon, na Provença, traduziu a obra para o hebraico com o título Moré Nevukhim e terminou o trabalho em 1204. Maimônides se foi em Fustat em dezembro daquele ano. Segundo a tradição, o corpo seguiu para Tiberíades, na Galileia, onde o túmulo recebe visitantes até hoje.

 

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III  Contra o quê

Tomás recusa o silêncio

O alvo declarado do Guia era o kalam, mas o golpe atingia também os rabinos que liam a Bíblia ao pé da letra. Se Deus não tem corpo nem qualidades, a mão forte do Êxodo e a ira dos profetas viram metáforas. Para quem rezava a um Deus que ouve e se irrita, a tese soava fria.

Menos de 30 anos depois da partida do autor, a briga explodiu na Provença. Em 1232 o rabino Salomão ben Abraão, de Montpellier, proibiu o estudo do Guia e pediu apoio aos rabinos do norte da França. Os seguidores de Maimônides responderam com excomunhão contra ele.

Pouco depois, segundo crônicas judaicas da época, frades dominicanos queimaram exemplares do Guia em Montpellier. A quantidade de livros queimados nunca foi registrada, e há historiadores que duvidam do próprio episódio, porque as fontes vêm só de um dos lados.

O livro já circulava em latim, como Dux neutrorum (guia dos indecisos). Tomás de Aquino leu a tradução e respondeu na Suma Teológica, escrita entre 1265 e 1274.

“Quando se diz que Deus é bom, o sentido não é que Deus é causa da bondade, ou que Deus não é mau; o sentido é que aquilo que chamamos bondade nas criaturas preexiste em Deus.”

Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, questão 13, artigo 2, c. 1268

A objeção de Tomás tem três partes. Quem reza não quer dizer só que Deus não é mau. Se valesse a negação pura, daria para chamar Deus de leão, porque ele também não é fraco. E a analogia (o uso de uma palavra em sentido proporcional, nem igual nem diferente) permitiria falar de Deus sem picá-lo em pedaços.

Para Tomás, calar demais também erra sobre Deus.

Em 1329, o filósofo judeu Levi ben Gershom, o Gersônides, atacou por outro lado no livro As Guerras do Senhor. Se as palavras não têm sentido comum entre Deus e o homem, nem a negação ensina algo, porque negar fraqueza supõe saber o que é força.

Maimônides tinha previsto o golpe no capítulo 56. Entre a sabedoria de Deus e a do homem não há proporção nenhuma: as duas só dividem o nome, como a palavra manga serve à fruta e à camisa.

A disputa nunca teve vencedor. A teologia negativa voltou no século XIV com o frade dominicano Mestre Eckhart, que cita Rabi Moisés pelo nome nos sermões em latim.

Numa sala de hospital, uma filha descreve o pai ao médico de plantão. Ele não é de reclamar. Não é de exagerar dor. Não é de pedir ajuda. O médico anota as três frases.

Dobrou a dose.

 
 
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No código de leis que Maimônides concluiu em 1180, em quantos livros ele organizou a lei judaica inteira?

A10 livros
B13 livros
C14 livros
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Resultado da última edição: 100% acertaram.

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