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ED 015

Liberdade é querer a vontade que você aprova

Frankfurt sustenta que agir livre não é seguir qualquer desejo, e sim ser movido pelo desejo que a própria pessoa aprova ter.

Duas pessoas na mesma calçada ao entardecer, uma delas olhando para a própria mão.

O mesmo gesto, dois donos diferentes

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Em 1971, a Journal of Philosophy publicou um ensaio de quinze páginas que não trazia experimento nenhum e citava quase ninguém. Em duas décadas ele virou o texto mais discutido do debate sobre liberdade da vontade.

O problema que ele atacava parecia fechado havia séculos, com dois times já formados. De um lado, quem dizia que ser livre é fazer o que se quer sem que nada externo segure o braço.

Do outro, quem dizia que liberdade de verdade exigiria mais do que isso: exigiria que o universo pudesse ter corrido diferente naquele instante exato, e que a pessoa pudesse ter feito outra coisa.

A ideia do dia recusa as duas saídas e muda a pergunta de lugar. A liberdade não mora no gesto nem na física do universo, ela mora na relação entre a pessoa e a própria vontade.

O que o argumento acrescenta é um segundo andar do querer. Além dos desejos que empurram alguém para a geladeira, existe um querer sobre o próprio querer, em que a pessoa aprova, ou repudia, ser movida por aquele desejo.

Quando os dois andares coincidem, o gesto sai como dela, assinado. Quando divergem, o gesto sai igual por fora, movido por uma vontade que ela não reconhece, e ela assiste ao próprio braço como quem assiste a um estranho.

A definição que sai daí é estreita e exigente. Ser livre não é ter feito o que se quis, é que a vontade que moveu o gesto seja exatamente a vontade que a pessoa queria ver movendo.

Uma consequência aparece logo na primeira volta. Alguém pode fazer precisamente aquilo que deseja e ainda assim não ser livre, porque o desejo que venceu a disputa não é o desejo que ela aprova ter.

Outra consequência mexe na régua da responsabilidade. O que passa a contar não é se havia uma alternativa disponível naquele segundo, é de quem era a vontade que decidiu.

O teste do argumento inteiro cabe em duas pessoas que fazem o mesmo gesto, pelo mesmo motivo aparente, e que não são a mesma coisa por dentro.

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I  A ideia do dia

Querer o próprio querer

Duas pessoas usam a mesma droga, na mesma dose, com o corpo tomado pela mesma compulsão. As duas vão usar, e nenhuma das duas conseguiria resistir nem se passasse o dia tentando.

A diferença entre elas não está no gesto nem na força do desejo, está no que cada uma pensa do próprio desejo. Uma quer ser movida pela compulsão e se reconhece nela; a outra a odeia e queria não tê-la.

O que a primeira faz sai dela inteira. Ela deseja a droga e deseja que esse desejo seja justamente o que a leva à ação, de modo que o desejo carrega o aval dela.

A segunda desce a rua contra si mesma. Ela também deseja a droga e ao mesmo tempo quer que esse desejo não seja o que decide, então o braço dela obedece a alguém que ela não assina.

O argumento chama de desejo de primeira ordem aquilo que quer um objeto ou uma ação: comer, dormir, falar, usar. Todo animal tem desses, e ter vários deles brigando ao mesmo tempo é o estado normal de qualquer um.

O andar de cima é de outra natureza e parece ser coisa de gente. Ali a pessoa quer ter, ou quer não ter, um desejo do andar de baixo, e quer que ele seja justamente o que move o corpo.

A palavra técnica para o desejo que vence a disputa e vira ação é vontade. Vontade não é todo desejo que passeia pela cabeça, é o desejo efetivo, aquele que chegou até o músculo.

Quando alguém quer que um desejo específico seja a sua vontade, o argumento diz que ele formou uma volição de segunda ordem. É esse ato, e não a ausência de obstáculo externo, que faz de um ser uma pessoa.

Quem tem desejos fortes e nenhuma volição de segunda ordem ganha um nome próprio no texto. É alguém que quer muito e não se importa com o que quer, e por não se importar não chega a ser pessoa no sentido que o argumento usa.

Um animal age por desejo, e uma pessoa age por um desejo que ela mesma referendou. Sem esse segundo andar, o que existe é um campo de forças com um corpo no meio, e não alguém decidindo.

A liberdade de ação e a liberdade da vontade se separam aqui, e a separação é a parte que corta. Ser livre para agir é fazer o que se quer; ser livre na vontade é querer aquilo que se quer querer.

A primeira pessoa da cena é livre num sentido e não no outro. Ela faz o que quer e aprova o desejo que a move, mas não poderia querer diferente, porque a compulsão fecharia qualquer outra porta.

A segunda não é livre em sentido nenhum. O desejo que decide não é o que ela aprova, e ela não teria como trocar um pelo outro nem se passasse a vida inteira tentando.

Há ainda um terceiro caso, o mais comum e o menos dramático de todos. Alguém quer uma coisa, aprova querer aquilo, age, e nada disso aparece como conflito porque os dois andares nunca se estranharam.

O que o argumento cobra, portanto, não é força de caráter nem ausência de desejo ruim. Cobra que a vontade vencedora seja aquela que a pessoa queria ver vencendo quando parou para pensar no assunto.

 
 

II  Quem pensou

O ensaio curto e o best-seller acidental

O mesmo autor que definiu a liberdade da vontade em quinze páginas escreveu depois um livrinho sobre conversa fiada que virou best-seller nacional.

Harry Frankfurt nasceu em maio de 1929 em Langhorne, na Pensilvânia, e foi adotado ainda bebê por um casal que se mudou com ele para o Brooklyn e depois para Baltimore.

Entrou na Johns Hopkins, terminou a graduação em 1949 e o doutorado em 1954, com uma passagem pelo Exército no meio do caminho, num período em que a filosofia americana estava obcecada por linguagem e lógica.

Em 1969 publicou um artigo curto que desmontava um dogma antigo, com um cenário em que alguém decide sozinho e um vigia invisível estaria pronto a intervir caso a decisão fosse outra.

Como o vigia nunca precisa agir, a pessoa decide por conta própria, ainda que não pudesse ter feito diferente. A responsabilidade sobreviveu sem a exigência de alternativas, e o cenário passou a levar o nome dele.

Dois anos depois veio o ensaio sobre a vontade, publicado na Journal of Philosophy em janeiro de 1971, com os dois andares do desejo e as duas pessoas na mesma compulsão.

"É ao garantir a conformidade da própria vontade com as suas volições de segunda ordem que uma pessoa exerce liberdade da vontade."

Harry Frankfurt, Freedom of the Will and the Concept of a Person, 1971.

Ele lecionou em Ohio State, em Binghamton, na Rockefeller University e em Yale, onde chefiou o departamento, e em 1990 foi para Princeton, onde ficou até se tornar emérito em 2002.

Em 1986, uma revista literária pequena publicou um ensaio dele sobre um tipo de fala que não é mentira nem verdade, porque quem fala simplesmente não se importa com a diferença entre as duas.

O texto circulou por vinte anos em fotocópia até uma editora universitária transformá-lo num volume de bolso em 2005. O livrinho vendeu centenas de milhares de exemplares e levou um professor de setenta e seis anos a um programa de humor da televisão.

Os últimos livros voltaram ao mesmo problema por outra porta. Ele passou a defender que o que estabiliza a vontade de alguém não é a razão sozinha, e sim aquilo com que a pessoa se importa, com o amor no centro da lista.

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III  Contra o quê

O regresso e a vontade implantada

A objeção mais citada não nega a existência dos dois andares. Ela pergunta de onde vem a autoridade do andar de cima para decidir quem é a pessoa de verdade.

Gary Watson formulou o problema em 1975, num ensaio sobre agência livre. Se um desejo de segunda ordem é apenas mais um desejo, ele pode ser tão estranho ao sujeito quanto o de baixo, e não tem privilégio nenhum.

Daí sai o regresso. Se o segundo andar precisa do aval do terceiro, e o terceiro do quarto, a série nunca fecha, e a pessoa fica esperando uma assinatura que jamais chega.

Watson propôs trocar a hierarquia por outra coisa: o conflito não seria entre desejos de níveis diferentes, e sim entre o que alguém deseja e o que alguém de fato valoriza depois de julgar.

A resposta a esse ataque foi acrescentar um ingrediente ao mecanismo. O regresso para no ponto em que a pessoa se identifica com o desejo de forma decidida e sem reserva, e essa adesão sem reserva ganhou nome próprio.

A palavra escolhida foi inteireza. Não é o número de andares que resolve a questão, é a ausência de divisão interna: quem quer sem ficar dividido não deve satisfação a nenhum andar acima.

A segunda objeção é mais cruel e usa um cenário de ficção. Imagine um neurocirurgião que implanta na cabeça de alguém tanto o desejo de fumar quanto a aprovação entusiasmada desse desejo.

A vítima do implante passa no teste com folga. Os dois andares dela estão em harmonia perfeita, ela aprova o que quer e quer o que aprova, e mesmo assim ninguém diria que ela é livre.

John Martin Fischer e Mark Ravizza levaram esse caso a sério em 1998 e concluíram que a fotografia do momento não basta. Importa também a história: como aquele mecanismo de decisão foi parar ali dentro.

Nenhuma dessas críticas devolveu o debate ao ponto de partida. A pergunta sobre poder ter feito diferente saiu do centro, e o que ficou no lugar dela foi a pergunta sobre a quem pertence a vontade que decidiu.

Numa quinta à noite, duas pessoas recebem o mesmo pedido de favor no telefone e as duas respondem que sim, com a mesma frase e o mesmo tom cansado.

Uma delas quer ajudar e aprova querer ajudar, mesmo achando o pedido inconveniente. A outra queria ter dito não e disse sim empurrada por um medo de decepcionar que ela nem gostaria de ter.

O gesto foi idêntico, o calendário da semana ficou igual para as duas, e nada disso vai aparecer em lugar nenhum. A diferença mora inteira em quem assinou a vontade que atendeu ao telefone.

"A vontade que decidiu a sua última hora é a vontade que você queria ter tido?"

 
 
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AQue ela repudia o desejo que a move, mas age assim mesmo
BQue ela aprova ser movida por aquele desejo, e a outra não
CQue ela tem mais força de vontade para resistir à compulsão
DQue ela poderia ter feito diferente naquele exato instante

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