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Duas pessoas usam a mesma droga, na mesma dose, com o corpo tomado pela mesma compulsão. As duas vão usar, e nenhuma das duas conseguiria resistir nem se passasse o dia tentando.
A diferença entre elas não está no gesto nem na força do desejo, está no que cada uma pensa do próprio desejo. Uma quer ser movida pela compulsão e se reconhece nela; a outra a odeia e queria não tê-la.
O que a primeira faz sai dela inteira. Ela deseja a droga e deseja que esse desejo seja justamente o que a leva à ação, de modo que o desejo carrega o aval dela.
A segunda desce a rua contra si mesma. Ela também deseja a droga e ao mesmo tempo quer que esse desejo não seja o que decide, então o braço dela obedece a alguém que ela não assina.
O argumento chama de desejo de primeira ordem aquilo que quer um objeto ou uma ação: comer, dormir, falar, usar. Todo animal tem desses, e ter vários deles brigando ao mesmo tempo é o estado normal de qualquer um.
O andar de cima é de outra natureza e parece ser coisa de gente. Ali a pessoa quer ter, ou quer não ter, um desejo do andar de baixo, e quer que ele seja justamente o que move o corpo.
A palavra técnica para o desejo que vence a disputa e vira ação é vontade. Vontade não é todo desejo que passeia pela cabeça, é o desejo efetivo, aquele que chegou até o músculo.
Quando alguém quer que um desejo específico seja a sua vontade, o argumento diz que ele formou uma volição de segunda ordem. É esse ato, e não a ausência de obstáculo externo, que faz de um ser uma pessoa.
Quem tem desejos fortes e nenhuma volição de segunda ordem ganha um nome próprio no texto. É alguém que quer muito e não se importa com o que quer, e por não se importar não chega a ser pessoa no sentido que o argumento usa.
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Um animal age por desejo, e uma pessoa age por um desejo que ela mesma referendou. Sem esse segundo andar, o que existe é um campo de forças com um corpo no meio, e não alguém decidindo.
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A liberdade de ação e a liberdade da vontade se separam aqui, e a separação é a parte que corta. Ser livre para agir é fazer o que se quer; ser livre na vontade é querer aquilo que se quer querer.
A primeira pessoa da cena é livre num sentido e não no outro. Ela faz o que quer e aprova o desejo que a move, mas não poderia querer diferente, porque a compulsão fecharia qualquer outra porta.
A segunda não é livre em sentido nenhum. O desejo que decide não é o que ela aprova, e ela não teria como trocar um pelo outro nem se passasse a vida inteira tentando.
Há ainda um terceiro caso, o mais comum e o menos dramático de todos. Alguém quer uma coisa, aprova querer aquilo, age, e nada disso aparece como conflito porque os dois andares nunca se estranharam.
O que o argumento cobra, portanto, não é força de caráter nem ausência de desejo ruim. Cobra que a vontade vencedora seja aquela que a pessoa queria ver vencendo quando parou para pensar no assunto.
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