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Hans Jonas pôs o recém-nascido no centro da ética

Em O Princípio Responsabilidade, de 1979, Hans Jonas estende o dever moral a quem ainda nem nasceu.

Um recém-nascido respira no berço, num quarto escuro de madrugada.

O berço às três da madrugada

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Responsabilidade: “obrigação de responder pelas ações próprias ou dos outros” (Dicionário Houaiss). A definição olha para trás. Alguém agiu, algo aconteceu, e agora se pede a conta. Fica de fora quem ainda não agiu e não tem como cobrar nada.

Um recém-nascido acorda às três da madrugada num quarto escuro. Não sabe pedir, não tem palavra para a fome, não assinou contrato com ninguém. Respira, chora, e a casa inteira se levanta.

Nenhum dos adultos ali causou aquela fome. Mesmo assim, ninguém pergunta de quem é a culpa. A mãe esquenta o leite, o pai acende a luz do corredor, e a avó, acordada no quarto ao lado, escuta até o choro parar.

Para o filósofo alemão Hans Jonas, a cena do berço guarda o modelo mais antigo do dever. O bebê não oferece nada em troca. A simples existência dele, frágil e inteira, já dirige um apelo a quem está perto.

Jonas escreveu que basta olhar. A respiração de um recém-nascido exige, sem argumento, que alguém responda por ela agora e nas horas seguintes.

Durante séculos, a filosofia moral tratou de outro caso. Dois adultos, frente a frente, no mesmo dia, discutem se uma promessa vale ou se uma mentira se justifica. A conta fechava entre vizinhos, e o dano, quando havia, tinha rosto, endereço e prazo curto para aparecer.

O berço muda a direção da pergunta. Quem chora não pode reclamar depois. Quem dorme do outro lado do mundo, ou quem vai nascer daqui a dois séculos, tampouco.

Jonas levou a cena da madrugada para uma escala que nenhum moralista antigo imaginou: a humanidade inteira diante de quem ainda vai nascer, com máquinas capazes de alterar o ar, o mar e o próprio corpo humano. O resultado foi um livro grosso, escrito em alemão, com um mandamento novo na primeira parte.

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I  A ideia do dia

Um mandamento para quem não nasceu

A resposta de ontem

Por que Weil assinou o ensaio como Émile Novis?

Émile Novis é um anagrama de Simone Weil. O Estatuto dos Judeus, lei do governo de Vichy assinada no outono de 1940, afastou judeus do ensino e da imprensa, e Weil perdeu o posto de professora. Com o anagrama, a revista Cahiers du Sud, de Marselha, pôde publicar o ensaio sem expor a autora à censura.

Hans Jonas publicou Das Prinzip Verantwortung (O Princípio Responsabilidade) em 1979, pela editora Insel, de Frankfurt. O subtítulo anuncia a ambição: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica.

O livro abre com um diagnóstico. Toda ética anterior, de Aristóteles a Kant, partia de três premissas que ninguém discutia. A condição humana era fixa, o bem era reconhecível, e o alcance da ação humana era curto.

Os mandamentos clássicos mostram o terceiro ponto. Ama o teu próximo. Não faças ao outro o que não queres para ti. O outro, em todos eles, está ao alcance da mão e vive no mesmo tempo de quem age.

A natureza ficava fora da moral. O agricultor arava a terra, e a terra se refazia. O pescador tirava peixes do mar, e o mar continuava cheio. A ação humana arranhava a superfície de um mundo que se consertava sozinho.

Para Jonas, a técnica moderna rompeu as três premissas de uma vez. Uma usina, uma represa ou uma lavoura de escala industrial produz efeitos que atravessam gerações. A engenharia genética, que ele acompanhava nos anos 1970, ameaçava mexer no próprio material humano.

O próximo agora mora no futuro.

O imperativo categórico de Immanuel Kant, formulado em 1785, pedia que cada um agisse segundo uma máxima que pudesse virar lei universal. Era um teste de coerência entre pessoas presentes. Jonas o achava insuficiente: uma geração pode ser perfeitamente coerente e ainda assim gastar o planeta inteiro.

Ele propôs uma fórmula nova, pensada para o agente coletivo, o Estado, a indústria, a política pública.

“Age de tal modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra.”

Hans Jonas, O Princípio Responsabilidade, 1979

A palavra autêntica pesa. Não basta que sobrem seres humanos vivos. Jonas quer que sobrevivam pessoas capazes de liberdade, de juízo e de responsabilidade, e não uma população mantida por máquinas ou alterada em laboratório.

Para aplicar o mandamento, ele sugere um método que chamou de heurística do medo (a técnica de descobrir o que vale pelo pavor de perdê-lo). Diante de uma tecnologia de efeito irreversível, a previsão ruim deve pesar mais que a boa.

O motivo é assimétrico. Se o otimista errar, a perda pode não ter volta. Se o pessimista errar, perde-se só um ganho adiado.

Um avô planta no quintal uma muda de jabuticabeira. Sabe que a árvore leva anos para dar fruto e talvez não veja a primeira safra. Escolhe o lugar longe do muro, para que as raízes não rachem a casa do neto.

 
 

II  Quem pensou

O aluno de Heidegger que pegou em armas

Hans Jonas nasceu em 10 de maio de 1903, em Mönchengladbach, na Renânia, filho de Gustav Jonas, dono de uma tecelagem, e de Rosa Jonas. A família era judia e próspera.

Estudou filosofia em Freiburg com Edmund Husserl e Martin Heidegger, e depois em Marburg. Ali fez amizade com outra aluna de Heidegger, Hannah Arendt, uma amizade que atravessou cinco décadas.

Em 1928, defendeu a tese sobre a gnose (corrente religiosa da Antiguidade que prometia salvação por um conhecimento secreto), orientada por Heidegger e pelo teólogo Rudolf Bultmann. O estudo virou referência e rendeu dois volumes.

Em 1933, Hitler chegou ao poder, e Heidegger assumiu a reitoria da Universidade de Freiburg como membro do partido nazista. Jonas nunca perdoou o professor. Deixou a Alemanha no mesmo ano, rumo a Londres, e em 1935 seguiu para Jerusalém.

Na Palestina sob mandato britânico, entrou para a Haganá (milícia judaica de autodefesa). Quando a guerra estourou, alistou-se no exército britânico e serviu na Brigada Judaica, que lutou contra os alemães no norte da Itália.

Ele escreveu filosofia entre trincheiras.

No front, longe das bibliotecas, Jonas começou a pensar no corpo vivo. Escrevia cartas filosóficas para a mulher, Lore Weiner, com quem se casara em 1943. Delas saiu o projeto de uma biologia filosófica.

Em 1948, voltou às armas, desta vez como oficial de artilharia na guerra de independência de Israel. No ano seguinte, mudou-se com a família para o Canadá e lecionou na Universidade McGill e na Universidade Carleton.

Em 1955, chegou a Nova York para ensinar na New School for Social Research (Nova Escola de Pesquisa Social), onde ficou até se aposentar, em 1976. Em 1966, publicou O Fenômeno da Vida, a obra em que trata o organismo como liberdade em miniatura.

“O recém-nascido, cuja simples respiração dirige irrefutavelmente um dever ao mundo em volta: o de cuidar dele.”

Hans Jonas, O Princípio Responsabilidade, 1979

O Princípio Responsabilidade veio em alemão, depois de décadas escrevendo em inglês. No prefácio, Jonas conta a razão: aos 76 anos, preferiu a língua em que escrevia com mais facilidade.

O livro virou best-seller na Alemanha Ocidental. Em 1987, Jonas recebeu em Frankfurt o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão.

 

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III  Contra o quê

Contra a esperança sem freio

O título do livro é uma resposta. Entre 1954 e 1959, o filósofo marxista Ernst Bloch publicou em três volumes O Princípio Esperança, uma defesa da utopia como motor da história.

Para Bloch, a humanidade ainda não tinha sido o que podia ser, e a técnica, bem distribuída, abriria o caminho para o reino da liberdade. Jonas troca a esperança pela responsabilidade já na capa.

O alvo vai além de Bloch. Jonas mira o que chamou de ideal baconiano, herdado do filósofo inglês Francis Bacon, que no começo do século XVII pregava o domínio da natureza pelo saber. Saber é poder, dizia a fórmula.

Na leitura de Jonas, capitalismo e marxismo compartilham o mesmo programa. Os dois prometem abundância crescente, discordam só de quem fica com ela, e tratam o planeta como estoque infinito.

A utopia, para ele, é perigosa por um motivo prático. Quem acredita num paraíso futuro aceita qualquer custo presente para chegar lá, e a técnica moderna fornece os meios para pagar esse custo com o ar e a água de quem vem depois.

O sonho do paraíso pode gastar a casa.

Jonas foi além e irritou leitores de esquerda e de direita. Escreveu que uma sociedade de mercado, presa ao lucro do trimestre e ao voto da próxima eleição, tem dificuldade de impor renúncia. Chegou a especular se um governo de elites esclarecidas não faria a contenção melhor que as democracias.

Os críticos responderam com força. Acusaram Jonas de catastrofismo e de tentação autoritária. O próprio Jonas admitia o risco e não propunha regime nenhum: deixava a dúvida registrada como problema aberto.

“A promessa da técnica moderna se converteu em ameaça.”

Hans Jonas, O Princípio Responsabilidade, 1979

O livro saiu do círculo acadêmico. O Partido Verde alemão, fundado em 1980, leu Jonas com atenção. O princípio da precaução, gravado em 1992 como princípio 15 da Declaração do Rio, na conferência das Nações Unidas sobre meio ambiente, carrega a marca da heurística do medo.

Uma família reforma o banheiro e decide para onde vai o entulho com amianto. O caminhão do aterro cobra caro. O terreno baldio da esquina sai de graça. A mãe paga o caminhão.

Jonas trabalhou até os 89 anos. Saiu de cena em 5 de fevereiro de 1993, em New Rochelle, perto de Nova York. Nas memórias, publicadas depois, voltou à despedida da família em Mönchengladbach.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que promessa Hans Jonas fez à mãe, Rosa, quando deixou a Alemanha em 1933?

 
 
Quiz da edição

No prefácio de O Princípio Responsabilidade, por que Hans Jonas diz ter escrito o livro em alemão, e não em inglês, língua que usava há décadas?

AA editora Insel exigia textos em alemão
BAos 76 anos, escrever em alemão lhe era mais fácil
CQueria homenagear Heidegger, seu orientador
DO público americano já conhecia pouco de sua obra

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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