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Gorgias absolveu Helena porque a palavra droga

Em Atenas, no século V a.C., um professor de retórica defendeu a mulher mais culpada da Grécia com um único argumento.

Orador grego discursa diante de uma mulher velada.

Gorgias e Helena, Grécia, século V a.C.

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Persuadir: “levar alguém a crer, a aceitar ou a decidir algo” (Dicionário Houaiss). O verbete põe toda a ação em quem fala e deixa quem ouve parado, sem dizer se ele ainda decide alguma parte do que passa a crer.

Por volta de 415 a.C., um professor siciliano de retórica escolheu o caso mais difícil da Grécia para testar a definição. Helena de Esparta, mulher do rei Menelau, tinha partido com o príncipe troiano Páris. Na tradição dos poetas, a fuga dela custou dez anos de guerra e a queda de Troia.

O nome dela virou sinônimo de traição. O poeta Estesícoro, segundo a lenda, ficou cego por falar mal de Helena e só recuperou a vista ao escrever um poema negando que ela tivesse ido a Troia. Os demais seguiram acusando. Eurípides, na tragédia As Troianas, de 415 a.C., põe a rainha Hécuba diante de Helena para acusá-la cara a cara: foi o desejo dela, e não um deus, que a levou ao navio de Páris.

O professor se chamava Gorgias, nasceu em Leontinos, na Sicília, e escreveu um discurso curto chamado Elogio de Helena. Cabe em poucas páginas. Promete livrar a acusada da culpa e calar os acusadores.

O método é de tribunal. Gorgias lista as causas possíveis da partida e mostra que, em cada uma, Helena sai inocente. Foram os deuses e o destino? Ninguém resiste aos deuses. Foi a força de Páris? Quem é raptado sofre, não comete.

A forma vem dos tribunais de Atenas, onde o próprio réu falava em sua defesa diante de centenas de jurados sorteados. Gorgias escreve como se Helena estivesse ali e ele fosse a voz contratada para ela.

A terceira causa é a que interessa. E se Páris apenas falou, e a fala convenceu? Aqui Gorgias arrisca a tese que tornou o texto famoso entre filósofos: a palavra também força. Quem foi persuadido foi levado, tanto quanto quem foi arrastado pelo braço.

A tese inteira se apoia numa comparação com a medicina do tempo, e a seção seguinte começa por ela.

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I  A ideia do dia

O discurso entra como remédio

O ponto de partida de Gorgias é o logos (a palavra, o discurso). Ele o chama de dynastes megas (um senhor poderoso) e explica o título: o discurso tem o corpo menor e mais invisível de todos, e ainda assim faz obras divinas. Acalma o medo, tira a tristeza, cria alegria e aumenta a pena.

Para provar, Gorgias usa a poesia. Quem ouve uma tragédia treme, chora e sente saudade de gente que nunca existiu. Nada tocou o corpo da plateia. Só entrou som pelo ouvido, e a alma reagiu como se tivesse levado um golpe.

Daí vem a comparação central do texto:

“O poder do discurso sobre a disposição da alma é igual ao poder dos remédios sobre a natureza do corpo.”

Gorgias, Elogio de Helena, século V a.C.

A palavra grega que ele usa é pharmakon (droga, que tanto pode ser remédio quanto veneno). Alguns remédios expulsam a doença, outros encerram a vida. Do mesmo jeito, certos discursos entristecem, outros dão coragem, e alguns envenenam e enfeitiçam a alma com uma persuasão ruim. Gorgias junta ao quadro os encantamentos cantados, que segundo ele trazem prazer e afastam a dor por pura magia das palavras.

Quem toma o remédio não escolhe o efeito que ele tem.

A consequência para Helena é direta. Se Páris falou e a fala dele agiu na alma dela como uma droga age no sangue, Helena não decidiu partir. Foi levada pela substância. A culpa passa para quem deu a droga, e Páris passa a ser o único réu.

Gorgias reforça o argumento com a fraqueza da opinião humana. Ninguém sabe tudo do passado, do presente e do futuro. Sem conhecimento firme, cada pessoa decide pela doxa (a opinião, a crença de momento), e a opinião é escorregadia. Quem a move com a palavra certa leva o ouvinte aonde quer.

Ele cita três provas do seu tempo. Os astrônomos trocam uma opinião por outra e fazem o incrível parecer evidente. Nos tribunais, um discurso escrito com arte convence a multidão, mesmo sem dizer o certo. Nos debates de filósofos, a rapidez do raciocínio faz a crença mudar de lado num minuto.

A quarta causa da lista, o amor, recebe o mesmo tratamento. Se Helena se apaixonou ao ver Páris, a visão também age como droga. Os olhos recebem a imagem, e a alma é gravada por ela sem pedir licença. Gorgias lembra os soldados que, ao ver o inimigo armado, fogem antes de pensar, e alguns ficam tomados de pavor por anos.

Num caixa de supermercado, a atendente oferece o cartão da loja três vezes, com a mesma frase ensaiada. Na terceira, o cliente assina o contrato sem ler a taxa de juros.

 
 

II  Quem pensou

O siciliano que ensinava a falar

Gorgias de Leontinos nasceu por volta de 483 a.C. numa cidade grega da costa leste da Sicília. Foi aluno, segundo a tradição antiga, do filósofo Empédocles, que estudava como os elementos se misturam no corpo. A comparação entre palavra e droga tem raiz nessa formação médica.

Em 427 a.C., Leontinos estava em guerra contra Siracusa, a cidade maior da ilha. Mandou Gorgias a Atenas como embaixador para pedir ajuda militar. O historiador Diodoro da Sicília conta que a assembleia ateniense ficou encantada com o jeito de falar dele, e a ajuda saiu.

Gorgias ficou na Grécia continental e passou a cobrar para ensinar. Era um sofista (professor itinerante pago para ensinar a falar bem em público). Rodava pelas cidades oferecendo aulas e discursos de exibição a quem pudesse pagar.

O estilo dele era reconhecível na hora. Frases em pares de tamanho igual, palavras com o mesmo som no fim, antíteses em sequência. Os atenienses chamavam esse jeito de falar de gorgianismo. O Elogio de Helena é a vitrine dele: o texto inteiro soa como poesia em prosa.

Ele escreveu também um tratado chamado Sobre o Não Ser. Ali defendia três teses em escada: nada existe; se existisse, não se poderia conhecer; se fosse conhecido, não se poderia comunicar a outro. O texto original se perdeu, e só restam dois resumos de autores posteriores.

Gorgias mandou erguer em Delfos uma estátua de si mesmo, dourada.

O viajante Pausânias, no século II, viu a estátua e registrou que um sobrinho-neto dele a dedicou ao santuário. Outras fontes antigas dizem que o próprio Gorgias pagou por ela. Nenhuma das duas versões se confirma por documento da época.

Gorgias viveu muito. As fontes antigas divergem entre 105 e 109 anos. Faleceu por volta de 376 a.C., na Tessália, no norte da Grécia, onde ensinou nos últimos anos.

O Elogio de Helena sobreviveu inteiro porque copistas bizantinos o guardaram em manuscritos de discursos gregos. A última frase do texto é uma confissão. Gorgias chama a obra de encômio de Helena e de paignion (brincadeira, peça de jogo) para si mesmo.

O defensor da mulher mais acusada da Grécia avisou, na última linha, que estava se divertindo.

 

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III  Contra o quê

A culpa que Platão devolveu

O alvo declarado de Gorgias são os poetas que culpavam Helena. Mas o alvo maior é a ideia de que quem ouve responde sempre pelo que passa a crer. Se a palavra força, a responsabilidade escorre do ouvinte para o orador, e a pergunta passa a ser quem fala, não quem cede.

A conclusão incomodou quem veio depois. Por volta de 387 a.C., Platão escreveu um diálogo com o nome de Gorgias. Nele, o sofista aparece velho e cortês, e Sócrates o interroga sobre o que ele ensina.

Gorgias responde que ensina a persuadir nos tribunais e nas assembleias. Sócrates pergunta se o orador precisa saber o que é justo para convencer sobre o justo. Gorgias admite que basta parecer saber. Daí Sócrates tira a acusação mais dura do diálogo:

“A retórica é uma espécie de adulação.”

Platão, Górgias, por volta de 387 a.C.

Para Platão, a retórica é uma empeiria (prática de quem repete, sem conhecer a causa), parente da culinária que agrada o paladar sem cuidar da saúde. O médico sabe o que faz bem; o cozinheiro sabe o que dá prazer. O orador, nessa leitura, é o cozinheiro da alma.

Platão aceitou a droga e recusou a absolvição.

A posição de Platão guarda a imagem de Gorgias e muda o desfecho. A palavra age, sim, como remédio. Por esse motivo precisa de médico, alguém que conheça o bem antes de receitar. O filósofo seria esse médico, e o ouvinte segue obrigado a examinar o que engole.

O orador Isócrates, aluno de Gorgias, atacou por outro flanco. Escreveu o próprio Elogio de Helena e abriu dizendo que o mestre tinha produzido uma defesa, não um elogio. Defender é tirar a culpa; elogiar é mostrar o valor. Isócrates elogiou a beleza de Helena e deixou a culpa de lado.

O argumento de Gorgias tem uma falha que ele mesmo deixa à mostra. Se toda persuasão é força, a do próprio Elogio também é. O leitor que sai convencido da inocência de Helena foi drogado pelo texto, e a conclusão perde o peso de prova.

Gorgias não responde a essa objeção no texto. Talvez a palavra paignion, no fim, seja a única resposta que ele quis dar.

Numa audiência de pequenas causas, o advogado lê a petição em voz alta, devagar. O juiz escuta, pede a nota fiscal e lê o valor.

Indefere o pedido.

 
 
Quiz da edição

Em 427 a.C., Gorgias foi enviado a Atenas como embaixador de Leontinos. Qual era o motivo da missão, segundo Diodoro da Sicília?

ANegociar a soltura de prisioneiros de guerra
BPedir ajuda militar contra Siracusa
CPedir asilo político para si mesmo
DRepresentar Leontinos num tribunal sobre dívidas

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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