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O ponto de partida de Gorgias é o logos (a palavra, o discurso). Ele o chama de dynastes megas (um senhor poderoso) e explica o título: o discurso tem o corpo menor e mais invisível de todos, e ainda assim faz obras divinas. Acalma o medo, tira a tristeza, cria alegria e aumenta a pena.
Para provar, Gorgias usa a poesia. Quem ouve uma tragédia treme, chora e sente saudade de gente que nunca existiu. Nada tocou o corpo da plateia. Só entrou som pelo ouvido, e a alma reagiu como se tivesse levado um golpe.
Daí vem a comparação central do texto:
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“O poder do discurso sobre a disposição da alma é igual ao poder dos remédios sobre a natureza do corpo.”
Gorgias, Elogio de Helena, século V a.C.
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A palavra grega que ele usa é pharmakon (droga, que tanto pode ser remédio quanto veneno). Alguns remédios expulsam a doença, outros encerram a vida. Do mesmo jeito, certos discursos entristecem, outros dão coragem, e alguns envenenam e enfeitiçam a alma com uma persuasão ruim. Gorgias junta ao quadro os encantamentos cantados, que segundo ele trazem prazer e afastam a dor por pura magia das palavras.
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Quem toma o remédio não escolhe o efeito que ele tem.
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A consequência para Helena é direta. Se Páris falou e a fala dele agiu na alma dela como uma droga age no sangue, Helena não decidiu partir. Foi levada pela substância. A culpa passa para quem deu a droga, e Páris passa a ser o único réu.
Gorgias reforça o argumento com a fraqueza da opinião humana. Ninguém sabe tudo do passado, do presente e do futuro. Sem conhecimento firme, cada pessoa decide pela doxa (a opinião, a crença de momento), e a opinião é escorregadia. Quem a move com a palavra certa leva o ouvinte aonde quer.
Ele cita três provas do seu tempo. Os astrônomos trocam uma opinião por outra e fazem o incrível parecer evidente. Nos tribunais, um discurso escrito com arte convence a multidão, mesmo sem dizer o certo. Nos debates de filósofos, a rapidez do raciocínio faz a crença mudar de lado num minuto.
A quarta causa da lista, o amor, recebe o mesmo tratamento. Se Helena se apaixonou ao ver Páris, a visão também age como droga. Os olhos recebem a imagem, e a alma é gravada por ela sem pedir licença. Gorgias lembra os soldados que, ao ver o inimigo armado, fogem antes de pensar, e alguns ficam tomados de pavor por anos.
Num caixa de supermercado, a atendente oferece o cartão da loja três vezes, com a mesma frase ensaiada. Na terceira, o cliente assina o contrato sem ler a taxa de juros.
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