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Giordano Bruno: num universo infinito, todo ponto é centro

Em 1584, um diálogo escrito em Londres derrubou a borda do céu e tirou da Terra o lugar de honra.

Um frade olha um céu noturno coberto de estrelas, sem borda à vista.

Giordano Bruno diante de um céu sem borda

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Centro: “ponto situado a igual distância de todos os pontos de uma circunferência ou da superfície de uma esfera” (Dicionário Houaiss). A definição precisa de uma borda para funcionar. Sem a circunferência, ninguém sabe de onde medir a distância.

Numa quarta-feira de cinzas de 1584, em Londres, um frade italiano fugido do convento esperou um barco na margem do Tâmisa. Ia jantar com cavalheiros ingleses que queriam ouvi-lo falar de Copérnico. Chamava-se Giordano Bruno, tinha 36 anos e morava na casa do embaixador da França.

A noite começou mal. Os barqueiros eram velhos e remavam devagar. No meio do caminho, largaram os passageiros num cais errado, e o grupo seguiu a pé pelas ruas enlameadas, aos empurrões com a multidão, até chegar à mesa com o jantar já servido.

Na mesa estavam dois doutores de Oxford. Bruno os conhecia de nome e de briga. No ano anterior, tinha dado aulas na universidade sobre o movimento da Terra, e os ouvintes o acusaram de copiar livros alheios. O curso foi cortado no meio.

A conversa da quarta-feira de cinzas repetiu a cena. Os doutores defendiam a Terra parada no meio do cosmo, como ensinavam Aristóteles e Ptolomeu. Bruno defendia a Terra girando em volta do Sol. Os doutores riam, citavam autores antigos e respondiam com latim.

Ele voltou para casa irritado e escreveu a noite inteira em forma de diálogo. O texto saiu impresso naquele mesmo ano, com o título A Ceia de Cinzas, e os ingleses da história não gostaram do retrato.

O livro defendia Copérnico, mas já ia além dele. Copérnico tinha trocado a Terra pelo Sol no meio do desenho e mantido a esfera das estrelas fixas como muro final do mundo. Bruno achava o muro tão inventado quanto o centro.

Meses depois, na mesma casa do embaixador, ele terminou outro diálogo. Nesse, mandou derrubar o muro.

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I  A ideia do dia

Um céu sem muro

Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos saiu em Londres em 1584, na oficina do impressor John Charlewood. A folha de rosto dizia Veneza, por prudência. São cinco diálogos em italiano, e Bruno fala pela boca de Filoteo, o amigo de Deus.

Os outros personagens fazem o papel do público. Elpino pergunta com boa vontade. Burchio zomba de tudo e defende o que aprendeu na escola. No último diálogo chega Albertino, aristotélico de formação, com uma lista de objeções prontas.

Filoteo responde a todos com uma sequência de passos simples.

1. Se o mundo tem uma borda, alguém parado nela pode esticar o braço. Do outro lado existe espaço, e o mundo continua.

2. Um Deus de poder infinito não faria uma obra pequena. Poder sem obra à altura seria poder desperdiçado.

3. Num espaço sem fim, nenhum lugar fica mais perto da borda do que outro. Nenhum ponto tem direito ao título de centro.

4. As estrelas fixas são sóis, iguais ao nosso, e têm terras girando em volta delas.

O primeiro passo era antigo. O poeta romano Lucrécio já tinha imaginado um homem atirando um dardo da beira do universo. Bruno pegou a imagem e tirou dela a consequência que os antigos evitavam.

O terceiro passo é o mais estranho. Na esfera de Aristóteles, o centro era um endereço fixo, e a Terra morava nele. No universo de Bruno, o centro vira questão de ponto de vista.

Qualquer ponto serve de centro.

Quem olha o céu de Marte se vê no meio das estrelas, como quem olha da Terra. Quem olha de um planeta em volta de Sirius tem a mesma impressão. Ninguém está errado, e ninguém ganha o lugar de honra.

O quarto passo encheu o espaço vazio. Para Bruno, um universo infinito com um só sol no meio seria um desperdício maior ainda. Ele espalhou sóis por todo lado e deu a cada um sua família de planetas.

“Existem inumeráveis sóis e inumeráveis terras girando em volta desses sóis.”

Giordano Bruno, Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos, 1584

Nenhum telescópio apoiava a frase. Galileu só apontaria a primeira luneta para o céu em 1609, vinte e cinco anos depois. Bruno chegou lá pelo raciocínio, partindo da recusa da borda.

Um navio no meio do oceano, sem terra à vista, parece sempre estar no centro de um círculo perfeito de água. O círculo anda junto com o navio. Qualquer outro barco, a cem milhas dali, vê o mesmo círculo em volta de si.

 
 

II  Quem pensou

O frade de Nola sem convento

Filippo Bruno nasceu em 1548 em Nola, cidade pequena perto de Nápoles. O pai era soldado. Aos 17 anos, o rapaz entrou no convento dominicano de San Domenico Maggiore, em Nápoles, e ganhou o nome de Giordano.

O convento tinha uma das melhores bibliotecas do reino. Bruno leu Aristóteles, Tomás de Aquino e os neoplatônicos, e ficou famoso pela memória. Chegou a ser levado a Roma para mostrar ao papa Pio V a técnica de lembrar textos inteiros.

A leitura também trouxe problemas. Em 1576, os superiores abriram processo contra ele por opiniões suspeitas. Descobriram ainda que tinha jogado na latrina um comentário de Erasmo, autor proibido, para escondê-lo.

Bruno largou o hábito e fugiu. Passou pelo norte da Itália, chegou a Genebra em 1579 e brigou com os calvinistas. Escreveu um panfleto contra um professor da cidade, foi preso e excomungado pela Igreja reformada.

Seguiu para Toulouse, onde ensinou filosofia por dois anos, e em 1581 chegou a Paris. Ali a memória abriu portas. O rei Henrique III quis saber se a técnica era magia, ouviu as explicações e deu a Bruno um posto de leitor.

A memória pagava o caminho.

Em 1583, com cartas de recomendação do rei, Bruno atravessou para a Inglaterra. Morou dois anos na casa do embaixador Michel de Castelnau e escreveu ali seis diálogos em italiano, os livros mais ousados da vida dele.

Em 1585 voltou a Paris e depois rodou pela Alemanha: Wittenberg, Praga, Helmstedt, Frankfurt. Em cada cidade, ensinava, publicava e arrumava um inimigo novo. Os luteranos de Helmstedt também o excomungaram.

Em 1591, aceitou o convite de um nobre de Veneza que queria aprender a arte da memória. Um ano depois estava preso. A Inquisição de Veneza o entregou a Roma, e o processo durou quase oito anos.

Os juízes pediram que ele renegasse as teses. Bruno ofereceu recuar em pontos de fé e recusou abrir mão dos mundos infinitos. Em 8 de fevereiro de 1600, ouviu a sentença de joelhos e respondeu aos cardeais.

“Talvez vocês pronunciem esta sentença com mais medo do que eu a recebo.”

Giordano Bruno, frase aos juízes, registrada por Kaspar Schoppe em carta de 1600

Em 17 de fevereiro de 1600, foi levado ao Campo de' Fiori, em Roma, com a língua presa por uma mordaça, e queimado em público. Os livros entraram no Índice dos proibidos.

Em 1889, estudantes e livres-pensadores ergueram uma estátua de bronze dele na mesma praça, obra do escultor Ettore Ferrari. O rosto, sob o capuz, está virado para o Vaticano.

 

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III  Contra o quê

A esfera de Aristóteles

O adversário principal de Bruno tinha dezenove séculos. No tratado Sobre o Céu, Aristóteles descreveu um cosmo fechado, feito de esferas encaixadas, com a Terra imóvel no meio e as estrelas presas na última casca.

Fora da última esfera, dizia ele, não existe lugar, nem vazio, nem tempo. A pergunta sobre o outro lado simplesmente não fazia sentido. O universo tinha tamanho, forma e endereço.

Para Aristóteles, o centro também explicava a física. Pedras caíam porque buscavam o meio do mundo, o lugar natural delas. Fogo subia porque buscava a periferia. Tirar o centro desmontava a explicação da queda dos corpos.

“Não há lugar, nem vazio, nem tempo fora do céu.”

Aristóteles, Sobre o Céu, livro I, século IV a.C.

Ptolomeu, no século II, transformou o desenho em cálculo. As tabelas dele previam eclipses e posições de planetas, e funcionaram por mais de mil anos. A Igreja medieval herdou o modelo e o encaixou na teologia, com o céu lá em cima e o inferno no centro da Terra.

Bruno também brigava com os aliados. Copérnico, no livro de 1543, tirou a Terra do meio e pôs o Sol no lugar dela. Mas conservou a esfera das estrelas fixas, imensa e imóvel, como fronteira final.

Copérnico trocou o centro e guardou o muro.

Havia precursores. Em 1440, o cardeal Nicolau de Cusa escreveu em A Douta Ignorância que a máquina do mundo tem o centro em toda parte e a circunferência em parte nenhuma. Em 1576, o inglês Thomas Digges desenhou estrelas espalhadas além da última órbita.

Nenhum deles transformou a ideia em programa. Cusa falava de Deus, e Digges pôs anjos no espaço das estrelas. Bruno tirou os dois freios e afirmou mundos habitados, sem fim e sem hierarquia.

Mesmo os astrônomos novos recuaram diante do infinito. Kepler, em 1606, escreveu que a simples ideia trazia um horror secreto, e manteve o cosmo fechado. Galileu evitou o nome de Bruno a vida inteira.

Uma pessoa numa multidão de estádio se vê no centro do barulho, com gente igual para todos os lados. Do alto da arquibancada, ela some entre milhares de cabeças.

Bruno levou a ideia para Veneza em 1591. Em maio de 1592, avisou o anfitrião de que partiria para Frankfurt. Na mesma noite, os criados da casa o trancaram num quarto do sótão.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem era o nobre veneziano que trancou Giordano Bruno num quarto da própria casa e o entregou à Inquisição?

 
 
Quiz da edição

Em 1584, o diálogo 'Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos' saiu na oficina do impressor John Charlewood. A folha de rosto dizia outra cidade, por prudência. Onde o livro foi impresso de fato?

AVeneza
BParis
CLondres
DGenebra

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