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Filosofia do Dia   Filosofia do Dia
ED 039
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Enquanto você existe, ela ainda não chegou

Na Carta a Meneceu, escrita por volta de 300 a.C., Epicuro monta um argumento de duas pontas para tirar o medo do fim do lugar.

Um jardim murado em Atenas no fim da tarde, com uma mesa baixa de pedra, pão e uma jarra de água.

O jardim de Atenas no fim da tarde

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"Morte: fim da vida; cessação definitiva de todas as funções vitais" (Houaiss). A Carta a Meneceu, que Epicuro escreveu em Atenas por volta de 300 a.C., aceita a linha inteira e responde que ela não descreve nenhum acontecimento vivido por alguém. A definição fecha num evento. A carta observa que evento sem ninguém dentro não tem a quem assustar.

A ideia do dia é que o fim não machuca porque não resta sujeito para ser machucado por ele.

O texto é curto. Cabe em quatro páginas impressas e foi endereçado a um discípulo chamado Meneceu, de quem se conhece pouco além do nome e da posição de aluno. A carta abre mandando o jovem filosofar sem esperar a velhice, passa pelos deuses, encara o fim, separa os desejos em três categorias e termina num elogio da prudência. O trecho famoso ocupa menos de um terço do rolo.

A sobrevivência do texto foi acidente de arquivo. Epicuro escreveu perto de trezentos rolos e quase tudo se perdeu com o tempo, com o fogo e com a indiferença dos copistas. A carta chegou até aqui porque Diógenes Laércio a transcreveu inteira dentro do livro X de Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, compilado no século III d.C., quando a escola de Atenas já vinha minguando havia gerações.

O argumento tem forma de conta, não de consolo. Epicuro não pede coragem, não promete continuação e não oferece céu. Ele separa o evento temido de quem o teme e mostra que os dois nunca aparecem juntos na mesma sala: enquanto há alguém sentindo, o evento não chegou; depois que chega, não há mais quem sinta. Sem coincidência entre as duas peças, o medo fica sem objeto.

Um argumento assim só funciona se apoiado numa descrição do que somos. Epicuro tinha a dele, herdada de Demócrito e reformada por conta própria, e é ela que sustenta a conta de pé.

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I  A ideia do dia

Uma conta de duas pontas, e ninguém na sala

Epicuro descreve o ser humano como um arranjo temporário de átomos, as partículas indivisíveis que se movem no vazio e formam corpos ao se combinarem. A alma entra nessa descrição como matéria fina, espalhada pelo corpo inteiro, feita das mesmas partículas. Nada nela foi importado de fora e nada nela é indestrutível.

Dessa física vem a conclusão direta. Quando o arranjo se desfaz, os átomos da alma se dispersam e a capacidade de sentir termina junto. Não há transferência, não há sombra, não há sobrevivente parcial em lugar nenhum. Terminada a sensação, termina também qualquer possibilidade de dano.

A segunda peça do argumento está na teoria do bem. Para Epicuro, todo bem e todo mal residem na sensação, porque é só ali que algo pode ser bom ou ruim para alguém. Uma dor exige um nervo, um prejuízo exige um prejudicado. Retirada a sensação, a categoria de dano perde o suporte e sobra um fato do mundo sem ninguém dentro dele.

As duas pontas da conta

Enquanto estamos aqui, o evento temido não está presente

Quando o evento chega, já não há ninguém para recebê-lo

O medo do fim tem endereço errado: procura uma vítima num momento em que ela já saiu.

"Acostuma-te a pensar que a morte nada é para nós, porque todo bem e todo mal residem na sensação, e a morte é a privação da sensação."

Epicuro, Carta a Meneceu, transmitida por Diógenes Laércio no livro X de Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, escrita por volta de 300 a.C.

O alvo do exercício é a ataraxia (ausência de perturbação na mente), o estado que Epicuro coloca no topo da vida boa, ao lado da aponia (ausência de dor no corpo). O temor do fim atrapalha porque contamina cada hora comum com uma ameaça que não se resolve. Tirado o temor, sobra tempo para o pão, a conversa e o resto.

O conjunto virou uma fórmula de quatro linhas que os alunos decoravam, chamada depois de tetraphármakos (o quádruplo remédio): não há o que temer nos deuses, não há o que temer no fim, o bem é fácil de conseguir e a dor é fácil de suportar. O papiro carbonizado que preserva a fórmula foi escavado na Vila dos Papiros, em Herculano, e a atribui a Filodemo de Gádara, epicurista do século I a.C.

Uma consequência incomoda os leitores até hoje: para Epicuro, viver mais não melhora a vida. Ele sustenta na Máxima Principal XIX que o tempo infinito e o tempo finito guardam prazer igual, desde que se meça o prazer pela razão e não pelo relógio. Uma vida completa se fecha quando os desejos naturais estão atendidos, e a soma de dias depois disso acrescenta repetição, não qualidade.

Por essa via ele também ataca o desejo de imortalidade, que trata como apetite fabricado pela opinião alheia, sem raiz no corpo. Quem persegue mais tempo passa o tempo que tem em falta permanente, e nenhuma quantidade de anos sacia um apetite definido por ainda não ter acabado.

 
 

II  Quem pensou

O grego que comprou um jardim e deixou entrar quem quisesse

Epicuro nasceu na ilha de Samos em 341 a.C., filho de Neocles, professor ateniense de leitura e escrita instalado na ilha como colono, e de Queréstrata, que segundo relatos antigos acompanhava rituais de purificação pelas casas. A família não tinha fortuna. Ele cresceu vendo o pai ensinar por moedas pequenas e a mãe trabalhar de porta em porta.

Aos dezoito anos foi a Atenas cumprir o serviço militar dos jovens atenienses. No ano seguinte, Alexandre morreu e os colonos de Samos foram expulsos pelos macedônios; a família se mudou para Colofão, na Ásia Menor, e ele foi atrás. Estudou ali com Nausífanes, seguidor de Demócrito, e pegou a física dos átomos por essa porta, embora depois negasse com raiva a condição de discípulo.

Ensinou em Mitilene, em 311 a.C., e foi expulso da cidade. Passou a Lâmpsaco, onde reuniu os primeiros companheiros, entre eles Metrodoro e Hermarco. Por volta de 306 a.C. voltou a Atenas com dinheiro juntado pelo grupo e comprou uma casa com terreno fora dos muros, entre o portão da cidade e a Academia de Platão. O lugar ficou conhecido pelo que era: o Jardim.

A escola funcionava como comunidade residencial, não como sala de aula pública. Cultivava a própria horta, recebia contribuições dos membros e mantinha uma regra rara na Grécia do período: admitia mulheres e pessoas escravizadas como estudantes plenos. Entre os nomes registrados aparecem Leontion, que escreveu contra o filósofo Teofrasto, e Mys, escravizado que o testamento de Epicuro alforriou.

O sinal de que o método funcionava não estava nos livros dele, estava na conta do mercado.

A dieta do Jardim virou escândalo pela razão contrária à esperada. Os inimigos acusavam a casa de orgia permanente; os registros mostram pão e água como base, com queijo como luxo ocasional. Uma carta copiada por Diógenes Laércio pede a um amigo um potinho de queijo para quando o grupo quisesse banquete.

A produção foi enorme e sumiu quase inteira. Diógenes Laércio fala em cerca de trezentos rolos, entre eles o tratado Sobre a Natureza, em trinta e sete livros. Restaram três cartas copiadas por ele, quarenta Máximas Principais, um conjunto de sentenças encontrado num manuscrito do Vaticano em 1888 e fragmentos carbonizados escavados em Herculano desde o século XVIII.

Epicuro morreu em Atenas em 270 a.C., aos setenta e dois anos, depois de duas semanas de retenção urinária provocada por cálculos. O relato do último dia diz que ele entrou numa banheira de água quente, pediu vinho puro e ditou uma carta ao amigo Idomeneu descrevendo as dores como extremas e dizendo que a lembrança das conversas passadas equilibrava a conta. No testamento, deixou o Jardim a Hermarco e dinheiro reservado para alimentar os filhos de Metrodoro.

 

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III  Contra o quê

A objeção da privação, e o medo que continua de pé

O ataque antigo começou pela reputação, sem tocar no argumento. Timócrates, irmão de Metrodoro, rompeu com a escola e espalhou em Atenas que Epicuro vomitava duas vezes por dia de tanto comer. Plutarco dedicou um tratado inteiro à tese de que não se vive agradavelmente seguindo aquele método, e Cícero, no De Finibus de 45 a.C., acusou a física atomista de ser cópia mal feita de Demócrito.

A rejeição cristã veio depois e durou mais. Uma escola que nega alma imortal e julgamento póstumo não tinha como ser absorvida, e o nome do fundador virou sinônimo popular de glutão. Dante colocou os epicuristas no sexto círculo do Inferno, em túmulos de pedra em chamas, junto dos que afirmaram que a alma acaba com o corpo.

A objeção conceitual mais forte é moderna e tem endereço preciso. Thomas Nagel publicou o ensaio Death na revista Noûs em 1970, sustentando que um dano não precisa ser sentido para ser dano: perder as décadas que viriam é privação, e privação avalia a vida inteira de fora, não um instante por dentro. Pela leitura dele, o argumento grego prova que ninguém sofre o evento, e deixa intacta a perda.

Aparece aí um problema de contabilidade que os herdeiros tentaram resolver. Se o dano é privação, ele pertence a quem, e quando? Enquanto a pessoa vive nada foi subtraído, e depois não há titular do prejuízo. Filósofos chamam a dificuldade de problema do sujeito, e as respostas se dividem entre atribuir a perda à pessoa considerada como um todo, ao longo da vida, ou aceitar que existe dano sem momento definido.

Lucrécio, no poema De rerum natura, do século I a.C., ofereceu o reforço mais engenhoso ao mestre com o argumento das duas margens: ninguém se aflige com a eternidade que passou antes do próprio nascimento, então não faz sentido se afligir com a eternidade simétrica que vem depois. Derek Parfit respondeu em Reasons and Persons, de 1984, descrevendo um viés humano constante a favor do futuro, com experimentos mentais em que a mesma dor pesa mais quando está por vir do que quando já passou.

A leitura moderna também reclama do escopo. O argumento fala com quem teme o próprio fim e cala diante de quem teme o fim dos outros, o medo mais frequente em qualquer hospital. Um pai não teme a privação da própria sensação; teme deixar a filha de sete anos numa casa sem ele.

O argumento não foi refutado nem venceu: ele resolve um medo e descobre outros dois embaixo dele.

"O que exatamente você teme quando pensa no seu fim?"

Num consultório de bairro, uma mulher de cinquenta e nove anos ouve que o exame voltou limpo, guarda o papel na bolsa e passa a tarde no supermercado escolhendo tomate por cor e por preço, com a lista aberta na mão esquerda. Na fila do caixa, conferiu o horário do ônibus.

Ela pegou o das seis.

 
 

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Segundo o texto, como a Carta a Meneceu chegou até os dias de hoje?

APreservada em papiro carbonizado escavado na Vila dos Papiros, em Herculano
BGuardada em cópia original no arquivo do Jardim, em Atenas
CCopiada por Diógenes Laércio no livro X de Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, no século III d.C.
DEncontrada num manuscrito do Vaticano descoberto em 1888

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