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Em 80, Wang Chong tirou a boca do céu

Na China dos Han, um funcionário pobre negou no Lunheng a tese de seca e eclipse como recado do céu ao imperador.

Letrado chinês com rolo de bambu observa o Sol encoberto.

Wang Chong e o eclipse, China dos Han

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Espontâneo: “que se faz por vontade própria, sem constrangimento” (Dicionário Houaiss). O verbete amarra a palavra a uma vontade. Não serve para a chuva, nem para a Lua passando na frente do Sol.

No último dia do décimo primeiro mês do segundo ano do seu reinado, 178 antes da nossa era, o imperador Wen, da dinastia Han, viu o Sol escurecer sobre a capital, Chang'an. Os astrônomos da corte registraram o eclipse com data e hora.

Dias depois, o imperador publicou um edito. Escreveu que o céu põe governantes no mundo para cuidar do povo e que, quando o governante falha, o céu manda calamidades como aviso. O eclipse era a reprimenda dele.

Wen pediu desculpas em público. Mandou os ministros apontarem os erros do trono, convocou homens sábios e honestos para criticá-lo e cortou despesas com a guarda do palácio. O escuro de alguns minutos virou reforma de governo.

O gesto tinha teoria por trás. Nas décadas seguintes, o letrado Dong Zhongshu deu forma à doutrina da ressonância entre céu e homem: o céu tem vontade, observa o trono e responde à conduta dele. Primeiro manda desastres, como seca, enchente e praga. Se o governante insiste, manda prodígios, como eclipses e cometas. Só depois vem a ruína.

A doutrina subiu ao centro do Estado. Funcionários liam presságios para julgar ministros, astrólogos ganhavam cargo, e cada estiagem abria uma disputa sobre quem tinha ofendido o céu. Um eclipse podia derrubar um chanceler.

Quase dois séculos e meio depois do edito de Wen, um funcionário de província sem fortuna e sem padrinho sentou para escrever um livro. Chamou a obra de Lunheng, algo como Discursos pesados na balança. Cada capítulo pegava uma crença da época e a punha no prato.

A de Dong Zhongshu foi pesada várias vezes. O resultado veio numa palavra emprestada dos taoístas: ziran, o que acontece por si mesmo. O céu de Wang Chong age sem querer nada.

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I  A ideia do dia

O céu não tem boca

Wang Chong começa pelo corpo do céu. Para avisar alguém, é preciso intenção, e intenção pede um órgão: boca para falar, olhos para ver a falta. O céu, escreve ele, é uma abóbada de matéria, sem boca e sem olhos.

Sem órgão, não há desejo. Sem desejo, não há recado. O céu se move, as estações se seguem, a chuva cai ou falta, e nenhum desses movimentos é dirigido a alguém. Acontece como o fogo esquenta e a água molha.

“O céu se move sem desejar gerar os seres, e os seres se geram sozinhas: eis a espontaneidade.”

Wang Chong, Lunheng, capítulo Ziran, por volta de 80

A palavra ziran vinha do Laozi, o clássico taoísta, onde descrevia o curso do mundo antes de qualquer interferência. Wang Chong a arranca do contexto místico e a usa como ferramenta de conferência. Diante de um fenômeno, a primeira pergunta passa a ser se ele se repete por conta própria.

O eclipse responde sim. Os astrônomos dos Han já previam eclipses por cálculo, com anos de antecedência. Wang Chong usa o dado contra a corte: se o escurecimento chega na data marcada, ele tem calendário, e um calendário não reage ao humor do imperador.

Um aviso com hora marcada deixa de ser aviso.

A seca segue o mesmo raciocínio. Há anos de chuva e anos de estiagem sob reis bons e reis cruéis. Se o céu punisse com seca, os tiranos famosos dos livros antigos teriam governado sobre terra rachada. Os registros mostram chuva farta sob vários deles.

Wang Chong também vira a escala do argumento. O homem, diz ele, vive entre o céu e a terra como um piolho vive dentro da roupa. O piolho anda, morde e se esconde nas dobras. A pessoa que veste a roupa não percebe, e nada do piolho muda o tempo lá fora.

A conclusão vem seca. O governante pode ser bom ou mau, e a conduta dele pesa para o povo. Para o céu, não pesa nada. O céu não premia nem castiga, porque não tem com o que querer.

Fica de pé uma coincidência. Às vezes uma seca cai sob um rei cruel, e os cronistas ligam os dois fatos. Wang Chong chama esse encontro de acaso, o mesmo acaso de um fruto caindo na cabeça de quem passa embaixo da árvore.

Numa estrada de terra, um motorista para no acostamento quando o céu fecha. A chuva despenca sobre a lavoura do vizinho e poupa a dele. Ele liga o rádio e espera passar.

 
 

II  Quem pensou

O leitor das bancas de Luoyang

Wang Chong nasceu no ano 27, em Shangyu, na comenda de Kuaiji, no sudeste da China, perto da atual Hangzhou. A família vinha de soldados e mercadores. O avô e o pai tinham fama de briguentos e mudaram de cidade fugindo de inimigos.

O pai faleceu cedo. A mãe e os parentes mandaram o menino estudar, e a fama de bom aluno o levou à capital, Luoyang, onde entrou na Academia Imperial, a escola que formava funcionários do Estado.

Lá estudou com Ban Biao, historiador da corte e pai do autor do Livro dos Han. O professor ensinava os clássicos confucianos, e Wang Chong não tinha dinheiro para comprá-los.

Ele lia os livros de pé, nas bancas do mercado.

As biografias contam a cena. O estudante passava horas entre os vendedores de Luoyang, lendo rolos de bambu sem pagar, e guardava de memória o que tinha lido. Saía dali sabendo de cor textos das cem escolas, não só dos confucianos.

Voltou para Kuaiji e ganhou cargos pequenos: secretário de distrito, auxiliar de comenda, assessor de governador. Em todos discordou dos superiores, mandou memoriais com críticas e acabou saindo. A carreira nunca passou do nível provincial.

Fora do cargo, ensinou alunos em casa e escreveu. Diz-se que espalhou pincéis e tábuas de escrita pelos cômodos e pelas janelas, para anotar uma ideia onde ela aparecesse. O Lunheng cresceu assim, em décadas, até ter 85 capítulos.

O livro tem um capítulo de autobiografia, o último. Nele Wang Chong responde aos críticos do próprio estilo: escreve claro de propósito, porque um argumento só vale se o leitor comum consegue segui-lo.

Na velhice, pobre, escreveu um tratado sobre como alimentar a vida, com dieta e controle das paixões, para durar mais. Um amigo o recomendou ao imperador Zhang, que mandou chamá-lo para a corte. Wang Chong estava doente e não foi.

Os contemporâneos quase não o citam. Nenhum letrado da capital respondeu ao Lunheng por escrito enquanto o autor vivia, e o nome dele não aparece nos debates oficiais sobre os clássicos realizados no Pavilhão do Tigre Branco, em 79.

Faleceu por volta do ano 97, em casa, sem herdeiro conhecido. O livro ficou com a família, em Kuaiji, longe dos letrados da capital.

 

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III  Contra o quê

Contra os presságios

O alvo principal é a escola de Dong Zhongshu e dos letrados que ele formou. No tempo de Wang Chong, a doutrina tinha ganhado ainda um anexo: os livros de profecia chamados chenwei, textos apócrifos atribuídos a Confúcio, cheios de sinais e previsões.

O imperador Guangwu, fundador dos Han do Leste, tinha usado esses livros para provar que o céu o escolhera. Em 56, mandou publicá-los oficialmente. Criticar presságio passou a soar como criticar a legitimidade do trono.

Wang Chong ataca pelo caminho lateral. Não nega que o céu exista nem que tenha força. Nega a intenção. A seca vem do ciclo do qi (a energia vital dos chineses antigos, que circula pela natureza), e não de um julgamento.

O segundo alvo são as histórias de milagre dos próprios clássicos. Contava-se de um general cujo choro fez cair geada em pleno verão, e de um arqueiro cuja flecha derrubou um dos dez sóis. Wang Chong refaz as contas: um homem minúsculo não move o céu enorme, como o piolho não move a roupa.

Ele examinou capítulo por capítulo as crenças de sábios e do povo.

O livro desmonta também a crença em fantasmas. Se os mortos virassem espíritos, argumenta, as estradas estariam lotadas deles, porque mais gente já morreu do que vive. E fantasma aparece vestido, mas roupa não tem alma para sobreviver.

O método vale mais do que cada caso. Wang Chong pede prova de efeito: quem diz que a conduta do rei causa a seca precisa mostrar seca sempre que o rei erra, e chuva sempre que acerta. Uma história bonita não basta.

A obra tem limites claros. Wang Chong acreditava no destino fixado no nascimento e lia sorte no formato dos ossos do rosto. Recusava a vontade do céu e aceitava um fatalismo cego, sem perguntar por que um mundo sem intenção teria sortes marcadas.

O efeito político foi nulo na vida dele. Os Han seguiram publicando editos de autocrítica depois de eclipses por mais de um século, e dinastias posteriores fizeram o mesmo. O tribunal de astronomia de Pequim registrava sinais celestes para o imperador até o século XIX.

O Lunheng sobreviveu por um leitor que preferiu escondê-lo. Por volta do ano 180, o letrado Cai Yong, exilado no sul, achou uma cópia em Kuaiji e a levou para casa. Os amigos notaram as conversas dele ficarem mais afiadas e reviraram os aposentos atrás do segredo.

Acharam os rolos do Lunheng num canto do quarto.

Ele pediu silêncio.

 
 
Quiz da edição

Como Wang Chong, sem dinheiro para comprar os clássicos confucianos, conseguia estudá-los enquanto morava em Luoyang?

APedia os rolos de bambu emprestados ao professor Ban Biao
BLia de pé nas bancas do mercado e guardava o texto de memória
CCopiava os textos na biblioteca da Academia Imperial
DDividia exemplares usados com outros alunos pobres

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