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I A ideia do dia
A força que petrifica
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A resposta de ontem Por que a Johns Hopkins dispensou Peirce em 1884? O astrônomo Simon Newcomb, colega e desafeto de Peirce, contou a um curador da Johns Hopkins que ele vivera com Juliette Froissy antes de sair o divórcio da primeira esposa, Zina Fay, em 1883. Os curadores fecharam o cargo e não renovaram o contrato. O episódio está na biografia escrita por Joseph Brent, publicada em 1993. |
Simone Weil escreveu A Ilíada ou o poema da força entre 1939 e 1940. O ensaio saiu em duas partes na revista Cahiers du Sud (Cadernos do Sul), de Marselha, nos números de dezembro de 1940 e janeiro de 1941, assinado por Émile Novis.
A primeira frase troca o protagonista da epopeia. Para Weil, o verdadeiro herói da Ilíada é a força. Aquiles, Heitor e Agamêmnon apenas a carregam por algum tempo, e ela passa de mão em mão.
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“A força é o que transforma em coisa qualquer um que lhe esteja submetido.”
Simone Weil, A Ilíada ou o poema da força, 1940
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Weil leva a definição ao pé da letra. O caso mais simples é o cadáver: a força faz de um homem um corpo que os cavalos arrastam. Heitor, puxado pela poeira, já não responde a ninguém.
Mas o ensaio insiste num grau mais cruel, a força que transforma em objeto quem ainda respira. Weil descreve três estágios, do mais visível ao mais escondido.
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1. O cadáver: o homem vira peso, como Heitor amarrado ao carro diante de Troia.
2. O suplicante: o vivo de joelhos, que ainda fala, mas cuja vida depende de um gesto alheio.
3. O escravo: o vivo que perdeu a vida interior e obedece sem escolher, como a cativa levada para servir no palácio do vencedor.
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O exemplo do suplicante vem do canto 21. Licáon, filho do rei Príamo, abraça os joelhos de Aquiles e implora pela vida. Aquiles saca a espada e o atinge junto ao pescoço. Diante da lâmina, nota Weil, Licáon já tinha deixado de ser alguém para quem o olhava.
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A força também pega quem a segura.
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A segunda metade do ensaio vira a lente. A força embriaga quem a exerce. O vencedor do momento acredita possuí-la e avança além da medida, sem perceber a própria fragilidade.
Os gregos tinham palavra para esse excesso, hýbris (a desmedida de quem passa do limite). Para o castigo que vem atrás, tinham outra, nêmesis (a punição que restabelece o equilíbrio).
Na Ilíada, o castigo sempre chega. Heitor, tonto com a vitória sobre Pátroclo, veste a armadura tirada do cadáver do grego e recusa o conselho de recuar para dentro dos muros. Dias depois, é ele o arrastado.
Aquiles, o arrastador, sabe pela mãe, a deusa Tétis, que o próprio fim vem logo depois do fim de Heitor. Ninguém possui a força de verdade, escreve Weil. Ela apenas empresta o poder e cobra com juros.
Um gerente descobre que pode demitir com um e-mail. No primeiro mês, hesita antes de cada envio e relê o nome de cada pessoa. No sexto, aprova a lista inteira sem abrir o anexo.
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II Quem pensou
A professora na fábrica
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Simone Weil nasceu em Paris em 3 de fevereiro de 1909, numa família judia sem prática religiosa. O pai, Bernard, era médico. O irmão mais velho, André Weil, virou um dos maiores matemáticos do século XX.
No liceu Henri IV, foi aluna do filósofo Alain, que a apelidou de marciana pela seriedade. Em 1928, aos 19 anos, entrou na École Normale Supérieure (Escola Normal Superior, a mais seletiva da França na formação de professores).
Começou a lecionar filosofia em 1931, no liceu de Le Puy. Lá marchou ao lado de desempregados que quebravam pedras para a prefeitura, e a imprensa local fez escândalo com a professora que andava com operários.
Em dezembro de 1934, pediu licença do magistério e entrou como operária na fábrica Alsthom, em Paris. Depois passou pelas forjas de Basse-Indre e, de junho a agosto de 1935, pela linha da Renault, em Boulogne-Billancourt.
Anotava os dias num diário de fábrica. Registrava peças por hora, gritos de chefe, multas por atraso e o cansaço que apagava o pensamento no meio da tarde. Na própria pele, descobriu o que significa virar ferramenta.
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“Recebi para sempre a marca da escravidão.”
Simone Weil, carta ao padre Joseph-Marie Perrin, 1942
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Em agosto de 1936, atravessou a fronteira para lutar na Guerra Civil Espanhola, na coluna anarquista de Buenaventura Durruti. Míope e desajeitada, pisou numa panela de óleo fervente no acampamento e queimou a perna. Os pais foram buscá-la.
Na Espanha, ouviu companheiros de coluna contarem, rindo, o fuzilamento de um rapaz de 15 anos do lado inimigo. Escreveu sobre o episódio em 1938, numa carta ao romancista Georges Bernanos.
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Ela viu a força dos dois lados da arma.
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O ensaio nasceu dessa soma. Weil começou a escrevê-lo quando a guerra estourou, em setembro de 1939. Em junho de 1940, os alemães entraram em Paris, e a família fugiu para Marselha, na zona livre.
Em 1942, Weil seguiu com os pais para Nova York e, meses depois, embarcou sozinha para Londres, onde trabalhou para a França Livre do general Charles de Gaulle. Ali escreveu O Enraizamento.
Doente de tuberculose, comia pouco e recusava passar da ração dos franceses sob ocupação. O coração parou em 24 de agosto de 1943, num sanatório de Ashford, na Inglaterra. Tinha 34 anos.
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