In partnership with

Filosofia do Dia   Filosofia do Dia
ED 079
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

Em 1690, Conway fez da matéria espírito condensado

Presa à cama pela enxaqueca, a condessa inglesa Anne Conway negou a Descartes os dois tipos de substância: só existe uma, em graus.

Mulher de vestido escuro lê junto à janela de uma casa de campo inglesa.

Anne Conway em Ragley Hall, Warwickshire

▼
 

Espírito: “parte imaterial do ser humano; alma” (Dicionário Houaiss). O verbete separa o espírito do corpo pela falta de matéria. Não diz por que uma pancada na cabeça escurece o pensamento.

Em Ragley Hall, casa de campo no condado de Warwickshire, no centro da Inglaterra, uma condessa passa dias seguidos num quarto de cortinas fechadas. Qualquer réstia de luz e qualquer passo no corredor pioram a dor. As enxaquecas começaram quando ela tinha 12 anos e nunca a deixaram.

Os médicos mais caros do reino passaram pela casa. Receitaram sangrias, purgantes, tabaco e preparados de mercúrio. Em 1656, ela atravessou o canal até a França atrás de uma trepanação (a abertura de um furo no crânio), e os cirurgiões franceses se recusaram a operar.

Em 1666, chegou Valentine Greatrakes, um irlandês famoso por curar doentes passando as mãos sobre o corpo deles. Ficou semanas em Ragley, tocando a testa da condessa todos os dias. A dor também ficou.

Em 1670, chegou Francis Mercury van Helmont, médico e alquimista flamengo, com uma carta de apresentação. Morou em Ragley por nove anos. Não curou a paciente, e virou o interlocutor diário dela.

Liam juntos a Cabala (a tradição mística judaica de leitura da Bíblia), discutiam Descartes e frequentavam os quacres da vizinhança. A condessa ditava objeções, e o médico respondia com experiências de laboratório e com textos de rabinos traduzidos para o latim.

Entre uma crise e outra, ela escrevia num caderno. A dor não fica só na cabeça: ocupa o juízo, a vontade, a paciência com os criados. Se corpo e espírito fossem de naturezas opostas, como um conseguiria ferir o outro com tanta precisão, todo dia?

O caderno trazia uma resposta. Saiu impresso em latim, em Amsterdam, onze anos depois que a autora parou de escrever, sem assinatura na capa. A resposta cabia numa linha: entre corpo e espírito existe só diferença de grau.

Continue lendo ↓

 

Quem banca a edição de hoje

Teen Hooked on Social Media? You May Have a Claim

Claims allege platforms like Instagram and TikTok were designed to hook kids. Parents of harmed minors may qualify if excessive use began before 18, with a diagnosed eating disorder, severe anxiety, depression, or self-harm.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

I  A ideia do dia

Matéria é espírito condensado

Anne Conway parte de uma divisão em três. Existe Deus, que não muda. Existe Cristo, numa natureza intermediária, que muda apenas para melhor. E existem as criaturas, tudo o que foi criado, que mudam sempre, para melhor ou para pior.

Dentro da terceira classe, ela recusa fronteira de espécie. Pedra, planta, cavalo e alma humana são feitos de uma única substância criada. O que muda entre eles é o grau: quanto aquela substância está densa, pesada e lenta, ou leve, sutil e ativa.

“O corpo não passa de espírito condensado, e o espírito, de corpo sutil e volátil.”

Anne Conway, Princípios da Filosofia Mais Antiga e Moderna, 1690

A tese é um monismo (a ideia de que a realidade criada tem uma substância só), mas de um tipo raro. Os monistas ingleses da época, como Thomas Hobbes, reduziam tudo à matéria. Conway faz o caminho inverso: tudo vive e percebe, e a matéria é o espírito no degrau mais baixo da escala.

Nada no mundo criado está morto.

Daí sai o argumento da dor. Se o espírito fosse puro pensamento, sem extensão, e o corpo fosse pura extensão, sem vida, os dois não teriam por onde se tocar. Não haveria motivo para a alma sofrer quando a carne é ferida. A alma sofre, e Conway conclui que os dois são parentes.

O mesmo raciocínio vale para o movimento. Uma vontade sem corpo não teria como empurrar um braço feito de matéria inerte. Conway chama a ligação entre os dois de simpatia, uma afinidade entre semelhantes, e só semelhantes se atraem.

Conway tira daí uma lição sobre o sofrimento. O atrito entre a parte densa e a parte sutil de uma criatura obriga a substância a se mover, e o movimento a refina. A dor purifica, e por essa via até o castigo mais duro tem prazo para acabar.

A escala também se percorre nos dois sentidos. As criaturas sobem ou descem conforme agem: a substância de um cavalo paciente pode se refinar, vida após vida, até chegar perto da humana; a de um homem cruel pode se adensar e afundar. Ninguém pula degraus.

Nessa conta não há abismo entre o que pensa e o que pesa. Há um contínuo, parecido com a água, que vira gelo e vapor sem deixar de ser água. Muda o estado, fica a natureza.

Na fila do pronto-socorro, uma mulher segura a cabeça com as duas mãos. A enfermeira pede uma nota para a dor, de zero a dez. Ela responde oito e erra a própria data de nascimento na ficha.

 
 

II  Quem pensou

A aluna de Cambridge sem matrícula

Anne Conway nasceu Anne Finch, em 14 de dezembro de 1631, em Londres, na casa da família em Kensington. O pai, Sir Heneage Finch, presidente da Câmara dos Comuns, faleceu dias antes do parto.

Mulher não entrava em universidade na Inglaterra do século XVII. Anne aprendeu latim, grego e algum hebraico em casa, com professores particulares. O meio-irmão John Finch, que estudava em Cambridge, apresentou a ela o próprio tutor, Henry More.

More era um dos platônicos de Cambridge (grupo de teólogos que lia Platão para defender a fé contra o materialismo). As cartas começaram em 1650, com o professor ensinando a moça a ler Descartes. Em pouco tempo a aluna discutia com ele de igual para igual.

A correspondência com More durou quase trinta anos.

More reconheceu a dívida em público. Dedicou a ela o Antídoto contra o Ateísmo, de 1653, e anos depois escreveu que raramente encontrara alguém, homem ou mulher, com cabeça tão afiada para metafísica.

Em 1651, Anne se casou com Edward Conway, herdeiro do título de visconde, e foi morar em Ragley Hall. O marido passava longas temporadas na Irlanda, onde a família tinha terras. A casa virou ponto de passagem de filósofos, médicos e pregadores.

Em 1658 nasceu o único filho do casal, Heneage. A varíola o levou em 1660, aos dois anos. A mãe também pegou a doença e sobreviveu.

Nos anos 1670, a condessa se aproximou dos quacres, a Sociedade dos Amigos, cristãos que dispensavam padres e cerimônias e eram presos por se reunir. Admirava a calma deles diante do sofrimento. Em 1677 entrou para o grupo, contra a opinião de More, e contratou criadas quacres para a casa.

More visitou Ragley ainda nesses anos e, nas cartas, insistia em chamar os novos amigos dela de fanáticos. O caderno nasceu nesse período, entre 1677 e 1679, escrito nos intervalos das crises e sem revisão final.

Anne Conway faleceu em Ragley em 23 de fevereiro de 1679, aos 47 anos. Edward estava na Irlanda. Van Helmont conservou o corpo em álcool, num caixão com uma janela de vidro sobre o rosto, até o viúvo voltar. O enterro foi em abril, na igreja da vila de Arrow.

O médico levou o caderno para a Holanda. Em 1690 incluiu a tradução latina num volume de Opúsculos Filosóficos (obras filosóficas curtas), impresso em Amsterdam. Em 1692, uma versão inglesa, traduzida de volta do latim, saiu em Londres.

 

Quem banca a edição de hoje

Watch Us Build Your First Agent Workflow Live

Join HubSpot for Startups and Dust on October 28 at 11am EDT / 8am PDT for a live webinar.

If logging, enrichment, and routing are eating your team’s week, this one’s for you. We’ll build the agents that handle that go-to-market work in HubSpot and Dust, so your team can get back to selling.

You’ll watch us build a post-call automation and a Slack account ownership layer. Then you can set up the same thing for your team.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  Contra o quê

Contra a matéria inerte

O alvo principal é René Descartes. Nos Princípios da Filosofia, de 1644, o francês dividira o mundo criado em duas substâncias: a pensante, que não ocupa espaço, e a extensa, que ocupa espaço e não pensa. Os animais ficavam do lado das máquinas, como relógios de carne.

Ela responde com o caso dos animais. Um cão que reconhece o dono, sente medo e aprende com a pancada não se comporta como um relógio. Se a máquina sente, deixou de ser só máquina.

Conway responde que Descartes explicou bem o mecanismo e esqueceu a vida. Uma matéria sem nenhuma percepção não teria como receber movimento de um espírito, nem como devolver a ele uma sensação. A divisão cartesiana tornava o próprio corpo de Descartes um mistério.

O segundo alvo é o professor dela. Henry More já admitia que o espírito tem extensão, só que penetrável e indivisível, enquanto o corpo seria impenetrável. Conway pergunta por que manter duas espécies se as duas ocupam espaço. Se diferem em densidade, diferem em grau.

Os outros dois alvos ficam do lado oposto. Hobbes fazia de tudo, inclusive Deus, um corpo. Baruch Spinoza, na Ética de 1677, fundia Deus e natureza numa substância só. Conway recusa os dois: o mundo criado é um, e o Criador fica fora dele.

Uma substância para as criaturas, outra para Deus.

O leitor mais importante veio da Alemanha. Gottfried Wilhelm Leibniz recebeu o livro pelas mãos de van Helmont e, numa carta de 1697 ao escocês Thomas Burnett, escreveu que as ideias dele estavam próximas das da falecida condessa de Conway.

Os Princípios já falavam em mônadas (do grego monás, unidade), as menores partes vivas da criação. Leibniz fez da palavra o centro da filosofia dele a partir de 1696. Historiadores discutem até onde foi a influência, e as cartas não decidem a questão.

A obra cobra um preço de quem a lê hoje. A escala de Conway depende da natureza intermediária de Cristo e da Cabala, que a filosofia posterior descartou. E a autoria se apagou: o prefácio falava só numa condessa inglesa, e por muito tempo o texto circulou como obra de van Helmont.

Ao pé da escada, uma criança tropeça e rala o joelho. A mãe sopra o machucado e conta até três. O choro para antes de o sangue secar.

O original sumiu.

 
 
Quiz da edição

Enquanto o visconde Edward Conway estava na Irlanda, o que Francis Mercury van Helmont fez com o corpo da condessa até ele voltar?

AEnviou o corpo para Amsterdam para ser embalsamado por boticários locais
BCremou o corpo e guardou as cinzas numa urna de vidro
CConservou o corpo em álcool, num caixão com janela de vidro sobre o rosto
DEnterrou o corpo provisoriamente no jardim de Ragley Hall

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🦉🦉🦉🦉🦉  ótima 🦉🦉🦉🦉  boa 🦉🦉🦉  ok 🦉🦉  ruim 🦉  péssima
 
Escolha a edição de amanhã

Qual edição você quer ver amanhã?

Voto aberto até 25/10, 15h30

A Sabor Estético de Abhinavagupta →
B Hipótese Isolada de Duhem →
C Douta Ignorância de Cusa →
D Mundo Sem Começo em Aquino →
 
Recomendação de Newsletter
Fortaleza Interior

Fortaleza Interior

Todo dia, 05:05. Antes do mundo acordar, um princípio estoico e um exercício pra aplicar no dia.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →
 
 
 

Amanhã, outra ideia grande.

Filosofia do Dia

FILOSOFIA DO DIA

Uma ideia grande por dia

💬 Receba pelo WhatsApp·✍️ Crie sua Newsletter