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Zera Yacob nasceu em 28 de agosto de 1599, perto de Aksum, a antiga capital religiosa da Etiópia, filho de um lavrador pobre. Ele mesmo registra a data e a origem humilde nas primeiras linhas da Hatata.
Estudou nas escolas tradicionais da Igreja Ortodoxa. Aprendeu o qene (a poesia litúrgica etíope, feita de duplo sentido) e passou anos lendo os comentários da Bíblia. Saiu da formação como professor, com alunos próprios em Aksum.
Ali começou o problema. Nas aulas, ouvia as interpretações de católicos e de ortodoxos e se recusava a tomar partido por obrigação. Um padre chamado Walda Yohannes, influente na corte, levou a acusação de traição ao imperador.
O professor não esperou o julgamento. Fugiu, achou a caverna perto do Tekezé e viveu ali até a morte de Susenyos, em 1632. O sucessor, o imperador Fasiladas, expulsou os jesuítas e devolveu o trono à fé ortodoxa.
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A caverna foi o único mestre sem partido.
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Na Hatata, ele conta como eram os dias na pedra. Rezava os salmos de Davi, o único livro que levara, e pedia a Deus que o ensinasse, porque os homens à volta dele só ensinavam a própria seita. A resposta, escreve, veio pelo pensamento, e não por voz ou visão.
Fora da caverna, Zera Yacob foi para Enfraz, cidade perto do lago Tana. Ali conheceu Habtu, um homem rico que o contratou para copiar os salmos e ensinar os filhos dele. O professor ficou na casa e na cidade pelo resto da vida.
Casou com Hirut, uma criada da família de Habtu, pobre como ele. Na Hatata, Zera Yacob descreve o casamento como acordo entre iguais e diz que marido e mulher têm o mesmo valor diante de Deus, posição rara entre os autores do século XVII.
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“O homem e a mulher são iguais no casamento, e a lei que manda um mandar no outro não vem de Deus.”
Zera Yacob, Hatata, 1667
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Teve filhos, viu a casa de Habtu prosperar e continuou dando aulas. Em 1667, aos 68 anos, sentou para escrever. O texto tem capítulos curtos e mistura autobiografia, oração e argumento, quase sempre na primeira pessoa.
Não escreveu para a corte nem para a Igreja. Escreveu para os alunos da casa de Enfraz, e o manuscrito ficou ali, guardado entre os livros da família, sem circular fora da região.
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