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Em 1667, Zera Yacob pôs 3 fés à prova da razão

Na Hatata, cristãos, muçulmanos e judeus juram a mesma certeza, e a revelação sozinha não desempata a briga.

Homem de túnica branca lê um saltério na entrada de uma caverna etíope.

Zera Yacob na caverna perto do rio Tekezé

▼
 

Revelação: “manifestação de uma doutrina por Deus aos homens” (Dicionário Houaiss). O verbete conta como a doutrina chega. Não conta como saber qual das muitas doutrinas reveladas chegou de fato.

No norte da Etiópia, por volta de 1630, um professor de 31 anos foge à noite com três moedas de ouro e um livro de salmos. Atrás dele fica a cidade de Aksum, onde ensinava. À frente, as margens do rio Tekezé, terra seca de pedra e acácia.

O imperador Susenyos tinha abraçado o catolicismo em 1622, sob a influência de padres jesuítas portugueses. A Igreja Ortodoxa Etíope, cristã havia mais de mil anos, passou a ser perseguida pelo próprio trono. Um padre rival acusou o professor de falar mal do rei e dos missionários.

O fugitivo acha uma caverna ao pé de um vale e se instala nela. Desce para comprar comida no mercado mais próximo, sobe de novo, reza, e fica sozinho com o salmo e com as próprias perguntas.

Passa dois anos ali. Ninguém o vigia, ninguém o corrige, nenhum mestre lhe diz em que acreditar. Lá fora, católicos e ortodoxos se acusam de heresia com espada na mão, e muçulmanos e judeus vivem nas bordas do mesmo reino.

Dentro da caverna, o professor nota uma simetria incômoda. Cada grupo jura ter a fé certa. Cada grupo chama os outros de inimigos de Deus. Nenhum oferece uma prova que o vizinho não possa oferecer também.

Trinta e sete anos depois, já velho e casado, ele escreve o que pensou naquela caverna. O texto se chama Hatata (palavra da língua ge'ez, a língua litúrgica etíope, que significa investigação). O autor é Zera Yacob.

A pergunta que ele leva para a pedra é simples de dizer e difícil de engolir. Se todos têm a mesma certeza, a certeza sozinha não serve de critério. Sobra descobrir o que serve.

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I  A ideia do dia

A mesma certeza em quatro bocas

A resposta de ontem

Que fim levou Marco, o filho de Cícero?

Marco Túlio Cícero, o filho, lutou ao lado de Bruto em Filipos, em 42 a.C., recebeu perdão e chegou a cônsul junto de Otaviano em 30 a.C. Segundo Plutarco, na Vida de Cícero, coube a ele anunciar a derrota de Marco Antônio, e o Senado mandou derrubar as estátuas do homem que proscrevera o pai.

Zera Yacob começa pela comparação. Ele observa os cristãos ortodoxos da terra natal, os católicos que chegaram de Portugal, os muçulmanos do comércio e os judeus etíopes, chamados Beta Israel (casa de Israel). Todos apontam para um livro sagrado.

Todos apontam também para a mesma prova: a palavra de Deus está no livro deles. O argumento é igual nas quatro bocas e, por isso, não decide nada entre elas.

“Cada um diz: a minha fé é a certa, e os que creem em outra fé creem na mentira e são inimigos de Deus.”

Zera Yacob, Hatata, 1667

A frase parece uma constatação de viajante. Funciona como argumento lógico. Se quatro testemunhas dão versões incompatíveis e cada uma garante que só ela fala por Deus, o juiz não pode escolher pela garantia, porque a garantia aparece nas quatro.

A certeza de quem crê não prova a crença.

Ele não conclui que Deus não existe. Conclui o contrário. Olha o mundo, a ordem das estações, o corpo humano que funciona, e entende que existe um Criador. Para Zera Yacob, a criação é a revelação que nenhum grupo consegue falsificar.

O instrumento para ler essa criação é o que ele chama de luz do intelecto. Deus deu a razão a todos os homens, e não só a um povo. Por isso a razão serve de juiz comum, enquanto cada livro sagrado serve só aos próprios fiéis.

Daí sai o teste. Tudo o que uma lei religiosa manda passa pela pergunta: a ordem combina com a natureza que Deus criou? Se combina, pode vir de Deus. Se contraria a natureza, veio de homens que falaram em nome dele.

O mesmo exame vale para os fundadores. Zera Yacob lembra que Moisés e Maomé apresentaram leis como vindas do céu, e que cada povo aceitou a do próprio profeta sem pesar a do outro. A origem anunciada, sozinha, não separa o profeta do homem que só fala bem.

Ele aplica o teste com exemplos concretos. A lei que proíbe casar e chama o celibato de santidade vai contra a criação, pois Deus fez homem e mulher para gerar filhos. O jejum que deixa o corpo doente vai contra a criação, pois Deus fez o corpo para comer.

A lei que trata a mulher como impura nos dias da menstruação também cai. Zera Yacob escreve que o ciclo é obra do Criador para a geração de filhos, e que chamar de sujo o que Deus fez é ofender quem fez.

Dois amigos discutem qual time foi o melhor do país. Cada um cita o próprio campeonato, o próprio narrador, a própria memória de estádio. Um terceiro pega a tabela de pontos e lê em silêncio.

 
 

II  Quem pensou

O professor da caverna de Aksum

Zera Yacob nasceu em 28 de agosto de 1599, perto de Aksum, a antiga capital religiosa da Etiópia, filho de um lavrador pobre. Ele mesmo registra a data e a origem humilde nas primeiras linhas da Hatata.

Estudou nas escolas tradicionais da Igreja Ortodoxa. Aprendeu o qene (a poesia litúrgica etíope, feita de duplo sentido) e passou anos lendo os comentários da Bíblia. Saiu da formação como professor, com alunos próprios em Aksum.

Ali começou o problema. Nas aulas, ouvia as interpretações de católicos e de ortodoxos e se recusava a tomar partido por obrigação. Um padre chamado Walda Yohannes, influente na corte, levou a acusação de traição ao imperador.

O professor não esperou o julgamento. Fugiu, achou a caverna perto do Tekezé e viveu ali até a morte de Susenyos, em 1632. O sucessor, o imperador Fasiladas, expulsou os jesuítas e devolveu o trono à fé ortodoxa.

A caverna foi o único mestre sem partido.

Na Hatata, ele conta como eram os dias na pedra. Rezava os salmos de Davi, o único livro que levara, e pedia a Deus que o ensinasse, porque os homens à volta dele só ensinavam a própria seita. A resposta, escreve, veio pelo pensamento, e não por voz ou visão.

Fora da caverna, Zera Yacob foi para Enfraz, cidade perto do lago Tana. Ali conheceu Habtu, um homem rico que o contratou para copiar os salmos e ensinar os filhos dele. O professor ficou na casa e na cidade pelo resto da vida.

Casou com Hirut, uma criada da família de Habtu, pobre como ele. Na Hatata, Zera Yacob descreve o casamento como acordo entre iguais e diz que marido e mulher têm o mesmo valor diante de Deus, posição rara entre os autores do século XVII.

“O homem e a mulher são iguais no casamento, e a lei que manda um mandar no outro não vem de Deus.”

Zera Yacob, Hatata, 1667

Teve filhos, viu a casa de Habtu prosperar e continuou dando aulas. Em 1667, aos 68 anos, sentou para escrever. O texto tem capítulos curtos e mistura autobiografia, oração e argumento, quase sempre na primeira pessoa.

Não escreveu para a corte nem para a Igreja. Escreveu para os alunos da casa de Enfraz, e o manuscrito ficou ali, guardado entre os livros da família, sem circular fora da região.

 

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III  Contra o quê

Contra a fé por herança

O adversário de Zera Yacob não é a religião. É a fé recebida sem exame, aceita porque o pai aceitou e o padre mandou. Ele chama os homens que vivem assim de preguiçosos, pois deixam a razão dada por Deus parada.

O texto tem também um alvo político. Os jesuítas tinham usado o trono para impor uma fé, e os ortodoxos, quando voltaram ao poder, perseguiram os católicos com a mesma dureza. Para ele, os dois lados confundiam autoridade com prova.

O argumento enfrenta uma objeção forte, levantada pelos teólogos desde Agostinho de Hipona no século IV. A razão humana é fraca, erra, e por isso precisa da revelação para chegar ao que sozinha não alcança. Zera Yacob responde que a revelação precisa da razão para ser reconhecida.

Sem a razão, o fiel não distingue o profeta do impostor. Os dois falam com a mesma firmeza. Só o exame do conteúdo, comparado com a natureza, separa um do outro.

Trinta anos antes da Hatata, em 1637, o francês René Descartes publicara o Discurso do Método, que também mandava duvidar do herdado e reconstruir pelo raciocínio. Zera Yacob não leu Descartes. Chegou a um caminho parecido numa caverna etíope, sem biblioteca e sem correspondentes.

A obra enfrenta ainda uma briga sobre ela mesma. Em 1920, o italiano Carlo Conti Rossini afirmou que a Hatata era falsificação, escrita no século XIX pelo frade capuchinho Giusto d'Urbino, que havia mandado cópias à Europa.

A disputa sobre a autoria segue aberta.

O jesuíta canadense Claude Sumner, professor na Universidade de Adis Abeba, defendeu a autenticidade em 1976, com base na língua do texto e nos costumes que ele descreve. A historiadora francesa Anaïs Wion voltou à tese da falsificação em 2013, apontando papéis de Giusto d'Urbino.

Ninguém encerrou o caso. O original de 1667 nunca foi encontrado, e as cópias conhecidas passaram todas pelas mãos do mesmo frade. A tese, porém, não depende do autor: o argumento das certezas iguais vale igual, seja de um etíope em 1667, seja de um europeu em 1852.

Numa fila de cartório, duas irmãs disputam a casa da mãe. Cada uma diz que a mãe prometeu a casa a ela. A escrivã pede o testamento.

Zera Yacob faleceu em 1692, aos 93 anos, em Enfraz. Os filhos de Habtu tinham sido os alunos dele.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual dos filhos de Habtu, alunos de Zera Yacob em Enfraz, escreveu depois uma Hatata própria?

 
 
Quiz da edição

Na noite em que fugiu de Aksum, quantas moedas de ouro Zera Yacob levou consigo?

ANenhuma, saiu só com o livro de salmos
BDuas moedas de ouro
CTrês moedas de ouro
DCinco moedas de ouro

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