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Edith Stein e a dor que continua sendo do outro

Em 1917, Edith Stein mostrou que a empatia recebe o sentimento alheio como alheio, e que o contágio apaga quem sentiu primeiro.

Duas mãos próximas sobre uma mesa de madeira, sem se tocar, sob a luz de uma janela.

A dor que chega com dono

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Empatia: “capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente” (Dicionário Houaiss). A definição promete uma fusão: eu sinto o que o outro sente. Em 1917, uma filósofa alemã de 25 anos publicou uma tese para mostrar que, se a fusão acontecesse, o outro sumiria da cena.

Num berçário de hospital, um recém-nascido começa a chorar. Em poucos segundos, os vizinhos de berço choram junto. Em 1976, os psicólogos Abraham Sagi e Martin Hoffman descreveram o fenômeno na revista Developmental Psychology, com bebês de um ou dois dias de vida, e o chamaram de choro reativo.

Nenhum desses bebês sabe de quem é o choro. O som entra pelo ouvido e sai pela garganta, sem passar pela pergunta de quem está sofrendo. O desconforto do vizinho vira desconforto próprio, e cada bebê chora por si.

Agora troque o berçário por uma cozinha. Um amigo chega, senta e conta que perdeu o irmão na semana anterior. Você não sabia, e a notícia muda a sala. A voz dele falha quando diz a palavra irmão, e as mãos não param quietas sobre a mesa.

Você percebe a dor dele inteira, com detalhe, sem que ele precise descrevê-la. Ainda assim, a dor que você percebe pertence a ele. Você não perdeu irmão nenhum. A tristeza que talvez venha em seguida é outra, nascida em você por causa dele.

As duas cenas costumam caber na mesma palavra, e a definição do dicionário mistura as duas. Na primeira, o sentimento se espalha e apaga a origem. Na segunda, o sentimento chega com endereço: é dele, está nele, e você o vê lá.

A tese de 1917 separou as duas cenas com uma precisão que a psicologia da época não tinha. A separação começa por uma pergunta de gramática: de quem é a dor.

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I  A ideia do dia

A dor que chega com dono

Edith Stein defendeu em 3 de agosto de 1916, na Universidade de Freiburg, a tese Sobre o problema da empatia, e a publicou em Halle no ano seguinte. A palavra que ela examina é Einfühlung (empatia, literalmente “sentir-se dentro”), que circulava na estética e na psicologia alemãs desde as últimas décadas do século XIX.

A pergunta dela é simples de enunciar. Como tenho acesso ao que outra pessoa vive por dentro, se nunca estive dentro dela? Stein não duvida de que os outros sintam. Ela quer descrever o ato pelo qual o sentimento alheio aparece para mim.

Para responder, usa um par de termos. Uma vivência é originária (dada em primeira mão, no presente, a quem a vive) ou não originária (presente para mim agora, com o conteúdo vindo de outro lugar). A dor do amigo é originária para ele. Para mim, aparece de fato, agora, como não originária.

A comparação que ela escolhe é a memória. Quando lembro uma alegria antiga, o ato de lembrar acontece agora, e a alegria lembrada pertence a outro tempo. Na empatia, o ato é meu e acontece agora, e o sentimento percebido pertence a outra pessoa.

“O sujeito da vivência que capto pela empatia é outro sujeito, distinto de mim.”

Edith Stein, Sobre o problema da empatia, parte II, 1917 (paráfrase)

Daí sai a distinção com o contágio. No contágio de sentimento, o estado alheio chega a mim e eu o vivo como meu, sem registrar de onde veio. Quem entra numa sala onde todos riem e começa a rir sem saber da piada foi contagiado. A risada é originária nele, e a origem se perdeu.

Na empatia, o sentimento chega com dono. No contágio, chega sem.

A distinção, em 3 passos

1. O amigo vive a dor de forma originária, no próprio corpo e na própria história.

2. Eu percebo a dor no rosto e na voz dele, e ela aparece para mim como dor dele.

3. Se a dor virasse minha, eu deixaria de ver o amigo e sentiria apenas a mim mesmo.

Stein ainda separa empatia de simpatia. Posso perceber a alegria de um colega aprovado num concurso e não me alegrar com ele, por inveja ou indiferença. A percepção da alegria alheia continua correta. A alegria compartilhada, quando vem, é um sentimento novo e meu, que nasce depois.

A consequência é ética antes de ser psicológica. Se a empatia fosse fusão, entender alguém exigiria apagar a distância que nos separa. Na descrição de Stein, a distância é a condição do entendimento: por ver a dor como dele, posso cuidar dela sem tomá-la para mim.

 
 

II  Quem pensou

A assistente de Husserl

Edith Stein nasceu em 12 de outubro de 1891, em Breslau, então Alemanha, hoje Wrocław, na Polônia. Era a caçula de onze filhos de uma família judia. Antes de a menina completar dois anos, a mãe, Auguste, assumiu sozinha o comércio de madeira da família e criou os filhos com ele.

Estudou psicologia em Breslau e, em 1913, mudou-se para Göttingen atrás de Edmund Husserl, fundador da fenomenologia (o método que descreve como os objetos aparecem à consciência antes de qualquer teoria sobre elas). Ali escolheu o tema da empatia, que Husserl usava sem ter explicado por inteiro.

Em 1915 interrompeu a pesquisa para servir como enfermeira voluntária da Cruz Vermelha num hospital militar de doenças infecciosas em Mährisch Weißkirchen, na Morávia, hoje Hranice, na República Tcheca. Cuidou de soldados com tifo e disenteria por cerca de cinco meses.

A tese saiu com a nota máxima, summa cum laude (com o maior louvor). Husserl a contratou como assistente particular, e durante quase dois anos ela transcreveu e ordenou os manuscritos dele, entre eles as notas que formariam o segundo volume das Ideias.

“A empatia é a experiência da consciência alheia em geral.”

Edith Stein, Sobre o problema da empatia, parte IV, 1917 (paráfrase)

Stein deixou o posto em 1918, cansada de organizar textos que o professor pouco relia. Tentou então a habilitação (o título que permitia lecionar numa universidade alemã) em Göttingen, e em 1919 a faculdade recusou o pedido por ela ser mulher. Ela recorreu ao ministério prussiano, que em 1920 declarou que o sexo não podia barrar o título. Nenhuma universidade a habilitou.

A universidade que aprovou a tese não aceitou a autora como professora.

Em 1921, numa casa de amigos em Bergzabern, leu numa noite a autobiografia de Teresa de Ávila. Foi batizada católica em 1º de janeiro de 1922. Lecionou numa escola de freiras dominicanas em Speyer e, a partir de 1932, no Instituto de Pedagogia de Münster, até as leis raciais de 1933 tirarem o cargo dela.

Em outubro de 1933 entrou no Carmelo de Colônia e adotou o nome religioso de Teresa Benedita da Cruz. Em 1938, após a Noite dos Cristais, as irmãs a transferiram para o Carmelo de Echt, na Holanda. Em 2 de agosto de 1942 a Gestapo a prendeu com a irmã Rosa, em represália a uma carta dos bispos holandeses contra a deportação de judeus.

As duas foram levadas a Auschwitz. O registro oficial dá 9 de agosto de 1942 como a data em que foram executadas na câmara de gás, e nenhuma das duas voltou. O papa João Paulo II a canonizou em 1998.

 

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III  Contra o quê

Contra a fusão de Lipps

O alvo principal tinha cátedra em Munique. Theodor Lipps fizera da Einfühlung a chave da estética e da psicologia. Para ele, ao ver um acrobata na corda bamba, eu imito por dentro os movimentos e acabo sentindo de dentro o equilíbrio dele. No ápice, segundo Lipps, esqueço de mim e estou lá em cima.

Stein aceita a descrição até a última frase. Ela observa que eu nunca estou na corda. Estou sentado na plateia, e o que vivo é o movimento dele dado a mim, sem que eu me mova. Se a fusão fosse completa, ninguém perceberia o acrobata: haveria só um espectador com vertigem própria.

“Na empatia plena, eu me sinto ativo no movimento do acrobata.”

Theodor Lipps, Estética, volume 1, 1903 (paráfrase)

O segundo alvo era um colega de círculo. Max Scheler publicou em 1913 Sobre a fenomenologia e teoria dos sentimentos de simpatia e separou o contágio, Gefühlsansteckung (contágio de sentimento), da Einsfühlung (sentir-se um só, a identificação completa com o outro). Stein concordou com a separação e foi além: nem a identificação completa explica como conheço o outro, porque nela o outro some.

O terceiro alvo era o argumento por analogia, que John Stuart Mill defendeu em 1865, no Exame da filosofia de Sir William Hamilton: vejo no outro um gesto parecido com o meu e concluo, por inferência, que ele sente o que eu sentiria. Stein responde que a dor do amigo aparece no rosto dele antes de qualquer raciocínio. Ninguém deduz a tristeza a partir das lágrimas; vê a tristeza nas lágrimas.

O outro só aparece porque continua sendo outro.

Um filho ouve o pai contar, pela terceira vez, a demissão que sofreu aos 50 anos. O filho não precisa sentir a humilhação como sua para medir o tamanho dela. Basta ouvir sabendo de quem ela é, e deixar o pai terminar a história.

Uma enfermeira de pronto-socorro atende de madrugada a mãe de uma criança com febre alta. Se a aflição da mãe vira aflição dela, as mãos tremem junto. Se ela vê a aflição como da mãe, consegue olhar o termômetro, explicar o próximo passo e devolver à mãe um pouco de chão.

“De quem é a dor que você está sentindo agora?”

A febre baixou às três.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, por que a Universidade de Göttingen recusou a habilitação de Edith Stein em 1919, mesmo com a tese aprovada summa cum laude?

APorque ela não havia publicado a tese em livro
BPorque o ministério prussiano proibia mulheres em concursos públicos
CPorque ela era mulher
DPorque Husserl retirou o apoio ao pedido

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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