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I A ideia do dia
A dor que chega com dono
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Edith Stein defendeu em 3 de agosto de 1916, na Universidade de Freiburg, a tese Sobre o problema da empatia, e a publicou em Halle no ano seguinte. A palavra que ela examina é Einfühlung (empatia, literalmente “sentir-se dentro”), que circulava na estética e na psicologia alemãs desde as últimas décadas do século XIX.
A pergunta dela é simples de enunciar. Como tenho acesso ao que outra pessoa vive por dentro, se nunca estive dentro dela? Stein não duvida de que os outros sintam. Ela quer descrever o ato pelo qual o sentimento alheio aparece para mim.
Para responder, usa um par de termos. Uma vivência é originária (dada em primeira mão, no presente, a quem a vive) ou não originária (presente para mim agora, com o conteúdo vindo de outro lugar). A dor do amigo é originária para ele. Para mim, aparece de fato, agora, como não originária.
A comparação que ela escolhe é a memória. Quando lembro uma alegria antiga, o ato de lembrar acontece agora, e a alegria lembrada pertence a outro tempo. Na empatia, o ato é meu e acontece agora, e o sentimento percebido pertence a outra pessoa.
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“O sujeito da vivência que capto pela empatia é outro sujeito, distinto de mim.”
Edith Stein, Sobre o problema da empatia, parte II, 1917 (paráfrase)
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Daí sai a distinção com o contágio. No contágio de sentimento, o estado alheio chega a mim e eu o vivo como meu, sem registrar de onde veio. Quem entra numa sala onde todos riem e começa a rir sem saber da piada foi contagiado. A risada é originária nele, e a origem se perdeu.
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Na empatia, o sentimento chega com dono. No contágio, chega sem.
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A distinção, em 3 passos
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1. O amigo vive a dor de forma originária, no próprio corpo e na própria história.
2. Eu percebo a dor no rosto e na voz dele, e ela aparece para mim como dor dele.
3. Se a dor virasse minha, eu deixaria de ver o amigo e sentiria apenas a mim mesmo.
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Stein ainda separa empatia de simpatia. Posso perceber a alegria de um colega aprovado num concurso e não me alegrar com ele, por inveja ou indiferença. A percepção da alegria alheia continua correta. A alegria compartilhada, quando vem, é um sentimento novo e meu, que nasce depois.
A consequência é ética antes de ser psicológica. Se a empatia fosse fusão, entender alguém exigiria apagar a distância que nos separa. Na descrição de Stein, a distância é a condição do entendimento: por ver a dor como dele, posso cuidar dela sem tomá-la para mim.
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II Quem pensou
A assistente de Husserl
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Edith Stein nasceu em 12 de outubro de 1891, em Breslau, então Alemanha, hoje Wrocław, na Polônia. Era a caçula de onze filhos de uma família judia. Antes de a menina completar dois anos, a mãe, Auguste, assumiu sozinha o comércio de madeira da família e criou os filhos com ele.
Estudou psicologia em Breslau e, em 1913, mudou-se para Göttingen atrás de Edmund Husserl, fundador da fenomenologia (o método que descreve como os objetos aparecem à consciência antes de qualquer teoria sobre elas). Ali escolheu o tema da empatia, que Husserl usava sem ter explicado por inteiro.
Em 1915 interrompeu a pesquisa para servir como enfermeira voluntária da Cruz Vermelha num hospital militar de doenças infecciosas em Mährisch Weißkirchen, na Morávia, hoje Hranice, na República Tcheca. Cuidou de soldados com tifo e disenteria por cerca de cinco meses.
A tese saiu com a nota máxima, summa cum laude (com o maior louvor). Husserl a contratou como assistente particular, e durante quase dois anos ela transcreveu e ordenou os manuscritos dele, entre eles as notas que formariam o segundo volume das Ideias.
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“A empatia é a experiência da consciência alheia em geral.”
Edith Stein, Sobre o problema da empatia, parte IV, 1917 (paráfrase)
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Stein deixou o posto em 1918, cansada de organizar textos que o professor pouco relia. Tentou então a habilitação (o título que permitia lecionar numa universidade alemã) em Göttingen, e em 1919 a faculdade recusou o pedido por ela ser mulher. Ela recorreu ao ministério prussiano, que em 1920 declarou que o sexo não podia barrar o título. Nenhuma universidade a habilitou.
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A universidade que aprovou a tese não aceitou a autora como professora.
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Em 1921, numa casa de amigos em Bergzabern, leu numa noite a autobiografia de Teresa de Ávila. Foi batizada católica em 1º de janeiro de 1922. Lecionou numa escola de freiras dominicanas em Speyer e, a partir de 1932, no Instituto de Pedagogia de Münster, até as leis raciais de 1933 tirarem o cargo dela.
Em outubro de 1933 entrou no Carmelo de Colônia e adotou o nome religioso de Teresa Benedita da Cruz. Em 1938, após a Noite dos Cristais, as irmãs a transferiram para o Carmelo de Echt, na Holanda. Em 2 de agosto de 1942 a Gestapo a prendeu com a irmã Rosa, em represália a uma carta dos bispos holandeses contra a deportação de judeus.
As duas foram levadas a Auschwitz. O registro oficial dá 9 de agosto de 1942 como a data em que foram executadas na câmara de gás, e nenhuma das duas voltou. O papa João Paulo II a canonizou em 1998.
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