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Filosofia do Dia   Filosofia do Dia
ED 012

Dizer que não teve escolha já é escolher

Sartre deu nome à manobra de se apresentar como coisa sem alternativa, e mostrou que a alegação já é uma decisão tomada.

Um garçom atravessa o salão de um café antigo com a bandeja erguida, entre mesas de mármore.

O salão de um café, no ritmo exato do ofício

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Em 1943, numa Paris ocupada e sob censura alemã, uma editora lançou um ensaio de mais de setecentas páginas com um subtítulo que não prometia nada a ninguém: ensaio de ontologia fenomenológica.

A censura deixou passar. Um calhamaço de filosofia técnica, cheio de termos alemães traduzidos com dificuldade, não parecia coisa capaz de atrapalhar um exército de ocupação.

Logo nas primeiras cem páginas, o livro interrompe a marcha para descrever uma manobra que qualquer pessoa executa antes do café. O nome que ela recebe ali é má-fé.

A ideia do dia cabe numa frase: apresentar-se como uma coisa sem alternativa é uma decisão tomada. Não é fraqueza de caráter nem falha de raciocínio, é uma operação com estrutura desenhável.

A expressão não descreve quem engana os outros. Descreve quem monta para si mesmo um retrato em que nada mais podia ser feito, e passa a morar dentro do retrato com bastante conforto.

A tese não vem acompanhada de otimismo. Ninguém está dizendo que toda porta se abre com vontade. O corpo, o passado, a conta bancária e a cidade natal continuam pesando o que pesam.

A manobra não mora no limite. Mora na promoção do limite a explicação completa, o momento em que uma parte verdadeira da situação é servida como se fosse a situação inteira.

O efeito colateral costuma passar em branco. Quem se descreve como coisa entrega junto a autoria do que vem depois, e o preço aparece devagar, sempre na conta de outra pessoa.

A alegação em geral é sincera. Quem diz que não teve escolha acredita na própria frase, e a crença faz parte do mecanismo, em vez de servir de prova contra ele.

A demonstração começa numa pergunta técnica: como alguém consegue enganar a si mesmo, se é a mesma cabeça que esconde o dado e recebe o esconderijo pronto.

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I  A ideia do dia

Quem mente para si mesmo sabe o que esconde

A mentira comum precisa de duas pessoas. A má-fé dispensa a segunda.

Quem mente sabe exatamente o que está escondendo. É a condição do ofício: para servir uma versão convincente, a pessoa precisa ter a outra em mãos e decidir o que fica de fora.

Na má-fé, o mentiroso e o enganado são a mesma consciência. Ela precisa conhecer a verdade com precisão para escondê-la bem, e precisa ignorá-la com sinceridade para acreditar no que sobrou.

A saída fácil seria o inconsciente, uma parte de mim que guarda o que a outra não vê. Sartre recusa. Para empurrar uma lembrança porão abaixo, o guarda que faz a triagem precisa reconhecer o que empurra, e o paradoxo apenas muda de endereço.

O que torna a manobra possível são duas coisas verdadeiras ao mesmo tempo sobre qualquer pessoa. De um lado a facticidade: corpo, passado, sobrenome, cargo, temperamento, a hora do expediente.

Do outro lado, a distância entre a pessoa e qualquer descrição dela. Nenhum retrato fecha, porque falta sempre o que ainda não foi feito, e é essa parte que responde amanhã.

A manobra pega uma das metades e serve como se fosse a pessoa inteira. Sempre fui assim: só facticidade, como se o passado bastasse para escrever a próxima hora.

A versão oposta funciona igual. Aquilo não sou eu de verdade: só distância, como se o gesto da véspera tivesse sido executado por um estranho de passagem.

A frase chega com cara de constatação e trabalha como decisão. Quem se descreve como coisa sem alternativa está usando, no minuto exato em que fala, a liberdade que a descrição nega.

O exemplo que ficou famoso está num café. Um garçom atravessa o salão com o gesto vivo e marcado, um pouco preciso demais, um pouco rápido demais, e equilibra a bandeja com cuidado de equilibrista.

Nada ali está malfeito. O ponto não é a qualidade do serviço, é o excesso de exatidão: o homem representa o próprio ofício para quem olha.

O garçom não consegue ser garçom do jeito que o copo é copo. Ele acorda às cinco e remonta o personagem antes de abrir a porta, e a remontagem diária mostra que a identidade não para de pé sozinha.

O segundo exemplo do capítulo é uma mulher num primeiro encontro. A conversa se mantém em assuntos elevados enquanto a mão dela fica esquecida sobre a mesa, tratada como objeto da paisagem.

A mão vira coisa e adia a resposta que a mulher não quer dar. Nenhum sim e nenhum não são pronunciados.

A sinceridade não é a cura. Exigir de alguém que seja o que é pede a uma pessoa que vire coisa, e confessar sou assim mesmo fecha o caso pelo mesmo mecanismo, com cara de honestidade.

O que a manobra evita tem nome no livro: a angústia, a descoberta de que nada segura o próximo passo no lugar, além de uma decisão que ainda não foi tomada.

 
 

II  Quem pensou

O homem que recusou o Nobel

Ele escreveu setecentas páginas sobre liberdade dentro de um país ocupado e, vinte e um anos depois, recusou o prêmio que teria transformado o autor em instituição.

Jean-Paul Sartre nasceu em Paris, em 1905. O pai, oficial da marinha, saiu de cena antes de o filho completar dois anos, e a criança cresceu na casa do avô materno, professor de alemão, dentro de uma biblioteca.

Entrou na École Normale Supérieure em 1924. Foi reprovado no concurso de professor em 1928 e passou em primeiro lugar no ano seguinte, com Simone de Beauvoir em segundo. A parceria dos dois durou meio século.

Deu aula em liceu no Havre e passou o ano letivo de 1933 em Berlim estudando Husserl. Voltou com um método que descreve o que aparece e o aplicou a cenas ordinárias: um café, uma bandeja, o olhar de quem chega por trás.

Em 1938 publicou o romance A Náusea, com um personagem que descobre o excesso bruto da existência diante da raiz de uma castanheira num parque de província.

Mobilizado em 1939, serviu como meteorologista. Foi capturado em junho de 1940 e passou nove meses num campo de prisioneiros perto de Trier, onde leu Heidegger e escreveu uma peça encenada pelos presos no Natal.

De volta a Paris em 1941, deu aula, entrou num pequeno grupo de resistência intelectual e terminou o livro grande. O Ser e o Nada saiu em 1943, no mesmo ano em que uma peça dele estreou na cidade ocupada.

"Seu gesto é vivo e marcado, um pouco preciso demais, um pouco rápido demais... ele brinca de ser garçom de café."

Jean-Paul Sartre, O Ser e o Nada, 1943.

Em outubro de 1945 deu uma conferência em Paris com o salão lotado e gente na calçada. A palavra existencialismo, que ele tinha recusado, grudou de vez e virou moda de café em Saint-Germain.

A recusa virou marca da biografia. Dispensou a Legião de Honra em 1945, dispensou a cátedra no Collège de France e, em 1964, dispensou o Nobel de Literatura: um escritor que aceita virar instituição perde a força da própria assinatura.

O trabalho seguinte foi um acerto de contas com o peso do mundo. Em 1960 tentou encaixar a liberdade dentro da história, da classe e da escassez material, num livro que ficou pela metade.

Depois passou anos reconstruindo a infância de Flaubert em três mil páginas, para mostrar como uma criança é empurrada para um projeto que ela assina como próprio quando adulta.

A cegueira chegou em 1973 e encerrou a escrita. Os últimos anos foram de ditado e entrevistas. A vida terminou em Paris, em abril de 1980, aos 74 anos, com dezenas de milhares de pessoas atrás do carro que atravessou a cidade.

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III  Contra o quê

A defesa de quem diz que é assim mesmo

As objeções mais fortes não saem em defesa da desculpa. Elas dizem que, em muita hora, a alternativa não estava lá.

A primeira é o determinismo de temperamento. Quem repete sou explosivo, sou ansioso, sou tímido não estaria fabricando um retrato conveniente: estaria lendo um dado sobre si mesmo.

A psicologia da personalidade dá lastro à leitura. Estudos com gêmeos, repetidos desde os anos oitenta, atribuem à herança perto de metade da variação dos traços numa população.

A resposta dentro do próprio quadro é aritmética. O número descreve a variação de um grupo, e não o gesto de uma pessoa às três da tarde. Um traço herdado torna certa reação provável, e a probabilidade ainda precisa de alguém para virar ato.

A segunda objeção veio dos defensores do inconsciente. Se a repressão trabalha abaixo da consciência, quem diz que não teve escolha pode estar sinceramente enganado, e engano sincero não é má-fé.

Herbert Fingarette, em Self-Deception, de 1969, propôs outra descrição: a pessoa não guarda um conteúdo num cofre, ela deixa de explicitar o próprio envolvimento com o que faz, e o que não é formulado nunca vira tema.

A terceira objeção é sociológica. Pierre Bourdieu leu a cerimônia do garçom como coisa que não pertence ao garçom: o gesto vem de uma escola, de uma classe e de um ofício, incorporado tão cedo que já chega ao corpo como jeito natural.

A acusação dele é direta. O existencialismo teria inventado um sujeito sem inércia, capaz de recomeçar do zero a cada manhã.

A quarta veio de dentro de casa. Merleau-Ponty, na Fenomenologia da Percepção, de 1945, mostrou que uma liberdade presente em toda situação não explica nenhuma escolha em particular.

Sem a resistência do mundo, escolher deixa de significar alguma coisa. Uma liberdade que cabe igualmente em qualquer circunstância perde exatamente o que a tornava séria.

O próprio Sartre não deixou o problema onde estava. O livro de 1960 e o estudo sobre Flaubert tentam dar peso à situação sem devolver o gesto ao acaso.

A distinção que ele nunca abandonou é mais estreita do que a briga sugere. A situação limita o cardápio disponível, e não a autoria da resposta escolhida dentro dele.

Na quinta à noite a frase aparece pronta e educada. Não deu para responder, o dia não deixou, a agenda estava fechada, e a agenda foi montada por alguém que tinha opções às nove da manhã.

No trabalho a mesma frase ganha uniforme. A política da casa não permite, o sistema não deixa, sempre foi assim aqui. Quem repete a fórmula às vezes tem razão sobre a empresa e continua escolhendo qual porta bater.

Em casa a versão é mais curta e mais antiga. Sou assim mesmo encerra a conversa, e costuma aparecer logo depois de um gesto que a pessoa preferia não discutir.

Nenhuma das três é mentira completa. A agenda estava cheia, a política existe, o temperamento pesa. A parte que a frase esconde é a mão que assinou o que veio depois.

"Quantas vezes hoje você chamou de impossível uma coisa que preferiu não fazer?"

 
 
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