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As objeções mais fortes não saem em defesa da desculpa. Elas dizem que, em muita hora, a alternativa não estava lá.
A primeira é o determinismo de temperamento. Quem repete sou explosivo, sou ansioso, sou tímido não estaria fabricando um retrato conveniente: estaria lendo um dado sobre si mesmo.
A psicologia da personalidade dá lastro à leitura. Estudos com gêmeos, repetidos desde os anos oitenta, atribuem à herança perto de metade da variação dos traços numa população.
A resposta dentro do próprio quadro é aritmética. O número descreve a variação de um grupo, e não o gesto de uma pessoa às três da tarde. Um traço herdado torna certa reação provável, e a probabilidade ainda precisa de alguém para virar ato.
A segunda objeção veio dos defensores do inconsciente. Se a repressão trabalha abaixo da consciência, quem diz que não teve escolha pode estar sinceramente enganado, e engano sincero não é má-fé.
Herbert Fingarette, em Self-Deception, de 1969, propôs outra descrição: a pessoa não guarda um conteúdo num cofre, ela deixa de explicitar o próprio envolvimento com o que faz, e o que não é formulado nunca vira tema.
A terceira objeção é sociológica. Pierre Bourdieu leu a cerimônia do garçom como coisa que não pertence ao garçom: o gesto vem de uma escola, de uma classe e de um ofício, incorporado tão cedo que já chega ao corpo como jeito natural.
A acusação dele é direta. O existencialismo teria inventado um sujeito sem inércia, capaz de recomeçar do zero a cada manhã.
A quarta veio de dentro de casa. Merleau-Ponty, na Fenomenologia da Percepção, de 1945, mostrou que uma liberdade presente em toda situação não explica nenhuma escolha em particular.
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Sem a resistência do mundo, escolher deixa de significar alguma coisa. Uma liberdade que cabe igualmente em qualquer circunstância perde exatamente o que a tornava séria.
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O próprio Sartre não deixou o problema onde estava. O livro de 1960 e o estudo sobre Flaubert tentam dar peso à situação sem devolver o gesto ao acaso.
A distinção que ele nunca abandonou é mais estreita do que a briga sugere. A situação limita o cardápio disponível, e não a autoria da resposta escolhida dentro dele.
Na quinta à noite a frase aparece pronta e educada. Não deu para responder, o dia não deixou, a agenda estava fechada, e a agenda foi montada por alguém que tinha opções às nove da manhã.
No trabalho a mesma frase ganha uniforme. A política da casa não permite, o sistema não deixa, sempre foi assim aqui. Quem repete a fórmula às vezes tem razão sobre a empresa e continua escolhendo qual porta bater.
Em casa a versão é mais curta e mais antiga. Sou assim mesmo encerra a conversa, e costuma aparecer logo depois de um gesto que a pessoa preferia não discutir.
Nenhuma das três é mentira completa. A agenda estava cheia, a política existe, o temperamento pesa. A parte que a frase esconde é a mão que assinou o que veio depois.
"Quantas vezes hoje você chamou de impossível uma coisa que preferiu não fazer?"
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