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I A ideia do dia
Convenção na língua, átomo no mel
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Demócrito escreveu a frase num livro que se perdeu. O médico cético Sexto Empírico a copiou por volta de 200 d.C., no tratado Contra os matemáticos, e por essa cópia ela chegou até hoje com o número 9 na coleção dos fragmentos.
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“Por convenção o doce, por convenção o amargo, por convenção o quente, por convenção o frio, por convenção a cor; na realidade, átomos e vazio.”
Demócrito, fragmento 9, em Sexto Empírico, Contra os matemáticos VII, 135, c. 200 d.C.
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A palavra que se repete cinco vezes é nómos (convenção, a regra que as pessoas combinam). Os gregos a opunham a phýsis (natureza, aquilo que é assim por si). A mão de direção no trânsito é nómos; a pedra que cai é phýsis. Demócrito pôs o sabor, o calor e a cor na primeira coluna.
A última palavra forte da frase, eteêi (na realidade, de fato), aponta para a camada de baixo. Ali estão os átomos (do grego átomos, o que não se corta): corpos sólidos, cheios, eternos, pequenos demais para a vista, sem cor, sem cheiro e sem sabor.
Os átomos diferem entre si em apenas três aspectos. Aristóteles, no livro I da Metafísica, guardou o exemplo dos atomistas com letras: A difere de N pela forma, AN difere de NA pela ordem, e Z difere de N pela posição, porque o Z é um N deitado.
O mel, nessa descrição, é um arranjo de átomos. Teofrasto, aluno de Aristóteles, resumiu no tratado Sobre as sensações, por volta de 300 a.C., como Demócrito explicava cada gosto: o doce vem de átomos redondos e de tamanho médio; o azedo e o amargo vêm de átomos pequenos, angulosos e ásperos.
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O mel não tem doçura. Tem átomos redondos.
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Como o doce nasce, em 3 passos
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1. Os átomos redondos do mel entram na boca e encostam na língua.
2. A língua também é um arranjo de átomos, e o encontro das formas mexe com ela de um modo próprio.
3. A sensação que resulta recebe um nome que as pessoas combinaram: doce.
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O passo três explica a palavra convenção. Se a doçura morasse no mel, todo provador a encontraria igual. Teofrasto registra que Demócrito apontava a variação de sabor conforme a condição do corpo como sinal de que a qualidade depende de quem prova. O pote do doente com icterícia e o pote do vizinho saudável contêm os mesmos átomos.
A tese não chama a língua de mentirosa. A língua relata a forma dos átomos na língua dela, e o relato serve para viver: o amargo avisa de muito veneno, o doce aponta fruta madura. O erro começa quando alguém toma o relato pelo objeto.
Duas pessoas discutem se a sala está fria. Uma veio da rua no sol, a outra passou a tarde sentada. Cada uma descreve o próprio corpo com exatidão, e nenhuma das duas descreve a sala.
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II Quem pensou
O estrangeiro que Atenas não viu
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Demócrito nasceu em Abdera, colônia grega na costa da Trácia, no atual nordeste da Grécia. Apolodoro de Atenas, cronista do século II a.C., situou o nascimento por volta de 460 a.C., e a data é a aceita até hoje. A cidade tinha fama de terra de gente lenta, e deu ao mundo dois filósofos famosos.
O mestre foi Leucipo, que já falava em átomos e vazio antes dele. Os dois escritos se misturaram tanto na Antiguidade que ninguém consegue separar com certeza o que é de cada um. Aristóteles cita os dois juntos, e o próprio Leucipo quase não deixou frase atribuída só a ele.
Segundo Diógenes Laércio, biógrafo do século III d.C., Demócrito gastou em viagens a parte que lhe coube da herança do pai, mais de 100 talentos, passando pelo Egito e pela Pérsia. A soma correspondia a uma fortuna, e os conterrâneos o acusaram de desperdiçar os bens da família.
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“Fui a Atenas e ninguém me conheceu.”
Demócrito, fragmento 116, em Diógenes Laércio, Vidas dos filósofos IX, 36, séc. III d.C.
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Atenas era a capital intelectual da Grécia, e Sócrates andava pelas mesmas praças. Demócrito passou sem ser notado, e o silêncio continuou depois. Platão escreveu sobre quase todos os pensadores anteriores e nunca o cita pelo nome.
Diógenes Laércio conta ainda, a partir do músico Aristóxeno, que Platão quis queimar todos os livros de Demócrito que conseguisse reunir. Dois pitagóricos o dissuadiram: os livros já circulavam por toda parte, e a fogueira não adiantaria. Não há como confirmar o episódio, que pode ter nascido da rivalidade entre escolas.
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Platão discutiu quase todos os filósofos anteriores e calou sobre Demócrito.
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A obra era enorme. O catálogo de Trasilo, astrólogo do imperador Tibério, lista cerca de 70 títulos sobre física, ética, matemática, música, medicina e agricultura. Nenhum sobreviveu inteiro. Sobram frases citadas por outros autores, reunidas pelo alemão Hermann Diels em 1903 na coleção Os fragmentos dos pré-socráticos.
Boa parte do que sobrou trata de ética. Demócrito chamava o objetivo da vida de euthymía (bom ânimo, a alma tranquila), uma calma que viria da moderação nos prazeres e não da riqueza. A física explicava o mundo; a ética ensinava a viver nele sem perturbação.
A tradição romana o pintou rindo. Sêneca, no tratado Sobre a ira, contrapõe o Demócrito que ria das tolices humanas ao Heráclito que chorava por elas. Cartas atribuídas ao médico Hipócrates contam que os abderitas o chamaram para curar a loucura do filósofo e que ele saiu convencido de estar diante do homem mais são da cidade. As cartas são falsificações de séculos depois.
A data da morte também se perdeu. Diógenes Laércio registra que ele viveu 109 anos, e os historiadores de hoje tratam o número como lenda de longevidade, comum nas biografias de sábios antigos. Sabe-se apenas que viveu muito e que morreu em Abdera ou perto dela.
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