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Demócrito e o doce que não está no mel

No fragmento 9, Demócrito de Abdera afirmou que doce, amargo e cor existem por convenção, e que na realidade só há átomos e vazio.

Favo de mel escorrendo ao lado de meio limão sobre uma mesa de pedra.

O mel, o limão e a língua que prova

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Doce: “que tem o sabor do açúcar ou do mel” (Dicionário Houaiss). A definição põe a doçura dentro do pote, como uma propriedade do mel. No século V a.C., Demócrito de Abdera escreveu que o mel não guarda doçura nenhuma por dentro.

Em 1968, os pesquisadores Kenzo Kurihara e Lloyd Beidler publicaram na revista Science a análise de uma frutinha vermelha da África Ocidental, a Synsepalum dulcificum (a fruta-milagrosa). Ela carrega uma proteína, que eles batizaram de miraculina, capaz de se prender aos receptores de sabor da língua.

Quem mastiga a fruta e morde um limão em seguida sente o limão doce. O ácido cítrico continua no limão, na quantidade de sempre, com a acidez que ataca o esmalte do dente. Nada mudou na fruta amarela. Mudou a língua que a prova.

A Antiguidade conhecia uma versão mais caseira do caso. Os céticos gregos repetiam que o mel parece doce a quem tem saúde e amargo a quem sofre de icterícia (a doença do fígado que deixa a pele amarela). Um único pote de mel serve dois sabores opostos na mesma mesa.

A pergunta que sai das duas cenas parece de cozinha. Quando a língua diz doce, ela informa sobre o mel ou sobre si própria? Se o sabor muda com a saúde do provador, com a fruta mastigada antes e com a idade, onde fica a doçura verdadeira?

A resposta de Abdera era radical. A doçura não fica em parte alguma do mel. Ela nasce no encontro entre o mel e quem o prova, e o nome que damos a cada sensação foi combinado entre as pessoas, como se combina uma regra de jogo.

Por baixo do sabor, da cor e da temperatura, Demócrito via só duas espécies de realidade: grãos pequenos demais para qualquer olho e o espaço vazio por onde eles correm. A tese inteira cabe em 16 palavras gregas, e quem as salvou foi um médico que discordava do autor.

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I  A ideia do dia

Convenção na língua, átomo no mel

Demócrito escreveu a frase num livro que se perdeu. O médico cético Sexto Empírico a copiou por volta de 200 d.C., no tratado Contra os matemáticos, e por essa cópia ela chegou até hoje com o número 9 na coleção dos fragmentos.

“Por convenção o doce, por convenção o amargo, por convenção o quente, por convenção o frio, por convenção a cor; na realidade, átomos e vazio.”

Demócrito, fragmento 9, em Sexto Empírico, Contra os matemáticos VII, 135, c. 200 d.C.

A palavra que se repete cinco vezes é nómos (convenção, a regra que as pessoas combinam). Os gregos a opunham a phýsis (natureza, aquilo que é assim por si). A mão de direção no trânsito é nómos; a pedra que cai é phýsis. Demócrito pôs o sabor, o calor e a cor na primeira coluna.

A última palavra forte da frase, eteêi (na realidade, de fato), aponta para a camada de baixo. Ali estão os átomos (do grego átomos, o que não se corta): corpos sólidos, cheios, eternos, pequenos demais para a vista, sem cor, sem cheiro e sem sabor.

Os átomos diferem entre si em apenas três aspectos. Aristóteles, no livro I da Metafísica, guardou o exemplo dos atomistas com letras: A difere de N pela forma, AN difere de NA pela ordem, e Z difere de N pela posição, porque o Z é um N deitado.

O mel, nessa descrição, é um arranjo de átomos. Teofrasto, aluno de Aristóteles, resumiu no tratado Sobre as sensações, por volta de 300 a.C., como Demócrito explicava cada gosto: o doce vem de átomos redondos e de tamanho médio; o azedo e o amargo vêm de átomos pequenos, angulosos e ásperos.

O mel não tem doçura. Tem átomos redondos.

Como o doce nasce, em 3 passos

1. Os átomos redondos do mel entram na boca e encostam na língua.

2. A língua também é um arranjo de átomos, e o encontro das formas mexe com ela de um modo próprio.

3. A sensação que resulta recebe um nome que as pessoas combinaram: doce.

O passo três explica a palavra convenção. Se a doçura morasse no mel, todo provador a encontraria igual. Teofrasto registra que Demócrito apontava a variação de sabor conforme a condição do corpo como sinal de que a qualidade depende de quem prova. O pote do doente com icterícia e o pote do vizinho saudável contêm os mesmos átomos.

A tese não chama a língua de mentirosa. A língua relata a forma dos átomos na língua dela, e o relato serve para viver: o amargo avisa de muito veneno, o doce aponta fruta madura. O erro começa quando alguém toma o relato pelo objeto.

Duas pessoas discutem se a sala está fria. Uma veio da rua no sol, a outra passou a tarde sentada. Cada uma descreve o próprio corpo com exatidão, e nenhuma das duas descreve a sala.

 
 

II  Quem pensou

O estrangeiro que Atenas não viu

Demócrito nasceu em Abdera, colônia grega na costa da Trácia, no atual nordeste da Grécia. Apolodoro de Atenas, cronista do século II a.C., situou o nascimento por volta de 460 a.C., e a data é a aceita até hoje. A cidade tinha fama de terra de gente lenta, e deu ao mundo dois filósofos famosos.

O mestre foi Leucipo, que já falava em átomos e vazio antes dele. Os dois escritos se misturaram tanto na Antiguidade que ninguém consegue separar com certeza o que é de cada um. Aristóteles cita os dois juntos, e o próprio Leucipo quase não deixou frase atribuída só a ele.

Segundo Diógenes Laércio, biógrafo do século III d.C., Demócrito gastou em viagens a parte que lhe coube da herança do pai, mais de 100 talentos, passando pelo Egito e pela Pérsia. A soma correspondia a uma fortuna, e os conterrâneos o acusaram de desperdiçar os bens da família.

“Fui a Atenas e ninguém me conheceu.”

Demócrito, fragmento 116, em Diógenes Laércio, Vidas dos filósofos IX, 36, séc. III d.C.

Atenas era a capital intelectual da Grécia, e Sócrates andava pelas mesmas praças. Demócrito passou sem ser notado, e o silêncio continuou depois. Platão escreveu sobre quase todos os pensadores anteriores e nunca o cita pelo nome.

Diógenes Laércio conta ainda, a partir do músico Aristóxeno, que Platão quis queimar todos os livros de Demócrito que conseguisse reunir. Dois pitagóricos o dissuadiram: os livros já circulavam por toda parte, e a fogueira não adiantaria. Não há como confirmar o episódio, que pode ter nascido da rivalidade entre escolas.

Platão discutiu quase todos os filósofos anteriores e calou sobre Demócrito.

A obra era enorme. O catálogo de Trasilo, astrólogo do imperador Tibério, lista cerca de 70 títulos sobre física, ética, matemática, música, medicina e agricultura. Nenhum sobreviveu inteiro. Sobram frases citadas por outros autores, reunidas pelo alemão Hermann Diels em 1903 na coleção Os fragmentos dos pré-socráticos.

Boa parte do que sobrou trata de ética. Demócrito chamava o objetivo da vida de euthymía (bom ânimo, a alma tranquila), uma calma que viria da moderação nos prazeres e não da riqueza. A física explicava o mundo; a ética ensinava a viver nele sem perturbação.

A tradição romana o pintou rindo. Sêneca, no tratado Sobre a ira, contrapõe o Demócrito que ria das tolices humanas ao Heráclito que chorava por elas. Cartas atribuídas ao médico Hipócrates contam que os abderitas o chamaram para curar a loucura do filósofo e que ele saiu convencido de estar diante do homem mais são da cidade. As cartas são falsificações de séculos depois.

A data da morte também se perdeu. Diógenes Laércio registra que ele viveu 109 anos, e os historiadores de hoje tratam o número como lenda de longevidade, comum nas biografias de sábios antigos. Sabe-se apenas que viveu muito e que morreu em Abdera ou perto dela.

 

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III  Contra o quê

O vazio que Parmênides proibiu

O primeiro adversário era Parmênides de Eleia, que escreveu por volta de 475 a.C. Parmênides argumentou que o não ser não pode existir. Sem não ser, não há vazio; sem vazio, nada tem para onde se mover. Movimento, nascimento e mudança, concluiu ele, são ilusões dos sentidos.

Demócrito aceitou metade do argumento. Cada átomo é como o ser de Parmênides em miniatura: cheio, imutável, sem partes. A outra metade ele recusou. O vazio existe, disse, mesmo sendo um nada, e os átomos se movem nele.

“O algo não existe mais que o nada.”

Demócrito, fragmento 156, em Plutarco, Contra Colotes 1109a, séc. II d.C.

Com uma frase, o mundo voltou a se mexer. Os átomos se chocam, se engancham e se separam no vazio, e o que chamamos de nascer e de acabar é só arranjo e desarranjo. Nada se cria do nada, e nada some no nada.

O segundo adversário morava na mesma cidade. Protágoras de Abdera ensinava que o homem é a medida de tudo. Para ele, o mel doce do saudável e o mel amargo do doente eram verdadeiros os dois, cada um para quem o provava.

Demócrito partia da mesma observação e chegava à conclusão contrária. Se o mel aparece doce a um e amargo a outro, nenhuma das aparências acerta sobre o mel. Plutarco e Sexto Empírico registram que ele escreveu contra Protágoras e apontou que a tese do vizinho se desmente: se tudo o que parece é correto, também é correta a opinião de que ela é falsa.

Os átomos só se conhecem pela língua que eles desmentem.

O problema mais duro, o próprio Demócrito o escreveu. Ninguém nunca viu um átomo; tudo o que ele sabia do mundo vinha dos olhos e da língua que ele acabava de rebaixar. No fragmento 125, preservado pelo médico Galeno, os sentidos respondem à razão.

“Mente miserável, de nós tiras as provas e queres nos derrubar? A nossa queda é a tua ruína.”

Demócrito, fragmento 125, em Galeno, Sobre a medicina empírica, séc. II d.C.

Demócrito não resolveu o impasse, e não fingiu ter resolvido. Em outro fragmento, o 117, escreveu que, na realidade, nada sabemos, porque o real está no fundo de um abismo. A física que ele propôs ficou como hipótese que nenhum instrumento da época podia testar.

A distinção atravessou dois milênios. Galileu Galilei escreveu em O ensaiador, de 1623, que sabores, odores e cores são apenas nomes e residem na consciência. John Locke chamou essas qualidades de secundárias (as que dependem de quem percebe) no Ensaio sobre o entendimento humano, de 1690.

Uma avó corta o açúcar do bolo porque o neto acha tudo doce demais. A receita dela marca 200 gramas, nunca doçura. O neto come uma fatia e diz que ficou no ponto; a filha prova a mesma fatia e acha sem graça.

“Onde fica o doce do café que você tomou hoje?”

O limão continuou ácido.

 
 
Quiz da edição

Em 1968, a dupla Kurihara e Beidler publicou na revista Science a análise de uma fruta vermelha da África Ocidental. Que nome deram à proteína dela?

ADulcina
BMiraculina
CFrutina
DSinsepalina

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