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Christine de Pizan leu Mateolus e duvidou do autor

Em 1405, A Cidade das Damas tratou o livro contra as mulheres como depoimento de parte interessada.

Uma mulher lê num estúdio medieval cercada de livros.

Christine de Pizan no estúdio

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Autoridade: “indivíduo cuja opinião é aceita por seu saber ou competência” (Dicionário Houaiss). A definição pesa o saber de quem escreve. Não pergunta o que essa pessoa ganhava ao escrever.

Numa manhã de 1404, em Paris, Christine de Pizan, viúva de quarenta anos, sentou no seu estúdio cercada de livros. Tinha passado dias em leituras pesadas e quis algo leve, um texto curto para descansar a cabeça.

Um volume estranho caiu nas mãos dela. Não era seu; alguém o tinha emprestado. O título dizia As Lamentações de Mateolus. Ela já tinha ouvido falar da obra, sempre como livro divertido e cheio de verdades sobre o casamento.

Mal abriu as páginas, a mãe a chamou para a ceia. Ela largou o volume e prometeu voltar a ele na manhã seguinte. Voltou.

O livro era a queixa longa de um clérigo contra a esposa, estendida a todas as mulheres do mundo. Chamava-as de tagarelas, gastadoras, infiéis e ruins por natureza. O tom era de piada, e a piada servia de argumento.

A leitora não achou graça. Achou o texto desonesto e o fechou logo. O incômodo, porém, ficou. Ela passou a lembrar de quantos homens sábios tinham escrito o mesmo: filósofos, poetas, pregadores, gente de nome e de biblioteca.

Se tantos escritores concordavam, pensou, talvez estivessem certos. Talvez ela, e todas as mulheres conhecidas, fossem o retrato dos livros. A tristeza veio pesada, e ela chegou a lamentar ter nascido mulher.

Então olhou para a própria vida. Conhecia de perto princesas, burguesas e criadas. Nenhuma se parecia com o retrato do livro. O desacordo entre a página e a experiência ficou parado diante dela, sem solução.

Foi nessa hora, conta ela, que um raio de luz entrou no estúdio e três damas coroadas apareceram à sua frente. A primeira segurava um espelho na mão direita e começou a falar sobre quem escreve livros.

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I  A ideia do dia

O entulho dos livros

A resposta de ontem

Quem entregou Giordano Bruno à Inquisição em Veneza?

Giovanni Mocenigo, patrício de Veneza que tinha pagado para aprender com Bruno a arte da memória. Insatisfeito com as lições e sabendo da partida para Frankfurt, mandou os criados trancá-lo num sótão em 23 de maio de 1592 e entregou a denúncia ao inquisidor da cidade. As cartas dele abrem os autos do processo.

Christine de Pizan abre A Cidade das Damas, terminada em 1405, com essa cena. As três damas se apresentam como Razão, Retidão e Justiça, e a Razão explica a visita: elas vieram ajudar a autora a erguer uma cidade murada onde as mulheres de valor fiquem protegidas da calúnia.

Antes do primeiro tijolo, a Razão manda limpar o terreno. O entulho são as opiniões dos livros. Christine recebe a ordem de cavar com a picareta do entendimento e jogar fora as pedras sujas, imagem do próprio texto.

O primeiro golpe acerta a auctoritas (em latim, o texto de um autor antigo citado como prova). Nas escolas da época, citar um nome consagrado bastava para encerrar a discussão. A Razão recusa o atalho.

“As opiniões dos filósofos não são artigos de fé.”

Christine de Pizan, A Cidade das Damas, 1405

Os filósofos, lembra ela, se corrigem o tempo todo. Aristóteles refutou Platão, e os doutores da Igreja discordam entre si. Se a palavra de um autor provasse algo sozinha, os livros não brigariam uns com os outros.

A Razão então separa os homens que escreveram contra as mulheres pelo motivo de cada grupo.

1. Alguns escreveram com boa intenção, para afastar rapazes de mulheres viciosas, e generalizaram o aviso.

2. Outros escreveram por vício próprio: culparam a mulher pelo desejo que eles mesmos sentiam.

3. Outros escreveram por inveja de mulheres mais sábias ou mais nobres do que eles.

4. Outros só imitaram autores antigos para parecer eruditos.

Mateolus cai na segunda família. A Razão o descreve como homem velho e impotente, amargo com o próprio casamento, que despejou sobre todas as mulheres o rancor da sua casa.

Quem escreveu a injúria tinha interesse na causa.

A virada é de método. Christine não troca um livro ruim por um livro bom. Pede de cada texto o nome, a vida e o motivo de quem o escreveu, e só depois pesa a frase.

O teste corta para os dois lados. Na mesma obra, a Razão admite que o homem apaixonado exagera as virtudes da amada. O elogio e a injúria saem da mesma oficina, e a oficina se chama interesse.

O livro não manda desprezar os antigos. A Razão cita Aristóteles quando ele acerta e o deixa de lado quando ele fala das mulheres. A autoridade passa a ser medida frase por frase, nunca herdada pelo nome.

Um vendedor de carro usado jura que o motor nunca deu problema. O comprador ouve com educação e leva o carro ao mecânico. A palavra do dono vale, mas vale como palavra de quem quer vender.

 
 

II  Quem pensou

A viúva de Veneza na corte de Paris

Christine de Pizan nasceu em Veneza em 1364. O pai, Tommaso da Pizzano, médico e astrólogo formado em Bolonha, foi chamado a Paris pelo rei Carlos V em 1368, e a família seguiu atrás dele.

A menina cresceu perto da corte. O pai deixou a filha estudar latim e ler na biblioteca do rei, contra a vontade da mãe, que preferia vê-la fiando.

Em 1379, aos quinze anos, Christine casou com Étienne du Castel, notário e secretário real. O casamento foi feliz e deu três filhos.

A sorte virou em sequência. Carlos V faleceu em 1380, e o pai perdeu o prestígio e o salário. Em 1390, Étienne pegou uma epidemia em Beauvais, durante uma viagem com o rei, e não voltou.

Aos 25 anos, Christine ficou com três filhos, a mãe e uma sobrinha para sustentar. Credores apareceram com dívidas antigas do marido, e ela passou anos em processos nos tribunais de Paris.

Na metade da década de 1390, começou a escrever baladas de luto e de amor. Os poemas circularam entre nobres, e as encomendas vieram: em 1404, o duque Filipe da Borgonha pediu a ela a biografia de Carlos V.

A pena sustentava a casa inteira.

Ela vendia livros prontos. Escolhia copistas, contratava pintores e montava os volumes para cada cliente. Na Cidade das Damas, elogia uma iluminadora de Paris chamada Anastaise, a melhor da cidade em margens e fundos de miniatura.

Em 1403, num poema longo sobre a própria vida, explicou a viuvez com uma imagem de metamorfose. A Fortuna, conta ela, a transformou para que pudesse conduzir o barco da família sozinha.

“De mulher, tornei-me homem.”

Christine de Pizan, O Livro da Mutação de Fortuna, 1403

A Cidade das Damas saiu em 1405, e no mesmo ano veio a continuação, O Livro das Três Virtudes, um manual para mulheres de todas as condições. Perto de 1414, ela reuniu suas obras num manuscrito para a rainha Isabel da Baviera, hoje guardado na British Library, em Londres.

Em 1418, as tropas da Borgonha tomaram Paris. Christine saiu da cidade e se recolheu na abadia de Poissy, onde a filha era freira dominicana. Passou onze anos sem publicar.

O último texto dela é de 31 de julho de 1429, um poema em louvor de Joana d'Arc. Depois dele, o rastro some. Nenhum documento registra a data nem o lugar da morte, e nenhum túmulo com o nome dela foi encontrado.

 

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III  Contra o quê

A Rosa e os clérigos de Paris

O alvo maior de Christine tinha nome e fama: o Romance da Rosa. Guillaume de Lorris começou o poema na década de 1230, e Jean de Meun o continuou na década de 1270, com mais de 17 mil versos.

Na parte de Jean de Meun, personagens como o Ciumento e a Velha descrevem as mulheres como falsas e interesseiras. O livro era o mais copiado da França, lido em escolas e citado em sermões.

Em 1401, o secretário real Jean de Montreuil escreveu um tratado em louvor do poema. Christine respondeu por carta, e a resposta abriu a Querela da Rosa (a troca pública de cartas sobre o livro), que durou até 1402.

Do lado de Jean de Meun ficaram os irmãos Gontier e Pierre Col, secretários do rei. Do lado de Christine ficou Jean Gerson, chanceler da universidade parisiense, o teólogo mais influente da cidade.

Pierre Col usou o argumento clássico da defesa. As injúrias saem da boca de personagens, escreveu ele, e o autor só as registra. Christine respondeu que o autor escolhe o que o personagem diz, e responde pela escolha.

O autor escolhe a fala do personagem.

No começo de 1402, ela reuniu as cartas num dossiê e o enviou à rainha Isabel da Baviera. Uma discussão de clérigos virou caso da corte, assinado por uma mulher.

A ideia já aparecia num poema dela de 1399, escrito como carta do deus do amor contra os maus escritores.

“Se as mulheres tivessem escrito os livros, sei bem que de outro modo seria.”

Christine de Pizan, Epístola ao Deus do Amor, 1399

O segundo adversário era o próprio Mateolus. O original latino, o Livro das Lamentações de Mateolus, saiu perto de 1295, escrito por um clérigo de Boulogne. Jean Le Fèvre o traduziu para o francês na década de 1370, e foi essa tradução a chegar ao estúdio de Christine.

O tradutor arrependeu-se em parte. Pouco depois, Jean Le Fèvre escreveu o Livro de Leesce (alegria, em francês antigo), uma defesa das mulheres contra o texto de Mateolus.

Christine também brigou com quem elogiava. Boccaccio tinha escrito Sobre as Mulheres Famosas, em latim, na década de 1360. Ela tomou muitas das histórias e reescreveu os comentários, porque ele louvava as heroínas como exceções à fraqueza do sexo.

Uma resenha de hotel elogia o café da manhã e a vista do quarto. No perfil de quem escreveu, há uma avaliação só, aquela. O hóspede seguinte fecha a página e procura outra opinião.

Mateolus escreveu as Lamentações depois de casar com uma mulher chamada Perrette.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que a Igreja tratou Mateolus como bígamo, se ele se casou uma vez só?

★ RARO

🔒

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