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Bárbaro é o nome do costume alheio
No ensaio Dos Canibais, de 1580, Montaigne sustenta que cada povo chama de barbárie aquilo que não é costume da própria terra.
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Uma rede trançada numa sala vazia
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"O Houaiss registra bárbaro em duas acepções: estrangeiro, para gregos e romanos; selvagem, cruel. Dos Canibais, capítulo trinta e um do primeiro livro dos Essais (Ensaios), que Michel de Montaigne publicou em Bordeaux em 1580, aponta o defeito embutido nessa entrada: as duas acepções vieram coladas porque quem escreveu a primeira já estava convencido da segunda, e a palavra acabou guardando a posição de quem fala, jamais a natureza de quem é descrito.
A ideia do dia é que barbárie não nomeia um grau de crueldade medido por alguém de fora. Ela nomeia a distância entre o costume que se tem e o costume que se vê, e quem mede está sempre parado dentro do próprio.
O ensaio trabalha com um material que chegara havia pouco à França. Entre 1555 e 1560, a expedição de Nicolas Durand de Villegagnon ocupou uma ilha na baía do Rio de Janeiro e chamou o território de França Antártica. Voltaram de lá marinheiros, intérpretes e o sapateiro Jean de Léry, que publicou em 1578 a Histoire d'un voyage fait en la terre du Brésil (História de uma viagem feita à terra do Brasil), com páginas sobre os tupinambás que Montaigne leu e usou.
O que ele faz com o material contraria o uso corrente. A Europa lia o relato do canibalismo ritual como prova de que o povo descrito estava fora da humanidade. Montaigne põe a cena ao lado de outra cena, praticada na França enquanto ele escrevia, durante as guerras de religião: o suplício aplicado a um homem vivo, na presença de vizinhos e parentes, sob autoridade de lei e de igreja.
A comparação não tem função de deboche. Ela testa a palavra bárbaro contra os dois casos e observa qual dos dois a palavra descreve melhor, usando o critério que o próprio acusador diz adotar, o sofrimento infligido a outro.
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I A ideia do dia
O julgamento que o viajante leva na bagagem
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Montaigne abre o capítulo com um episódio militar da Antiguidade. Pirro, rei do Épiro, ao avistar de longe a formação do exército romano que viera enfrentá-lo, comentou que nada via de bárbaro naquela ordem de batalha. Os gregos chamavam de bárbaro todo povo que não falasse grego, e a palavra nasceu de uma onomatopeia, o barbar que soava aos ouvidos deles como fala sem conteúdo.
O argumento do ensaio parte daí e se generaliza. Cada povo aplica o termo ao costume que não reconhece, e reconhece bem apenas o próprio. O critério parece moral e funciona como geografia.
O que se julga e de onde se julga
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A cena observada: o costume do outro, visto por fora e sem contexto
O padrão aplicado: o costume de casa, tomado como natureza humana
O resultado: a distância entre os dois recebe o nome de barbárie
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**Quem acusa não compara dois costumes: compara o costume alheio com a própria terra, que ele nunca precisou explicar a ninguém.**
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"Cada um chama de barbárie aquilo que não é de seu costume. Parece mesmo que não temos outra medida da verdade e da razão além do exemplo e da ideia das opiniões e dos usos do país em que estamos."
Michel de Montaigne, Dos Canibais, Ensaios, livro I, capítulo 31, 1580
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Da acusação de barbárie Montaigne passa à de selvageria, e faz com a segunda palavra o mesmo exame. Chamamos de selvagens os frutos que a natureza produziu sozinha, e de domesticados os que alteramos com enxerto e poda. A inversão proposta no ensaio é chamar de selvagem o fruto alterado, porque saiu do estado em que nasceu, e reservar o outro nome para o que se manteve inteiro.
O capítulo aplica a inversão à sociedade descrita nos relatos. Montaigne enumera o que aquela gente não tinha: comércio, escrita, números, magistrado, hierarquia política, servidão, riqueza, pobreza, herança, partilha e contrato. A lista funciona como espelho, porque cada ausência nomeia uma instituição francesa que o leitor de 1580 considerava natural.
O tratamento dado ao prisioneiro de guerra recebe a mesma leitura. Nos relatos, o cativo passa meses bem alimentado, conhece a data do próprio suplício, e canta diante dos captores versos em que avisa que os parentes deles já foram comidos pelos parentes dele, de modo que quem come a carne come a carne dos próprios avós. Montaigne insiste num ponto: o rito acontece depois da morte, e o proveito buscado é a vingança declarada, não o alimento.
Sobre o canibalismo ele não pede absolvição. Escreve que o costume encerra barbárie horrível, e emenda que julgar os defeitos daquela gente com tanta clareza e permanecer cego para os de casa é o que torna o julgamento suspeito.
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II Quem pensou
O magistrado de Bordeaux que se trancou na torre aos 38
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Michel Eyquem de Montaigne nasceu em 1533 no castelo da família, em Saint-Michel-de-Montaigne, na região de Bordeaux, filho de um comerciante de peixe salgado e pastel enriquecido que comprou terra e título. O pai criou um método de educação para o menino: entregou-o a um preceptor alemão que não falava francês, proibiu a criadagem de se dirigir a ele em outra língua, e o latim virou a primeira língua da casa.
A carreira pública veio pelo caminho previsto. Foi conselheiro no tribunal de Périgueux e depois no Parlamento de Bordeaux, uma corte de justiça, onde trabalhou treze anos e conheceu Étienne de La Boétie, autor do Discurso da Servidão Voluntária. A amizade durou seis anos e terminou com a morte de La Boétie em 1563, aos 32 anos, de peste ou disenteria, com Montaigne ao lado da cama.
Em 1571, aos 38 anos, ele vendeu o cargo, recolheu-se à torre redonda do castelo, onde ficavam a biblioteca de mil volumes e a cama, e mandou pintar nas vigas de madeira cinquenta e sete sentenças gregas e latinas, escolhidas entre céticos e estoicos, para lê-las ao levantar os olhos do livro.
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**Ele inventou a palavra que hoje nomeia o gênero: essai, em francês do século XVI, quer dizer tentativa, prova, ensaio de algo antes de decidir.**
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O plano declarado era escrever sobre si. O resultado foram cento e sete capítulos que tratam de cavalos, polegares, canibais, rins doentes, educação de crianças, coches e da própria morte, sempre em primeira pessoa e sempre revisados: Montaigne publicou em 1580, ampliou em 1588 e continuou anotando nas margens do exemplar pessoal até 1592.
O testemunho que sustenta Dos Canibais não veio só de livro. Montaigne conta que manteve em casa por muito tempo um homem que vivera dez ou doze anos na França Antártica, criatura simples e sem ambição de teorizar, exatamente o tipo de testemunha em que ele confiava, e que interrogou também marinheiros e mercadores da mesma expedição.
E conta um encontro direto. Em Rouen, em 1562, durante a visita da corte à cidade recém retomada, ele esteve com três tupinambás trazidos ao rei Carlos IX, então com doze anos, e conversou com eles por meio de um truchement, o intérprete francês que vivia entre indígenas e fazia a ponte nas negociações de pau-brasil.
Perguntado sobre o que achara mais espantoso na França, um deles apontou duas estranhezas. Estranhou que homens adultos e armados obedecessem a um menino, em lugar de escolher entre si um chefe. E estranhou que houvesse na cidade gente farta e gente esfomeada mendigando à porta da primeira, sem que a segunda pegasse a primeira pelo pescoço ou ateasse fogo à casa.
Montaigne registra a resposta sem comentário de aprovação e fecha o capítulo com uma linha seca sobre as roupas curtas que aqueles homens usavam, o que soou a muitos leitores posteriores como sarcasmo contra si mesmo e contra o próprio livro.
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