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Bakhtin tirou o sentido da cabeça do falante

Em 1929, no livro sobre Dostoiévski, Mikhail Bakhtin pôs o sentido da palavra na fronteira entre duas consciências.

Duas cartas manuscritas cruzadas sobre uma mesa de madeira.

Duas cartas, uma conversa

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Diálogo: “fala em que há a interação entre dois ou mais indivíduos; colóquio, conversa” (Dicionário Houaiss). A definição conta as pessoas na sala e para aí. Não diz que a fala de cada uma já chega moldada pela outra, antes mesmo de alguém abrir a boca.

Em 1846, um escritor de 24 anos estreou com um romance feito só de cartas. Pobre Gente, de Fiódor Dostoiévski, troca mensagens entre Makar Diévuchkin, um copista pobre de São Petersburgo, e Várvara Dobrossiólova, uma moça órfã que mora do outro lado do pátio.

Makar escreve como quem se defende de um tribunal invisível. Conta que aluga um canto na cozinha de uma pensão e logo garante que mudou por gosto, não por falta de dinheiro. Jura que o chá não lhe faz falta. Diz que não liga para o que os outros falam dele.

Cada frase traz uma sombra. Ele responde a um desprezo que Várvara nunca escreveu, e a um vizinho que nunca entrou na carta. A voz do copista se dobra o tempo todo sobre uma palavra alheia, e se encolhe diante dela.

O leitor percebe a dobra sem precisar de teoria. Makar fala de si, mas cada linha está virada para fora, à espera de um olhar que ainda não veio.

Várvara responde com carinho e com pena. Makar lê a pena antes do carinho, e a carta seguinte sai ainda mais defensiva, cheia de explicações sobre botões que caem e sapatos furados.

Oitenta e três anos depois, um professor russo sem cátedra leu essas cartas devagar. Mediu nelas a dobra frase por frase e concluiu que o sentido de uma palavra não mora dentro de quem a diz.

Ele publicou a conclusão num livro curto, em Leningrado, enquanto a polícia política soviética preparava a sentença contra ele.

O livro falava de romances. A tese ia muito além deles, e alcançava qualquer frase dita por qualquer pessoa.

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I  A ideia do dia

A palavra virada para fora

Mikhail Mikhailovich Bakhtin publicou Problemas da Obra de Dostoiévski em 1929, pela editora Priboi, de Leningrado. O livro defendia uma tese literária: nos romances de Dostoiévski, os heróis não obedecem à voz do autor.

Bakhtin chamou o fenômeno de polifonia (várias vozes, termo emprestado da música). Raskólnikov, Ivan Karamázov e o homem do subsolo discutem com o narrador de igual para igual, e nenhum deles recebe a última palavra.

Para sustentar a tese, ele precisou olhar a frase de perto. A unidade de análise virou o slovo (em russo, palavra e discurso ao mesmo tempo), a fala concreta dirigida a alguém, num lugar e numa hora.

Bakhtin separou as palavras de um romance em três famílias.

1. A natureza sozinha não individua: se bastasse, só existiria um homem.

1. A palavra direta: o autor fala do mundo e mira só o objeto.

2. A palavra objetificada: a fala do personagem, descrita como traço dele.

3. A palavra bivocal: carrega duas intenções, a de quem fala e a de outro.

A terceira família interessava mais. Nela cabem a paródia, a estilização (imitar um estilo alheio a sério) e a polêmica velada, a fala que discute com alguém sem nomear o adversário.

Makar Diévuchkin é o exemplo do próprio livro. Bakhtin nota que o copista fala de si com um olho no possível desprezo de Várvara, e corrige a frase antes que a objeção chegue.

“A palavra do herói sobre si mesmo se constrói sob a influência contínua da palavra alheia sobre ele.”

Mikhail Bakhtin, Problemas da Obra de Dostoiévski, 1929

Dialógica, no vocabulário dele, é a palavra que já responde a outra e já espera resposta. Ela nasce no limite entre duas consciências e não pertence inteira a nenhuma das duas.

Bakhtin tirou daí a consequência maior. Ninguém fala a primeira palavra sobre um tema. Quando alguém diz “liberdade” ou “casa”, a palavra já passou por milhares de bocas e chega carregada de tons alheios.

O sentido mora na fronteira entre duas consciências.

Na segunda edição, de 1963, ele levou a ideia ao limite. Escreveu que a vida inteira de uma pessoa é diálogo, e que o eu só se reconhece na resposta do outro.

“Duas vozes são o mínimo de vida, o mínimo de existência.”

Mikhail Bakhtin, Problemas da Poética de Dostoiévski, 1963

Uma mãe manda ao filho adulto a mensagem “Não precisa vir no domingo, viu?”. O filho lê a frase três vezes. Ninguém escreveu a cobrança, e ele a ouve inteira.

 
 

II  Quem pensou

O professor sem cátedra de Oriol

Mikhail Mikhailovich Bakhtin nasceu em 16 de novembro de 1895, em Oriol, cidade ao sul de Moscou, filho de um gerente de banco. Estudou letras clássicas e passou a juventude entre Petrogrado, Nevel e Vitebsk.

Nas duas cidades pequenas do oeste russo, entre 1918 e 1924, formou um grupo de leitura com o linguista Valentin Volóchinov, o crítico Pável Medviédev e o filósofo Matvei Kagan. Os estudiosos chamam a turma de Círculo de Bakhtin.

Em dezembro de 1928, a polícia política o prendeu. Bakhtin frequentava um grupo de intelectuais cristãos chamado Voskressênie (Ressurreição), e a acusação foi de atividade religiosa contra o regime.

O livro sobre Dostoiévski saiu meses depois, com o autor ainda sob processo. A sentença previa cinco anos no campo das Ilhas Solovki, no mar Branco.

Dois fatos mudaram o destino. Bakhtin sofria de osteomielite (inflamação crônica do osso) numa perna. E Anatóli Lunatchárski, comissário da educação até aquele ano, publicou em 1929 uma resenha elogiosa do livro na revista Novi Mir.

A pena virou exílio em Kustanai, no Cazaquistão, de 1930 a 1936. Ali Bakhtin trabalhou como contador numa cooperativa e dava aulas de contabilidade aos funcionários.

Bakhtin passou décadas sem leitores e não parou de escrever.

Em 1938 a perna doente foi amputada. No pós-guerra ele ensinou no instituto pedagógico de Saransk, na Mordóvia, longe das grandes universidades.

Em 1946 defendeu no Instituto Górki, em Moscou, uma tese sobre Rabelais e a cultura popular do riso. A banca discutiu se dava o doutorado. O ministério concedeu só o título menor, de candidato, em 1951.

Em 1960, três estudantes do mesmo Instituto Górki, Vadim Kójinov, Serguei Botcharov e Gueórgui Gatchev, descobriram que o autor do livro de 1929 continuava vivo. Escreveram a ele em Saransk.

A insistência dos três trouxe a segunda edição, de 1963, revista e ampliada, agora com o título Problemas da Poética de Dostoiévski. O livro sobre Rabelais saiu em 1965.

Uma dúvida segue aberta até hoje. Alguns livros publicados com o nome de Volóchinov e de Medviédev, como Marxismo e Filosofia da Linguagem, de 1929, foram atribuídos depois ao próprio Bakhtin. Ele nunca confirmou nem negou por escrito, e os documentos da época não resolvem a autoria.

Bakhtin morreu em Moscou em 7 de março de 1975, aos 79 anos. A fama mundial veio depois. Em 1967, a pesquisadora búlgara Julia Kristeva o apresentou a Paris e cunhou, a partir dele, a palavra intertextualidade (o diálogo de um texto com outros textos).

 

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III  Contra o quê

A voz única de Tolstói e Hegel

O adversário de Bakhtin tinha nome técnico: monologismo (o mundo visto de uma consciência só). No monologismo, o autor sabe tudo, julga tudo, e os personagens são objetos da voz dele.

Na edição de 1963, o exemplo escolhido foi Liev Tolstói. Bakhtin examinou o conto Três Mortes, de 1859, onde uma senhora rica, um cocheiro e uma árvore chegam ao fim da vida.

As três histórias se tocam no enredo, mas os três personagens nunca discutem entre si. Só o narrador vê o sentido do conjunto, e o leitor recebe a lição pronta. Para Bakhtin, Tolstói fala sobre os heróis, nunca com eles.

O segundo alvo vinha da linguística. Em 1916 saiu, publicado pelos alunos, o Curso de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure, que estudava a langue (a língua como sistema de regras) e deixava a fala concreta de lado.

Marxismo e Filosofia da Linguagem respondeu em 1929. O livro chamou a escola de Saussure de objetivismo abstrato e afirmou que ninguém aprende a língua num dicionário, só nas falas dos outros.

“A palavra é uma ponte lançada entre mim e os outros.”

Valentin Volóchinov, Marxismo e Filosofia da Linguagem, 1929

O terceiro alvo era a filosofia alemã. A dialética de Georg Hegel resolve as contradições numa síntese final, e a síntese cala as vozes. Bakhtin anotou a objeção nos cadernos de 1970 e 1971.

“Tome um diálogo, remova as vozes, remova as entonações, encaixe tudo numa única consciência abstrata, e assim se obtém a dialética.”

Mikhail Bakhtin, notas de 1970 e 1971

Num diálogo vivo, ninguém fica com a última palavra.

Bakhtin recusava também a ideia romântica de expressão, a do sentido pronto dentro do peito que sai pela boca. Para ele, a palavra chega emprestada, e cada falante a aluga por um momento.

Os críticos devolveram as perguntas. Alguns acharam a polifonia exagerada, porque o próprio Dostoiévski pregava a fé ortodoxa nos diários. Bakhtin respondeu, em 1963, que a fé do homem não governava a forma do romance.

Numa reunião de condomínio, o síndico lê a ata em voz alta. Um morador repete uma das frases dele no mesmo tom, palavra por palavra. A sala inteira ri, e a frase deixa de ser do síndico.

“Quando você escolhe uma palavra, de quem é a voz que ainda fala dentro dela?”

Dostoiévski não deu a última palavra a ninguém.

★ RARO

🔒

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AFraude contábil na cooperativa de Kustanai
BEspionagem a favor de potência estrangeira
CAtividade religiosa contra o regime, por frequentar o grupo cristão Voskressênie
DPlágio do livro de Volóchinov

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